quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ateísmo, filosofia e a favelização do inefável

Carlos Orsi


Depois de minha palestra/bate-papo no Paço da Liberdade em Curitiba, na terça-feira, algumas estudantes universitárias vieram falar comigo sobre as dificuldades que encontram ao debater a questão da existência de Deus com colegas teístas.

O problema parece estar no fato de que, enquanto a literatura de defesa do teísmo -- de Aquino a Plantinga e Craig -- circula livremente entre os entusiastas, as referências mais facilmente disponíveis para o outro lado acabam sendo as obras de Dawkins ou Hitchens. Que, com toda a potência e utilidade que têm, não são (nem têm a pretensão de ser) celeiros de argumentos filosóficos rigorosos.

Isso não significa, porém, que argumentos rigorosos não existam, mas apenas que não contam com organizações internacionais (igrejas) dedicadas a distribuí-los e popularizá-los.

Eu pessoalmente não vejo necessidade de ir além de David Hume para pôr todo o castelo de cartas da pretensão teísta à racionalidade -- como articulada em torno das variações do argumento cosmológico -- abaixo. Antony Flew já se queixava, em seu clássico God and Philosophy, que os apologistas cristãos insistem em argumentar "como se Hume nunca tivesse escrito nada".

(Ah, sim: há quem goste de explorar a súbita e confusa conversão de Flew ao deísmo -- a crença numa inteligência criadora do universo -- no fim da vida. Dois pontos a respeito: o primeiro é que o "deus" de Flew não tem nada a ver com o das religiões em geral. O segundo, que deveria ser óbvio para todos os debatedores dotados de um mínimo de boa-fé, é o de que a força de uma série de argumentos, como a apresentada em God and Philosophy, independe das peculiaridades biográficas de seu autor.)

Mas Hume e Flew, embora (em minha opinião) suficientes para estabelecer o caso da racionalidade do ateísmo, não são o ponto final da história. Nas últimas duas décadas, o filósofo Michael Martin produziu uma copiosa literatura sobre o assunto.

Também busquei chamar a atenção das jovens (mulheres adultas em idade universitária hoje em dia são "jovens" para mim. O tempo não para mesmo...) para o cambalacho semântico, muito comum, de, por um lado, se redefinir Deus como algo incompreensível, misterioso, transcedental, idescritível, etc., ao mesmo tempo em que, por outro, se afirma que Ele tem um monte de propriedades objetivas: é bom, amoroso, onipotente...

É preciso notar que descrever o indescritível é uma contradição em termos, e atribuir propriedades objetivas que implicam juízos de valor -- como dizer que algo é "bom" -- ao incompreensível é uma atitude peculiar, para dizer o mínimo. Se uma coisa é incognoscível (isto é, está além da nossa capacidade de conhecimento) então, por definição, não há nada que possamos afirmar, de forma honesta, sobre ela.

A possibilidade de existência de um Deus totalmente abstrato, misterioso e transcedental é tão irrefutável quanto a existência de sorveterias na galáxia de Andrômeda. Só que também é tão irrelevante para nós, pobres mortais terrestres, quanto.

Agora, se a mesma pessoa que lhe diz que o Deus dela é transcendente e abstrato ao ponto de todas as críticas do filósofos secularistas serem "grosseiras" e "ignorantes" em seguida começa a agir como se esse mesmo Deus fosse um fantasma superpoderoso que atende preces, realiza milagres e recolhe dízimos, calma lá. Ou uma coisa ou outra. Não dá pra favelizar o inefável.


Fonte: Blog Carlos Orsi

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Agnósticos estão mais perto de Deus do que os falsos fiéis, diz papa

por Giacomo Galeazzi, do Stampa

O papa Bento 16 deixou a Alemanha com a mensagem mais forte da sua viagem e, na missa no aeroporto de Friburgo, diante de 100 mil participantes e de todos os bispos das 27 dioceses da Alemanha, exortou os crentes a não serem apenas fiéis por simples hábito. Fez um elogio inusitado e destinado a deixar marca nos "agnósticos que, por causa da questão de Deus não encontram paz, pessoas que sofrem por causa dos nossos pecados e desejam ter um coração puro".


Bento 16 disse que "eles [os agnósticos] estão "mais perto do Reino de Deus do que os fiéis 'de rotina', que na Igreja só veem agora o aparato, sem que o ser coração seja tocado pela fé".

Afirmou que a igreja não é uma multinacional da filantropia e que não bastam estruturas eficientes, instituições sociais e de caridade capazes de desenvolver um serviço que "requer competência objetiva e profissional". Acrescentou que é preciso mais, isto é, "um coração que se deixe tocar pelo amor de Cristo".

Embora expressando gratidão aos que "colocam à disposição tempo e forças no voluntariado", o papa exortou os católicos, em todos os níveis, "a se interrogar sobre a relação pessoal com Deus". Recomendou "oração, participação na missa dominical, meditação da Sagrada Escritura, estudo do catecismo".

Aos seus compatriotas, o pontífice faz uma acurada denúncia do "relativismo combativo" e da "campanha de opinião contra a igreja". Mas é o "fronte interno" que o preocupa mais.Joseph Ratzinger muitas vezes não encontra, por trás de estruturas eclesiásticas bem organizadas, "força espiritual e fé".

Além disso, "uma excedência das estruturas com relação ao Espírito" torna vã qualquer tentativa de reforma. Por isso, Bento 16 apela à honestidade intelectual tanto de quem se diz cristão, quanto daqueles que não professam a fé, mas deveriam respeitá-la. Para ele, a dimensão religiosa, de fato, é essencial para que a sociedade seja plenamente humana.

Disse ser necessário que "as paróquias, as comunidades e os movimentos se sustentem e se enriqueçam mutuamente", que "os batizados e crismados, em união com o bispo, mantenham alta a tocha de uma fé capaz de iluminar conhecimentos e capacidades".

Com tradução de Moisés Sbardelotto para IHU On-line.


Fonte: Paulopes Weblog

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Medo! Facebook sabe tudo o que você faz na rede



Facebook pode saber quais páginas você visita, mesmo que tenha feito logout na rede social

Por Marcos Elias Picão em 26 de setembro de 2011 às 00h48, sugestão da Conceição Oliveira

Problemas de privacidade com o Facebook não são novos: com frequência uma ou outra questão é levantada. Mesmo depois de melhorar a imagem lançando novos controles de privacidade, algumas brechas ainda existem.

Neste final de semana Nik Cubrilovic, um pesquisador curioso, descobriu que os cookies do Facebook permitem o rastreamento de muitos sites que o usuário visita, mesmo depois de ter saído do Facebook (feito logout).

Muitos sites utilizam o botão “Curtir”, que é uma página do Facebook embutida na página do site. O cookie do Facebook armazena algumas informações, como a ID do usuário. Ao acessar um site que tem o “Curtir”, estando logado no Facebook, basta um clique para que a informação vá para seu perfil. Só que mesmo saindo do Facebook explicitamente (logout), o cookie no computador é alterado, em vez de excluído. A ID do usuário continua lá. Então o Facebook fica sabendo de todas as outras páginas em que você navega, desde que estas tenham algum recurso do site – um plugin qualquer ou o mesmo botão Curtir.

Essa informação pode ser valiosa para o site para rastrear a atividade dos seus usuários na rede, possibilitando oferecer sugestões de amigos ou propaganda mais direcionada.

Um experimento curioso relatado pelo mesmo Nik Cubrilovic relata que depois de criar algumas contas fake no Facebook e usá-las por um tempo, o Facebook passou a sugerir a conta dele como amigo ao usar as contas falsas. Como o Facebook ficaria sabendo da relação, sendo que ele sempre saía de uma conta para entrar em outra? Isso coloca em pauta a privacidade ao usar o Facebook em computadores públicos, com acesso de inúmeras outras pessoas.

O ideal seria que limpassem a identificação do usuário, afinal muitas e muitas páginas incluem o botão Curtir, e esse monitoramento – mesmo estando desconectado do Facebook! – em geral não é nada agradável.

Nik Cubrilovic reclama que vem tentando notificar o Facebook há vários meses, sempre sem resposta. O tema foi publicado devido às recentes questões de privacidade envolvidas nas novas APIs, que permitem que um aplicativo do Facebook compartilhe informações sobre as páginas em que o usuário esteve sem que ele precise tomar nenhuma outra ação, nem clique nem confirmação posterior de nenhuma espécie. A situação é preocupante, apesar de só parecer mais um recurso “legal”. Ter seu histórico de navegação parcialmente aberto aos amigos não deve agradar a ninguém, ainda mais quando se trata de rede social, em que muitas vezes, muitos amigos lá são pessoas desconhecidas.

O jeito é sempre limpar os cookies do Facebook, usar algum outro navegador só para isso (talvez o modo anônimo dos navegadores funcione bem), ou simplesmente deixar a rede de lado.

Uma situação parecida é feita de outra forma por outras empresas, especialmente aquelas que controlam anúncios na web, como a gigante Google. Ter o histórico de navegação dos usuários é algo espetacular para quem quer entregar informação complementar ou relevante, que pode atrair ainda mais o interesse das pessoas… Só que sabe-se lá mais o que podem resolver fazer com os dados um dia.

By: Viomundo


Fonte: Blog OpenSante

Jesus Cristo: Um olhar político socialista



Adriano Couto

Em quase todos os seus sermões, Jesus Cristo pontifica a base de uma sociedade na qual os seres humanos não explorem uns aos outros, na qual o homem não seja lobo do homem.

Recentemente em seu novo livro intitulado: “Jesus de Nazaré, da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição”, o Papa Bento XVI afirma que Jesus não era um revolucionário e enumera argumentos em torno de sua tese, mas fico a me perguntar: Quem é o Papa para julgar se Jesus era um revolucionário ou não? A discrepância entre o homem de Nazaré que não tinha onde reclinar a sua cabeça e o pontífice que vive na pompa em meio ao ouro do Vaticano é gritante! Acho engraçado que a Igreja Católica se considera “dona de Jesus”, quando se trata do Cristo, somente a sua opinião é válida!

A Igreja Católica explorou e explora Jesus Cristo até hoje, tentando transformá-lo num milagreiro vulgar. Apesar da formidável organização da Igreja Católica, não conseguiram anular ou eliminar o grande líder social que foi Jesus Cristo.

Quando ele explanou o objetivo de seu apostolado, citou: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor ”(Lc 4,18).

Nestas citações vemos claramente que o compromisso do Cristo era preferencialmente pelos POBRES e se a instituição seguisse a risca os ensinamentos de seu Mestre jamais se aliaria aos poderosos, pois o próprio Cristo foi um revolucionário, um marginalizado político (refugiado político no Egito, com sua família; estava em um país dominado por potência estrangeiras; viveu na Galiléia, área periférica de seu país); foi um marginalizado religioso (tendo sido excomungado da sinagoga); viveu como pobre e morreu como um marginalizado social-político-religioso (condenação capital). Foi o primeiro socialista da história, ensinando a partilha igual dos bens e jamais acumulou nada para si, pois também está escrito: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça". (Mt 8,20).

A Bíblia fala explicitamente desta opção radical pelos pobres, antes mesmo do nascimento de Jesus. Segundo o relato do Evangelho de Lucas, Maria após ser saudada por sua prima Isabel, encheu-se do Espírito Santo e proferiu o Magnificat que é um hino de louvor a Deus e destaco a seguinte afirmativa em meio a este lindo cântico: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1, 52-53).



