segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Ditadura dos Rinocerontes


Natanael Pedro Castoldi



Segue um pequeno conto de minha autoria sobre a supremacia da ignorância.





Certa vez ocorreu uma reunião entre trinta rinocerontes e três águias. Eles pretendiam debater sobre o que havia do outro lado do rio. Os rinocerontes, em uníssono, bradavam:
- Não existe uma outra margem! Nós só vemos água, água sem fim, até onde a vista alcança. - As duas águias refutavam:
- Existe sim! E não está muito longe! Inclusive nós a vemos daqui, agora mesmo. Isso sem contar com o fato de que voamos para lá todos os dias. - O líder dos rinocerontes, então, se colocou a questionar:
- Como eu posso ter certeza de que o que vocês falam é verdade? Nós somos trinta, dez vezes mais do que vocês, e estamos unânimes na oposição. Será que isso não indica que estamos certos? Não é óbvio? São sessenta olhos contra seis! Prefiro crer no que eu vejo. Prefiro crer no que a maioria vê! A não ser que vocês me provem que existe uma outra margem. - Uma das águias disse:
- Você mesmo pode ir ver. Existe uma passagem para o outro lado uns trinta mil metros daqui." Contrariado, o rinoceronte retrucou:
- Vocês são minoria e a informação extraordinária é de sua autoria. O consenso é nosso. Provem vocês que existe a outra margem.
- Certo, eu vou lá e lhes trago um fio de capim. - Disse a mesma águia, voando para longe e logo retornando com uma folha no bico. O rinoceronte olhou desconfiado:
- Temos capim igual aqui. Você pode ter ido sem nada e voltado vazio, catando um capim por aqui mesmo. Ou até levado um escondido embaixo de uma pena. - A águia, desanimada, comentou:
- Vou buscar uma pequena pedra de lá. - Foi e voltou, mas o rinoceronte não se convenceu, uma vez que os outros 29 o estimulavam euforicamente:
-Você pode ter tomado essa pedra do chão ou até do leito do mar. - A águia comentou: - Mas nem molhada eu estou! - O rinoceronte refutou:
- Você pode ter catado a pedra de um ponto raso.
-Certo - disse a águia -, vou buscar uma folha de uma árvore que não existe desse lado. - Foi e voltou. O rinoceronte observou, intrigado:
- Será que isso prova que existe uma outra margem? Acho mais provável que seja uma ilha. Prove que existe outra margem! Ou não possui evidências conclusivas disso? - A águia, por fim, esbravejou:
- Vocês não conseguem ver um palmo diante dos olhos! Como acham que estão com a razão?! - Os rinocerontes se entreolhavam, ofendidos. Um deles respondeu:
- Agora está irritada! É assim que se fica quando não se tem argumentos. Você não vê nada! Sua ignorante desonesta! E qual é o seu tamanho mesmo? Temos toneladas, somos 30, querem se meter conosco?! Penso no tamanho do seu cérebro... Quantos anos de vida você tem, coisa pequena? - Outro rinoceronte interferiu:
- Vamos fazer uma votação, vamos ver quem está certo. - Os votos foram dados. 31 votos foram “contra a existência outra margem", 30 rinocerontes e uma águia com medo o fizeram, enquanto uma das aves preferiu não votar e a última foi favorável.
As águias voaram pra longe, foram embora sem palavra alguma. A voz da maioria evidenciou a verdade: não existia outra margem! Os seres alados foram justamente para aquele lugar inexistente, onde não seriam importunados pelos numerosos brutamontes, enquanto estes urravam, ao longe:
- Isso, fujam! Vocês ficaram sem argumentos, não é? É isso que acontece quando não se tem evidências. – “Elas vão morrer de tanto voar no mar”, pensou um deles.
Passado mais tempo que o de costume na “outra margem”, as águias ouviram a discussão de outros rinocerontes na frente do rochedo onde pousavam. Eram três encouraçados desmiolados discutindo sobre o que havia da metade pra cima das árvores e dos rochedos (já que eles só conseguiam ver metade) e supondo haver um penhasco infinito no “lado de lá” do rio. Nenhum deles sugeriu que sobre o rochedo havia alguma águia, ar e nuvens, tampouco sugeriram que havia folhas até o limite da copa das árvores. “O teto do mundo está logo acima de nós, dois rinocerontes e meio de altura e o mundo termina no abismo pra lá de onde conseguimos ver.” Provavelmente eles se interessariam em saber como as aves subiam e desciam do maciço “teto do mundo”, se é que estavam prestando atenção em coisas para além deles mesmos.


