segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O presidente, o Papa e a primeira-ministra

POR BRUNO GARSCHAGEN · 9 ABRIL, 2010

As comemorações pela queda do Muro de Berlim no ano passado foram também a consagração da liberdade. As ruínas do totalitarismo convertidas num símbolo daquilo que não mais se deve admitir: a violação do indivíduo em nome de uma ideia de perfeição política.

Um livro valioso sobre o tema é The President, the Pope, and the Prime Minister: Three Who Changed the World [O presidente, o papa e o primeiro-ministro: três que mudaram o mundo]. John O’Sullivan, comentarista e jornalista britânico, que também foi conselheiro especial da primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, mostra os bastidores políticos que conduziram à queda do muro a partir das ações dessas três importantes personagens da história recente: Ronald Reagan, João Paulo II e Margareth Thatcher.

The President, the Pope, and the Prime Minister: Three Who Changed the World, lançado nos Estados Unidos em 2002 e no ano seguinte em Portugal (edição de onde extrai a tradução dos trechos citados neste texto), mostra como a ação concomitante de três personalidades políticas em suas esferas de influência foram capitais para a derrubada do regime soviético. Reagan, João Paulo II e Thatcher, segundo o livro, nunca fizeram uma conspiração para implodir o comunismo, mas talvez não teriam sido tão eficazes na missão se atuassem de forma combinada. É certo que cada os três, especialmente Thatcher e Reagan, mantiveram contatos diretos com o objetivo de minar o poder soviético, mas o que conseguiram de mais relevante foi realizado a partir da atuação individual de forma marcante e vigorosa na defesa das liberdades individuais, democráticas e religiosas. A junção das forças históricas não poderiam ser mais eficazes.

O’Sullivan articula os fatos revelando os bastidores e o vínculo direto entre os discursos e as medidas adotadas por João Paulo II, Thatcher e Reagan para minar o poder soviético. João Pereira Coutinho, colunista de jornais portugueses e da Folha de S. Paulo, disse-me que a originalidade do livro era não se limitar a afirmar que o Papa, a primeira-ministra e o presidente contribuíram para a queda do comunismo, como o fizeram sobretudo nas suas esferas de influência.

“E as áreas de influência de que falo são evidentes: João Paulo II na esfera espiritual, na elevação do cristianismo e do catolicismo como doutrina de resistência e nobreza moral, o que ficou bem explícito na sua visita à Polônia em 1979; Thatcher ao abraçar os princípios hayekianos (o economista austríaco Friedrich A. Hayek) de livre economia, vergando o longo consenso ‘socialista’, ou ‘social-democrata’, que vinha do pós-guerra e que acreditava nas economias planificadas como fonte de salvação econômica; e Reagan ao jogar a URSS numa corrida armamentista que acabou por exaurir Moscou”.

E é curioso notar que, à exceção de João Paulo II, tanto Thatcher quanto Reagan são malvistos até hoje fora de seus países. A primeira-ministra britânica ainda é identificada como a dama de ferro até por pessoas supostamente inteligentes; Reagan, apenas como o ator que virou presidente da República ou o político que se viu lançado no escândalo Irã-Contras para derrubar o governo de esquerda na Nicarágua. Nos Estados Unidos, aliás, Reagan só teve a reputação de bom governante restaurada após a morte, em 2004.

Mas a vitória histórica das “três figuras que mudaram o mundo” foi dificílima. Os presidentes das nações democráticas não queriam brigar contra o “império do mal”. Preferiam compor, negociar, a enfrentar a fera comunista. O medo de um ataque nuclear imobilizava os chefes de Estado, inclusive nos Estados Unidos. O democrata Jimmy Carter, presidente dos EUA antes de Reagan, fez de tudo para não criar problemas com a URSS. Sua estratégia teve um alto custo: os soviéticos se armaram como nunca e aproveitaram a frouxidão de seu governo para aumentar o raio de influência mundo afora. Reagan, quando assumiu em 1981, pegou o inimigo fortalecido e sedento.

