terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Tolerância Religiosa








Adriano Couto


Fala-se muito em liberdade religiosa. A nossa Constituição no artigo 5º, inciso VI diz que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias". A Declaração Universal dos Direitos humanos, também afirma que a Liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais. A pesar de o Estado Brasileiro ser laico, essa não é a impressão que temos às vezes, pois, uma boa parte dos feriados nacionais e municipais são na verdade feriados religiosos cristãos.

Não é difícil vermos também celebrações ecumênicas que na maioria das vezes são dirigidas apenas por padres e/ou pastores. É comum presenciarmos em praças públicas, paradas de ônibus, ou mesmo dentro dos ônibus, alguém empunhando uma Bíblia como se fosse uma metralhadora, pregando um "evangelho" com palavras agressivas, apelativas, demonizantes; condenando ao inferno quem não crer como ele/ela. Isso é liberdade religiosa ou abuso da liberdade religiosa? Se vivemos em um Estado Laico, por que no lugar do crucifixo não se coloca também, por exemplo, uma imagem de Buda, uma foto de Maomé, uma imagem de uma Divindade africana, um símbolo Bah’ai, uma imagem de Krishna, etc.? Por que no aniversário de emancipação de uma cidade, no lugar de um culto católico e/ou evangélico, não se faz uma mística macro-religiosa com a presença de sacerdotes cristãos e não cristãos? Esses últimos são indignos? Não são filhos de Deus? Já pensaram se uma Yalorixá (Mãe de santo) entrasse em um ônibus e começasse a falar sobre a influência dos orixás na vida das pessoas, pedindo que os passageiros seguissem tal religião? Como os passageiros cristãos agiriam? Creio que no mínimo ela seria "convidada" a descer do ônibus ou parar de falar.

Muitos cristãos ainda hoje se auto-afirmam donos da verdade. Exterminaram índios e negros, mataram bruxas, maçons, etc. e ainda hoje, condenam ao inferno os homossexuais, divorciados, muçulmanos, Espíritas etc. A pesar de tudo isso, ainda falam de Paz do Senhor. Creio que os cristãos precisam muito aprender sobre paz e tolerância religiosa com religiões como o Budismo, o Candomblé, a Fé Bah’ai, o Hinduísmo, o Kardecismo etc.

Esses têm muito a nos ensinar sobre tolerância religiosa; pois boa parte deles têm sido vítimas de intolerância por parte dos cristãos sem revidar os ataques. Não pode haver uma cultura de paz, sem tolerância religiosa.
O Código Penal Brasileiro, Art. 208 afirma: "Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto do time religioso.” Já pensou se esta resolução fosse seguida a risca?

Ainda assim, o Brasil é o país mais tolerante do mundo na questão religiosa, herança portuguesa, isso mesmo! Apesar da inquisição portuguesa e tudo mais que já sabemos, a Península Ibérica foi refúgio de judeus e muçulmanos durante as perseguições promovidas pelo Igreja Católica na Idade Média. Na Espanha Muçulmana, os três monoteísmos conviviam harmoniosamente, culminando no seu desenvolvimento tecnológico e cultural, tendo seu ápice na época das Grandes Navegações, cujos cientistas judeus e muçulmanos trocaram conhecimentos e desenvolvendo a engenharia náutica, que naquele tempo era conseiderado algo extraordinário, inimaginável, futurista.

Este quadro mudou quando o Rei Fernando “o Católico” subiu ao trono espanhol, este querendo fazer uma “média” com o Papa, instaurou a Inquisição no país perseguindo judeus e muçulmanos, restando aos perseguidos refugiarem-se em Portugal, daí então o legado de tolerância do povo português.

Porém o Brasil só é tolerante porque é sincrético, pois onde não existe sincretismo religioso não existe tolerância religiosa! E isto é fato, muitos países alegam liberdade religiosa em suas cartas magnas, porém não é o que ocorre na prática, principalmente em países islâmicos e nos EUA, onde neste último, o protestantismo dá as cartas e os mesmos se intitulam verdadeiros representantes da cristandade. Quem não lembra dos discursos fundamentalistas de George W. Bush?

Quando falamos em liberdade religiosa também devemos deixar claro a liberdade de não-crença, isto compreende os ateus e agnósticos, tão perseguidos quanto os grupos religiosos não-cristãos. Recentemente os ateus e agnósticos foram atacdos pelo apresentador da Band, José Luiz Datena que associou estas pessoas a criminosos, alegando que todo aquele que comete crimes é porque não acredita em Deus! Puro preconceito, ignorância e falta de respeito! Intolerância! Tenho amigos ateus e agnósticos que são pessoas maravilhosas e que seriam incapazes de fazer mal a alguém, pois são pessoas sérias e honestas, possuem ética, diferentemente de muitos malandros que fazem suas pilantragens e depois se escondem atrás de uma bíblia...chegando na cadeia dando uma de evangélico...quanta hipocrisia...

Exemplo contemporâneo de guerra devido à intolerância religiosa é o conflito entre judeus e muçulmanos na Terra Santa, pois enquanto não deixarem de lado seu orgulho, fanatismo e ódio pelo próximo, jamais alcançarão a paz! O fundamentalismo religioso é um obstáculo à paz, tanto que o próprio Jesus foi morto por fanáticos religiosos, Gandhi também.

