segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Dependência perversa da Ásia

"Brasil deveria imitar desenvolvimentismo com estratégia dos asiáticos sem descurar do ambiente", escreve Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 16-01-2012.

Citando Robert Gordon, economista americano, mostrando que o desenvolvimento econômico é um fenômeno histórico recente pouco duradouro, ele critica o número crescente de intelectuais europeus que defendem o "decrescimento" por motivos ecológicos.

Eis o artigo.

Em sua última coluna, Martin Wolf comentou o fato que, desde 2007, os países asiáticos dinâmicos cresceram 60%, enquanto os países ricos, 3%, e depositou as esperanças econômicas do mundo na Ásia. O Brasil, nesse mesmo período, cresceu modestos 16%. Também os brasileiros dependem do crescimento da demanda asiática para crescer. A economia brasileira não está estagnada como está a dos países desenvolvidos, mas, em termos de crescimento, está mais próxima deles do que de países como a China e a Índia.

Enquanto isso, eu vejo nos países ricos um quadro de desalento. Muita gente já não pensa mais em crescimento, mas apenas em evitar o declínio de suas economias. Na conferência que Robert Gordon pronunciou em Chicago, ao ser homenageado com um jantar pela Associação de Economistas pela Paz e a Segurança, ele argumentou que o desenvolvimento econômico é um fenômeno histórico recente pouco duradouro. De fato, a taxa de crescimento só começou a ocorrer a partir da revolução industrial, mas ele me surpreendeu ao afirmar que, tomando-se os EUA como parâmetro, onde ela começou a cair nos anos 1970, essa taxa tenderia em breve a zero.

O que não pareceu preocupá-lo, já que os grandes ganhos com o desenvolvimento econômico - a melhoria extraordinária da qualidade de vida que a eletricidade, a água encanada nas residências, os antibióticos, o cinema e a televisão - aconteceram há muito tempo, e, ainda que o progresso técnico continue acelerado, hoje ele implicaria aumento relativamente pequeno em termos dessa qualidade. Esse raciocínio é irmão gêmeo da defesa que um número crescente de intelectuais europeus faz do "decrescimento" por motivos ecológicos.

Não estou de acordo com essa visão estagnacionista. É verdade que, nos países desenvolvidos, os ricos e mesmo boa parte da classe média têm pouco a ganhar -seu padrão de vida já é muito alto-, mas e os pobres e desempregados? Bastaria transferir a renda dos ricos para os pobres? Ainda que isso fosse desejável, desde que se distinguisse os empresários dos grandes rentistas, e o custo da redistribuição caísse sobre os últimos, não creio que seria suficiente para garantir um nível de vida satisfatório para todos.

Quanto aos demais países, é claro que o desenvolvimento econômico continua a ser uma prioridade. E que o desempenho do Brasil e dos demais latino-americanos está longe de ser satisfatório, quando comparado com o dos asiáticos dinâmicos. E não apenas porque as taxas de crescimento são menores. Também porque são menos seguras, já que sua relativa aceleração a partir de 2004 se deveu muito mais ao aumento dos preços das commodities do que ao aumento do investimento e da produtividade industrial.

Os países asiáticos são dinâmicos porque são desenvolvimentistas, combinando a inovação dos empresários com o controle, pelo Estado, dos setores pouco competitivos que dependem de planejamento.

Como acontece com os países ricos, também o Brasil depende deles. Mas é uma dependência perversa, porque eles são concorrentes, que criam demanda de commodities com baixo valor adicionado per capita, enquanto destroem a indústria manufatureira. Em vez de depender deles, é melhor imitá-los, e adotarmos o desenvolvimentismo com estratégia. Sem, naturalmente, descurar da proteção do ambiente.



Fonte: IHU Online

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