segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Destronando um deus da "New Left": Michel Foucault

Por André,


Michel Foucault é um dos deuses da atual academia de humanidades. Parte dessa atmosfera irracionalista pós-moderna se deve à disseminação do pensamento de Foucault. É bem conhecido por suas reflexões sobre a sexualidade e a supressão dela (História da Sexualidade; em três volumes), sobre estruturas de poder que agem sobre a esfera do indivíduo (Microfísica do PoderVigiar e Punir), sobre a loucura (sua tese de doutorado, A História da Loucura) e outras reflexões menos famosas.

Ao contrário de tudo que poderíamos esperar de pessoas que fazem chacota da possibilidade de se saber a verdade, a palavra de Foucault é sagrada e a representação última da sabedoria para alguns acadêmicos; o filósofo é tratado como um guru (tratamento igualmente aplicado, talvez, apenas a Marx e Freud) e seus conceitos são repetidos de maneira vazia e imprecisa (bem-vindos ao pós-modernismo) a torto e a direito - experimente questionar a palavra do Mestre e o alarme "reacionário" vai soar.

Já conhecia a crítica avassaladora de Roger Scruton a Foucault, primeiro a alusão entre a contradição entre a teoria de Foucault e sua prática de vida (pensadores e militantes alinhados à esquerda do espectro contradizendo suas teorias com suas práticas - what's so new?) em O que aconteceu com a Razão e depois a pura redução a pó do guru esquerdista em Thinkers of the New Left (p. 31-45) - nesta última referência, Scruton mostra como, malgrado as críticas marxistas a Foucault, o essencial da obra do francês se reduz a uma repasteurização de velhos conceitos de Marx como exploração do trabalho e conflito de classe).

Hoje mesmo me deparei com um livrinho que sintetiza as contradições do xamã, trata-se do A Longevidade de uma Impostura: Michel Foucault e o outro Foucófilos e Foucólatras, dividido em duas partes, na primeira as contradições internas do pensamento de Foucault são expostas, na segunda a idolatria de seus seguidores é igualmente esmiuçada. O autor é o professor francês Jean-Marc Mandosio. Um dos autores que serviu à crítica de Mandosio é a análise de Foucault  feita por José Guilherme Merquior. Uma resenha do livro pode ser conferida aqui. Alguns trechos da resenha merecem citação a parte:

Ele [Mandosio] refuta a teoria das epistemes históricas contidas nas obras consideradas estruturalistas de Foucault, sua “genealogia” e “arqueologia”, principalmente As Palavras e as Coisas (1987a) e Arqueologia do Saber (1987b). As inconsistências das “idades” inventadas por Foucault na primeira obra acima é explicitada por Mandosio, bem como uma apresentação de foucaultianos e outros que, inclusive reconhecendo sua inaplicabilidade ao processo histórico concreto, lançam mão da obra do “Mestre”, que, aliás, recordam o personagem que repetia infinitamente esta palavra no filme de Drácula,Morto mas Feliz (Mel Brooks, EUA, 1995).
Embora a alegada distanciação entre Foucault e a esquerda marxista tradicional (alguém realmente acredita nisso?), diversas passagens de sua biografia depõem em contrário:

Seria desnecessário elencar todas as peripécias de Foucault reveladas por Mandosio, tal como sua aproximação com os maoistas (e estruturalistas “marxistas”, ligados aos grupos althusseriano e lacaniano) e as atividades acadêmicas efetivadas sob sua direção nesse período, tal como um curso sobre “A dialética materialista e a criação de porcos”... Sem dúvida, os demais períodos também são retratados e mostra como Foucault caminhava de acordo com o sabor das modas (a originalidade de Foucault também é questionada por Mandosio), mostrando seus zigue-zagues ideológicos e práticos, passando ao pós-estruturalismo (ou “pós-modernismo”) e seus malabarismos até sua morte, em 1984, inclusive sua pretensão de conseguir cargo no governo do Partido Socialista Francês, em coligação com o Partido Comunista Francês, antes rejeitados pelo ideólogo da “microfísica do poder”.
O carnaval de conceitos crípticos e ininteligíveis não pode escapar à análise de um filósofo pós-moderno. O fenômeno não escapou dos olhos críticos de Mandosio:

 Mandosio também oferece apontamentos críticos interessantes sobre a microfísica do poder foucaultiana e outras obras e concepções, presentes principalmente na coletânea sobre poder (Foucault, 1989) e seu livro sobres as prisões (Foucault, 1983). Ele centra sua crítica aos termos “governamentalidade” e “biopolítica”, “dois excelentes exemplos de proliferação conceitual”, que hoje são usadas “a torto e a direito para dar aparência de profundidade filosófica a discursos que dela carecem cruelmente” (Mandosio, 2011, p. 66). Mandosio critica o uso destes termos e a razão pela qual são utilizáveis, sua imprecisão e até mesmo confusão entre os dois termos.
Uma última citação, arrebatadora e que mostra a esquizofrenia dos neointelectuais da nova esquerda, endeusam um sujeito que, aos olhos do Mestre-mór não passaria de um ideólogo barato:

Podemos encerrar com a seguinte frase: “o principal talento de Foucault sem dúvida terá sido dar uma forma filosófico-literária aos lugares comuns de uma época” (Mandosio, 2011, p. 76). Este é justo o papel que Marx (1988) atribuía aos ideólogos: transformar as representações cotidianas ilusórias em ideologia, dando-lhe sistematicidade.

Para quem quiser outras mumificações críticas de outros gurus da Nova Esquerda (Habermas, Sartre, Dworkin, Althusser etc) torno a recomendar o livro Thinkers of the New Left de Roger Scruton, publicado em 1993 (!!). Para um destronamento arrebatador de Freud, a recomendação (a mais recente, talvez não a melhor) Le Crepuscule d'une Idole - L'Affabulation Freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo - A Fabulação Freudiana) de Michel Onfray.



Fonte: Blog O bico do tentilhão

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