quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Áustria: apreensão no Vaticano diante da rebelião dos párocos

No dia 23 de janeiro, realizou-se no Vaticano uma conversa entre os principais expoentes da Conferência Episcopal Austríaca e os representantes dos dicastérios romanos sobre a iniciativa liderada pelo sacerdote Helmut Schüller. Trata-se de uma assembleia de cerca de 300 clérigos que não só instiga a desobedecer à Igreja Católica Romana, fazendo-se intérprete de teses que beiram à heresia, mas que agora também quer se constituir em rede internacional, aberta a sacerdotes de outras nações e continentes.

A reportagem é de Guido Horst, publicada no sítio Vatican Insider, 28-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para o Papa Bento XVI e a Cúria Romana, chegou o o momento de não assistirem mais inertes a esse movimento que quer se desvincular de Roma. Como afirmou o próprio Schüller nas entrevistas que concedeu, há formações de sacerdotes em vários países como a Alemanha, a França ou a Austrália à espera para aderir à iniciativa.

Os bispos austríacos, por ocasião da reunião no Vaticano, estavam representados por Christoph Schönborn, cardeal arcebispo de Viena, por Alois Kothgasser, arcebispo de Salzburgo, além dos bispos de Graz e de St. Pölten, Egon Kapellari e Klaus Küng. Também estavam presentes prelados da Cúria da Secretaria de Estado vaticana, da Congregação para a Doutrina da Fé, além das Congregações para os Bispos e para o Clero. O objetivo do Vaticano era, dentre outras coisas, avaliar atentamente, mediante quesitos específicos e aprofundados, a dimensão da apostasia que se perfila e que poderia desembocar em um cisma da Igreja.

Em todo caso, as propostas feitas pela Pfarrer-Initiative (Iniciativa dos Párocos) de Schüller em junho de 2011 têm um "potencial explosivo". O Apelo à desobediência, traduzido em dez línguas, afirma textualmente: "A recusa de Roma a uma reforma da Igreja há muito esperada e a inatividade dos nossos bispos não só nos permitem, mas também nos obrigam a seguir a nossa consciência e a agir de forma independente".

Apelando às consciências, como já se costuma dizer cada vez mais frequentemente da Igreja, a Iniciativa dos Párocos busca demonstrar não só que possui posições de desacordo com relação ao papa e aos bispos, mas também provavelmente alavancar esse slogan já de moda e ainda mais a natureza da dissidência declarada. De fato, no Apelo à desobediência, lê-se com relação aos sacerdotes suspensos ou que vivem em concubinato: "Além disso, sentimo-nos solidários com aqueles colegas que, por causa do seu casamento, não podem mais exercer as suas funções, mas também com aqueles que, apesar de um relacionamento, continuam prestando seu serviço como padres. Ambos os grupos, com sua decisão, seguem a sua consciência – como nós fazemos com o nosso protesto".

A estrela austríaca

Para alguns jornais austríacos, Helmut Schüller, ex-vigário geral do cardeal arcebispo Schönborn e presidente da Cáritas austríaca, é uma estrela. Schüller também goza do aplauso dos católicos da república alpina hostis à Cúria de Roma, ao qual, enquanto isso, se somaram vários agrupamentos de sacerdotes do exterior.

O arcebispo de Viena hesitou em pôr em prática medidas de direito canônico contra os padres em revolta, temendo que, dado o sucesso midiático de Schüller, um esclarecimento oficial e, portanto, público pudesse se degenerar em um cisma claro e manifesto, em vez de latente como tem sido até agora. Isso é o que o cardeal de Viena afirmou durante as conversas na cúpula do Vaticano.

Entre as muitas hesitações, a questão agora paira em toda a sua concretude e se apresenta perante o Vaticano. Na Cúria Romana, agora se levantam boatos segundo os quais prelados da Igreja não devem continuar sendo obrigados a aceitar que, sob o teto da Igreja austríaca, se insinue e se mascare cada vez mais em grande escala um cisma aquiescente. Manter o conflito fora do alcance da mídia e da opinião pública não ajuda a causa, especialmente levando-se em conta o fato de que ele subsiste há muito tempo. Os fiéis precisam de uma orientação precisa, até mesmo para o caso em que o fato de fornecer indicações bem definidas possa levar à deserção de muitos crentes.