Em certa ocasião, Jesus foi procurado por um jovem muito rico, que por sua vez era um fiel observador das tradições judaicas e perguntou ao Messias, o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. Após as justificativas do jovem, Cristo olhou para ele e disse: Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me".Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas.Então Jesus disse aos discípulos: "Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus.E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mt 19,21-24).

Outra citação clássica, que comprova que os ensinamentos do Cristo eram socialistas, tanto que os socialistas cristãos se inspiraram nesta passagem bíblica para justificar seus argumentos é a seguinte: “Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.” (At 4,34-35).

Teria ainda muitas outras citações da própria Bíblia para justificar o argumento da opção do Cristo pelos pobres, mas citei estas porque considero relevantes. Acabamos de ver que o homem de Nazaré foi estritamente ligado aos desvalidos de sua época, seu amor era devotado aos excluídos, perseguidos e marginalizados. Revolta-me a prática contraditória das instituições que se julgam representá-lo, estas que em sua grande maioria segregam este mesmo pobre que o Cristo deu de comer, aconselhou, amou e defendeu a sua causa. Tenho náuseas quando vejo estes pseudopastores televisivos e padres “pop star” que pedem dinheiro descaradamente, fazendo com que as pessoas mais humildes se desfaçam de seus bens para entregar nas mãos de charlatães, picaretas da fé! Pelo conhecimento que tenho da Bíblia e dos ensinamentos do Cristo, sei que jamais ele compactuaria com essa podridão toda que é propagada em seu nome, as instituições perverteram seus ideais revolucionários e se colocaram a serviço do capitalismo, corrompendo-se totalmente e colocando em descrédito o anúncio da mensagem libertadora.

Busca por uma espiritualidade light é como a busca por uma marca de jeans

Título original: Religião sustentável

por Luiz Felipe Pondé para Folha

Recebemos, recentemente, a visita do líder religioso budista tibetano Dalai Lama. Os iniciados tiveram surtos místicos?

Nada contra ele. De fato, o líder budista tem uma imagem positiva no Ocidente, ao contrário do papa Bento 16, que é visto como conservador.


O Dalai Lama defende tudo que gente legal defende: o verde, a tolerância com o "outro", um capitalismo do bem, enfim, uma religião sustentável nos termos que ocidentais que migram pra religiões orientais costumam gostar, ou seja, de baixo comprometimento religioso. Além de, nela, não ter nenhum parente chato.

Uma religião sustentável é uma religião na qual ninguém tem de sustentar nada além de uma dieta balanceada, uma bike legal e um pouco de meditação durante a semana. De empresários "do bem" aos falantes da língua tibetana, muita gente correu pra ouvir essa sabedoria "estrangeira".

Religiões são sistemas de sentido. A vida, aparentemente sem muito sentido, precisa de tais sistemas. A profissão pode ser um. A dedicação aos filhos, outro. A história, a natureza, grana também serve. Enfim, muita coisa pode dar sentido a uma existência precária como a nossa, mas nada se compara a uma religião.

Para funcionar, as religiões têm de garantir crenças e constranger comportamentos a partir de liturgias, mitos, exercícios de poder sacerdotais e regras cotidianas munidas de "sentido cósmico".

Você não "acessa" o sentido oferecido sem "pagar", com a própria adesão, o pacote completo. Isso serve para o catolicismo e para o budismo, ao contrário do que pensa nossa vã filosofia "nova era". No Oriente, o budismo é uma religião como qualquer outra, cheia de vícios e abusos.

A crítica à religião no Ocidente passou pela mão de grandes pensadores. Freud disse que religiosos são obsessivos que não sobreviveram bem à falta de amor incondicional da mãe e à miserável castração do pai verdadeiro, daí creem num Deus todo-poderoso que os ama.

Nietzsche identificou o ressentimento como marca dos religiosos que são todos uns covardes. Feuerbach sacou que Jesus é a projeção alienante de nosso próprio potencial.

Marx acrescentou que essa alienação é concreta e que se ganha dinheiro com isso.

Enfim: o religioso é um retardado, ressentido, alienado e pobre, porque gasta dinheiro com o que não deve, a saber, os "profissionais de Deus".

O que eu acho hilário é como muito "inteligentinho" acha que o budismo seja uma religião diferente das "nossas".

Ela seria sem "vícios" e "imposições". Pensam, em sua visão infantil das religiões orientais, que dramas sexuais só afetam celibatários de Jesus e não os de Buda, e que o budismo, por exemplo, é "legal", porque não tem a noção de pecado.

O budismo ocidental que cultua o Dalai Lama é o que eu chamo de budismo light. O perfil desse budista light é basicamente o seguinte.

Vem de classe social elevada, fala línguas estrangeiras, é cosmopolita, se acha melhor do que os outros (apesar de mentir que não se acha melhor, claro), tem formação superior, mora na zona oeste ou na zona de sul de São Paulo, come alimentos orgânicos (caríssimos) e é altamente orientado para assuntos de saúde do corpo (um ganancioso com a vida, claro).

E, acima de tudo, acha sua religião de origem (judaísmo ou catolicismo, grosso modo) "medieval", dominada pelo interesse econômico, e sempre muito autoritária.

Na realidade, as causas da migração para o budismo light costumam ser um avô judeu opressivo, uma freira chata e feia na escola e uma revolta básica contra os pais.

Em extremos, a recusa em arrumar o quarto quando adolescente ou um escândalo de pedofilia na Igreja Católica. Além da preguiça de frequentar cultos e de ter obrigações religiosas.

Enfim, essas são a bases reais mais comuns da adesão ao budismo light, claro, associadas à dificuldade de ser simplesmente ateu.

A busca por uma espiritualidade light é como a busca por uma marca de jeans, uma pousadinha numa praia deserta no Nordeste ou um restaurante de comida étnica da moda.

A espiritualidade do budismo light é semelhante a uma Louis Vuitton falsa. Brega.


Fonte: Paulopes Weblog

Nos EUA, igreja entrega a fiéis envelopes com dinheiro

Uma igreja de Nova Jersey resolveu distribuir dinheiro do dízimo e oferta aos fiéis que enfrentam com mais dificuldade a crise econômica americana. O objetivo da Liquid (esse é o nome da igreja) é obter US$ 30.000 (R$ 51.000) por semana para distribuí-los aos fiéis em envelopes com notas de US$ 10, US$ 20 e US$ 50.


Fiel recebe dízimo da igreja
Ele disse à CMN, por exemplo, que essa campanha da Liquid vai fazer com que os fiéis usem seu dinheiro para ajudar diretamente as pessoas mais necessitadas, como as vítimas de enchentes.

Seria como, no Brasil, Valdemiro Santigo, da Igreja Mundial, chamasse em época de chuvas os atingidos pelo transbordamento do rio Tietê, em São Paulo, para lhes dar dinheiro.

“Estamos incentivando as pessoas a adotar a generosidade", disse Lucas. "Muitas delas afirmam confiar em Deus e agora estamos dizendo que Deus também confia nelas. Por isso, estamos dando o dinheiro que Deus nos confiou.”

A igreja é formada por três congregações, existe há 10 anos e não tem templos. Os cultos são realizados em fins de semanas em dois hotéis e em uma escola. Tem mais de 2.000 seguidores.

Com a distribuição de dinheiro, o número de fiéis deverá crescer bastante nas próximas semanas, de acordo com a expectativa dos dirigentes da igreja.

No site da Liquid há um vídeo onde Lucas conduz um culto que lembra um pouco o show do “Quem quer dinheiro” de Silvo Santos.

Resta saber até quando a distribuição de dinheiro do pastor vai durar.


Fonte: Paulopes Weblog

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Exército desobedece a Constituição ao ajudar distribuir Bíblias no Haiti


Zimmer e o coronel Giovanni
menosprezam o Estado laico


Tropas do Exército brasileiro que se encontram no Haiti ajudaram a SBB (Sociedade Bíblica do Brasil), uma entidade que diz não ter fins lucrativos, a distribuir a “Bíblia Manuscrita” e “literatura bíblica” à população daquele país. A informação é do site da entidade.

Trata-se de uma desobediência à Constituição brasileira, que, pelo fato de o Estado ser laico, proíbe instituições governamentais de ter qualquer envolvimento com atividades de proselitismo religioso.

O site informa, também, que o Exército concedeu a Rudi Zimmer (foto), diretor-executivo da SBB, o Diploma de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro.
A homenagem ocorreu no dia 25 de agosto, Dia do Soldado, no quartel do Arsenal de Guerra de São Paulo, na zona sul de São Paulo. Foi o coronel Fabrizio Di Giovanni (foto) que agraciou Zimmer.

Diz o site: “A SBB foi homenageada por sua destacada atuação social e cultural em algumas ações conjuntas com o Exército.”

Com informação do SBB.

By: Paulopes

Fonte: Blog OpenSante

PSD, um partido novo



Fonte: Blog O Esquerdopata

Descoberta que contradiz teoria de Einstein intriga cientistas


Jason Palmer Da BBC News

Cientistas estão intrigados pelos resultados obtidos por cientistas do Centro Europeu de Investigação Nuclear (Cern, na sigla em inglês), em Genebra, que afirmaram ter descoberto partículas subatômicas capazes de viajar mais rápido do que a velocidade da luz.

Neutrinos enviados por via subterrânea das instalações de Cern para o de Gran Sasso, a 732 km de distância, pareceram chegar ao seu destino frações de segundo mais cedo que a teoria de um século de física faria supor.

As conclusões do experimento, que serão disponibilizadas na internet, serão cuidadosamente analisadas por outros cientistas.

Um dos pilares da física atual – tal e qual descrita por Albert Einstein em sua teoria da relatividade – é que a velocidade da luz é o limite a que um corpo pode viajar. Milhares de experimentos já foram realizados a fim de medi-la com mais e mais precisão.

Até então nunca havia sido possível encontrar uma partícula capaz de exceder a velocidade da luz.

"Tentamos encontrar todas as explicações possíveis para esse fenômeno. Queríamos encontrar erros – erros triviais, erros mais complicados, efeitos indesejados – e não encontramos", disse à BBC um dos autores do estudo, Antonio Ereditato, ressaltando a cautela do grupo em relação às próprias conclusões.

"Quando você não encontra nada, conclui, 'Bom, agora sou obrigado a disponibilizar e pedir à comunidade (científica internacional) que analise isto'."

Partículas aceleradas

Já se sabe que os neutrinos viajam a velocidades próximas da da luz. Essas partículas existem em diversas variedades, e experimentos recentes observaren que são capazes de mudar de um tipo para outro.

No projeto de Antonio Ereditato, Opera Collaboration, os cientistas preparam um único feixe de um tipo de neutrinos, de múon, e os envia do laboratório de Cern, em Genebra, na Suíça, para o de Gran Sasso, na Itália, para observar quantos se transformam em outro tipo de neutrino, de tau.

Partículas chegaram ao laboratório de Gran Sasso antes do que a luz chegaria
Ao longo dos experimentos, a equipe percebeu que as partículas chegavam ao seu destino final alguns bilionésimos de segundo abaixo do tempo que a luz levaria para percorrer a mesma distância.

A medição foi repetida 15 mil vezes, alcançando um nível de significância estatística que, nos círculos científicos, pode ser classificada como uma descoberta formal.

Entretanto, os cientistas entendem que erros sistemáticos, oriundos, por exemplo, das condições em que o experimento foi realizado ou da calibração dos instrumentos, poderia levar a uma falsa conclusão a respeito da superação da velocidade da luz.
"Meu sonho é que outro experimento independente chegue à mesma conclusão – nesse caso eu me sentiria aliviado", disse o cientista.

