domingo, 29 de janeiro de 2012

Dom & Ravel: traidores ou injustiçados?

A difícil carreira da dupla acusada de compor e gravar canções em favor da Ditadura Militar

“Nunca fiz música encomendada pra governo nenhum, nem pra representante de
governo nenhum”


O nome de Dom & Ravel está, até os dias de hoje, ligado ao sucesso “Eu te amo meu
Brasil”. A canção, que ecoou pelo país durante os tempos em que se alardeava o
milagre brasileiro e se comemorava os bons resultados do futebol, foi rotulada como
símbolo de um governo militar que comemorava a vitória para si próprio.
Em entrevista ao censuramusical.com, Eduardo Gomes de Farias, o Ravel, recorda os
tempos de censura, nos quais a dupla recebeu críticas que marcaram definitivamente
sua história.

Simpático, Ravel conta com detalhes a ascensão da dupla no cenário nacional da
década de 70 por meio de suas músicas de conteúdo ufanista, exaltando as belezas do
Brasil e abordando temas como luta de classes e exclusão social. Além disso, revela
algo que poucos sabem: Dom & Ravel também foram censurados e passaram por
interrogatórios no Departamento de Censura. Isso, para Ravel, prova que eles jamais
fizeram músicas encomendadas para o governo – mas que apenas seguiam o
patriotismo inerente ao comportamento de bandas como Beatles e Rolling Stones.

CENSURA MUSICAL: Quem é Ravel?

RAVEL: Meu nome é Eduardo Gomes de Farias. Nasci no Estado do Ceará. Fui para o
Rio de Janeiro com três anos de idade. Ravel é meu nome artístico. Meu pai, Antônio
Eustáquio de Farias, foi um simples vendedor ambulante, conhecido como Antônio
Paraíba. Eu sempre acompanhava meu pai. Com 10 anos de idade fui com ele para
São Paulo. Sobre a imprensa dizer, como foi publicado em alguns lugares que eu era
filho de militar, isto é mentira, eu sou sim, filho de Antônio Paraíba, vendedor ambulante

que após muito trabalho foi dono de uma alfaiataria.

CM: Você e seu irmão Dom sonhavam em ser músicos?

RAVEL: O Dom aos 17 anos tentou formar uma banda com influência do Beatles.
Acabou a banda e ele formou uma dupla “Dim e Dom”, mas o Dim foi embora para o 2
interior e meu irmão acabou me convidando para cantar com ele. Comecei a estudar
música. Peguei gosto e de repente percebi que tinha talento pra isso, começando assim
a carreira da dupla Dom e Ravel.

Sobre a “patrulha” política

O Dom faleceu em 1° de dezembro de 2000, vítima de um câncer no estômago.Câncer este, contraído por aporrinhações e perseguições políticas, que até hoje
não dão trégua a carreira de Dom e Ravel.

CM: Como foi início da carreira de vocês?

RAVEL: Quando surgimos como dupla foi muito difícil. Nós
batíamos nas portas das gravadoras e nunca dava certo. Vimos
que música aqui no Brasil é monopólio, uma máfia. O cara que
está na mídia nunca vai ajudar ninguém, dividir seu espaço com
quem está começando, de jeito nenhum. Tudo gira em torno de
interesses econômicos. Eu e o Dom observamos que
dificilmente veríamos alguma porta aberta para mostrar nosso
talento. E como meu irmão era um cara que falava muitos
idiomas, ele começou a ler matérias sobre música internacional,
e estudou o marketing dos Beatles e Rolling Stones. E assim
descobriu uma fórmula para romper todas as barreiras e
monopólios do Brasil como cantores e compositores.

Então Dom sugeriu que deveríamos começar como
compositores. Ele era uma pessoa inteligente e muito esforçada. Sempre estava lendo
diversas revistas de outros países.

Assim percebemos que no Brasil existia uma lacuna, e começamos a montar um novo
estilo de música, inicialmente músicas com temática social construtiva.

CM: Então inicialmente vocês surgiram como compositores. Quem interpretava
suas músicas?

RAVEL: A partir das composições começamos a ser gravados por todos os artistas da
mídia na época, gravamos com Demônios da Garoa, com Sérgio Reis, Vanuza, Antônio
Marcos, Wanderléia, Wanderley Cardoso, Moacyr Franco, Os Incríveis, além de outros
artistas que faziam sucesso na época. Então como compositores ficamos ricos,
tínhamos até produção pessoal. Com grana você tem amigo por toda parte e abre
qualquer porta. Aí a Editora RCA Jaguaré ficou interessada na dupla Dom e Ravel e
propôs um contrato exclusivo. 3

CM: Vocês imaginavam uma carreira de sucesso na música?

RAVEL: Numa dessas idas ao prédio da RCA tivemos que levar 24 músicas, fechar um
contrato e receber um adiantamento. Quando nós estávamos gravando no estúdio,
chegou um “bam-bam-bam”, o diretor da RCA nos EUA, o mister David Jones.
Aí o gringo parou, ficou nos olhando e elogiou nossa voz.

No caminho de casa, meu irmão me disse: “ Acabamos de ganhar na loteria!”
Sabe por quê?