Preocupação papal

O Papa Bento XVI está preocupado com a rebelião dos párocos na Áustria. A conversa do dia 23 de janeiro ocorreu em um ambiente cercado pela máxima reserva. Nem os jornais, nem os escritórios de imprensa do Vaticano divulgaram a notícia. Buscava-se evitar de dar a impressão que são sempre Roma e o Vaticano que tomam medidas contra os líderes subversivos. Desejava-se que os bispos competentes, ou seja, os prelados operantes na república alpina definissem e esclarecessem as circunstâncias com os seus sacerdotes. No entanto, o cardeal Schönborn, de volta a Viena, se sentiu aliviado de alguma forma. Se a Iniciativa dos Párocos, enquanto isso, anunciou que quer se internacionalizar e instaurar conexões para além das fronteiras austríacas, a questão já não se refere apenas à Áustria. Neste momento, a bola passa para as mãos do Vaticano.

O arcebispo de Viena, até agora, distanciou-se claramente do apelo da Iniciativa dos Párocos, ao qual criticou tanto a forma quanto o conteúdo, defendendo o celibato e reafirmando a obediência dos sacerdotes. Mas não colocou em prática nem anunciou procedimentos de direito canônico. Na realidade, não se trata apenas da obediência ao papa e aos bispos, mas sim de questões muito substanciais como a compreensão da Eucaristia, da ordenação sacerdotal e da própria Igreja, que, depois do sucesso midiático de Helmut Schüller, confundem os fiéis quase incessantemente. A razão do afastamento é constituída pela "percepção" que os sacerdotes têm da sua própria missão e dos princípios fundamentais da Igreja.

"Outra Igreja"

Os autores do Apelo à desobediência nunca negaram querer uma outra Igreja: "Não recusaremos, em princípio, a Eucaristia aos fiéis de boa vontade. Isso é especialmente verdadeiro aos divorciados de segunda união, aos membros de outras Igrejas cristãs e, em alguns casos, também aos católicos que abandonaram a Igreja", diz o texto.

Assim, reforçam a dose: "Evitaremos celebrar, se possível, nos domingos e dias de festa, mais de uma Missa ou de encarregar padres em viagem ou não residentes. É melhor uma liturgia da Palavra organizada localmente do que turnês litúrgicas". A motivação, em poucas palavras, é rocambolesca: "No futuro, vamos considerar uma liturgia da Palavra com distribuição da comunhão como uma 'Eucaristia sem padre', e assim nós a chamaremos. Dessa forma, cumpriremos a nossa obrigação dominical em tempos de escassez de padres".

Apenas essa elucubração deveria acender o alerta vermelho junto aos prelados e, em particular, junto a um dogmático profundo como o cardeal Schönborn. Se uma missa com "Eucaristia sem padres" em termos profanos é um paradoxo, em termos teológicos é uma heresia.

Os bispos austríacos distanciaram-se da iniciativa de Schüller seja no que se refere ao conteúdo, quanto à forma, mas estão evitando tomar medidas em nível de direito canônico. No entanto, há muito tempo não se trata mais apenas do Apelo à desobediência, caso contemplado no Cânone 1.373 do Código de Direito Canônico, mas sim do cisma definido pelo Cânone 751 como "recusa da sujeição ao Sumo Pontífice". Se assim for, seria obrigação específica dos bispos – e como – conferir junto aos membros da Iniciativa dos Párocos e pô-los diante da escolha de optar pelas resoluções promulgadas ou pela doutrina e o ordenamento da Igreja.

Mas os bispos austríacos preferem se abster de tal "confronto" diante dos holofotes – como definiu certa vez o porta-voz de Schönborn –, de um lado porque – como se diz na Praça Santo Estevão, em Viena – uma batalha midiática contra Helmut Schüller não levaria o artífice de volta ao rebanho, nem os simpatizantes da Iniciativa dos Párocos; de outro, porque a secularização da Áustria, uma vez católica, já está bem avançada, tão avançada que um processo disciplinar dos bispos contra um padre cismático ou herege não seria compreendido pela maior parte dos católicos. Nesse cenário, o cisma é talvez apenas uma questão de pretextos ou de ninharias.


Fonte: IHU Online

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