Antes disso, porém, é preciso entender o ambiente enfrentado por Reagan, Thatcher e Karol Wojtyla antes de assumirem postos de liderança. Pressionada pelo desbunde total do fim dos anos 1960, os anos de 1970 não eram a melhor época para três figuras que pareciam fora do espírito do tempo. Segundo O’Sullivan, “Wojtyla era demasiado católico, Thatcher demasiado conservadora, e Reagan demasiado americano”. O mundo havia assistido microrrevoluções de ordem social, política, econômica, religiosa, mas principalmente sexual, que parecia nortear a vida dos indivíduos.

Até parte da Igreja Católica foi seduzida pelo socialismo/comunismo. O Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) já havia tocado a Igreja para visões mais abertas. Desde o início da década de 1960, católicos liberais sustentavam e disseminavam a idéia de que cristianismo e marxismo eram compatíveis. No âmbito mundial, já na década de 1970, o Vaticano estimulava essa idéia de compatibilidade ao adotar a diplomacia da Ostpolitik. Para garantir o trabalho da Igreja nos países do leste europeu, os chefes da Igreja abrandaram o tradicional anticomunismo católico. Foi a senha para que na América Latina seus representantes (freis, padres etc.) adotassem a Teologia da Libertação, a versão marxista da práxis religiosa.

E de onde vinha a Teologia da Libertação? Sua origem é calcada em alguns fatores: a ditadura militar que afligia grande parte dos países latino-americanos e caribenhos; a adoção do marxismo com a ilusão de que era o melhor sistema para fazer frente às injustiças sociais; as mudanças no seio da Igreja, notadamente a Ação Social Católica nas décadas de 1950 e 1960; o Concílio Vaticano II; a II Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe, em 1968; e, por fim, a criação e trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), inspiradas no método Ação Social Católica.

Os católicos ligados à Teologia da Libertação acreditavam (acreditam) piamente na idéia de salvação do mundo espiritual e material pelo marxismo. Com isso, davam as costas à própria Igreja, que desde 1949, com o Decretum Contra Communismum, baixado pelo Santo Ofício sob orientação do Papa Pio XII, previa a excomunhão automática de todos os católicos que professassem, defendessem, propagassem o comunismo, ou que colaborassem com governos comunistas. O decreto continua em vigor. A Teologia da Libertação idem.

O tempo é o senhor razão

Na esfera política, tanto o Partido Republicano, nos Estados Unidos, quanto o Partido Conservador, na Inglaterra, tentaram vestir a roupa dos novos tempos de frouxidão. “Até os mais tradicionalistas, políticos e religiosos, queriam líderes sutis e habilidosos que pudessem desviar estes novos desafios para os canais ortodoxos, em vez de reacionários intransigentes que conduzissem as suas instituições a uma tentativa fútil de resistência à inevitabilidade histórica”, conta O’Sullivan. Não era o caso, como se constataria, de Thatcher, Reagan e Wojtyla.

Mas a farra sexual, política, econômica e espiritual da década de 1970 veio, como um Mefistófeles da era moderna, cobrar seu preço: disseminação de doenças sexualmente transmissíveis; problemas com drogas; desestruturação familiar; crise energética; a explosão nos preços do petróleo; recessão em várias regiões do mundo; os seguidos erros na política externa do presidente Carter e sua conseqüente perda de prestígio nos Estados Unidos e no exterior; o avanço do terrorismo de grupos de esquerda na Alemanha e na Itália; inflação, greves e desemprego na Inglaterra. A estrutura de poder e de idéias da liberação social-democrata ruía publicamente em vários cantos do mundo.

Os males sociais, políticos e econômicos davam razão aos críticos que, uma década antes, tentaram combatê-los, mas foram denunciados como antiquados. O tempo dava razão ao presidente, ao Papa e à primeira-ministra. O’Sullivan não tem dúvidas: “As qualidades pessoais que possuíam — coragem, firmeza, e otimismo — pareciam ser exatamente as necessárias enquanto antídoto para a sensação dominante de desespero e impotência. Wojtyla já não parecia demasiado católico, nem Thatcher demasiado conservadora, nem Reagan demasiado americano. Eram exatamente aquilo que o médico receitara contra o ‘mal estar’”.

