segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

''Com o agape, o impossível é a medida do amor''

"Ama o teu próximo": o mandamento que ilumina "toda a Lei e os Profetas", segundo Enzo Bianchi e Massimo Cacciari.

A análise é do filósofo italiano Federico Vercellone, professor da Universidade de Turim, em artigo para o jornal La Stampa, 21-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Existe um mandamento que resume completamente o ensinamento de Jesus, e é o último: "Ama o teu próximo". O décimo mandamento realiza o mandatum novum, sela o novo pacto entre Deus e o seu povo. Aquilo que assim se configura é um caminho que subverte os limites. Nesse caminho, o cristianismo se configura como religião universal.

Quem nos lembra disso é Enzo Bianchi e Massimo Cacciari, em Ama il prossimo tuo, o magnífico livro dedicado ao décimo mandamento que eles escreveram para a editora Il Mulino. O volume é composto por dois ensaios. O primeiro, de Enzo Bianchi, é intitulado Fazer-se próximo como amor, e o segundo, de Cacciari, Dramática da proximidade. Os textos sintetizam o âmbito histórico-religioso, e o teológico e filosófico da questão.

Enzo Bianchi nos guia através da tradição judaica e da cristã. O décimo mandamento é um mandamento que soa sempre como um desafio; e o é, talvez, com ainda mais razão, em uma época como a nossa, que também foi definida como a época da "morte do próximo". O amor, lembra Enzo Bianchi, é um apelo constante a sair de si mesmo. E o mandamento adverte, como já lembrava São Jerônimo, que todo ser humano deve ser considerado com próximo pelo outro ser humano. O ensinamento a amar o próximo como a ti mesmo, no Antigo Testamento, aparece no Levítico: "Não procures vingança nem guardes rancor aos teus compatriotas. Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19, 18).

Não estamos diante de uma concepção individualista do amor, porque, como se evidencia do contexto, a intenção da passagem do Levítico é de fazer de Israel uma comunidade justa e solidária entre os seus membros. Isso ocorre, não obstante, no quadro de uma equilibrada interação entre responsabilidade individual e dimensão coletiva.

Além do modo como se pode entender o mandamento na Bíblia judaica, não é possível não perceber novamente como o mandatum novum representa um das grandes rupturas produzidas por Jesus com relação ao judaísmo, um dos pontos em que ele se afasta da religião dos pais para expressar uma nova interpretação da Lei, fundamentada na hermenêutica do amor. Como ensina o Evangelho de Mateus, o décimo mandamento se torna o ponto de vista através do qual deve-se ler a Bíblia, um fogo que ilumina "toda a Lei e os Profetas", um exemplo encarnado por Jesus, que faz da sua vida uma obra-prima do amor . "Nisso", diz o Evangelho de João, "todos saberão que sois meus discípulos".

Tudo isso é absolutamente dramático. Como magistralmente aponta Massimo Cacciari, estamos diante de um sentimento totalmente paradoxal, "com uma compaixão que não conhece ciúmes, e que não tem outro propósito do que libertar o amado". Toda tradução torna-se arriscada com relação ao conteúdo absolutamente paradoxal da mensagem evangélica. Com o décimo mandamento, vai-se muito além do conceito grego de philia, que não exclui que é melhor fazer o bem do que recebê-lo.

Com o cristianismo, estamos diante de um passo que vai decisivamente além de todo amor antigo. O que se anuncia aqui é o agape, o amor que não tem a ver principalmente com as relações humanas, mas sim com a relação que Deus mantêm consigo mesmo por meio do Filho. Quando o Pai se realiza na unidade com o Filho, estamos diante de um amor que rompe todos os limites, para acolher dentro de si o sofrimento que aflige o amado. É um amor, portanto, que escolhe o impossível como própria medida. E mostra, assim, que o amor é todas as vezes um óbulo infinito que reconhece o outro antes de nós mesmos. Que o atribui à sua singularidade absoluta. Realizando-se o amor do próximo, ele se demonstra-se, de vez em quando, como o mais poderoso dos impossíveis.

- Ama il prossimo tuo, de Enzo Bianchi e Massimo Cacciari. Ed. Il Mulino, 141 páginas.


Fonte: IHU Online

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