"Não estamos afirmando nada, pedimos a ajuda da comunidade para entender esses resultados malucos – porque eles são malucos. As consequências podem ser muito sérias."


Fonte: Blog Opinião Singela

União Soviética combateu as religiões, mas não foi um Estado ateu

por José Geraldo Gouvêa

A URSS não era um estado ateu. É meio cansativo ficar repetindo, mas é necessário, vamos lá.

A URSS foi um estado socialista totalitário. Por estas duas razões, combateu as religiões. Por ser socialista, acreditava que toda religião organizada é uma estrutura de poder voltada para legitimar a exploração do homem pelo homem. Por ser totalitário, acreditava que toda entidade civil deveria ser submetida diretamente ao estado, inclusive quanto à autorização de funcionamento.



A URSS restringiu a liberdade de religiões, mas também a de sindicatos (alguém tem a ousadia dizer que a URSS era "patronal"?), de grêmios estudantis, de partidos políticos (a não ser o PCUS) e até de grupos musicais. Sim, grupos musicais. Na URSS somente compositores devidamente licenciados podiam escrever música, especialmente música pop. Será que a URSS era um estado anti-musical?

Com os exemplos acima eu creio que demonstrei que a URSS não era ateísta, mas radicalmente secular e totalitária (e são coisas diferentes). Mas se os exemplos não são suficientes, recomendo a leitura das obras de Lênin, Kropotkin, Isaac Babel, Trótski e até de Stálin. Descobrirão que havia padres lutando pela Revolução Russa e que havia entidades religiosas toleradas.

A Igreja Ortodoxa, por exemplo, gozou de grandes privilégios nos anos 30-50 e o Islã sempre foi cuidosamente trabalhado pelos comunistas, que viam nos seus ideais internacionalistas uma analogia com o próprio comunismo.

No filme "Reds" (baseado na autobiografia de John Reed), vemos como os comunistas sonhavam em fazer os muçulmanos verem no socialismo o "estágio seguinte do islamismo". Isso chocou Reed, mas foi muito eficaz para assegurar a fidelidade da Ásia Central à Revolução.

Outra coisa curiosa a respeito do comunismo (pelo menos o soviético) foi que ele matou mais, proporcionalmente, pessoas de crenças não cristãs. As principais vítimas foram animistas (nativos siberianos, nativos árticos), muçulmanos (na Ásia Central, no Cáucaso e na borda do Mar Negro) e ateus mesmo (os famosos expurgos do PCUS). Se o número de cristãos morto é maior, isso é apenas porque a URSS era predominantemente cristã.

Não é verdade, tampouco, que a URSS fosse um estado oficialmente ateu. A Constituição soviética assegurava liberdade de crença, apenas restringia as organizações religiosas. Na prática isso dificultava o proselitismo, mas ser 'cristão' não era, em si, ilegal.

A maior prova do fracasso do "ateísmo" soviético é que a proporção de ateus na URSS, após o fim do comunismo, revelou-se pequena. A perda de fieis afetou principalmente a Igreja Ortodoxa, que já vinha desde o século XVIII sofrendo com cismas, corrupção do clero e perda de ascendência moral sobre a sociedade. O islamismo cresceu durante os 70 anos de comunismo.


Fonte: Paulopes Weblog

Análise: Cérebro humano tem viés religioso 'de fábrica'

HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Nos últimos 20 anos, psicólogos, neurocientistas, filósofos e sociólogos se puseram esquadrinhar e teorizar sobre a religião, dando origem à nova ciência da fé. A ideia central é que, independentemente do fato de Deus existir ou não, a religião é um fenômeno real, mensurável e com a qual podemos fazer experimentos.

É claro que nada nessa área é muito consensual, mas dessas duas décadas de pesquisas emergiram algumas linhas de explicação que são relativamente bem aceitas. Ao que tudo indica, o cérebro humano vem de fábrica com uma série de vieses cognitivos que tornam a religião um subproduto natural.

Destacam-se aí nossa tendência para reconhecer padrões (indispensável para perceber regularidades) e para detectar agência (muito útil na identificação de presas e predadores). Acrescente-se a isso nossa propensão a inferir estados mentais alheios (essencial para a vida em sociedade) e temos a receita para criar deuses.

De acordo com Michael Shermer, num cálculo aproximado, ao longo dos últimos dez mil anos a humanidade produziu dez mil religiões com cerca de mil deuses.

É claro que as coisas ficam bem mais complicadas quando descemos aos detalhes.

Cientistas já identificaram pelo menos dois genes ligados ao circuito da dopamina que parecem desempenhar um papel importante na crença, além de interessantes diferenças anatômicas entre os cérebros de céticos e crentes. A última moda é ligar a religião (ou sua ausência) a diferentes estilos cognitivos.

Aqui, é preciso evitar a tentação de pensar a questão em termos de categorias como analítico=inteligente=cético e intuitivo=burro=crente.

Esse tipo de fenômeno é mais bem descrito como um gradiente cujos extremos são patológicos. A psicóloga Catherine Caldwell-Harris, por exemplo, liga o estilo cognitivo ultralógico de ateus à síndrome de Asperger, uma forma de autismo que produz um bom número de engenheiros e físicos.

Na outra ponta, Andrea Kuszewski sugere um vínculo entre esquizofrenia e religiosidade. Seguir as intuições reconhecendo padrões e agência mesmo onde não existem é que leva uma pessoa a conversar de igual para igual com uma geladeira ou a discutir com Deus.


Fonte: Site Folha.Com

Estudo comprova que pessoas de pouca reflexão têm mais fé em Deus

As pessoas que tomam decisão pelo primeiro impulso, pela intuição, tendem a crer mais na existência de Deus em relação àquelas mais reflexivas. Esses fatores são influenciados pela cultura, mas trata-se de uma interferência pequena, quase desprezível. É o que diz estudo conduzido por Amitai Shenhav, da Universidade Harvard, dos Estados Unidos, e publicado pelo Journal of Experimental Psychology.


A conclusão de que as pessoas mais racionais tendem a crer menos em Deus pode parecer óbvia, mas foi a primeira vez que isso foi provado cientificamente. Pesquisas anteriores revelaram que pessoas de QI (Quociente de Inteligência) acima da média tendem a crer menos em Deus, mas pessoas inteligentes necessariamente não são as mais racionais.

Para a realização do estudo, 882 voluntários se submeteram a um questionário sobre crenças religiosas e questões que exigiram raciocínio. O objetivo foi identificar o estilo de pensamento de cada um deles.

Verificou-se que as pessoas com pensamentos intuitivos -- portanto as com mais tendência para acreditar em Deus -- caíram com mais frequência nas “pegadinhas” das questões que exigiam raciocínio com números. Confirmou-se que todos têm pensamentos intuitivos. A diferença é que as pessoas reflexivas questionam a intuição antes de tomar uma decisão.

Shenhav não fez no estudo uma comparação de importância entre as pessoas mais intuitivas e as mais racionais. “Ambos os tipos de pessoas são importantes para todo o mundo”, disse. “Não existe uma resposta certa sobre qual dos dois modos de pensamento deve ser usado em cada ocasião.”

Ele afirmou que cada pessoa acaba encontrando o seu ponto de equilíbrio entre o pensamento intuitivo e o reflexivo. Esse equilíbrio muda com o tempo na maiorias dos casos porque, segundo Shenhav, as pessoas mais intuitivas tendem a fortalecer cada vez mais a fé em Deus e as reflexivas a se tornarem mais descrentes.



Com informação do texto do estudo e de portais.


Fonte: Paulopes Weblog e Site Folha.Com

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Qual a diferença entre Durkheim, Karl Marx e Max Weber?



Pedro Mourão

Uma vez me deparei com essa pergunta na Internet. “Qual a diferença entre Durkheim, Karl Marx e Max Weber?”. Vi a seguinte resposta:

Émile Durkheim (Épinal, 15 de abril de 1858 — Paris, 15 de novembro de 1917) é considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim foi o fundador da escola francesa de sociologia, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica. É reconhecido amplamente como um dos melhores teóricos do conceito da coerção social.Partindo da afirmação de que "os fatos sociais devem ser tratados como coisas", forneceu uma definição do normal e do patológico aplicada a cada sociedade.

Karl Heinrich Marx (Tréveris, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883) foi um intelectual alemão considerado um dos fundadores da Sociologia. Também podemos encontrar a influência de Marx em várias outras áreas tais como: filosofia, economia, história já que o conhecimento humano, em sua época, não estava fragmentado em diversas especialidades da forma como se encontra hoje. Teve participação como intelectual e como revolucionário no movimento operário, sendo que ambos (Marx e o movimento operário) influenciaram uns aos outros durante o período em que o autor viveu.Atualmente é bastante difícil analisar a sociedade humana sem usar seu pensamento como referência, mesmo que a pessoa não seja simpática à ideologia construída em torno de seu pensamento intelectual, principalmente em relação aos seus conceitos econômicos.


Maximillian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864 — Munique, 14 de Junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia. Seu irmão foi o também famoso sociólogo e economista Alfred Weber e sua esposa a socióloga e historiadora de direito Marianne Schnitger.
A análise da teoria weberiana como ciência tem como ponto de partida a distinção entre quatro tipos de ação:A ação racional com relação a um objetivo / A ação racional com relação a um valor/ A ação afetiva / A ação tradicional


Achei a resposta muito simplória para acreditar que era só isso que os diferenciavam.
Lembrei de quando eu era pequeno e via televisão o dia inteiro. Aquela caixa mágica era meu vinculo com a sociedade para além do meu lar.



Na escola nunca fui o mais popular, nem fui bom em esportes. Hoje dou boas gargalhadas lembrando que as moças só falavam comigo para pedir as respostas das questões de matemática ou para pedir uma caneta.



Aos poucos fui me tornando mais introspectivo e aquela caixa mágica foi se tornando uma referência para mim. Já adulto comprei um computador e isso significou muito para meu trabalho. Então, meio que troquei a TV pelo computador, vale lembrar que os livros nunca perderam sua função para mim. Minha mãe uma vez me pegou literalmente com o rosto na tela da TV, ela me perguntou o que eu via ali, eu respondi que via pontos vermelhos, azuis e verdes.
Esses pontos ficaram na minha memória. Como podem 3 cores conseguirem mostrar todo o mundo?

Entrei na Universidade e descobri Marx, Durkheim e Weber, Os 3 porquinhos.
Na minha mente de alguma forma eu associei as cores aos autores, Marx era vermelho, Durkheim era Azul, e Weber era verde.

Sempre vinculei o pensamento de Durkheim a busca da harmonia na sociedade, já Marx eu associava a transformação, a busca pela ruptura de velhos paradigmas, e Weber para mim era alguém que buscava os sentidos e os rumos que a sociedade poderia ter.

Como três pensamentos distintos podem ter o poder de descrever o mundo?
Eu achava isso incrível e por vezes tentei desconstruir as “casas dos 3 porquinhos” com o lobo mal da realidade. Mas sempre uma das “casas -teorias” deles ficava em pé.



Analogia que eu fazia com o conto dos três porquinhos, que cada um construiu uma casa de material diferente buscando se resolver o mesmo problema, o lobo mal que para mim era a realidade, que destrói todo e qualquer idealismo ou pretensa visão de mundo que tente confinar a realidade.

Mas aquelas cores?

Depois descobri que aqueles pontos eram pixels, e que cada um deles contém as três cores: azul, verde e vermelho e que combinando tonalidades dos três pontos é possível exibir pouco mais de 16.7 milhões de cores diferentes. Foi então que as coisas começaram a fazer mais sentido.