O número um da RCA mundial adorou a dupla Dom e Ravel. E partir desse momento
nós já assinamos um contrato para gravar um LP. Nós tínhamos ido à RCA para assinar
um contrato como compositor e acabamos assinando um contrato de dois anos como
cantores. No primeiro ano quando saiu o disco, em 1969, já foi o maior sucesso e aí a
carreira de Dom e Ravel emplacou.

CM: Quais foram os grandes hits de Dom e Ravel?

RAVEL: Existia no país um clima de euforia, de otimismo por causa da conquista do tricampeonato mundial de futebol.

Na Inglaterra, os Beatles usavam símbolos patrióticos, bandeiras, camisetas
estampadas com figuras nacionais. Um marketing voltado ao patriotismo. Então nós
fizemos “Eu te amo meu Brasil”, decidimos despertar o patriotismo também no povo
brasileiro.

A música tem um refrão que diz assim:

(Ravel canta “Eu te amo meu Brasil”) “As praias do Brasil ensolaradas, o chão onde o
país se elevou, a mão de Deus abençoou, mulher que nasce aqui tem muito mais amor,
o céu do meu Brasil tem mais estrelas, o sol do meu país mais esplendor, a mão de
Deus abençoou, em terras brasileiras vou plantar amor...eu te amo meu Brasil, eu te
amo, meu coração é verde-amarelo-branco-azul-anil...”

CM: Vários cantores gravaram “Eu te amo meu Brasil”. Fale um pouco dessa
canção.

RAVEL: Esta música foi gravada pela banda Os Incríveis. Gravamos a música um
tempo depois. Ficamos defendendo um ano essa música no programa do Chacrinha e
outros. Acho que foi lançada em 26 países. Na França ela chegou aos primeiros lugares
das paradas de sucesso.

CM: Quais músicas de sua autoria, o regime militar utilizou? 4

RAVEL: O governo militar utilizou sucessos como “Eu te amo meu Brasil”, “Só amor
constrói” e “Você também é responsável”. Quando fizemos “Você também é
responsável” logo em seguida o governo lançou o MOBRAL (Movimento Brasileiro de
Alfabetização).

CM: Mas os militares usavam as músicas com o consentimento de vocês?

RAVEL: Na época da ditadura eles nunca pediam nada. Eles mandavam. O medo
pairava porque nós ouvíamos os papos que sumiu fulano, desapareceu ciclano!.. Os
artistas procuravam tomar precauções.

Há alguns comentários que a música “Você também é responsável” foi feita para o
MOBRAL, mas nunca fizemos músicas encomendadas pra ninguém, não! Essa
música é nossa.

CM: No livro “Eu não sou cachorro, não”, do historiador
Paulo César de Araújo (Record), é contado um episódio
de 1971 em que a dupla Dom e Ravel se encontrou com
então presidente Médici. Como foi esse encontro?

RAVEL: Foi na ocasião do primeiro aniversário do Mobral,
em um ginásio de esportes na cidade de Jundiaí. Nós fomos
convidados. Nós sempre éramos convidados, não só pra
essa festa do Mobral, mas pra outros shows do governo. E
nunca ganhamos nada. Só que essas aparições públicas nos
prejudicavam porque a mídia nos associava aos militares.

CM: Vocês conversaram com o presidente?

RAVEL: Sim, o presidente Médici quebrou o protocolo, e veio
nos cumprimentar. A repercussão na imprensa foi muito grande. Fomos manchete no
país inteiro. Tinha os dois lados da balança. Por um lado nos ajudava em termo de
mídia, de projeção, por outro lado nos prejudicava porque as pessoas nos associavam
aos militares.

CM: Ao mesmo tempo em que existiam pessoas que se identificavam com as
músicas de vocês, também existiam que referiam à dupla como “fabricada” pela
ditadura. Como você vê isso?5

RAVEL: Quando nós estouramos todos esses sucessos o governo se interessou eusou essas músicas. Automaticamente se criou uma situação complicada para quem
monopolizava o mercado, para as gravadoras multinacionais, para os artistas, porque
você vendendo mais colocava outros “em baixa”. O público estava conosco. Causando
esses prejuízos, começaram a inventar mentiras a nosso respeito. Diziam que Dom e
Ravel eram puxa-sacos do governo, fabricados pela ditadura militar, etc...

CM: E por causa dessa utilização de músicas da dupla, vocês foram perseguidos
e até hoje são marcados como os defensores dos militares...

RAVEL: Isso aconteceu depois dessa mentira, que se tornou pública pelos maus
jornalistas da época, e muitos destes nos perseguem até hoje, dizendo que nós fomos
puxa-sacos do governo militar, e as conseqüências destas mentiras tornaram-se muito
graves para nós.

Começamos a sofrer muitas perseguições políticas, violência, agressividade em toda
parte do país, por onde íamos fazer os shows.

CM: Nos shows ocorriam brigas entre as pessoas que gostavam da dupla e as
que eram contra?

RAVEL: Você lidar com o público é um problema muito sério, tem pessoas que vão ao
show porque gostam do artista e outras vão porque são contra, daí resulta o confronto.

