sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Domenico De Masi: "O Brasil é o país dos sociólogos"

Num novo livro, o pensador italiano afirma que a humanidade precisa criar um novo modelo de vida que ofereça mais bem-estar – e que o Brasil pode inspirá-lo

MARCOS CORONATO
BRASILIANISTA De Masi, em visita  a São Paulo, no  fim do ano passado.  Para ele, o modelo brasileiro é o melhor (Foto: Olga Lysloff/Folhapress)
Os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo – até no rolezinho dos adolescentes. Talvez seja uma característica do país. “Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropológos”, diz o italiano Domenico De Masi, de 75 anos. “Tanto que vocês elegeram um sociólogo para presidente.” De Masi, que também é sociólogo, é um profundo conhecedor do Brasil. Mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. A admiração pelo Brasil está presente em seu novo livro, O futuro chegou – Modelos de vida para uma sociedade desorientada (Casa da Palavra, 768 páginas, R$ 68).
ÉPOCA – Entre os autores brasileiros que o senhor leu, qual deles mais o impressionou?
Domenico De Masi –
 O Brasil tem a sorte de ter tido no passado e ter no presente intelectuais de alto nível, que projetaram a identidade e enalteceram os valores brasileiros, ganhando respeito em todo o mundo. Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropólogos. O Brasil é o único país do mundo que teve um grande sociólogo na Presidência da República – e por duas vezes. Por isso, e por seu imenso patrimônio cultural, espero que sejam os intelectuais brasileiros a guiar a elaboração de um modelo de desenvolvimento mundial necessário para vencer a desorientação de nossa sociedade e dar uma dimensão unificada e global para as diversas regiões da Terra. Li e me apaixonei pelo pensamento de muitos intelectuais brasileiros, mas dois deles me enriqueceram de modo particular: Darcy Ribeiro, que não tive tempo de conhecer, mas de quem li toda a imensa obra; e Oscar Niemeyer, com quem tive uma profunda amizade. Ambos deram uma contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro.
ÉPOCA – O senhor afirma que o Brasil é rico materialmente e rico de esperança, por isso tem algo a ensinar ao mundo. E as sociedades que eliminaram a miséria, como o Japão, o Canadá e os países escandinavos? Não seriam eles os melhores exemplos?
De Masi –
 Japão, Canadá e os países escandinavos têm muito a ensinar nos aspectos econômicos e sociais para ajudar na construção do novo modelo que o mundo precisa. Mas não se vive só de pão e bem-estar não é sinônimo de consumo. A felicidade de um povo e a excelência de seu modelo de vida não dependem apenas da riqueza. Os japoneses têm um PIB per capita de US$ 46 mil, mas se suicidam com tamanha frequência que, em 2007, o governo japonês sentiu a necessidade de publicar um Livro Branco antissuicídio. O Butão tem um PIB per capita de apenas US$ 2.400. Mas adota o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), que contempla a qualidade do ar, a saúde dos cidadãos, o ecossistema, a educação, o desenvolvimento de comunidades locais e a riqueza das relações sociais. Com base no PIB, esse pequeno Estado é um dos mais pobres da Ásia. Se levarmos em conta o FIB, passa ao primeiro lugar no continente e oitavo no mundo.
ÉPOCA – Em que o Brasil pode contribuir?
De Masi –
 O Brasil tem um PIB que o coloca na sexta posição no mundo (segundo dados de 2012 do Banco Mundial, o Brasil tem o sétimo PIB mundial), e, com seus US$ 12,6 mil de PIBper capita, pode se orgulhar de ter preciosos recursos econômicos, cada vez mais escassos no resto do mundo e cada vez menos desprezíveis na construção do novo modo de vida. Penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional. A todos esses elementos positivos já presentes, hoje devemos acrescentar dois: o aumento da consciência dos grandes desafios a ser enfrentados e superados dentro do país – corrupção, violência, desigualdade, deficits educacionais –, e a percepção, agora clara, de ser um país de ponta, diferente e positivo, capaz de propor, mesmo no exterior, com orgulho, sua própria maneira de ser.
"Quando o novo modelo surgir,
o brasileiro terá orgulho
de seus ancestrais índios"
ÉPOCA – Qual foi seu objetivo ao identificar 15 modelos de sociedade? Os modelos certamente nos ajudam a entender o passado. Compreendê-los ajuda a melhorar o futuro?
De Masi –
 Cada socidade formou a base de um modelo existente. A Idade Média cristã foi estruturada na pregação de Cristo e na doutrina elaborada pelos padres da Igreja do Oriente e do Ocidente. A sociedade muçulmana nasceu e se desenvolveu seguindo o padrão ditado por Maomé e pelos califas que lhe sucederam. A sociedade dos Estados Unidos se fundou com base num modelo que gradualmente influenciaria todo o Ocidente e que se inspirou em ideias protestantes, iluministas e puritanas. O modelo liberal que triunfou no século XIX e que ainda afeta nossa economia e nossa política é derivado do pensamento de John Locke, Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. A sociedade soviética tentou a construção do modelo concebido por Marx, Engels e Lenin. Nenhum modelo de vida passado ou presente é capaz de tornar felizes os homens que os adotaram. Mas temos o dever de abordar a plenitude da vida, melhorando os modelos que não nos satisfazem. Não estou convencido que o bem-estar econômico seja uma meta coletiva que deva ser encampada pelo Estado, enquanto a felicidade deva ser uma meta pessoal que cabe apenas ao indivíduo atingir. Creio, no entanto, que o indivíduo não possa se aproximar da felicidade plena se o contexto social em que ele vive é violento, injusto, anárquico, desnorteado, negativo, predatório. Assim, cabe ao Estado garantir as condições essenciais para todo cidadão cultivar a própria felicidade.
ÉPOCA – Entre os modelos em que o senhor dividiu a humanidade, alguns produzem muito mais pobreza. Outros produzem muito mais abundância. Isso já não indica uma clara superioridade de alguns modelos em relação a outros?
De Masi – 
Os modelos japonês e protestante produziram mais riqueza, mas os modelos clássico e católico produziram mais humanismo. O modelo dos Estados Unidos produziu mais guerras que o do Brasil, que por sua vez é mais dinâmico e positivo que o modelo de italianos e franceses. Os modelos politeístas são menos intransigentes que os monoteístas. Todos os 15 modelos analisados apresentam qualidades e defeitos. Nenhum sozinho basta para orientar o homem pós-industrial, portador de necessidades inéditas em relação àquelas das gerações que o precederam.
ÉPOCA – O senhor sugere que a humanidade deveria abraçar um novo modelo. Mas não seria mais simples copiar ou melhorar o que já existe?
De Masi –
 É necessário estabelecer o modelo capaz de assegurar a maior felicidade possível para a sociedade pós-industrial. Sem esse modelo, não sabemos qual meta buscar nem como aproveitar os recursos que nos permitam chegar lá. Uma vez elaborado o modelo ideal de futuro, caberá a cada comunidade melhorar o modelo defeituoso que adota atualmente, a fim de aproximá-lo do ideal. Cada modelo atual ou do passado, sendo o resultado de um longo projeto, uma longa reflexão e testes, tem algo bom que deve ser incorporado ao novo modelo. Até agora, um “poder forte”, como Roma, a Inglaterra ou os Estados Unidos, elaborava um modelo e todos os países colonizados eram obrigados a adotá-lo. Hoje, temos as condições tecnológicas e sociais que permitem a concepção do novo modelo, assim como ocorre com as informações nas redes sociais e na Wikipédia.