Da mesma forma que somente três cores tinham a capacidade de representar a realidade, os clássicos conseguiam representar de alguma forma uma teoria social que mostraria a realidade nem que fosse de maneira desbotada.




Entendi que a habilidade das três teorias clássicas consiste justamente na capacidade delas de serem distintas entre si. Assim como na história dos três porquinhos, duas das três casas poderiam cair, mas pelo menos uma vai ficar de pé e dar conta do recado de pelo menos igualar força com a realidade cruel do lobo mal.

Fonte: Blog Ciência Social Ceará

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A guerra civil de 1893-1895



O Rio Grande do Sul entrou na fase do conflito armado a partir de fevereiro de 1893. A guerra civil durou exatos 31 meses, até agosto de 1895. Morreram cerca de 12 mil pessoas, numa população estimada de um milhão de sul-rio-grandenses.

É considerada a mais bárbara das revoluções americanas, não só pelo número de mortos, mas pela brutalidade e extensão do conflito que incluiu a eliminação quase completa dos prisioneiros, que eram degolados (na foto, o célebre degolador Adão Latorre exibe a sua perícia macabra) impiedosamente pelo adversário, de ambos os lados. Existem relatos de que cerca de trezentos prisioneiros de determinada batalha tenham sido degolados após cessados os combates. Não existiam prisioneiros de guerra, neste sentido.

A guerra civil de 1893 resultou do conflito de dois setores bem identificados da elite político-econômica sulina. De um lado, os federalistas (ou maragatos, ou quero-queros, ou gasparistas), de outro, os republicanos (ou chimangos, ou pica-paus, ou castilhistas). De um lado o retórico, vaidoso e tagarela Gaspar da Silveira Martins, que segundo o insuspeito historiador oficialista Darcy Azambuja, não tinha “maiores preocupações doutrinárias” e o máximo de pensamento a que alcançou resume-se numa frase tola: “idéias não são metais que se fundem”. De outro, Júlio de Castilhos, um convicto positivista comtiano, liderança forte e com objetivos definidos, marcado por planos universalizantes do papel do Estado e sobretudo pela busca da modernização das relações sociais, tudo isso embalado numa personalidade austera e incorruptível, uma espécie de Robespierre pampeano.

Todos sabem que venceu o grupo castilhista, representado pelo Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Castilhos foi sucedido em 1898 por Borges de Medeiros, da mesma linhagem castilhista-comtiana, que saiu do poder somente em 1928. A revolução de 93 ainda teria recaídas em 1923 e 1924, sempre com os mesmos antagonistas de classe e os mesmos motivos sócio-econômicos e de poder.

Que rivalidades tão profundas eram essas?

É o velho e eterno embate entre o moderno e o arcaico. Curiosamente, um líder saído deste “laboratório” meridional da modernidade brasileira, Getúlio Vargas, um militante do PRR, é que vai promover a partir de 1930 um novo Brasil, mais ajustado às exigências do século 20. No Rio Grande do Sul, no final do século 19, se gestou, então, com muita dor e sangue, o que viria a ser o País em grande parte do século 20, pelo menos – segundo alguns estudiosos – até o advento de Collor e Fernando Henrique, que cortam em definitivo as amarras sócio-institucionais criadas e mantidas pela Era Vargas (1930-1954).

A vanguarda republicano-castilhistas-borgistas (chimangos) fez a parte da revolução burguesa no País. Florestan Fernandes diz que “a Revolução Burguesa [brasileira] não constitui um episódio histórico” definido singularmente, marcado e datado. O caso brasileiro, segundo Florestan, foi um longo processo de absorção de “um padrão estrutural e dinâmico de organização da economia, da sociedade e da cultura”. Já no Rio Grande, a revolução de 93 é o ponto – sim – inaugural da revolução burguesa na região mais meridional do Brasil.

Fonte: Blog Diário Gauche

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Os Melhores do Mundo - Hermanoteu na Terra de Godah - Espetáculo completo-DVD.




Fonte: Youtube

MANIFESTO CONTRA O TRADICIONALISMO

I - Em defesa de uma cultura e de uma estética correspondentes à memória e à história do Rio Grande do Sul.

O Rio Grande do Sul é um estado da federação brasileira resultante de um longo processo histórico de conquista e ocupação, no âmbito da geopolítica colonial, na disputa territorial entre Portugal e Espanha. O território foi consolidado em suas dimensões definitivas no período imperial e teve pequenas áreas ajustadas na República Velha.

Em todo o ciclo histórico, observou-se o esforço de vidas humanas e material para a construção de um espaço luso-brasileiro nos séculos iniciais, e brasileiro, com a Independência, a partir de 1822. A população do Rio Grande concorreu para a invenção do Brasil soberano. Nesse ato, passou a ter uma identidade e a pertencer a um Estado-nação. Historicamente, a escolha rio-grandense foi pelo seu pertencimento brasileiro, rompendo com Portugal e tendo a América espanhola como sua alteridade.

Concorreram para a conquista, ocupação e formação da sociedade sulina indivíduos de diversos grupos sociais e étnicos, genericamente identificados como: portugueses, índios, negros, mamelucos, cafuzos, mestiços da terra; espanhóis, uruguaios, argentinos, paraguaios, que escolheram permanecer na terra independentemente dos tratados divisórios; imigrantes de projetos de colonização ou que se aventuraram individualmente, em especial, advindos de territórios atualmente inseridos na territorialidade da Alemanha, Itália, Polônia, Rússia, Ucrânia, Espanha, França, etc.

Ao longo do tempo, o rio-grandense se formou através da inserção em uma identidade política, na composição da brasilidade e da naturalidade regionalizada e fronteiriça. E no cotidiano, através da vivência de todas as culturas, hábitos e costumes de origem, reelaborados na dinâmica da convivência.

Nesse processo de formação, em diversos de seus setores, ocorreu um involucramento com a sociedade e a cultura platina e latino-americana.

Historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico.

Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem. Um estado onde as fronteiras internas são evidentes.

Portanto, só é legítima a cultura que representar esta diversidade.

Conseqüentemente, é ilegítimo todo o movimento ou iniciativa doutrinária de orientação pública ou particular que não represente a complexidade social e cultural do estado.

É alienante e escapista todo o movimento que impede e atua através de instrumentos de coerção cultural, midiático ou econômico, com o objetivo de dificultar os desenvolvimentos culturais e estéticos que tomam os indivíduos e as realidades contemporâneas como matérias de suas criações e vivências estéticas.

É repressor todo o movimento que milita através do governo, da educação, da economia e da mídia, para fechar os espaços das manifestações artísticas, das representações simbólicas e das inquietações filosóficas sobre os múltiplos aspectos do Rio Grande do Sul.

É doutrinador e usurpador do direito individual todo o movimento organizado que impõe modelos de comportamento fora de seu espaço privado, se auto-elegendo como arquétipo de uma moralidade para toda a sociedade.

Nessa direção, consideramos como legítimas as manifestações que tomam os rio-grandenses em suas complexidades históricas e culturais, dimensionados em seus tempos sociais, e que transformam, em especial, a sociedade contemporânea como expressões de suas criações estéticas, formulações teóricas e inquietações existenciais.

Somos, em razão disso, contra todas as forças que dogmatizam, embretam, engessam, imobilizam a cultura e o saber em "expressões" canonizadas em um espaço simbólico de revigoramento e opressão a partir de um "mito fundante", inventando um imaginário para atender interesses contemporâneos e questionáveis, geralmente identificados pela história como farsa e inexistência concreta. Consideramos que todo o processo de invenção e sustentação de uma visão "mitologizada" objetiva, unicamente, atender interesses atuais; é uma forma de militância que recorre à fábula, a ressignificação de rituais, hábitos e costumes, como forma de "legitimação" de causas particulares como se fossem "tradições" coletivas.

II - Em defesa de uma racionalidade sobre a história do Rio Grande do Sul, de equivalência para todos os construtores de nossa sociedade, de equiparação e direito para todas as manifestações culturais, de inclusão multicultural e respeito às heranças étnicas, sem que todas essas expressões sejam diluídas em um gauchismo pilchado de civismo ufanista, ideológico e manipulador dos mais sinceros sentimentos do povo.

Fundamentados nos princípios acima e nos demais existentes no transcurso deste manifesto, identificamos o MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO (MTG) como o principal instrumento de negação e destruição desses traços culturais e direitos fundamentais do povo rio-grandense.

Nossa posição se fundamenta nos seguintes argumentos:

1.. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, especialmente porque, em sua cruzada unificadora, construiu uma idéia vitoriosa de "rio-grandense autêntico", pilchado e tradicionalista, criando uma espécie de discriminação, como se a maioria da população tivesse uma cidadania de segunda ordem, como "estrangeira" no "estado templário" produzido fantasiosamente pela ideologia tradicionalista.

2.. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, por identificá-lo como um movimento ideológico-cultural, com uma visão conservadora e ilusória sobre o Rio Grande, cujo sucesso se deve, em especial, à manipulação e ressignificação de patrimônios genuínos do povo, pertencentes aos seus hábitos e costumes.

3.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é a Tradição, mas se arrogou de seu representante e a transformou em elemento de sua construção simbólica, distorcendo-a, manipulando-a, inserindo-a em uma rede gauchesca aculturadora, sem respeito às tradições genuinamente representativas das diversidades dos grupos sociais.

4.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é Folclore, mas o caducou dentro de invernadas artísticas e retirou dele seus aspectos dinâmicos e pedagógicos; o seu apresilhamento ao espírito e ao sentido do pilchamento do estado está destruindo o Folclore do Rio Grande do Sul.

5.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele é um movimento organizado na sociedade civil, de natureza privada, mas que desenvolveu uma hábil estratégia de ocupação dos órgãos do Estado, da Educação e de controle da programação da mídia, conseguindo produzir a ilusão de que o tradicionalismo é oficialmente a genuína cultura e a identidade do Rio Grande do Sul. A "representação" tomou o lugar da realidade.

6.. Somos contra o Tradicionalismo, porque, insensível à história e à constituição multicultural do Rio Grande do Sul, através de procedimentos normativos, embretou o rio-grandense em uma representação simbólica pilchada.

7.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele criou um calendário de eventos e, através de seus prepostos, aprovou leis que "reconhecem" o próprio tradicionalista como modelo gentílico, apesar de ser, em verdade, um ente contemporâneo, sem enraizamento histórico e cultural.

8.. Somos contra o Tradicionalismo porque identificamos nele a criação de instrumentos normativos usurpadores, com a ambição de exercer um controle sobre a população, multiplicando a cultura da "patronagem", com a reprodução de milhares de caudilhetes que tiranizam os grupos sociais em seu cotidiano. Tiranetes que, com sua truculência, ditam regras "estéticas" e limitam os espaços da arte e da cultura, lançando o preconceito estigmatizador, pejorativo e excludente, sobre formas de comportamento e manifestações artísticas inovadoras ou sobre concepções do regional, diferentes da matriz "cetegista", mesmo quando essas manifestações surgem no interior do próprio Tradicionalismo.

9.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele instrumentaliza política e culturalmente uma visão unificadora, como se a origem identitária do Rio Grande estivesse no movimento da "minoria farroupilha", falseando sobre a sua natureza "republicana", elencando um panteão de "heróis" latifundiários e senhores de escravos, como se fossem entes tutelares a serem venerados pelas gerações atuais e vindouras.

