sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Lefebvrianos: ''Jamais aceitaremos o Concílio''


O superior dos tradicionalistas reafirma, às vésperas de um encontro-chave em Roma, que não está disposto a nenhum compromisso. E revela alguns bastidores interessantes.

A reportagem é de Alessandro Speciale, publicada no sítio Vatican Insider, 08-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Se o seu objetivo ainda continua sendo o de fazer com que aceitemos o Vaticano II, as discussões já estão bastante claras para mostrar que não temos a intenção de seguir esse caminho".

É um Bernard Fellay determinado a não ceder a nenhum compromisso com o Vaticano, mas, ao mesmo tempo, prudente o que, no dia 15 de agosto, falou abertamente sobre os diálogos entre lefebvrianos e a Santa Sé durante a "Universidade Estiva" da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por Dom Lefebvre.

A transcrição da entrevista pública com o superior dos lefebvrianos – realizada pelo assessor de imprensa da Fraternidade, o abade Alain Lorans – foi divulgada há poucos dias, às vésperas do encontro em Roma entre Fellay e o cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, que deveria resumir os dois anos de "colóquios doutrinais" entre Roma e os tradicionalistas.

O parecer do superior lefebvrianos sobre os colóquios não é nada suave: "Não trazem um grande bem de imediato, porque é o encontro de mentalidades que se confrontam... Em todo caso, ninguém pode dizer que estamos de acordo. Se estamos de acordo em alguma coisa, é sobre o fato de que não estamos de acordo em nada".

Dom Fellay – um dos quatro bispos da Fraternidade ordenados contra a vontade de Roma por Dom Lefebvre, e ao qual Bento XVI removeu a excomunhão em janeiro de 2009 – prega "extrema prudência" sobre tudo que diz respeito às relações com o Vaticano e, em particular, sobre o encontro da próxima semana, para o qual ele enfatiza não saber o que esperar.

A retirada da excomunhão – que, além de Fellay, também valia para Dom Richard Williamson, bispo inglês sob processo na Alemanha por ter negado a existência das câmaras de gás do Holocausto – não curou a posição da Fraternidade, que não é reconhecida por Roma, e cujas ordenações, que continuaram ao longo destes anos apesar das proibições do Vaticano e dos bispos, são consideradas "ilícitas" pela Igreja.

"Para um futuro reconhecimento da Fraternidade São Pio X – disse a Secretaria de Estado do Vaticano em dezembro de 2009 –, a condição indispensável é o pleno reconhecimento do Concílio e do magistério de João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e do próprio Bento XVI".

"Não devemos ir atrás dos boatos", diz o superior tradicionalista aos seus companheiros, boatos como aqueles que dizem que o cardeal Levada fará uma "proposta" à Fraternidade para permitir que ela retorne à comunhão com a Santa Sé: "Sob quais condições?", questiona-se Fellay. "Do meu ponto de vista, parece-me impossível que não existam essas condições".

"Há quem diga – continua ele – que eles [o Vaticano] até agora sempre tentaram nos fazer engolir o Concílio. Eu não sei. Tudo o que posso dizer é: sigamos em frente. Temos os nossos princípios, acima de tudo a fé... Sem a fé, é impossível agradar a Deus, portanto a nossa escolha está feita. A fé, a todo custo, acima de tudo, passa na frente até de um reconhecimento pela Igreja. É preciso ser forte".

Na longa conversa, Fellay também revela inúmeras cenas de bastidores das relações nada fáceis, mas constantes, entre o Vaticano e a Fraternidade nos últimos anos. Em particular, destaca-se a figura do cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, ex-presidente da Comissão Ecclesia Dei, encarregada de lidar com as relações com os tradicionalistas: mesmo depois da sua aposentadoria, com a passagem desejada por Bento XVI da Comissão para debaixo das asas do ex-Santo Ofício, o purpurado parece ter continuado mantendo relações constantes com Fellay, informando-o sobre o que acontecia nos corredores do Vaticano.

Fellay também conta como a chegada do Papa Ratzinger ao sólio de Pedro "fez desencadear alguma coisa" no Vaticano, mudando a atmosfera em favor dos tradicionalistas e abrindo caminho para sua possível reintegração: "No entanto, independentemente do que se pense e do que se diga sobre a pessoa em si, há um novo clima. Até no Vaticano a sua chegada deu coragem àqueles, chamemo-los de conservadores, que antes eram obrigados a se esconder".

No entanto, em 2009, com a revogação das excomunhões e o caso Williamson, as relações "se tornaram muito mais tensas": em junho daquele ano, Fellay conta ter buscado com insistência um encontro com o secretário de Estado vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, sem sucesso. O superior tradicionalista foi "desviado" para o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Levada.

O sucessor de Lefebvre enfatiza repetidamente as divisões presentes dentro da Cúria Vaticana e avisa que toma com cautela as notícias que chegam de Roma. Como exemplo, Fellay fala sobre o episódio de um monge agostiniano, excomungado e expulso de Roma depois de ter se "convertido" ao "cisma de Dom Lefebvre".

O superior tradicionalista conta que se dirigiu a Roma com a carta de excomunhão do monge, assinada pela Congregação Vaticana para os Religiosos, e que a mostrou a Dom Guido Pozzo, atual secretário da Ecclesia Dei e líder da equipe de "negociadores" vaticanos nos diálogos com a Fraternidade.

"É assim que devemos tratar essa carta", disse Pozzo a Fellay antes de fazer o gesto de rasgá-la na frente dos seus olhos. "Vocês devem dizer aos seus padres e aos seus fiéis – teria acrescentado o secretário da Ecclesia Dei – que nem tudo o que vem de Roma vem diretamente do papa".

Em outro caso, Fellay falou sobre um caso de "delação ecumênica" da qual ele foi protagonista: depois que alguns bispos lefebvrianos, ainda excomungados, haviam sido impedidos de celebrar a Eucaristia no santuário de Lourdes, o superior tradicionalista entrou em contato com o cardeal Castrillón, ainda presidente da Ecclesia Dei, para "denunciar" que alguns bispos anglicanos, ao contrário, haviam sido permitidos de rezar missa.

"Não digo 'bispos' porque todos os anglicanos são leigos, não são verdadeiros padres, muito menos bispos", acrescentou, com desprezo, Fellay.


Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos

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