ÉPOCA – O senhor diz que o novo modelo incorporará valores dos antigos índios brasileiros. Como é essa ideia?
De Masi –
 Na metade do século XIX, a cidade mais industrializada do mundo era Manchester(na Inglaterra), onde apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados. Nas atuais fábricas pós-industriais, um terço dos trabalhadores desenvolve atividades criativas. Os outros dois terços estão engajados em atividades executivas do tipo física ou intelectual, destinadas a ser absorvidas por computadores e robôs. Num futuro bem próximo, como previu (o economista britânico John Maynard) Keynes no fim dos anos 1930, só haverá trabalho criativo, enquanto a maioria dos trabalhadores não terá de trabalhar mais que 15 horas por semana. Em grande parte do mundo, a relação entre tempo e vida será muito similar àquela dos índios, centrada em atividades rituais e estéticas. Quando o novo modo de vida for desenhado e incorporar também esses valores, os brasileiros ficarão orgulhosos dos ancestrais indígenas de que hoje se envergonham. E nada impedirá nossos netos de somar os benefícios do ócio criativo, do senso estético e da sabedoria indígena aos benefícios da ciência e da tecnologia pós-industrial. 

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/01/bdomenico-de-masib-o-brasil-e-o-pais-dos-sociologos.html

A demonização da polícia e a romantização dos arruaceiros

A qualquer deslize, o aparato de segurança é tratado como vilão, enquanto os malfeitores são vitimizados pela mídia

