terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quando a religião é um agente causador de infelicidade

Adriano Couto

Primeiro é importante salientar que não é a crença em Deus em si que é prejudicial, mas a religião, que criou dogmas e verdades que muitas vezes atrapalham a vida humana até os dias de hoje.

A maioria acredita que só pode ser feliz, bom, ético e ter moral se crer em Deus e ter religião. Não é verdade. Assim como existem religiosos e ateus felizes e que procuram ser bons e éticos, há religiosos e ateus infelizes e que não se preocupam em cometer maldades. A crença religiosa não é condição básica para alguém ser feliz e bom.

Certamente a fé religiosa tem muitos méritos: consolar, dar ânimo para enfrentar as adversidades, tornar alguém rude em uma pessoa mais generosa e etc.

Muitas pessoas, no entanto, enfrentam a vida com destemor e praticam o bem “apesar” de serem atéias ou não terem religião.

A religião começa ser um obstáculo ao nosso bem estar quando ela determina de que modo devemos viver, impondo regras de comportamento, e ditando quem merece viver ou morrer, quem merece o céu e quem deve ir para o inferno. A religião começa a ser perigosa quando incentiva pessoas a matar em nome do seu deus, quando persegue todos os que não fazem parte da sua crença, quando impõe obstáculos à ciência, enfim, quando baseia sua moral em livros chamados “sagrados”.

Os últimos achados arqueológicos comprovam que a Bíblia contém gritantes erros históricos, e está recheada de lendas e mitos, e que foi escrita, sobretudo com interesses de propaganda religiosas para validar a crença de que Deus havia escolhido o povo judeu como guia da humanidade (uma visão antiga já seguida por mesopotâmicos, egípcios, gregos, etc, que também no auge das suas civilizações pensavam ser preferidos de um deus).

Portanto os escritores bíblicos não foram orientados por uma voz divina, mas por sacerdotes baseados em lendas, folclore, mitologias e inclusive fatos históricos, que foram devidamente alterados e deturpados para se encaixar ao que desejavam os integrantes do clero judaico, e mais tarde, ao cristianismo, a religião que sobreveio ao judaísmo.

Veremos agora quais são esses obstáculos criados pela religião que tanto atrapalham a felicidade humana, como foram criados e com que objetivos.

a)Inferno

A maioria das sociedades tem em sua tradição religiosa a crença na vida após a morte. Onde uns são premiados e outros castigados.

Os antigos sacerdotes mesopotâmicos já alertavam o povo que se não fossem obedientes, não seguissem seus deuses, padeceriam em tormentos no outro lado da vida. Os egípcios também acreditavam que os maus seriam devorados por um deus terrível, com forma de leão e hipopótamo. Os gregos diziam que os maus entrariam no tártaro, lugar de terrível sofrimento. O judaísmo ensinava que todos (bons e maus) iriam para o sheol (embaixo da terra) lugar de inconsciência, portanto sem alegria nem sofrimento.

Opinião geral dos estudiosos não comprometidos com religião e mesmo de muitos teólogos modernos, é que o inferno é uma ficção, uma arma usada pelos antigos sacerdotes para manter o povo quieto e obediente. Uma forma de tornar a classe sacerdotal poderosa, pois com medo de uma futura punição no além túmulo, o povo era facilmente manipulado a fazer o que os poderosos pediam.

O inferno é interessante no ponto de vista do controle social. Muitas pessoas deixam de fazer o mal por temerem um castigo futuro. Por outro lado, o medo do inferno é um grande problema porque muitos não vivem satisfatoriamente, pois aprendem na Igreja que o prazer é pecado e pecadores têm como destino o inferno.

Os danos que o medo de desagradar a Igreja causam, são conhecidos por psicólogos e terapeutas, que passam trabalho para lidar com os devotos impressionados.

E chegamos ao segundo e terceiro obstáculos criado pela religião que considero nocivos que ainda hoje provocam traumas e lotam consultórios de psiquiatria:


b)Pecado

Quase todas as religiões mantêm o conceito de pecado. É uma transgressão a Deus. O pecador pode sofrer penas leves como recitar orações, bem como pagar o erro com a própria vida. E o que é pecado na religião? Depende a religião.

c)Sexo

Segundo as religiões, onde existem mais pecados é na esfera da sexualidade. Desde o nascer da religião, os sacerdotes tiveram o cuidado de impor limites aos prazeres sexuais.

Porque toda essa preocupação de Deus, que na verdade foi criação da classe sacerdotal, para com o prazer sexual?

Os interesses eram muitos.

Naturalmente existem algumas formas de sexo que qualquer pessoa sensata e racional é contra, seja ela crente ou não. Ou pelo menos deveria ser. São aquelas relações que causam sofrimento no outro e buscam apenas o prazer pessoal. Por exemplo, o estupro, a pedofilia, a zoofilia e o adultério.

No entanto há muitas formas de sexo que não deveriam ser criticadas e proibidas, aquelas feitas por adultos sadios e conscientes, com anuência de ambas as partes. Infelizmente, a religião também intervém nos desejos sexuais, e cria problemas onde não deveria se meter.

Uma das proibições mais comuns é o sexo antes do casamento. Certamente um dos motivos desta proibição foi uma honrosa preocupação da classe sacerdotal e política da Antiguidade em proteger as mulheres que poderiam engravidar e serem abandonadas pelos parceiros. Não era interessante para as autoridades acolher e sustentar tantas crianças vindo ao mundo sem um pai.

Como os jovens continuavam a fazer sexo antes de casar, os escribas judeus incluíram a pena de morte para mulheres que não guardassem a virgindade para o marido, na intenção de coibir o sexo antes do casamento.


O código Mosaico (assim chamado por ser atribuído a Moisés) tentando evitar que as mulheres tivessem relações antes do casamento pune com a lapidação as noivas que não apresentassem sinais de virgindade na noite de núpcias. Após a denúncia do noivo ofendido, e comprovada pelos sacerdotes, a noiva era levada para frente da casa paterna e apedrejada até a morte (Deuteronômio 22,13). Faziam isso, pois acreditavam ser uma lei dada por Deus.

Penso que somente a busca do conhecimento, e uma profunda reflexão, sincera e diligente, podem afastar da vida humana o terror aplicado pelas idéias dogmáticas das teocracias que ainda resistem em nosso meio. Então, quem sabe, em alguns anos as pessoas não sofrerão mais com a truculência de chefes religiosos em ditar modelos de comportamentos e nem com ameaças de quem não segui-los, irá arder no fogo do inferno.

Assim como os deuses que moravam nos montes sagrados e hoje não passam de lendas, espero que no futuro a humanidade se afaste das superstições e crendices tolas, e que coloque no fundo do baú mitológico todos os deuses juízes e raivosos, os demônios e seus caldeirões ferventes e os infalíveis intérpretes do sagrado.

Para uma humanidade feliz e sadia, não precisamos de leis entregues a profetas, que dizem falar com os céus, nem seguir dogmas inventados. Precisamos de conhecimento, bom senso e fraternidade entre as nações e governos honestos comprometidos com o bem estar do povo.

Um comentário:

  1. Excelente artigo. Dia desses me ocorreu sobre a relação entre religião e infelicidade e a questão é justamente o problema dos dogmas e proibições.

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