quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Uma razão para tudo no Hinduísmo


Uma razão para tudo no HinduísmoEnsina a doutrina hinduísta que existem quatro Devarajas, entidades de categoria superior inacessíveis aos sentidos do ser comum desta terra. São eles os grandes arquivistas, registradores onipresentes e oniscientes das venturas de todos os homens. A eles nada escapa, cabem-lhes assim as tarefas de julgar e cobrar qualquer pequena ou grande ação, e até o conjunto da obra.

O método de avaliação é perfeito na lógica atemporal e divina, incontestável, por vez, obscuro ao entendimento imediato, mas correto e inquestionável na infinita trajetória deste fato misterioso que é o homem. Chamados também de senhores dos ventos, são eles os fiéis administradores da justiça divina, da qual nada consegue esconder. À prova de engano, nem o mais experimentado dos dissimuladores consegue despistar o valor real de uma ação, de um gesto, de um pensamento, de qualquer intenção. Eles, soberanos, encarregam-se de premiar e de castigar, de dar corda ao livre-arbítrio, de conceder prazo, para que o ser humano conquiste seus méritos, ou acumule mais dívidas.

O crédito de tolerância, o prazo nem sempre curto ou imediato, é apenas um aparente esquecimento. Pode parecer infinito, durar décadas, uma vida quase inteira; para os Devarajas, tempo é que não falta, sabedoria abunda também para aguardar o momento mais certo de apresentar a conta, numa ou em outras vidas.

Segundo as escritas védicas (do hinduísmo), podem-se aguardar várias encarnações, transferindo de uma para outra o saldo positivo e o negativo, daí a necessidade de deixar as positividades sempre abundantes e as negatividades, minimizadas. Os Devarajas permitem assim ao livre-arbítrio se expressar e acrescentar ou diminuir o patrimônio permanente, irrenunciável, eterno que segue esta centelha divina que é o homem.

JUSTIÇA DIVINA

Se a religião cristã, nas suas várias formas mais professadas, não explica a concatenação do “estranho” destino humano, poder-se-á ler nas escrituras hinduístas que quem nasce desafortunado, com marcantes deficiências ou transtornos, traz consigo o que os Devarajas permitiram. Isso explica muito mais a inconcebível tese de que um ser humano possa ter sua única chance de existência terrestre, em condições infinitamente inferiores às de seus congêneres. Ainda todos destinados, igualmente, ao Inferno ou ao Paraíso. O hinduísmo dá uma explicação “lógica e ampla”, provavelmente uma daquelas “pérolas” que o Grande Mestre aconselhou não doar aos porcos.

Parece mais claro, atrás do primeiro véu, enxergar uma justiça divina que, de outra forma, acabaria parecendo uma grande injustiça “sem explicação plausível”, tropeçando em dogmas de pernas curtas. Bem por isso acabam sem resposta e se afastam da religião, por vez passando a odiá-la genericamente, aqueles que enxergam na ação divina algo de vingador e cruel. Como aceitar que um filho nasça desafortunado física ou mentalmente? Como interpretar “justos” os dons da normalidade para uns e deficiência para outros?

O hinduísmo sustenta que os quatro Devarajas, ao se aproximar a reencarnação de um ser humano, cria um “elemental”, uma força geradora distinta e dedicada, produzida pelo pensamento conjunto dos quatro, cada um atuando numa esfera específica do conjunto, que disporá um molde a ser preenchido pelas partículas físicas do novo corpo a nascer.


DESTINOS E CARMAS

Também o ambiente e os pais são escolhidos e “permitidos” pelos Devarajas de forma a conectar os destinos e os carmas que precisam se completar (existe uma vasta literatura que aborda esses assuntos).

Enfim, não há uma gota d’água que esteja fora do lugar. O bizarro, o inexplicável, o fortuito, seriam permitidos e provocados pelos Devas, restando ao homem o livre-arbítrio de viver proveitosamente a experiência e/ou o castigo, assim encurtando e aliviando sua passagem terrena. Ensinam ainda que nem sempre a dor é um castigo, mas a forma de compreender melhor e mais rapidamente o que ainda está confuso.

O novo papa, jesuíta, culto teólogo, sinaliza com muita frequência, em seus discursos, a necessidade de aproximação das religiões, do ecumenismo e de reformas. Certamente, os processos de mudança e de evolução de uma religião que, depois de Cristo, no processo de secularização, se adaptou mais aos interesses de Estado-poder que aos ensinamentos do Sermão da Montanha, precisam recuperar parte de sua força espiritual. Dar mais sentido à vida das pessoas que a modernidade deixou mais inquietas.




Artigo publicado no site Tribuna da Internet


Fonte: Blog do Gari Martins da Cachoeira
http://martinsogaricgp.blogspot.com.br/2013/11/uma-razao-para-tudo-no-hinduismo.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+BlogDoGariMartinsDaCachoeira+(Blog+do+Gari+Martins+da+Cachoeira)

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