JOSÉ FUCS
 Em tempos de rolezinhos, black blocs e quetais, é estranho, muito estranho, que a polícia é que esteja sempre na berlinda. Em vez de a mídia focar a cobertura nos malfeitores e em suas ações, tornou-se algo corriqueiro condenar a atuação da polícia, que age para proteger a população e o patrimônio público e privado.
Quem me conhece sabe que estou longe de ser um defensor da truculência policial. Se alguém procurar, não vai achar nada em minha biografia ou nos artigos e reportagens que escrevi em trinta anos de trabalho em que eu faça a apologia do Estado policial ou defenda a violência das forças de segurança.  Ao contrário. Sempre apoiei – e continuo a apoiar – o respeito aos direitos humanos em qualquer circunstância, inclusive o dos bandidos e dos presos, e o tratamento igualitário dos cidadãos pela polícia, independentemente de raça, cor e opção sexual de cada um.
Isso não significa que, para mim, a polícia seja um mal por definição, como acreditam muitos dos radicais e anarquistas da linha de Mikhail Bakunin, o fundador do “anarquismo social”,que estão à solta por aí. Eu acredito que a polícia e o aparato repressivo do Estado existem (e devem existir) para oferecer segurança e garantir os direitos dos cidadãos e a propriedade pública e privada, de acordo com a Constituição e as leis ordinárias do país. Sempre que haja qualquer ameaça aos direitos de qualquer cidadão, ainda que seja o mero direito ao silêncio contra um pancadão na madrugada, o Estado e a polícia deve agir prontamente, com a força exigida em cada situação, para preservá-los.
Ouso dizer, sob o risco de ser achincalhado pela turba ignara que prolifera nas redes sociais, que, em São Paulo e em outros estados do país, a polícia tem alcançado, de maneira geral, resultados razoáveis ao cumprir seu papel.  Apesar da existência de problemas pontuais, parece inegável que, nos últimos anos, houve um tremendo progresso na repressão ao crime organizado, especialmente em São Paulo e no Rio. Houve também um grande progresso no respeito aos direitos humanos pela polícia desde a redemocratização do país, nos anos 1980.
É certo que, no Brasil, a polícia ainda está longe, muito longe, da perfeição. Está sujeita a erros individuais ou coletivos como qualquer cidadão ou categoria profissional, como mostra o caso do manifestante que levou um tiro da polícia ao participar da manifestação em São Paulo, na semana passada, contra a realização da Copa do Mundo no país. Embora pareça inverossímil para mim que vários policiais estivessem perseguindo um manifestante que nada havia feito além de gritar palavras de ordem contra a Copa, não faz muito sentido que, naquele contexto, tenham atirado nele a queima roupa.
Muitos analistas de gabinete viram na reação da polícia uma expressão incontestável do despreparo da polícia, em particular da polícia de São Paulo, para lidar com grupos de baderneiros e grandes manifestações. Segundo esse pessoal, a polícia paulista estaria anos-luz atrás das polícias de países desenvolvidos. A ideia do despreparo, porém, não me parece fundamentada na realidade.  Mesmo na Europa e nos Estados Unidos, onde a polícia seria mais preparada e agiria com luvas de pelica, há casos escabrosos de erros policiais.
Na Inglaterra, por exemplo, o brasileiro Jean Charles de Menezes foi morto em 2005 por um erro grosseiro da respeitadíssima Scotland Yard. Na Austrália, a polícia é acusada de ter provocado a morte do brasileiro Roberto Curti, de 21 anos, com choques elétricos, em 2012.  Nos Estados Unidos, o afroamericano Rodney King, foi brutalmente espancado pela polícia em 1991, depois de uma perseguição por roubo. Na França, o General De Gaulle, então presidente do país, reagiu com mão de ferro contra os manifestações estudantis que transformaram Paris numa praça de guerra, nos idos de 1968.
Como se vê, erros policiais podem acontecer não apenas em países em desenvolvimento como o Brasil, mas também em países desenvolvidos, e isso não deve ofuscar os acertos, nem colocar em xeque a ação da polícia como um todo.  A violência policial também acontece em qualquer lugar – e, muitas vezes ou quase sempre, feliz ou infelizmente, de forma justificada. 
Não parece fazer qualquer sentido que, no Brasil, a mídia dê eco aos que acusam a polícia de ser a sempre grande vilã, enquanto exalta um baderneiro, que participa de um quebra-quebra, tratando-o como vítima e romantizando sua ação. Não faz sentido também tratar as afirmações de um são publicadas como verdade absoluta, enquanto as explicações da polícia são questionadas permanentemente. Seria mais ou menos perguntar ao Fernandinho Beira- Mar, um dos maiores traficantes do país, preso desde 2002, o que ele acha de passar o dia na solitária e depois publicar sua resposta em manchete, enquanto malha os policiais que o prenderam por tê-lo algemado em público. O triste, hoje, é que há diversos veículos de comunicação com fama de sério fazendo esse tipo de jornalismo.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do-fucs/noticia/2014/01/demonizacao-da-policia-e-romantizacao-dos-arruaceiros.html

O “tudo de nada” dos rolezinhos

O “tudo de nada” dos rolezinhos
 
 
Leo Daniele
 
 
     