Num intervalo de 26 meses, os três galgaram os mais altos postos em suas áreas. Karol Wojtyla foi escolhido Papa em 16 de outubro de 1978; Thatcher foi nomeada primeira-ministra em 4 de maio de 1979; Reagan foi eleito em 20 de janeiro de 1981. Assim que assumiram, trataram logo de fazer o trabalho de casa e assumir a luta contra o comunismo. Mas antes, um adendo: 60 dias após assumir a presidência, Reagan foi vítima de uma tentativa de assassinato. Quarenta e três dias depois, o Papa João Paulo II também foi vítima de um atentado. Em 12 de outubro de 1984, três anos depois das balas que atingiram o Papa e o presidente, a primeira-ministra Margareth Thatcher escapou ilesa de um atentado a bomba perpetrado pelo grupo terrorista IRA. Nenhum dos três se intimidou.

O presidente

Duas semanas após deixar o hospital, Reagan conseguiu aprovar no Congresso o seu Plano de Recuperação Econômica. O projeto previa redução de impostos e incremento nos gastos na área de defesa. Reagan estava determinado a levar a URSS à falência econômica e com isso conseguir uma paz verdadeira. O primeiro movimento foi o de enviar uma carta a Leonid Brezhnev, junto com o projeto de embargo de cereais, que era um apelo a paz entre as nações. A resposta de Brezhnev se limitava a culpar os americanos pela Guerra Fria.

A partir disso, o presidente dos EUA levou a cabo sua estratégia de competição econômica e militar adornada por uma retórica tanto certeira quanto explosiva. É famosa a expressão em que Reagan, num discurso de 1983, chamou a URSS de “o império do mal”. À época, o discurso foi considerado despropositado e provocativo, mas teve, segundo O’Sullivan, um impacto extraordinário nos dissidentes do bloco soviético — e ainda abalou o moral dos líderes do regime.

O anticomunismo de Reagan não era raso. De forma autodidata, leu a sério nos anos de 1950 a nascente literatura de filosofia política conservadora, de “Economia em uma lição”, de Henry Hazlitt, a “O caminho para a servidão”, de F. A. von Hayek, que foi talvez o maior e mais eficiente crítico do regime socialista. Sua visão política era exercitada em freqüentes artigos para jornais americanos. E em 1962, em plena Guerra Fria, Reagan narrou com gosto o documentário The truth about comunism [A verdade sobre o comunismo]. O filme mostra as atrocidades e reflexos negativos da revolução comunista na Rússia desde a revolução de 1917.

O papa

Wojtyla tornou-se o Papa João Paulo II com um passado de luta contra o comunismo na sua Polônia natal. Tão logo assumiu o papado, começou a negociar uma visita ao país. O Papa sabia o peso e os reflexos de sua ida não só entre os poloneses, mas entre os demais povos das nações satélites. Mesmo sabendo dos riscos, os oficiais seniores poloneses assumiram a perigosa decisão de permitir a visita. Esperavam até levar vantagem com a permissão. Estavam enganados.

Oito meses antes de voltar à Polônia como Papa, João Paulo II havia se dedicado intensamente na ofensiva diplomática pela liberdade religiosa no oficialmente ateu bloco soviético. Quando lá chegou, em 2 de junho de 1979, foi recebido por uma multidão que se multiplicava a cada local visitado. No meio da massa de poloneses, opositores do regime, muitos ligados ao Comitê de Defesa dos Trabalhadores, aproveitaram a visita para articulações políticas. O Papa conquistou não só os fiéis poloneses, mas todos aqueles oprimidos pelo Estado comunista.

Cada sermão atraía, no mínimo, um milhão de católicos. Alguns chegaram a reunir três milhões de pessoas, entre crianças, jovens e velhos. A visita do Papa transcorreu sem transtornos e qualquer tipo de violência, culminando num impacto muito maior na população do leste europeu. João Paulo II sabia que não poderia partir para um confronto direto. Suas críticas eram tanto oblíquas como indiretas e bastante eficazes.

A primeira-ministra

Paralelamente ao trabalho de reformar o estado britânico, reduzindo despesas públicas, enfrentando greves, brigando contra sindicatos e lutando contra a inflação, Margareth Thatcher aumentava gastos na área de defesa para reafirmar o compromisso prioritário de vencer a Guerra Fria. Ela ganhou força e prestígio ao reagir energicamente à invasão da embaixada do Irã em Londres por terroristas iranianos, que exigiam a libertação de presos políticos em troca de 26 reféns. Consultada sobre o que devia ser feito, Thatcher deu sinal verde para os soldados do Serviço Aéreo Especial invadirem a embaixada.