10.. Somos contra o Tradicionalismo, por ele se fazer passar por uma Tradição, desmentida pela própria história de sua origem, ao ser inventado através de uma bucólica reunião de estudantes secundaristas, em 1947, no colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

11.. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele se transformou em força institucional e "popular", em cultura oficial, através dos prepostos da Ditadura Militar no Rio Grande do Sul.

a) Na verdade, em 1964, o Tradicionalismo foi incluído no projeto cultural da Ditadura Militar, pois o "Folclore", como fenômeno que não pensa o presente, serviu de alternativa estatal à contundência do movimento nacional-popular, que colocou o povo e seus problemas reais no centro das preocupações culturais e políticas.

b) O Tradicionalismo usurpou, assim mesmo, o lugar do Folclore, e se beneficiou do decreto do general Humberto Castelo Branco, de 1965, que criou o Dia Nacional do Folclore, e suas políticas sucedâneas. A difusão de espaços tradicionalistas no Estado e as multiplicações dos galpões crioulos nos quartéis do Exército e da Brigada Militar são fenômenos dessa aliança.

c) A lei que instituiu a "Semana Farroupilha" é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.).

d) Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única "representação" com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão.

e) Enquanto as demais esferas da cultura eram perseguidas, seus representantes censurados, presos, torturados e mortos, o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura - seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na "federalização" autoritária, com um centro dominador (ao estilo do positivismo), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação. Enquanto o general Médici, de Bagé, era o patrão da Ditadura e responsável, juntamente com seu grupo, pelos trágicos anos de chumbo que enlutaram o Brasil na tortura, na execução, na submissão à censura, na expulsão de milhares de brasileiros para o exílio, os tradicionalistas bailavam pelos salões do poder. Paradoxalmente, enquanto muitos freqüentadores de CTGs eram perseguidos ou impedidos de transitarem suas idéias políticas no âmbito de suas entidades, o Tradicionalismo oficialista atrelou o movimento ao poder, pervertendo o sentimento de milhares de pessoas que nele ingressaram motivados por autênticos sentimentos lúdicos de pertencimento e identidade fraterna.

f) Através da relação de intimidade com a ditadura, o MTG conseguiu "criar" órgãos estatais de invenção, difusão e educação tradicionalista, ao mesmo tempo em que entregou, ou reservou diversos cargos "públicos", para seus ideólogos, sob os títulos de "folclorista", "assessor cultural", etc.

g) O auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF - Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe grande diferença. Havia um interesse perverso e não revelado. A constituição do quadro de pessoal, ao contrário da inclusão de antropólogos, historiadores da cultura, pessoas habilitadas para a tarefa (que deveriam ser selecionadas por concurso público), o critério preponderante para assumir os cargos era, antes de tudo, a condição de tradicionalista. Assim, um órgão de pesquisa, mantido pelo dinheiro público, transformou-se em mais uma mangueira do MTG. Com o passar dos anos, os governos que tentaram arejar o IGTF, indicando dirigentes menos dogmáticos, invariavelmente, entraram em tensão com o MTG.

h) Essa rede de usurpação do público pelo Tradicionalismo, por fim, atingiu a força de uma imanência incontrolável. Em 1985, já na redemocratização, o MTG conseguiu que a Assembléia Legislativa instituísse o Dia do Gaúcho, adotando como tipo ideal o "modelo" tradicionalista.

i) Em 1988, com uma manipulação jamais vista na vida republicana, o MTG se mobilizou pela aprovação da lei estadual que estabeleceu a "obrigatoriedade do Ensino de Folclore"; na regulamentação, a lei determinou que o IGTF exercesse a função de "suporte técnico", sem capacitá-lo pedagogicamente. De fato, passou a ocorrer uma relação direta entre as escolas e os CTGs. Dessa maneira, o Tradicionalismo entrou no sistema educacional, transgredindo a natureza da escola republicana como lugar de estudo e saber, e não de culto e reprodução de manuais. Hoje, os alunos são adestrados pela pedagogia de aculturação e cultuação tradicionalista.

j) Por fim, em 1989, a roupa tradicionalista recebeu o nome de "pilcha gaúcha", e foi convertida em traje oficial do RS, conforme determinação do MTG.

12.. O grande poncho do MTG, por derradeiro, foi tecido pela oficialização dos símbolos rio-grandenses, emanados diretamente do simulacro da "república" dos farroupilhas.
III - Em defesa de uma cultura que respeite os tempos de registro histórico-cultural e de representação contemporânea e sua densidade histórica.

13.. Somos contra o MTG, porque consideramos indispensável para a cultura regional distinguir os fenômenos da história dos da memória, identificar os eventos em seus tempos históricos e desenvolver um conhecimento em que os tempos históricos não sejam diluídos nas celebrações contemporâneas e seus interesses ideológicos, culturais e econômicos. A "institucionalização" de uma cultura cívica e de lazer tradicionalista como "legitimidade", reforçada e inserida na indústria cultural pilchada, impõe uma visão da sociedade e do passado, segundo a ótica dos interesses dos indivíduos que operam socialmente na atualidade. Através dessa falsa "historicidade", eles se legitimam como "autênticos" e podem especular com este inventivo "selo de qualidade".

14.. Somos contra o MTG, porque a sua atividade de militância "aculturadora", ressignificando símbolos, ícones, eventos históricos, em um espaço praticado e imaginado como o ethos de uma estância atemporal, empobrece culturalmente o Rio Grande do Sul e, de fato, relega etnias e grupos sociais, historicamente importantes, à massa dos "sem-simbologia".

15.. Somos contra o MTG, porque o seu controle e patrulhamento vigora sobre a sociedade como um espectro opressivo, em muitos casos como uma maldição, como uma ameaça punitiva, desclassificativa daqueles que não ideologizam as pilchas ou não se enquadram nos modelos "humanos", geralmente caricaturais, decretados pelo MTG.

16.. Somos contra o MTG, porque aqueles que se libertam de sua doutrina, depois do longo processo de adestramento, geralmente iniciado na infância, enfrentam traumas de identidade, especialmente ao descobrirem suas "versões manipulatórias" da história, como a de que o povo do Rio Grande do Sul se levantou contra o Império, ou que os farroupilhas eram republicanos.

17.. Somos contra o MTG, porque ele pratica a demência cronológica e estatística, impondo a deturpação de que o povo se levantou contra o Império e os imigrantes e seus descendentes também cultuaram a Revolução Farroupilha, quando, quase em sua totalidade, sequer estavam no RS entre 1835 e 1845. Se um dia aportaram no Brasil, isso se deve ao projeto de colonização do Império. Os projetos de colonização fundamentais, que contribuíram para a formação do Rio Grande do Sul contemporâneo, não pertenceram aos farroupilhas.

18.. Somos contra o MTG, porque ele ajudou a instituir e alimenta em seu calendário de celebrações, nas escolas, na mídia, um panteão de "heróis", na sua maioria senhores de escravos.

19.. Somos contra o MTG, porque ele é uma força militante ideológica e cultural que trabalha contra a criação de uma mentalidade ilustrada; a transposição para o presente de personagens do antigo regime, como "lumes tutelares" a serem adorados, impediu que se fizesse, nesse particular, um movimento cultural com a densidade dos princípios consagrados pela Revolução Burguesa.

20.. Somos contra o MTG, por ele ter transformado a população em adoradora de senhores de escravos (no geral, sem saberem).

21.. Somos contra o MTG, especialmente, porque defendemos o RS da inclusão, da convivência multicultural, de todas as indumentárias, de todos os ritmos, de todas as danças, de todas as emoções, de todos os trabalhos e ofícios, de poéticas de múltiplos espaços, e não da territorialidade simbólica exclusiva do pampa.

22.. Somos contra o MTG, porque desejamos construir espaços poéticos que representem também a complexidade de nosso tempo.

23.. Somos contra o MTG, porque, em defesa dos postulados da liberdade de criação e de comportamento, do saber sobre o culto inócuo e ideologicamente manipulador, o identificamos como o instrumento preponderante de negação dos direitos elementares da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

24.. Somos contra o MTG, por se tratar de um movimento de interesse hegemonizador sobre a sociedade sul-rio-grandense, de caráter privado, que transgride a sua esfera particular, para operar um autoritarismo de conversão dogmática da população a um estilo gauchesco, inventado e normatizado por seus membros, como expressão estilística de um pretenso gentílico de conteúdo e forma cívico-ufanista.

25.. Somos contra o MTG, porque, ao se transformar arbitrária e oficialmente em uma imagem gentílica, se converteu em um movimento de intolerância cultural no Rio Grande do Sul e em outras regiões do Brasil e do mundo, através de instalações de CTGs que não respeitam as culturas locais, que invadem como intrusos localidades de tradições milenares, usurpando seus espaços, destruindo sua poética popular e deturpando sua arquitetura. Nessa operação, o Tradicionalismo não é uma "representação" aceitável da cultura sulina, mas o instrumento de uma "aculturação", da não inserção dos grupos migrantes nas culturas locais, transformando-se, de fato, em agente de destruição.

26.. Somos contra o MTG, porque, ao se converter em uma representação do Rio Grande do Sul e exercitar sua arrogância aculturadora em outros espaços sócio-culturais, fazendo uma escolha pela não inserção e respeito às populações do restante do Brasil e do mundo, está desencadeando movimentos de reação discriminatória contra os "gaúchos". Devido às posturas dos tradicionalistas, tornam-se cada vez mais freqüentes campanhas populares de "Fora gaúchos" em outros estados da federação, confundindo os "tradicionalistas" com os "rio-grandenses", jogando sobre o povo do RS um estigma motivado unicamente pelo "cetegismo". Essa militância tradicionalista contribui, de fato, para a difusão da intolerância na população sulina.

27.. Somos contra o MTG, por considerá-lo agente de um dano irreparável à maioria dos sul-rio-grandenses frente ao Brasil, pois defendemos princípios de identidades regionais harmonizados com as genuínas culturas locais das demais regiões brasileiras.

28.. Somos contra o MTG, por ele se apresentar militantemente em outras unidades da federação, em seu extremo, como uma "etnia gaúcha", deturpando a formação multi-étnica sul-rio-grandense, e ofendendo, além de tudo, os conceitos mais elementares da Antropologia.

29.. Somos contra o MTG devido a sua soberba de pressionar outros estados brasileiros para adotar a "pilcha gauchesca" como traje oficial, produzindo ainda maior rejeição aos sul-rio-grandenses.

30.. Somos contra o MTG no Rio Grande do Sul e nos demais estados brasileiros pela sua articulação incessante para se transformar na cultura oficial, ou ser reconhecido como "uma representação externa", e desejar se constituir em guardião dos símbolos, dos ícones e do imaginário do povo.