CM: Em algum show ocorreu alguma conseqüência mais grave por causa das
brigas?

RAVEL: Sim. Se você parar pra analisar todas as letras de Dom e Ravel, você percebe
que tem um forte conteúdo social. Fomos perseguidos e agredidos em diversos locais
por pessoas enquadradas na tal patrulha ideológica da época. Percebemos que não
dava mais pra irmos à nenhum lugar de badalação e tivemos que mudar nossos hábitos
e não freqüentamos mais locais públicos sozinhos, só com seguranças.

CM: Vocês recebiam críticas dos seus colegas cantores e compositores?

RAVEL: Sim, alguns artistas eram contra Dom e Ravel. Falavam de nós, porque nós
seguíamos uma linha de trabalho social construtiva, muitos se sentiam incomodados
porque falávamos a verdade sobre a luta e o sofrimento do povo, onde apontávamos,
os preconceitos e as desigualdades sociais. O nosso compromisso era compor para o
povo brasileiro. Queríamos ver um país transparente, compromissado com a verdade, com a liberdade de expressão, enfim, queríamos ver o país crescendo e nós
contribuímos da nossa maneira.

CM: Essas críticas influenciaram no trabalho de vocês?

RAVEL: As críticas mexeram com minha cabeça, então
resolvemos fazer uma música pra pararem de nos
chamarem de puxa-saco do governo.

Então em 1974, lançamos “Animais Irracionais” e ela foi
censurada;

“Às vezes eu olho pra terra sem compreender a luta dos
seres humanos para sobreviver, um grande açoitando
um pequeno...e tem vezes que um desesperado se põe
a pensar...eu passo por muitas igrejas, pedindo
respostas de Deus, pra ele calado no espaço, ouvir os
lamentos meus. Animais, Animais, nós os homens
somos todos meio... animais irracionais.
Resultado, o disco foi censurado e recolhido das rádios
em todo o país, e a partir daí começamos a perder o
nosso direito de trabalho.
Conversei com meu irmão o que iríamos fazer a partir
deste fato, e ele resolveu ir para Brasília tentar a
liberação da música. Mas nós tínhamos um show marcado que resolvi fazer sozinho.
No meio do show, que estava super lotado, resolvi cantar a música “Animais Irracionais”
e a Polícia Federal invadiu o palco, interrompeu o show e causou uma confusão geral.
Sobre as “perseguições”
Eu que já era perseguido pela esquerda que dizia que eu era engajado da direita,
passei a ser perseguido pela direita também.

CM: Você chegou a ser intimado a comparecer na Polícia Federal?

RAVEL: Todo show tinha homens da Polícia Federal. Tive algumas intimações para
me apresentar no departamento de censura de São Paulo que era na rua Xavier de
Toledo no centro de São Paulo.

No departamento de censura eles colocavam você numa sala escura gelada e te davam
uma canseira, porque você ficava lá horas e horas sem ninguém dizer nada, era um 7
clima psicologicamente pesado, um frio danado. E depois de horas questionavam sobre
a letra de “Animais Irracionais”.

CM: Fale sobre o show que vocês fizeram no Araguaia, em que o contratante
pediu para que a dupla não cantasse a música “O Caminhante”.

RAVEL: O contratante enfiou uma pistola nove milímetros na boca do Dom e disse que
se nós cantássemos “O Caminhante”, não iria ter mais show de Dom e Ravel em lugar
algum. O Dom foi frio. E essa questão de não tocar algumas músicas acontecia em
quase todo o país. Tem uma música “A Canção da Fraternidade”. Esta música também
não se podia cantar em alguns lugares. Ela foi a primeira música que o Papa João
Paulo II ouviu quando veio pela primeira vez ao Brasil. Ela foi cantada por um coral de
1.700 vozes de Brasília.

CM: O que você sente ao relembrar do passado, principalmente o tempo do
regime militar?

RAVEL: Olha, dói muito, e eu não gosto de lembrar do passado não, porque dói você
saber que foi usado e não reparado pelos danos sofridos. Na época se eu tivesse a
cabeça que tenho hoje, teria algumas atitudes bem diferentes. No passado passei por
tantas humilhações, tantos problemas de perseguições políticas, violências físicas que
causaram minha perda da visão, e hoje a escuridão pra mim é fichinha, pois me fez
aproximar mais de Deus. Hoje eu digo que sou um cara muito espiritualista.
CM: Qual sua opinião em relação aos artistas engajados politicamente contra a
ditadura militar?

RAVEL: Neste sentido, a história musical do Brasil é muito duvidosa, você pega um
cara como Geraldo Vandré, todo mundo diz que o cara apanhou, e tal. Nunca ninguém
colocou um dedo nele. Nunca levou um tapa. No entanto disseram que ele foi vítima de
lavagem cerebral, muita coisa, tudo mentira.

Tem muita gente aí, não vou citar nomes, mas que saíram do Brasil, foi pra outros
lugares, se aproveitando da situação no esquema de exílio, pra curtir outro país. Tem
muita mentira nisso tudo.

Eu sofri exílio no meu próprio país e nunca fui remunerado pelo governo



Fonte: Censura musical.com

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