quarta-feira, 27 de novembro de 2013

MANUAL PRÁTICO DE BONS MODOS EM LIVRARIAS

Viver cercado de livros + indicar leituras + ganhar por isso = melhor trabalho do mundo?

08.01.2013 | Texto: Layse Moraes (*)
Muita gente que gosta de literatura tem uma visão romantizada sobre ser livreiro. Afinal, o combo viver cercado de livros + indicar leituras + ganhar dinheiro para isso parece ser perfeito. Mas não é - ou, pelo menos, nem sempre. Hillé, pseudônimo da autora do blog [manual prático de bons modos em livrarias], usa da sua própria experiência como vendedora de livros para contar as bizarrices que acontecem em uma livraria -  como a vendedora que oferece o bestseller "50 tons de cinza" no lugar de "Amor nos tempos do cólera" porque este tinha acabado, ou o leitor que pergunta se Clarice Lispector, que morreu em 1977, estará presente no lançamento de sua biografia escrita por Benjamin Moser. É de sentar e chorar - ou rir. Mas Hillé diz e a gente percebe: “Os delírios da freguesia são a parte mais divertida do trabalho.”
 Desenho que representa Hillé no blog
Como surgiu a ideia de fazer um blog contando as bizarrices que acontecem dentro de uma loja de livros?Uma roda de amigos livreiros, várias histórias hilárias e em vez de "olha, daria um livro", algo como "a gente precisa criar um blog". Eu e meus colegas sempre conversávamos sobre o assunto, então depois de um domingo caótico, cheguei em casa e criei o [manual prático de bons modos em livrarias]. A princípio, a ideia era apenas ensinar o caminho do bem para a freguesia (leia-se "boas maneiras"), mostrar que não é legal essa história de esconder livro, não saber o título nem autor da obra que deseja comprar, não falar "obrigada”, essas coisas. O primeiro post do blog é exatamente um "olha, freguês, vem cá, a gente precisa ter uma conversinha". Porém, foi inevitável não compartilhar as perguntas sem pé nem cabeça e os diálogos surreais, porque são essas conversas as responsáveis pela maior parte dos delírios que acontecem durante o expediente. Se o blog fosse só mais um "manual de bons modos" acho que seria chato demais. Com o tempo, ele acabou se transformando em uma divertida terapia em grupo.

Acho que muita gente que gosta muito de literatura romantiza um pouco a ideia de trabalhar em livraria. Você romantizava? É bastante comum eu escutar dos clientes que "ser livreiro é o melhor emprego do mundo" ou que "deve ser ótimo trabalhar em um lugar assim, cercado de livros", entre outras coisas. Eu também romantizava (e muito!), apesar de saber que teria que lidar diretamente com o público, imaginava que trabalhar em uma livraria seria quase terapêutico, por ser um lugar calmo e tranquilo (não é essa a sensação que qualquer um tem ao entrar em uma loja de livros?), onde eu poderia ler tudo o que eu fosse capaz. Alguma semanas depois, percebi que calma, tranquilidade e livraria não cabem na mesma frase, se você é funcionário de uma. Percebi, também, que os livros não vão parar sozinhos nas estantes, você tem que carregá-los e organizá-los, cada um na sua respectiva seção; os telefones só tocam se for ao mesmo tempo (é impressionante a capacidade de sincronia desses objetos inventados no inferno); além da correria, do estresse e das muitas horas em pé, correndo de um lado para o outro, subindo e descendo escadas. Os delírios da freguesia, se a gente for analisar, são a parte mais divertida do trabalho.

Qual é a pior e a melhor coisa em se trabalhar em uma livraria? Livraria é um comércio, como outro qualquer: trabalha-se muito e nem sempre seu trabalho é reconhecido. Eu já trabalhei e trabalho com pessoas realmente inteligentes, com mestrado nas costas, que poderiam estar fazendo qualquer outra coisa, mas continuam atuando como livreiro só por "amor a causa". A melhor coisa? Preciso responder mesmo? Os livros, claro. 

Você optou por se “esconder” atrás do pseudônimo Hillé, uma referência à personagem de Obscena Senhora D., da escritora Hilda Hilst, por qual motivo? Sou completamente fascinada pela obra da Hilda Hilst. Gosto de contar a história de como conheci seu trabalho: no final dos anos 90, eu me correspondia por carta com gente de todo canto do Brasil e, certa vez, um dos meus correspondentes fez um envelope utilizando uma folha de revista que tinha uma foto da Hilda, sem nem saber quem era. Na foto, Hilda está perto de uma árvore, cercada por cães, com um sorriso lindíssimo: "Usei essa imagem porque achei a sua cara". A legenda da foto dizia que aquela mulher era cronista e poeta e, como eu não tinha internet, fui atrás daquela senhora em sebos. Acabei encontrando o Obscena Senhora D. por dez reais e me apaixonei perdidamente. Quando criei o blog, não tinha intenção de criar uma personagem, porém a Alice Sant'Anna (jornalista do Prosa e Verso) disse que eu precisava de um pseudônimo para que a matéria que ela tinha escrito sobre o blog fosse publicada. Imediatamente pensei na Hillé, aquela louca debochada e apaixonante.

Como foi que o blog ultrapassou a sua experiência pessoal e começou a receber histórias de outras pessoas? Acho que, de certa forma, o [manual] sempre foi coletivo. Eu sempre administrei o blog sozinha, mas as histórias foram pescadas de várias pessoas, de vários colegas que trabalhavam comigo. A única coisa que eu fazia era adaptar o texto para o meu estilo, fazer links com algumas coisas do youtube ou memes de internet. Os "causos" de livreiros de outros lugares começaram a chegar depois de eu ter criado vários canais de comunicação (e-mail, fanpage e twitter). Continuo recebendo várias histórias por dia, inclusive de gente que trabalha comigo e não sabe que eu sou a Hillé.  

Dentre todas as coisas que já aconteceram, qual foi a mais absurda até hoje? A minha favorita é a da freguesa que entra na livraria, percorre o local com o olhar durante uns vinte minutos e, com cara de estar completamente perdida, pergunta: "Vocês vendem escova de dentes aqui?" Diante a resposta negativa, faz outra pergunta: "E pasta?". Essa história empata com a do freguês que ia na livraria a cada 15 dias, subia até o café, fazia dez abdominais, levantava e ia embora, sem dizer nada.

Você tem uma listinha de livros que ainda não leu, mas quer muito ler? Quais são eles? Invejo bastante quem faz listinha e consegue seguir fielmente. Nunca consegui, principalmente trabalhando em livraria, pois todos os dias me deparo com coisas novas (ou antigas) que quero ler. Minha única meta é ler, pelo menos, dois livros por semana.
     
Quais são os autores/livros que você mais indica e qual livro não sai nunca da sua cabeceira? Gosto bastante de indicar dois livros que estão na minha cabeceira e entre os meus favoritos da vida: A Trégua, do Mário Benedetti e Uma Casa na Escuridão, do José Luís Peixoto. Já fiz, inclusive, amizade com fregueses por causa desses dois autores, de gente que voltou na livraria só para agradecer a indicação. Aliás, foi bastante emocionante conhecer o Zé Luís pessoalmente e poder compartilhar as experiências que tive graças aos livros dele. Acho que todo mundo deveria ter a oportunidade de conhecer, conversar e dar um abraço no seu escritor favorito.

(*) Layse Moraes é uma jornalista apaixonada por livros e mantém o blog Coração Nonsense


Fonte: Site Revista TPM

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