Os cristãos deveriam seguir a risca o ensinamento Jesus que devemos amar uns aos outros e assim deve ser sem distinção, sejam eles ateus, agnósticos, religiosos de todas as confissões independentes de serem cristãos ou não. Respeitar a diversidade é fundamental para crescermos como seres humanos, mesmo nosso país sendo tolerante como afirmei anteriormente, o preconceito contra os não-crentes ainda é muito grande. Finalizo minha reflexão usando esta linda citação de Nélson Mandela: "Ninguém, nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pandora, Eva e as outras mulheres

Adriano Couto


Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, assim como Eva foi a primeira mulher criada por Deus, em ambas as mitologias, o mundo onde elas viviam era completamente desprovido dos pecados, de qualquer coisa que fosse nociva ao ser humano. No caso de Adão e Eva, esse era o paraíso.

E foi a curiosidade do proibido que condenou Adão e Eva, provocando sua expulsão do Jardim do Éden por terem provado do "fruto proibido" (apesar de muita gente insistir na maçã, em nenhum lugar da bíblia existe referência a esta fruta e a nenhuma outra, abrindo margem a inúmeras interpretações) enquanto que no caso de Pandora, ao abrir a caixa para ver o que tinha dentro (e tinha sido orientada a não fazê-lo), ela espalhou toda sorte de problemas, doenças, pecados sobre a terra.

Foi Eva quem seduziu Adão para comerem desse fruto. E na mitologia grega, Pandora seduz Epimeteu, guardião da caixa, e após uma noite de amor, ela rouba a chave para abrir a caixa.

Embora sejamos herdeiros da tradição judaico-cristã e o mito de Adão e Eva tenha sido consagrado como verdade literal e absoluta pelos teólogos fundamentalistas judeus e cristãos, estas histórias fantásticas serviram de pretexto para a legitimação do machismo, da opressão e demonização do sexo feminino. Ao longo da história as mulheres sempre foram condicionadas a categoria de ser inferior, devendo ser submissa aos homens, sendo considerada culpada por todas as desgraças que afligissem a sociedade. No Antigo Testamento existem inúmeras passagens em que as mulheres são relegadas a um segundo plano, tratadas muitas vezes como animais. Claro que existem muitas passagens que a beleza da mulher é exaltada, suas virtudes e sua maternidade posta em evidência (principalmente Maria mãe de Jesus), estas, porém são mínimas se comparadas as que exaltam o preconceito.

No Novo Testamento, Paulo afirma que as mulheres devem ser submissas aos seus maridos, o que eu não concordo, o referido apóstolo dos gentios faz muitas restrições às mulheres em suas epístolas, talvez devido ao fato de ser solteiro... creio que numa família o casal tem que andar juntos e não um subjugar o outro.

Ao longo da história, trechos bíblicos foram distorcidos para promover perseguições e atrocidades contra as mulheres, especialmente na Idade Média, onde muitas foram acusadas de bruxaria e foram massacradas pela Santa Inquisição.

As referidas mitologias demonizam a busca do ser humano ao conhecimento, a sabedoria, atribuições estas conferidas somente aos deuses em questão e a aquisição da mesma é considerada uma afronta às divindades, sendo a mulher condenada e castigada pelo seu atrevimento de desobedecer aos deuses e consequentemente apontada como responsável por todos os males que afligem a humanidade. Devido a isto, por séculos a humanidade viveu nas trevas da ignorância, quem questionava, ou buscava a sabedoria era eliminado, o conhecimento era atributo exclusivo de sacerdotes e de teocracias (reis que se diziam representantes de Deus na terra), principalmente na Antiguidade e na Idade Média.

A mulher devido a estas mitologias machistas sempre foi relegada ao sofrimento, desprezo, submissas, sem vez e voz, somente com o advento do século XX, as coisas começaram a mudar, as mulheres estão assumindo seu espaço e sendo respeitadas, tanto que teremos pela primeira vez em nosso país teremos uma mulher na presidência da república.

Sei que o dia dedicado às mulheres é o dia 8 de março, mas a bravura e a capacidade das mesmas deve ser exaltada sempre, é cada vez maior o número de mulheres que são chefes de família, criam os filhos sozinhas, trabalham fora e são exemplos de liderança e personalidade.

Fiz um breve comparativo das duas mitologias para mostrar o quão enraizado está o machismo em nossa cultura, nossa sociedade ainda desrespeita as mulheres e não lhes dá o devido valor, muitas delas são violentadas, mortas por seus parceiros, recentemente foi criada a Lei Maria da Penha para punir os agressores, felizmente as coisas estão mudando.
Muitas mulheres trabalham nas mesmas funções que os homens e seus salários são mais baixos, o que é um absurdo! E ainda existem muitas outras situações dentre as quais as mulheres são desrespeitadas.

Mulheres são guerreiras, batalhadoras, nem de longe são o protótipo de sexo frágil! Isto é rotulação machista, resquício de uma mentalidade arcaica e conservadora. É hora de revermos os nossos mitos e o quanto eles podem interferir em nossas vidas, devemos quebrar os paradigmas e proclamar a igualdade de direitos! Chega de intolerância e fanatismo provindo de mitos descabidos e ainda fartamente alardeados em cercanias fundamentalistas.