sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A mística do punho cerrado



Ainda não sei se foi o espetáculo da democracia ou uma reles luta de poder. A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa de prender no dia 15 de novembro os condenados do Mensalão ajudou a não só a acirrar e polarizar os ânimos, como a trazer à tona o debate sobre tradições e símbolos. Barbosa fez virem à tona os emblemas da República que hibernavam até então.


A mística do punho cerrado
Dois condenados, o deputado federal José Genoíno e o ex-ministro José Dirceu, ergueram os punhos cerrados, revivendo o símbolo do movimento operário internacional contra os "exploradores capitalistas" e o poder constituído. Que impacto esses gestos têm sobre a recepção do público? Eu me interesso menos pela política do que pela simbologia. Não pretendo entrar no mérito jurídico do caso, até porque sou leigo no tema. Vou tentar somente demonstrar como a simbologia é chamada a intervir em situações extremas – e se desloca ele própria para o centro do picadeiro, ou da ágora, se quisermos ser mais otimistas com a democracia.


Afirmar com Karl Marx do opúsculo O 18 Brumário de Luís Bonaparte que a história se repete como farsa seria reduzir a explicação, embora esta seja a primeira impressão que suscitam as atitudes descritas acima. Os símbolos são traiçoeiros. Refiro-me às imagens que servem para caracterizar movimentos políticos, religiosos ou mesmo clubísticos. Tais modalidades de representação mudam de dono, sentido e ideologia de acordo com as circunstâncias. E esses signos insidiosos retornam, infiltram-se e se apossam do imaginário popular, ainda que de forma inconsciente. Marx formulou a imagem da História que se repete como farsa ao refletir sobre como Napoleão reutilizou os distintivos, águias e lauréis do Império Romano para fortalecer sua simulação de César Redivivo, de líder supremo da Revolução da Europa moderna. Os governantes e políticos brasileiros também reprisam a história, à sua maneira.


Joaquim Barbosa quebrou com a tradição de cordialidade do Supremo, ao mandar prender os condenados no início de um feriado. Até então, o STF cumpria mandados de prisão após os feriados. Mas estamos no século XXI e a Justiça não tira férias. No entanto, o feriado em questão é a Proclamação da República. O ato do ministro reveste-se, portanto, de um caráter intencional. Indicaria que, com a prisão dos condenados, mesmo às pressas, ele teria replocamado a república, como um novo Deodoro da Fonseca. O evento ficará nos anais da nação e poderá servir para turbinar uma futura candidatura de Barbosa à Presidência da República. Com o ato rigoroso e as penas alternativas e atenuantes que ele magnaninamente distribui, apresenta-se com o manto severo de salvador da pátria – e isso poderá ser lembrado mesmo nas eleições de 2018. Ninguém é ingênuo para não pensar que Joaquim Barbosa combinou admiravelmente ato legal e símbolo pátrio para potencializar a sua já alta visibilidade.


Mais intrigantes foram os gestos aparentemente revolucionários de Genoíno e Dirceu. Talvez tenham sido gestos de desespero e de súbita nostalgia no instante em que compareciam à sede da Polícia Federal de São Paulo. Os punhos erguidos e fechados se popularizaram a partir de 1917, com a Revolução Bolchevique. Expressam o desafio aos poderosos e a solidariedade entre os explorados do mundo inteiro. Evocaram a luta das esquerdas contra a exploração do trabalho operário. A imagem de Lênin em 1917, dos Panteras Negras nos Estados Unidos nos anos 60 e dos anarquistas de Maio de 1968 (para não citar o gesto de vitória do saudoso jogador de futebol e homem de esquerda Sócrates são suficientemente eloquentes para que o espectador associe Genoíno e Dirceu à legião dos oprimidos. Tudo isso faz crer que eles não ergueram o punho por impulso, mas com a intenção de comover os militantes, presentes ou que viram a imagem à distância. Quiseram figurar como Lênin e Sócrates ressurrectos. Desejaram reabilitar a luta de classes.


Seus inimigos, porém, não demoraram em lembrar que desde os tempos da saudação a Ishtar na Babilônia, o gesto serviu para outros fins, inclusive como parte da estatuária do comunismo totalitário e dos rituais nazista e da supremacia branca – há até uma foto de Hitler posando com o gesto. Infelizmente, Genoíno e Dirceu há muito tempo não podem ser qualificados como cidadãos oprimidos e explorados, se é que puderam sê-lo algum dia. Eles ainda são políticos influentes e poderosos e têm milhões de fiéis seguidores. Mas ostentaram os gestos para evocar um ideal que não se esforçaram por pregar como o faziam antes. Ergueram os punhos tarde demais. E assim enfraqueceram um símbolo que costumava ser eloquente.


Os símbolos se desgastam, perdem a capacidade de persuasão e até de inverterem os sinais. Certos poderosos gostam de subestimar a inteligência alheia. A História aqui não volta como farsa, porque farsa pelo menos faz as pessoas rirem. No Brasil, a História se repete como treta.




Fonte: Revista Época/ Blog do Gari Martins da Cachoeira
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