sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Análise: Cérebro humano tem viés religioso 'de fábrica'

HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Nos últimos 20 anos, psicólogos, neurocientistas, filósofos e sociólogos se puseram esquadrinhar e teorizar sobre a religião, dando origem à nova ciência da fé. A ideia central é que, independentemente do fato de Deus existir ou não, a religião é um fenômeno real, mensurável e com a qual podemos fazer experimentos.

É claro que nada nessa área é muito consensual, mas dessas duas décadas de pesquisas emergiram algumas linhas de explicação que são relativamente bem aceitas. Ao que tudo indica, o cérebro humano vem de fábrica com uma série de vieses cognitivos que tornam a religião um subproduto natural.

Destacam-se aí nossa tendência para reconhecer padrões (indispensável para perceber regularidades) e para detectar agência (muito útil na identificação de presas e predadores). Acrescente-se a isso nossa propensão a inferir estados mentais alheios (essencial para a vida em sociedade) e temos a receita para criar deuses.

De acordo com Michael Shermer, num cálculo aproximado, ao longo dos últimos dez mil anos a humanidade produziu dez mil religiões com cerca de mil deuses.

É claro que as coisas ficam bem mais complicadas quando descemos aos detalhes.

Cientistas já identificaram pelo menos dois genes ligados ao circuito da dopamina que parecem desempenhar um papel importante na crença, além de interessantes diferenças anatômicas entre os cérebros de céticos e crentes. A última moda é ligar a religião (ou sua ausência) a diferentes estilos cognitivos.

Aqui, é preciso evitar a tentação de pensar a questão em termos de categorias como analítico=inteligente=cético e intuitivo=burro=crente.

Esse tipo de fenômeno é mais bem descrito como um gradiente cujos extremos são patológicos. A psicóloga Catherine Caldwell-Harris, por exemplo, liga o estilo cognitivo ultralógico de ateus à síndrome de Asperger, uma forma de autismo que produz um bom número de engenheiros e físicos.

Na outra ponta, Andrea Kuszewski sugere um vínculo entre esquizofrenia e religiosidade. Seguir as intuições reconhecendo padrões e agência mesmo onde não existem é que leva uma pessoa a conversar de igual para igual com uma geladeira ou a discutir com Deus.


Fonte: Site Folha.Com

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