Adriano Couto
Para se compreender as relações entre a Igreja e o Estado após a concessão de liberdade de religião por Constantino, é necessário prestar atenção aos problemas políticos enfrentados pelo imperador nessa época. A anarquia do século da revolução romana entre 133 e 31 a.C. , terminou mediante o poderoso principado criado por Augusto após destruir o exército de Antônio.
Este se mostrou também fraco para superar o desafio do declínio interno e da presença dos bárbaros nas fronteiras do império; ademais, a prosperidade e a paz do primeiro período do principado foram seguidas por outro século de revolução, entre 192 e 284. Em 285, Diocleciano reorganizou o Império em bases mais autocráticas, tomadas de empréstimo dos despotismos orientais, numa tentativa de garantir a cultura greco-romana. Como o cristianismo parecia ameaçar esta cultura, Diocleciano fez uma fracassada tentativa de destruí-lo entre 303 e 305. Mas astuto, Constantino, seu sucessor, compreendeu que se o Estado não podia destruí-la pela força, o melhor seria usar a igreja como um aliado para salvar a cultura clássica. O processo pelo qual a Igreja e o Estado chegaram a um acordo começou quando Constantino conseguiu o controle completo do Estado. Embora oficialmente dividisse o poder com seu co-imperador, Licínio, entre 311 e324 , ele tomou a maioria das decisões importantes do Estado.
Constantino (274-337) era o filho ilegítimo do líder militar Constancio com uma bela mulher livre cristã do oriente, de nome Helena.Numa batalha,em 313, quando parecia que os inimigos lhe venceriam, Constantino teve uma visão de uma cruz no céu, com as seguintes palavras em latim: “ com este sinal, vencerás”. Tornando as como bom presságio ele derrotou seus inimigos na batalha da ponte Milvia sobre o rio Tibre.
Embora a visão possa ter ocorrido, é evidente que o favorecimento da igreja por Constantino foi um expediente seu. A igreja poderia servir como um novo centro de unidade e salvar a cultura clássica e o império. O fato de ter protelado o seu batismo até pouco antes da morte e de manter sua posição de Pontifex Maximus, sacerdote principal da religião pagã do Estado, parecem apoiar essa ideia. Ademais, a execução por ele ordenada, de um jovem que poderia reivindicar o seu trono, não condiz com a conduta de um cristão sincero. Talvez tenha sido uma mistura de superstição e sagacidade na sua estratégia de governo. Correta ou não esta interpretação de suas intenções, o fato é que Constantino inaugurou uma política de favorecimento da Igreja Cristã.
Em 313 ele e Lícínio garantiram a liberdade de culto pelo Edito de Milão. Nos anos seguintes, Constantino promulgou outros editos, que tornavam possíveis recuperação das propriedades confiscadas, o subsídio da igreja pelo Estado, a isenção ao clero pelo serviço público, a proibição de adivinhações, a separação do “Dia do Sol” (domingo) como um dia de descanso e culto. Ele tomou uma posição de liderança teológica no Concílio de Nicéia, em 325, quando arbitrou a controvérsia ariana. Apesar de um número de cristão não ultrapassar a um décimo da população do império nesta época, eles exerceram uma influência no Estado bem maior do que se podia esperar pela quantidade de membros que possuía.
Além de garantir liberdade e favores para a Igreja e submetê-la o serviço do Império, Constantino em 330, fundou a cidade de Constantinopla. A igreja percebeu, entretanto, que embora uma associação com o Estado lhe trouxesse benefícios, isto também traria muitas desvantagens. O governo, em troca de privilégios, da proteção e da ajuda que oferecia. Achava-se no direito de interferir em assuntos espirituais e teológicos. Em Ares (314) e em Nicéia (325), Constantino arrogou-se o direito de arbitrar a disputa da igreja, embora fosse apenas o soberano temporário do império. Infelizmente a igreja ganhou poder, mas se tornou uma arrogante perseguidora, da mesma forma como eram as religiões pagãs com os cristãos. Parece que no balanço final, a aproximação entre Igreja e Estado trouxe mais malefícios do que bênçãos à Igreja Cristã.
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