segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O pai do Pensador Coletivo

gramsci


Quando Demétrio Magnoli escreveu o artigo “O Pensador Coletivo”, faltou um esclarecimento importante que possivelmente estava esquecido na memória dele: o intelectual orgânico segundo o italiano Antonio Gramsci (1891 – 1937). As ações descritas no artigo têm raiz nos escritos do pensador marxista, que por sua vez foi uma das pedras fundamentais do partido que atualmente domina o ambiente cultural e político deste país.

Segundo Gramsci, com exceção dos ‘miseráveis’ do lumpenproletariat, todos são intelectuais. Dentre esses intelectuais, existem dois tipos: os profissionais e os orgânicos. Os primeiros “se põem a si mesmos como autônomos e independentes do grupo social dominante”; são sujeitos que possuem a capacidade “de combinar habilmente indução e dedução, de generalizar sem cair no formalismo vazio, de transferir certos critérios de discriminação de uma esfera a outra do julgamento, adaptando-os as novas condições, etc.”[1]. Em outras palavras, esses teóricos são os germinadores de idéias. Sem esses ‘profissionais’ não haveria o quê disseminar. Para Gramsci, ou eles servem à causa partidária em busca da hegemonia ou vão para a lata de lixo.

Quanto ao segundo tipo, Olavo de Carvalho, em A Nova Era e a Revolução Cultural, diz: “os intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer, defender sua ideologia de classe”. É o militante, o funcionário público que faz a ocupação ideológica de espaços, o empresário, etc. Qualquer profissional é válido, desde que ele tenha como meta principal a disseminação dos ideais formulados pelos teóricos do partido.

É do segundo tipo que Magnoli teria feito bem se tivesse lembrado de citar. É essa segunda classe de ‘intelectuais’ (na acepção gramsciana e, por conseguinte, petista) que foi na palestra dele chamá-lo de racista (e outros ‘istas’). Pessoas como ele e Luis Felipe Pondé (outro que teve conferência cancelada na ocasião) são símbolos que evocam uma série de idéias e condutas que vão contra a hegemonia do partido.

Em tempo: o partido político, segundo Gramsci, “é precisamente o mecanismo que realiza na sociedade civil a mesma função desempenhada pelo estado, de modo mais vasto e mais sintético, na sociedade política, ou seja, proporciona a soldagem entre intelectuais orgânicos de um dado grupo, o dominante, e intelectuais tradicionais” [2]. Assim, quando aparecem sujeitos que não se conformam com essa regra ditada pelo Partido, é esse tipo de mecanismo que eles estão prejudicando: o Partido, que com toda benevolência que lhe cabe, está encarnando o espírito da sociedade. A interrupção da marcha revolucionária ou o abalo da cosmovisão partidária, portanto, é crime de lesa majestade. Não é de se estranhar que ‘cachorro’ será o mais brando dos adjetivos atribuído a quem for contra a sociedade (isto é, o Partido).

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[1] Antonio Gramsci. Cadernos do Cárcere. Vol 2 – Os intelectuais. O Princípio educativo. Jornalismo. pp. 17 e 206
[2] Ibid. p. 24

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Imagem: Antonio Gramsci / thusspatzarathustra.com


Fonte: Site da Revista Vila Nova

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