Observação: todos sabemos que a visão dos rinocerontes é muitíssimo limitada, atingindo alguns poucos metros adiante de sua cabeça, uma diferença enorme da visão das águias, que transpassa os milhares de metros.


Moral: será que realmente "a voz do povo é a voz de Deus", ou da Verdade?
Em diversos assuntos você pode ser como uma águia, conhecendo-os profundamente, tendo-os estudado com afinco, porém noutros você pode ser como um rinoceronte, simplesmente deduzindo coisas com base na superficial visão do desconhecimento. Se você deseja tirar conclusões sobre algo, tente se tornar uma “águia” nele, buscando através da leitura e de conversas o conhecimento de verdadeiras “águias” no assunto em questão (fale com as "águias"!). Não faça parte da manada dos “rinocerontes”, que infestam todas as áreas do conhecimento e da sociedade, bradando imbecilidades sobre quase tudo e tentando opinar agressivamente sobre coisas das quais sabem pouco e nada, uma vez que se baseiam nos errôneos discursos de outros “rinocerontes” ou na sua própria e imitadíssima visão. Se você, como “rinoceronte” em determinado assunto, deseja opinar sobre ele, use citações de “águias” ou estude até se tornar uma delas.


Com base nessa breve história, podemos pensar sobre os problemas de uma democracia regida por massas ignorantes; sobre o quão limitada é a visão de mundo de algumas pessoas (da maioria); sobre como tomamos somente a nossa perspectiva para determinar a realidade; sobre como nossas “verdades” geralmente são interpretações errôneas de um mundo muito maior, de uma realidade que está além do alcance de nossos olhos, de uma certeza que não pode ser captada pelos nossos falhos e insuficientes “olhos de rinoceronte”. Nem tudo o que nossa “visão” é incapaz de entender e conceber pode ser considerado inválido! Também pense na desonestidade intelectual daqueles que, estando num ponto de conforto, evitam ao máximo ceder diante das evidências de uma realidade para além do que seus “olhos vêem”. Se cada um tem a sua verdade individual, então vivemos enjaulados em mundinhos minúsculos perdidos dentro de um imenso universo, tornando a suposta liberdade de “crer no que desejar” numa verdadeira prisão (da qual somos incentivados a não sair, "para não ofender a 'prisão', ou opinião, dos outros"). Voemos alto, analisando tudo, tentando juntar os pontos, procurando evidências, buscando entender antes de falar. Como estudante assíduo de teologia e História da Igreja, foco meu protesto nos jovens leigos que saem por aí dando suas “rinocerontadas”, sem nunca terem lido a Bíblia, estudado a teologia cristã, analisado a filosofia cristã, lido livros de História da Igreja, vislumbrado questões de Arqueologia Bíblica, concebido o pensamento científico relacionado ao Criador, sem nunca terem realmente sentido o que é ser cristão e o que é sentir Deus. É difícil ficar aturando “rinocerontes” (muito numerosos) disseminando o conhecimento que receberam de outros “rinocerontes” ou que seu um palmo de visão conseguiu discernir. O mesmo vale para tudo e todos, inclusive Richard Dawkins, que, sendo biólogo, escreveu um livro de filosofia idolatrado pelos ateus, “Deus, Um Delírio” – estou certo quando digo que muitos ateus se baseiam em “rinocerontes”!


Te estimulo a procurar mais aplicações e ilustrações para esse rico conto.




Fonte: Blog Entre o Malho e a Bigorna

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