A operação foi um sucesso, com resgate de 19 das 20 pessoas que ainda eram mantidas reféns (os terroristas haviam liberado seis e mataram um). A ação foi transmitida pela TV. Thatcher saiu fortalecida. Mostrou aos soviéticos que não estava para brincadeiras. Tempos depois, os argentinos sentiram o peso da “dama de ferro” e se renderam. Na luta pelas Malvinas, Thatcher contou com apoio de Reagan, que ganhou uma parceira leal e efetiva na Guerra Fria (o que não evitou rusgas entre os dois em várias questões, como quando Reagan pediu para que ela deixasse parte das Malvinas sob controle da Argentina).

Por isso, a Guerra das Malvinas é considerada o turning point da batalha contra o comunismo. As ilhas eram um lugar geopoliticamente insignificante para a Inglaterra, mas a reação e reconquista levantaram o moral da nação. Nas palavras de O’Sullivan, reavivou a autoconfiança britânica e a reputação internacional da Inglaterra. Thatcher saiu ainda mais fortalecida e a Argentina passou por uma revolução democrática — apoiada e favorecida pelo governo Reagan — que contagiou alguns países da América Latina.

A derrocada

O mês de agosto de 1980 foi fundamental na derrubada do regime soviético. Foi o mês em que os trabalhadores polacos peitaram o regime ao fazer uma greve no estaleiro naval de Lenine, em Gdansk. Curiosamente, o movimento foi detonado e liderado por um desempregado, o eletricista Lech Walesa. O que se seguiu nos meses e anos seguintes foi a latente perda de autoridade do regime na Polônia e a disseminação pelo leste europeu de que era possível reagir à Moscou. Walesa virou celebridade mundial. Para desespero dos soviéticos, o líder do Solidariedade foi recebido no Vaticano pelo Papa, que ratificava sua posição contrária ao regime comunista.

Logo depois, os comunistas polacos tentaram usar a força para calar o Solidariedade, mas o exemplo do grupo de trabalhadores já havia se espalhado pelo país. Outros sindicatos faziam greves por conta própria. A economia russa se deteriorava e Moscou não queria se arriscar numa invasão à Polônia que traria, por certo, pesadas sanções econômicas. Mas os comunistas ainda deram um suspiro e prenderam 4 mil pessoas que participavam, em Gdansk, da comissão Nacional do Solidariedade. Walesa e seus companheiros foram encarcerados. O mundo, que já estava ao lado deles, agora cobravam a libertação dos prisioneiros.

Nesse momento conturbado, o Papa e Reagan se aproximaram, mas se instalou uma tensão entre o presidente e Margareth Thatcher. Embora discordassem da forma como o regime soviético devia ser destronado — o Papa defendia uma resistência cultural pacífica; Reagan estava disposto a tudo, do estrangulamento econômico a disputa militar —, concordavam quanto ao fim: era preciso derrubar o regime. Antes de uma reunião privada entre o Papa e o presidente, dois assessores de Reagan se encontraram em várias ocasiões, durante dezoito meses, com João Paulo II.

O diretor da CIA, William Casey, e o embaixador Vernon Walters prepararam o terreno para que a conversa entre o Papa e o presidente resultasse numa cooperação efetiva na “luta contra o mal”. Nesse período, o governo Reagan já enviava dinheiro à rede de colaboradores do Solidaridade na Polônia. No célebre encontro em junho de 1982 o presidente convenceu o Papa de que estava sinceramente empenhado na paz e no desarmamento.

João Paulo II fez uma peregrinação pela Polônia em junho de 1983. Seus sermões racharam o ainda aparente poder do regime ao restaurar a esperança dos poloneses e alinhar a Igreja com o Solidariedade. O Papa foi embora, mas deixou ali o estímulo necessário para manter a luta clandestina do sindicato contra o regime.

Em novembro de 1988, Thatcher visitou a Polônia e martelou o último prego do caixão. Em Gdansk, acompanhada pelo já liberto Walesa, a primeira-ministra se encontrou com o comitê do Solidariedade e foi aplaudida por multidões por onde passava. Em 19 de janeiro de 1989, o Solidariedade foi reconhecido oficialmente pelo governo comunista polaco como sindicato independente e participou de forma decisiva nas negociações das novas estruturas políticas e do acordo para eleições.