31.. Somos contra o MTG, porque, como entidade privada, ele tange, em sua arreada intolerante, grande parte das verbas públicas dos setores da cultura, da educação, do turismo, da publicidade e da Lei de Incentivo à Cultura das empresas estatais, fundações e autarquias, para o seu imenso calendário de eventos, onde, nem sempre, se distingue a cultura do turismo e do lazer.

a) Em defesa da cultura rio-grandense postulamos pela instalação de uma CPI na Assembléia Legislativa, para investigar a transferência de verbas e infra-estruturas públicas para as atividades tradicionalistas, o que caracteriza flagrantemente uma usurpação do patrimônio público.

b) Reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Cultura, para discutir a canalização da LIC para um excessivo predomínio de projetos tradicionalistas, muitos de caráter turístico e de lazer, iludindo a natureza da Lei.

c) Alertamos e igualmente reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Educação, para discutir a deturpação dos currículos e dos princípios de Educação Pública, em conseqüência da infestação, da usurpação e da distorção pedagógica representada pela invasão tradicionalista nas escolas, substituindo os preceitos do "saber", do "estudar", pelo "culto" e pelos "manuais" tradicionalistas. O indicativo dessa distorção e atropelo obscurantista é a transformação do próprio espaço escolar, com a criação de "piquetes" e "invernadas artísticas". Essa situação revela a falência pedagógica da escola, o abandono de sua natureza laica e republicana. Os alunos são induzidos a comportamentos e práticas dogmáticas, adestradoras, apresilhados a uma identidade questionável, originada em um mito fundante. Essa escola doutrinariamente cívica, "gentílica" e de "orgulho gaúcho" exercita a fé, a pertença alienada. Ela significa a falência da Educação. Por essa razão, reconhecemos como legítima a revolta daqueles professores que rejeitam a sua conversão em instrumentos de realização do calendário tradicionalista, como se fossem meros executores de seus manuais dentro dos educandários. Reconhecemos como legítima a resistência dos professores às pressões para serem transformados em pregadores pelas direções, pelo poder e por alguns ciclos de país e mestres, pois esse enquadramento significa a negação de suas funções constitucionais de educadores.

32.. Somos contra o MTG, porque, entre todas as suas deturpações, a mais grave é representada pela sua própria oficialização, cujo corolário é a ambição de instituir como "legalidade" a sua versão da história, através de uma legislação introduzida progressivamente na esfera pública. Em alguns processos judiciais contra pessoas transformadas em réus, por terem feito crítica ao Tradicionalismo ou aos seus atos, os advogados do MTG argumentam com "base" em leis que os parlamentares tradicionalistas criaram, em decretos de seus executivos, em "epistolas" de seus ideólogos.

33.. Somos contra o MTG, porque, devido à sua ação de controle cultural, uso das verbas públicas, interferência nos currículos escolares, vigilância sobre os meios de comunicação, imposição manipulatória de uma idéia de "história" que converteu em "heróis" senhores de escravos, sua hegemonia e operação militante no Estado, na sociedade civil e no senso comum, contribui para a mediocrização do Rio Grande do Sul em seus aspectos culturais, de inserção moderna e respeitosa no Brasil e na América, produzindo uma incapacidade de leitura crítica da sociedade rio-grandense e do mundo. Nas últimas décadas, os acontecimentos culturais populares importantes se constituíram na relação e na contradição com o Tradicionalismo. Na maioria dos casos tiveram que superá-lo, ou negá-lo, para sobreviverem e afirmarem os seus espaços estéticos.

34.. Somos contra o MTG em sua usurpação do público, mas, por outro lado, ainda como manifestação de nossos princípios republicanos, defendemos o MTG quanto ao seu direito privado, ao seu exclusivo espaço cultural, à noção de que ele é apenas um segmento interpretativo da história e da cultura do Rio Grande do Sul, sem que as suas convicções singulares tenham a ambição e a ação militante ilegítima de "aculturação" das demais esferas sociais e culturais do estado, sem que se coloque no topo de uma hierarquia dominante e exclusivamente gauchesca da identidade.

35.. Somos contra o MTG, exclusivamente, no que tange à usurpação das esferas públicas e à coerção de nossos direitos civis, culturais e estéticos.

36.. Somos contra o MTG, porque identificamos nele a alimentação de uma sinergia cultural que atolou o Rio Grande do Sul no passadismo conservador, criando uma força de pertencimento que bloqueia o desenvolvimento de uma energia socialmente humana moderna, humanista, republicana, respeitosa com os sentimentos historicamente multiculturais da população rio-grandense.

37.. Somos contra o MTG, porque nos sentimos reprimidos, cerceados e vitimizados, cultural e profissionalmente, por ele, identificando-o como uma força militantemente dogmática contra os nossos direitos e cidadania.

38.. Somos contra o MTG, porque defendemos o Folclore representativo da nossa multiplicidade étnica, consideramos as frações da Tradição que expressam as relações humanizadas e o espírito solidário do povo sul-rio-grandense, a Cultura Popular, os espaços efetivos para uma cultura que expresse nossa historicidade, desde o passado até a atualidade, e, principalmente, porque postulamos uma estética sem embretamentos, capaz de apreender a complexidade regional com suas particularidades e conexões universais.

Rio Grande do Sul, março de 2007.

Fonte: Blog Gauchismos

Traição farroupilha

Artigo publicado na REVISTA DE HISTORIA

Documento que revela massacre de soldados negros por líderes farroupilhas gera polêmica até hoje

Os gaúchos festejam no dia 20 de setembro o aniversário da Revolução Farroupilha. Entre discursos de parlamentares e exaltações nas redes sociais, uma polêmica sobre a Guerra dos Farrapos permanece até hoje: teria o líder farroupilha Davi Canabarro (1796-1867) traído os soldados – em sua maioria, negros sonhando com a alforria à mão armada?
No artigo publicado na edição de outubro do ano passado da Revista de História da Biblioteca Nacional, os historiadores Vinicius Pereira de Oliveira e Cristian Jobi Salaini (*) narram o derradeiro ataque das tropas imperiais aos soldados rebeldes nos meses finais da Guerra dos Farrapos, na madrugada do dia 14 de novembro de 1844. Comandado pelo coronel Francisco Pedro de Abreu (1811-1891), o Moringue, o exército surpreendeu o acampamento farroupilha nas imediações do Cerro de Porongos, no atual município de Pinheiro Machado, no estado do Rio Grande do Sul, resultando na morte e na prisão de muitos. Em sua maioria, eram lanceiros negros, escravos que lutavam no exército farroupilha em troca da promessa de alforria. Anos depois, a divulgação de um documento que ficaria conhecido como Carta de Porongos, revelando um suposto acordo entre lideranças militares para dizimar esses lanceiros, inicia uma controvérsia que gera polêmica até hoje.

A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha (1835-1845), foi o maior dos conflitos internos enfrentados pelo governo imperial. Durante dez anos, uma parcela da elite pecuarista rio-grandense, motivada por fatores políticos e econômicos, sustentou uma revolta contra o poder imperial, chegando a proclamar a República Rio-Grandense em 1836.

Alforria à mão armada

Para arregimentar soldados, os farroupilhas incorporaram escravos às suas fileiras, prometendo em troca a liberdade após o fim do conflito. De olho na alforria, alguns negros fugiram das propriedades onde eram mantidos escravos para aderir à luta. Outros foram cedidos por senhores de terra que apoiavam a revolução. Já senhores contrários ao movimento podiam ter seus escravos capturados à força, como aconteceu nas charqueadas – propriedades rurais onde se produz o charque (carne salgada) – de Pelotas.

Estima-se que em alguns momentos os lanceiros negros, como ficaram conhecidos estes soldados, tenham representado metade do exército rio-grandense. O africano José, de nação angola, foi um desses homens que sonharam em conquistar a liberdade pegando em armas. Em dezembro de 1837, José foi preso e interrogado pelas autoridades imperiais em Porto Alegre, informando que quase toda a “infantaria dos brancos” já havia desertado e que naquele momento os combatentes seriam quase exclusivamente “pretos, uns com armas e outros com lanças”. Estas eram as principais armas do conflito, já que as de fogo ficaram restritas a uma minoria. Além disso, pelo próprio caráter de guerra móvel, muitas vezes os lanceiros negros entravam nos batalhões sem maiores treinamentos.


Acordo para tratado de paz

No final da década de 1850, o político, charqueador e ex-líder farroupilha Domingos José de Almeida (1797-1859) denunciou publicamente o conteúdo da correspondência que teria sido enviada pelo então barão de Caxias (1803-1880) a Francisco Pedro de Abreu. A Carta de Porongos conteria evidências de um acordo prévio entre Caxias (comandante do Exército imperial no conflito) e o líder farroupilha Davi Canabarro (1796-1867). O objetivo seria favorecer a vitória imperial no combate do Cerro de Porongos. Em determinado trecho, Caxias informaria a Francisco Pedro o local, o dia e o horário para o ataque, garantindo-lhe que a infantaria farroupilha estaria desarmada pelos seus líderes.

A partir de então, o Combate de Porongos gerou uma acalorada controvérsia entre os historiadores e estudiosos que se debruçaram sobre o tema da Guerra dos Farrapos. Com base na Carta de Porongos, surgiram acusações de que o general Davi Canabarro – comandante do destacamento de negros – teria traído a causa farroupilha ao desarmar e facilitar a derrota dos lanceiros. Essa atitude teria como objetivo facilitar a assinatura do tratado de paz que vinha sendo negociado, já que o governo imperial era contra a ideia farroupilha de conceder a alforria aos escravos que lutaram como soldados. Por outro lado, negar a liberdade e mandar os lanceiros de volta às senzalas era algo não cogitado nem por alguns farroupilhas, devido ao temor de que um grande contingente de escravos militarizados, politizados e insatisfeitos com o não cumprimento da prometida alforria insuflasse levantes – a quantidade de escravos na província do Rio Grande do Sul em 1846, um ano após o término da Guerra dos Farrapos, correspondia a 20,9% da população.

Relatos da época, como o de Manuel Alves da Silva Caldeira, farroupilha presente em Porongos, afirmam que Canabarro teria sido avisado da aproximação de tropas inimigas e, mesmo assim, não teria tomado providência alguma. Pelo contrário, teria propositalmente desarmado e separado os lanceiros do resto das tropas acampadas perto do Cerro de Porongos. Dando crédito a estes argumentos, o episódio teria sido uma traição aos soldados negros.

Documento questionado

A autenticidade da Carta de Porongos, no entanto, é questionada por alguns estudiosos, já que a versão que se tornou pública é uma cópia, e a original nunca foi encontrada. Uma das explicações é que o documento teria sido forjado pelo coronel Francisco Pedro de Abreu após o combate para desmoralizar Canabarro, único chefe farroupilha que ainda teria condições de reaglutinar as desgastadas forças rebeldes. Félix de Azambuja Rangel, subordinado ao coronel Francisco Pedro, afirma ter presenciado o momento em que seu comandante levou a carta para Caxias assinar e em seguida distribuir cópias entre os adversários. Por essa versão, os lanceiros negros não teriam sido traídos, e sim pegos de surpresa pelas tropas imperiais, assim como seus comandantes.

Parece haver consenso entre os pesquisadores de que os lanceiros foram atacados em condições extremamente desfavoráveis, com inferioridade de armamentos, e que acabaram eliminados em quantidade considerável.

Somente nos últimos anos a importância e a dimensão da participação negra neste conflito têm recebido maior atenção. Hoje é possível afirmar com segurança que negros, índios e mestiços desempenharam papel fundamental na Guerra dos Farrapos não somente como soldados, mas também trabalhando em diversos outros setores importantes da economia de guerra, como nas estâncias de gado, na fabricação de pólvora e nas plantações de fumo e erva-mate cultivadas pelos rebeldes.

Promessas não cumpridas

Apesar das promessas, em nenhum momento a República Rio-Grandense libertou seus escravos. A questão da abolição era controversa entre seus líderes. Ao mesmo tempo em que o governo rebelde prometia liberdade aos escravos engajados e condenava a continuidade do tráfico de escravos, seu jornal oficial, O Povo, estampava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolição por meio de projeto apresentado na Assembleia Constituinte de 1842 por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Anos após o fim do conflito, vários líderes farroupilhas ainda tinham escravos, como Bento Gonçalves (1788-1847), que morreu deixando 53 cativos para seus herdeiros.

O destino dos lanceiros negros no fim do conflito também é tema controverso. As negociações de paz, que resultaram na assinatura do Tratado de Ponche Verde em 1845, definiram que os escravos ainda engajados deveriam ser entregues ao barão de Caxias e reconhecidos como livres pelo Império. Sabe-se que, juntamente com outro grupo feito prisioneiro em batalhas, foram enviados ainda em 1845 para o Rio de Janeiro na condição de libertos, como noticiaram o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro de 26 de agosto daquele ano. Se de fato receberam a liberdade ao chegarem a seu destino, não se tem certeza. O ex-farroupilha Manuel Caldeira levantou suspeitas de que tenham sido novamente escravizados e levados para a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, agora como propriedade do Estado.

Alguns soldados negros podem ainda, ao longo do conflito, ter escapado para o Uruguai, formado quilombos ou mesmo buscado refúgio nas cidades, onde tentaram se passar por homens livres. Muitos permaneceram escravos no próprio Rio Grande do Sul. Um sobrinho-neto do general Antônio de Souza Netto (1801-1866) relata que, após a batalha de Porongos, uma parte dos lanceiros negros teria acompanhado seu antepassado farroupilha até sua propriedade no Uruguai, e que descendentes destes soldados viveriam até hoje nessa área rural conhecida como Estância “La Gloria”, na região de Paissandu.


* Vinicius Pereira de Oliveira é autor de De Manoel Congo a Manoel de Paula: um africano ladino em terras meridionais (EST Edições, 2006); Cristian Jobi Salaini é autor da dissertação “Nossos heróis não morreram: um estudo antropológico sobre as formas de ‘ser negro’ e de ‘ser gaúcho’ no estado do Rio Grande do Sul” (UFRGS, 2006).


Saiba Mais - Bibliografia

CARRION, Raul K. M. “Os lanceiros negros na Guerra dos Farrapos”. In: Ciências e Letras nº 37, jan. 2005. Porto Alegre: Faculdade Porto-Alegrense de Educação.

CARVALHO, Daniela Vallandro de; OLIVEIRA, Vinicius Pereira de. “Os lanceiros Francisco Cabinda, João Aleijado, preto Antônio e outros personagens negros na Guerra dos Farrapos”. In: SILVA, Gilberto F.; SANTOS, José A. dos (orgs). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.

FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha: traição em Porongos e farsa em Ponche Verde. Porto Alegre: EST Edições, 2004.

LEITMAN, Spencer. “Negros farrapos: hipocrisia racial no sul do Brasil”. In: DACANAL, José Hildebrando. (org.). A Revolução Farroupilha: história e interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.


Saiba Mais - CD e DVD

BARCELLOS, Daisy M. (Et all.). Lanceiros Negros: herança de Porongos (DVD). Porto Alegre: Iphan/12ª Superintendência Regional, 2007.

BARCELLOS, Daisy M. (Et all.). Lanceiros Negros: guia de referências históricas (CD-ROM). Porto Alegre: Iphan/12ª Superintendência Regional, 2007.


Saiba Mais - Filme

“Netto perde sua alma”, de Tabajara Ruas e Beto Souza, 2001.

Saiba Mais - Internet

CARVALHO, Ana Paula Comin de. “O memorial dos lanceiros negros: disputas simbólicas, configurações de identidades e relações interétnicas no sul do Brasil”. In: Sociedade e cultura. Vol. 8, nº 2. Goiânia: UFG, 2005.
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/703/70380211.pdf


Fonte: Blog do Turquinho

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Frases que entraram para a História

Duela a quien duela (como diria Fernando Collor), o presidente João Batista Figueiredo é um dos maiores frasistas da História. Seu modo de reconstituir a realidade em palavras desconcertou os brasileiros – do final dos anos 70 à primeira metade dos 80. Como em 1979, quando perguntado por um garoto sobre o que faria se seu pai ganhasse o salário mínimo.

– Eu dava um tiro na cuca – respondeu o general, sem hesitar.

As palavras do último comandante do regime militar marcam um período do país. Da mesma forma, a frase “Saio da vida para entrar na História”, escrita por Getúlio Vargas em 1954 como legenda de seu suicídio, é o emblema de uma época.

Por meio das tiradas de políticos como Collor, Figueiredo ou Vargas e muitos outros, é possível vislumbrar as fases do Brasil. Engraçadas ou infelizes, estudadas ou involuntárias, sérias ou irônicas, as frases servem para recontar a biografia da República.
A era Vargas
Getúlio Vargas (1883-1954):
“Política é esperar o cavalo passar.”
“Voltarei nos braços do povo.”
“Saio da vida para entrar na História.”
Os anos JK
Juscelino Kubitschek (1902-1976):
Ao assumir a Presidência (1956). “Esta é a última seca que assola o Nordeste.”
A renúncia
Jânio Quadros (1917-1991):
“Fi-lo porque o quis.” (embora tenha passado para a História como se tivesse dito “Fi-lo porque qui-lo”)
A Legalidade
Leonel Brizola (nascido em 1922):
Pelo rádio, durante a Legalidade, em 1961. “Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul, venham para a frente deste palácio, numa demonstração de protesto contra esta loucura e este desatino.”
O Regime Militar
Marechal-presidente Humberto Castello Branco (1900-1967):
“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”

General-presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985):
“Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho.”

Ministro Alfredo Buzaid (1914-1991), da Justiça:
“Não há tortura no Brasil.”

Ulysses Guimarães (1916-1992):
Na Bahia, em 1978, quando a Polícia de Choque avançou com com cães. “Respeitem o líder da oposição!” Os soldados recuaram.

General-presidente João Batista Figueiredo (nasc. 1919):
“Durante muito tempo o gaúcho foi gigolô de vaca.”
“Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.”
“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
“Todo povo é uma besta que se deixa levar pelo cabresto.”
“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Confirmando a abertura política. “É para abrir mesmo. Quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento.”
Perguntado, em 1979, por um garoto, sobre o que faria se seu pai ganhasse o salário mínimo. “Eu dava um tiro na cuca.”
O colégio eleitoral
Tancredo Neves (1910-1985):
“Para a esquerda eu não vou. Não adianta empurrar. Ao dizer que campanha eleitoral era “uma luta para machos” e ser acusado de machista por uma deputada. “Não é nada disso, minha filha. Macho é hoje uma palavra unissex.”
Quando alguém tentou contar-lhe um segredo que “ninguém podia saber”. “Então não me conte. Se você, que é o dono do segredo, não consegue guardá-lo, imagine eu.”

Paulo Maluf (nasc. 1931):
“No Brasil, o político é veado, corno ou ladrão. A mim, escolheram como ladrão.”
A nova República
Ministro Dilson Funaro (1933-1989), da Fazenda, pai do Plano Cruzado:
“Vamos viver em outro mundo a partir de hoje.”

Deputado federal Roberto Cardoso Alves (nasc. 1927):
Sobre a votação do mandato de cinco anos para José Sarney. “É dando que se recebe.”

Luiz Inácio Lula da Silva (nasc. 1945):
“Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico.”

Roberto Campos (nasc. 1917):
Em artigo sobre os direitos femininos na Constituição, em 1988. “Elas gostam de apanhar.”

Presidente da Câmara, Ulysses Guimarães:
No discurso da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. “Eu tenho ódio e nojo à ditadura.”
A volta da eleição direta
Empresário Mário Amato (nasc. 1918):
“Se Lula ganhar esta eleição, 800 mil empresários vão deixar o país!”

Lula:
“Para se eleger, Brizola pisaria até no pescoço da mãe.”

Leonel Brizola:
Ao se aliar a Lula, no segundo turno, contra o candidato Fernando Collor. “Não seria fascinante fazer, agora, a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?”

Cardiologista Enéas Carneiro (nasc. 1938):
“Meu nome é Enéas.”
A era Collor
Fernando Collor (nasc. 1949):
No segundo turno, acusando Lula de planejar um calote na poupança. “Eu sou contra o calote e o ‘beijo’ que o meu adversário quer dar na dívida externa e na dívida interna – aí incluída a caderneta de poupança.”
“O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos.”
“A poupança é sagrada.”
“Vou liquidar o tigre da inflação com uma única bala!”
“Nesse presidente, ninguém coloca uma canga.”
“Eu tenho aquilo roxo!”
“Duela a quien duela.”
“Continuarei governando até o último dia de meu mandato.”
“Não me deixem só.”

Ministro Antônio Rogério Magri (nasc. 1941), do Trabalho:
Sobre o uso de carro oficial para levar sua cachorra ao veterinário. “A cachorra é um ser humano, e eu não hesitei.”
“Penso muito durante meus momentos de solidez.”

Primeira-dama Rosane Collor de Mello (nasc. 1963):
Sobre sua lua-de-mel. “Vamos passar 15 dias no Egito e depois vamos ao Cairo.”

Empresário PC Farias (1946-1996), tesoureiro da campanha de Collor:
“Se alguém queria me agradar com dinheiro, eu não tinha como recusar.”
“Sei bater o olho num sujeito e dizer se ele é honesto ou não.”
Violência
Paulo Maluf:
Na campanha para prefeito de São Paulo, em 1992. “Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata.”
Separatismo
Ciro Gomes (nasc. 1957):
Ao criticar os separatistas do Sul. “As pessoas que defendem isso têm um desvio homossexual.”
Eleições 94
Sociólogo Fernando Henrique Cardoso (nasc. 1931):
“Sou mulatinho, tenho um pé na cozinha. Não tenho preconceito.”
Governo FH
Ministro Íris Rezende (nasc. 1933), da Justiça:
“O crime, muitas vezes, é inevitável.”

Ministro Eliseu Padilha (nasc. 1945), dos Transportes: Comparando Pelé ao asfalto. “São dois pretos admirados por todo o Brasil.”


Fonte: Agência RBS/ Site Portal Terra

sábado, 17 de setembro de 2011

A ciência dos preços

Todo mundo sabe que promoções são truques para nos fazer gastar mais e que preços terminados em "99" são tática manjada. Mas a verdade é que elas - e tantas outras - funcionam e nos fazem comprar mais, consumir mais. E nos deixam mais felizes. Saiba por quê.

por Felipe Van Deursen


Um fuzileiro naval americano a serviço nas Filipinas quis comprar um cacho de bananas de um nativo que trabalhava perto da base. O sujeito vendia um cacho a 10 centavos e três por 35. O marine tentou explicar que o preço estava errado. "Veja, vou comprar um cacho. Aqui está uma moeda de 10", explicou. "Vou comprar um segundo cacho, aqui está outra moeda. Agora quero um terceiro, eis mais 10 centavos. Pronto! Três cachos por 30 centavos. Mas você queria me vender por 35!" O filipino o encarou. Parecia não entender. Só com insistência os militares conseguiram comprar os três cachos por 30. Com o passar dos dias, convenceram-no a vender três por 25, pois isso impulsionaria as vendas de banana.

O fuzileiro sentiu-se um gênio. E assim ficou por semanas, até encontrar o vendedor no centro da cidade - onde vendia o cacho a 3 centavos.

A anedota reúne algumas das mais populares práticas aplicadas para definir os preços das coisas. E a ciência busca compreender, por meio dessas táticas, as relações comportamentais entre consumidores, vendedores, números e valores para explicar por que esse relacionamento tem forte carga emocional. Quer ver? Pegue a 2.55, uma emblemática bolsa da Chanel. Ela pode custar cerca de R$ 6 mil e não parecer tão cara assim. Como? Nada a ver com o fato de a pessoa do outro lado da vitrine ser rica ou pobre. A explicação pode estar no caso de uma mera máquina caseira de fazer pão.