Os candidatos do Solidariedade dominaram o parlamento e cumpriram a promessa de eleger presidente o general Wojciech Jaruzelski, um dos chefes do abatido governo comunista (em 2006, Jaruzelski foi testemunha no processo de beatificação do papa João Paulo II). Em 12 de setembro de 1989, Tadeusz Mazowiecki assumiu o cargo de primeiro-ministro no que era a primeira democracia polonesa desde o fim da Segunda Guerra, em 1945. A história convergia para o fim do regime soviético: dois meses depois houve a queda do Muro de Berlim. Em 1990, o antigo império se resumia à Rússia.

O legado

O’Sullivan narra de forma notável o desenrolar político que culminou com a queda do muro de Berlim. Estão no livro os movimentos diplomáticos calculados, clandestinos ou não, por parte do Vaticano, Inglaterra e Estados Unidos. As três personagens que mudaram o mundo, embora com estratégias diferentes, tinham o objetivo comum de derrubar o regime comunista. Foram bem-sucedidos com a ajuda do chefe dos inimigos, Mikhail Gorbachev, cuja negociação pessoal com Reagan sobre o desarmamento, iniciada no encontro de Reiquejavique, em 10 de outubro de 1986, foi fundamental para pôr fim à Guerra Fria.

Se antes não se sabia exatamente os detalhes da participação de cada um no processo, e de que forma se articularam em determinados momentos e se afastaram em outros, o livro de O’Sullivan reúne muito do que havia sido publicado e estava disperso, e junta aos fatos novas informações, mas, principalmente, os bastidores das negociações numa sensata abordagem de um período fundamental da história mundial.

A obra é ainda mais interessante por demonstrar que o colapso da União Soviética já era uma realidade e que a derrubada do muro apenas serviu como um poderoso e irreversível atestado público internacional.

Só não estou muito certo se a ascenção do Reagan e Thatcher deve-se ao fim do socialismo ou se deu exatamente o contrário: a ascenção de ambos e a luta fundamental dos dois contra o socialismo, aliado ao trabalho quase clandestino do Papa João Paulo II na Polônia, tenham contribuído fortemente para a derrocada. O livro fornece bons argumentos para ambas as perspectivas. O certo é que houve grande simultaneidade nas mudanças, cada mudança reforçando as anteriores e criando espaço para as mudanças seguintes.

No fim do período de Stalin no poder as tensões já começam dentro da própria União Soviética e culmina na denúncia de Khrushchev, que se fragilizou enormemente pelas suas reformas malsucedidas e pelas dificuldades no relacionamento com os Estados Unidos e com a China. Depois veio Brezhnev, cuja aversão às mudanças conseguiu imprimir como marca de seu governo, além do grave problema de produção interna que obrigou o império a importar alimentos. Problemas econômicos e políticos estruturais abriram espaço para a ascenção de Gorbachev, cujas reformas econômicas e na liderança do partido acabaram por fragilizar e expor ainda mais a real situação do império.

Paralelamente, EUA e Inglaterra estimulavam, apoiavam e financiavam os dissidentes, e usavam toda o capital político e informação disponível para pressionar os soviéticos e os simpatizantes no plano internacional. Como se vê no livro do John O’Sullivan, o trabalho de Reagan, Thatcher e do Papa contra o socialismo era, na maioria das vezes, desarticulado. Mas a forma com que O’Sullivan narra dá a impressão de que houve uma conjunção de fatores que convertiam para a desarticulação como se tivesse sido um projeto organizado e conjunto.

Num texto para o jornal americano de debates e idéias Claremont Books, Carnes Lords, o professor de estratégia militar e naval do US Naval College, disse que a primeira-ministra, o presidente e o Papa ajudaram a moldar o mundo de forma a que, hoje, olhamos para as conquistas como direitos adquiridos. E que o livro de O’Sullivan pretende certificar-se de que não esqueçamos precisamente disso: o respeito pelas liberdades é, acima de tudo, respeito pela espécie humana.


SOBRE O AUTOR

Bruno Garschagen é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford e colaborador da revista Dicta&Contradicta.



Fonte: Site Ordem Livre.Org

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