Preço âncora: é tudo relativo

A Williams-Sonoma, rede de lojas americana especializada em produtos para a cozinha, vendia uma máquina de pães por US$ 279. Foi um fracasso. Mesmo assim, lançou uma nova versão, pouco maior, a US$ 429. Novo fracasso. Mas algo curioso aconteceu: a partir de então as vendas do aparelho de US$ 279 dobraram. Isso é o que consultores de preço chamam de ancoragem, fenômeno em que, ao estimar o valor numérico de algo, as pessoas são inconscientemente influenciadas por outros números relacionados. Quer dizer, um eletrodoméstico custar US$ 279 pode soar extravagante. Mas, se o consumidor sabe que a versão um pouco maior é mais de 50% mais cara, o preço fica mais interessante.

A ancoragem foi descoberta em 1974 pelos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman - que chegaria a ganhar o Nobel de economia. "Kahneman contestou a teoria do Homo economicus, ser racional que sempre pensa em como maximizar seus interesses", diz Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios. "Pessoas não são tão racionais assim ao comprar."

Voltando à Chanel: em 2007, ela lançou uma bolsa de couro de jacaré, toda trabalhada em diamantes e ouro. Um luxo. Preço: US$ 260 mil. Perto dessa, a 2.55 - que além de tudo é um clássico da moda, com sua alça de corrente mundialmente imitada - vira pechincha.

A ancoragem é comum em lojas chiques e restaurantes caros. O Serendipity 3, de Nova York, tem no cardápio um sundae que custa R$ 1 580 bem perto de um cheese cake oferecido a R$ 35. Bela estratégia para convencer a clientela, enquanto espera uma celebridade aparecer no restaurante, a pagar pela sobremesa quase o preço de um prato principal.

Mas não é só lugar badalado que usa e abusa da psicologia dos preços. O prato-feito da esquina também. Muitas vezes ele o induz a escolher exatamente aquilo que quer que você escolha. Pense em um filé com fritas. Pequeno, R$ 15; médio, R$ 20; grande, R$ 22. Se a fome for grande, você tenderá a escolher o maior prato porque proporcionalmente ele é mais barato. O restaurante pode cobrar menos, pois a quantidade de comida no prato não interfere tanto assim no custo (há outras partes envolvidas, como mão de obra, energia elétrica, gás, água etc.). Cobrando menos, o restaurante o leva a pedir logo o maior prato. É o chamado "menu induzidor", que faz parte de um conceito largamente usado para conquistar o consumidor: o preço não linear.


O barato da liquidação

No comércio de produtos de alto consumo, de meias a detergente, de camisinha a sabão em pó, é mais comum vermos exemplos notórios de preços não lineares. Preço não linear é o fenômeno em que o preço final que se paga não sobe proporcionalmente à quantidade de produtos e serviços que se leva. É o famoso "compre 2, leve 3". Não ver uma placa com essa instigante mensagem em ruas comerciais é mais difícil do que achar vaga em estacionamento de shopping aos sábados.

O preço não linear está em todo lugar. "Empresas telefônicas oferecem descontos para ligações de longa distância para reter clientes que poderiam trocá-la por operadoras locais", exemplifica o economista Robert Wilson, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em um de seus artigos a respeito. Ou seja, você gasta menos aqui para gastar mais ali. "É uma tática incrivelmente eficaz", diz William Poundstone no livro Priceless - The Myth of Fair Value (And How to Take Advantage of It) - inédito em português. "Nenhuma loja pode nos obrigar a comprar 5 pacotes de sabão. Mas, com as ofertas irrecusáveis da psicologia dos preços, elas não precisam fazer isso. Em muitos casos, o consumidor econômico é persuadido a gastar mais, em nome do ‘poupar dinheiro’."

O problema é que você não está necessariamente economizando. "É dinheiro parado. Você faz estoque, mas esse dinheiro poderia estar rendendo em outras coisas. É uma decisão racional, só que limitada", explica Alcides. Outro exemplo: você precisa de 2 pastas de dente, uma para agora, outra de reserva. A pasta custa R$ 2,50 e a farmácia vende 5 por 4, logo R$ 10. Tentado pela promoção, você resolve comprar o pacote, gastando R$ 5 a mais. Fez uma boa compra? Possivelmente. Saiu satisfeito? Talvez.Mas mais feliz ainda ficou o dono da farmácia, que fez você gastar R$ 10 em vez de R$ 5.

E não venha falar de cartão de crédito. Aqui a situação piora. "Quando você paga em dinheiro, sente que ele está te deixando. Com o cartão de crédito, não", explica Dave Ramsey, espécie de celebridade americana das finanças, no livro The Money Answer Book (inédito em português). Segundo ele, pessoas que usam o cartão de crédito tendem a gastar até 18% mais do que as que usam dinheiro vivo. E o cartão é cada vez mais popular: o volume de pagamentos com cartões da Visa cresceu quase 25% no ano passado somente no Brasil.

Mas, se ele nos faz gastar mais, por que aumentamos o uso do cartão? Simples. Porque é gostoso. Porque gostamos de consumir. Porque é bom como sexo.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Westminster, no Reino Unido, mostrou a um grupo de 60 pessoas várias imagens. Algumas tinham cenas de sexo, enquanto outras exibiam diversos produtos em promoção. De uma escala de 0 a 10, os dois grupos de fotos tiveram picos de 7 pontos em uma máquina que mede a excitação pela dilatação da pupila. Imagens de paisagens, por exemplo, ficaram nos 2 pontos. "Sexo é recompensador, assim como um bom negócio", disse um dos fundadores da empresa que criou o software usado na pesquisa. Se as boas compras são boas como sexo, o mercado está cheio de brinquedinhos estimulantes por aí.


Jeitinho parcelado

Houve um tempo em que não havia anúncios de produtos à venda por algum valor terminado em "99". Isso foi em meados do século 19. Com os anos, as lojas de departamentos americanas passaram a adotar a tática, segundo Robert Schindler, especialista em comportamento de consumo e estudioso dos efeitos desse número. Pesquisadores dizem que o preço terminado em zero é mais fácil de lembrar, por ser um número redondo. Isso fixa o preço na memória do mesmo jeito que um aniversário de 30 anos é mais lembrado do que o de 31. Assim, com o preço claro na cabeça, fica mais fácil pesquisar valores menores e, consequentemente, comprar menos por impulso. Por isso o "99" é tão presente em anúncios cujo objetivo é chamar a atenção para o preço. Segundo um levantamento feito por Schindler, 42,9% dos preços exibidos em propagandas de jornais americanos terminavam em "99". Uma pesquisa realizada na França mostrou que a venda de uma pizza subiu 15% ao mudar o preço de 8 euros para 7,99. O que vale é a sensação de pagar menos, não a economia de 1 centavo no bolso. As pessoas não ligam para esses níqueis: em 2005, britânicos descartaram 133 milhões de libras esterlinas em moedas (leia mais sobre a moeda de 1 centavo na pág. 40). Aliás, não é só número que age no inconsciente. Vírgulas e pontos também. Quer dar um lance em um carro seminovo? R$ 20.000,00 soa maior que R$ 20 mil ou R$20000.

Se desperdiçar moedas não é hábito exclusivo nosso, tem um que é, sim: parcelar. "Nenhum país teve inflação alta por tanto tempo como o Brasil", diz Alcides. "Você pensa no preço da parcela, não no final", explica. Esse contexto em um país em que a maior parte da população não tem dinheiro para comprar um eletrodoméstico à vista foi a deixa para as redes de varejo conquistarem mais clientes com o parcelamento. Dividir é tão forte no Brasil que até as lojas de luxo, cuja clientela teoricamente não precisaria parcelar, tiveram que se adaptar quando chegaram aqui. O Brasil é o único lugar do mundo em que um anel na Tiffany pode ser comprado em 10 vezes. Assim como um rack nas Casas Bahia.

Vale quase tudo para vender. Arquitetos projetam grandes lojas de um jeito que o consumidor tenda a andar no sentido anti-horário, pois descobriram que os clientes que se movimentam assim gastam mais dinheiro. Um supermercado constatou que usar música ambiente francesa aumenta a venda de vinho francês (e o mesmo funcionou para garrafas alemãs). Parece loucura? Quem é que compra vinho por causa da música ambiente? E quem presta atenção em música ambiente? Poundstone resume: "A maior parte das decisões que tomamos no dia a dia, inclusive o que colocamos no carrinho de compras, não é tão clara assim".


Pague 2, leve 3 e o desbunde da promoção

Quando o preço final que pagamos não sobe na mesma proporção que a quantidade de produtos e serviços que estamos levando, temos um exemplo de preço não linear. Ele é visto mais claramente nos shoppings e nos supermercados, na forma de "3 itens por 2" etc. Já o "99" é estudado há décadas por seus efeitos cognitivos. Sabemos que preços terminados em "99" parecem mais baratos do que realmente são. Mas, mesmo assim, consumimos mais quando estão na vitrine.


Vinho caro é melhor que vinho barato?

Não necessariamente. Um estudo diz que o preço influi na percepção de buquês, aromas e afins. E isso não acontece se o valor cobrado é desconhecido. Ou seja, muitas vezes o gosto mais marcante de um vinho é o preço dele.


Preço maior dá a ideia de produto melhor?

Sim. Exemplo: segundo o autor William Poundstone, etiquetar o chocolate Mars com um preço e o Snickers com outro, pouco menor, fará o primeiro vender mais. Se inverter os preços, o Snickers venderá mais. Preço maior é um atalho cognitivo para a percepção de melhor qualidade.


O segredo dos preços estratosféricos

Olhe para estas bolsas. Você saberia a diferença de preços só de observá-las? Pois uma custa 6 vezes mais que a outra, uma diferença de R$ 7 mil. Ao dar de cara com as bolsas na vitrine, ver o preço daquela à direita (R$ 8 398) e o tamanho da diferença de preço, de repente a quantia cobrada pela bolsa da esquerda (R$ 1 375) parece menos assustadora, não? Isso é ancoragem. Pôr um preço nas alturas para que, por comparação, não achemos outros bem abaixo dele tão caros assim.


Por que o preço de um gadget cai quando sai o sucessor?

Com o lançamento de algo novo, como o iPad, consumidores não sabem quanto ele deveria custar, pois não há com o que comparar. Assim, há mais liberdade para definir o preço. Alto no lançamento (para fãs) e mais baixo depois para o resto da boiada.


A garantia de carro nunca dura tanto quanto promete?

Dura para quem respeita as especificações. Entre as regras mais comuns está a da revisão. Para não perder a garantia, é preciso fazê-la em concessionárias autorizadas, onde normalmente o preço de produtos e serviços é maior. É uma tática para deixar o cliente por perto por mais tempo. E consumindo mais.


Mais por menos?

Como uma bermuda com mesmo tecido, da mesma marca, pode custar tanto ou mais que uma calça? Apesar de o custo de produção ser cerca de 25% menor, a resposta está na parte de cima, com botões, zíperes, costuras e rebites. Lá fica o grosso do trabalho. E ainda há a influência da moda, que estimula a demanda e, na sequência, o aumento de preços. Bermudas podem estar mais em alta que calças. O preço da camisa xadrez, no auge da moda, aumentou até 10%.


Fontes Associação Americana de Economistas de Vinho; Clóvis Ferratoni, professor de design de moda do Centro Universitário Senac; Joel Leite, diretor da agência de notícias Auto Informe; Ana Laura Villega, repórter visual da revista VIP.


Para saber mais

Priceless: The Myth of Fair Value (And How to Take Advantage of It)

William Poundstone, Hill and Wang, 2010



Fonte: Site Revista Superinteressante