      Eles existem, e daí? Falta inspiração, falta rumo. Nota-se que estes jovens “cheios de nada, vazios de tudo” — como dizia Plinio Corrêa de Oliveira — estão abarrotados de Igualitarismo.
      Vê-se que a finalidade primária das esquerdas com os rolezinhos seria criar um episódio de luta de classes, em que proletários “que nada têm” se revoltariam diante do “luxo espantoso” dos shoppings. “Abaixo a opressão”! “Abaixo a injustiça”! Mas logo ficou claro que os proletários não estavam aparecendo, e sim os verdadeiros frequentadores de tais locais, muitas vezes da classe média baixa.
      Partiram então para uma variante, que era fazer uma farra, criar um tumulto. Outra maneira de implantar o igualitarismo, pois como diz o ditado popular, “quem não tem cão, caça com gato”: além da luta de classes há nos rolezinhos uma finalidade paralela: criar o caos, e acostumar as populações com ele.
      Como afirma Plinio Corrêa de Oliveira na obra Revolução e Contra-Revolução,  é indispensável “pôr um pouco de clareza e de ordem num horizonte em cujos quadrantes o que cresce principalmente é o caos.  Qual o rumo espontâneo do caos senão uma indecifrável acentuação de si próprio?”(1)
      Está dando certo? Não parece, pois a impopularidade dos rolezinhos existe largamente inclusive no proletariado.
      Eles são pacíficos, ou assim se apresentam. É claro, entretanto, que sob esta capa pacifista há de tudo: roubos, insultos, drogas, vandalismo, uma imoralidade desbragada… Apesar de não serem violentos,  não são inócuos, e se transformaram em um problema de segurança para os shoppingse seus frequentadores, além de constituírem um prejuízo certo para os donos das lojas, e também para os consumidores.
      A vitalidade que ostentam em boa parte vem de fora, uma espécie de empréstimo em que o que mais dá, mais lucra. Refiro-me ao Quarto Poder, aos midiagogos, ou simplesmente a certa mídia. Eles ganham com os rolezinhos.
      O caos, muitas vezes, é a primeira etapa das revoluções. “Eles entram pacificamente nos locais, mas, depois, costumam promover correria assustando lojistas e frequentadores. Os adolescentes se reúnem em grupos de cerca de 20. Passam correndo por corredores entoando batidas de funk. Os que vêm atrás se integram aos demais, numa formação conhecida como ‘bonde’.”(2) Organizados, não? E depois procuram fazer crer que se trata de manifestações inteiramente espontâneas!
     A própria esquerda reconhece que está decadente, e um sintoma dessa decadência é a própria existência dos rolezinhos: deviam ser de um igualitarismo mais explícito. Não conseguem nada de melhor, para não perder de todo a batalha da popularidade.  Recentemente tentaram os black corps; fracasso. Abandonaram então a violência e criaram os rolezinhos, sem cor, sem cheiro e sem sabor, mas deu na mesma. Nem de longe atenderam ao que desejavam seus inspiradores, pois segundo uma pesquisa, nada menos que 82% da população é contra rolezinhos.(3)
      Até agora, foi um fracasso análogo ao dos sem-terra: 30 anos de malogro completados recentemente. Mas estejamos vigilantes: de tanto tentar, de repente acertam uma. Sobretudo se tiverem uma ajudazinha do clero esquerdista.
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Notas:
1. Revolução e Contra-Revolução, Parte III, p. 159, Artpress, S. Paulo, edição comemorativa dos 50 anos da publicação.
2. Ana Krepp, “Folha de S. Paulo”. 15-1-14.
3. Revela pesquisa Datafolha.  “Folha de S. Paulo”, 23-1-14.
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(*) Leo Daniele é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)
 
 

 
  https://workflow.comunique-se.com.br/ViewPage.aspx?mid=6f4e73a0-f9ca-45d9-8a8a-11a8a5d37369

Repúblicas da banana

Ditaduras, ocupações e, agora, até um terremoto no Haiti fizeram da América Central a região mais instável e miserável do lado de cá do Atlântico. Entenda o que uma longilínea fruta tem a ver com isso

por Karin Hueck e Mauricio Horta

Um transatlântico de 300 metros se aproxima de uma praia tropical. Seus 3 400 passageiros estão há 5 dias viajando e dispõem de dezenas de atrações a bordo, de campos de minigolfe e paredes de escalada a shows de cabaré. Ainda assim, boa parte dos turistas resolve sair do navio e conhecer a praia de areia branca. Junto com eles, descem garçons e funcionários para abastecê-los com drinques e petiscos durante o banho de sol. Seria uma cena normal, apenas mais um passeio turístico no Caribe, se a praia paradisíaca não fosse Lavadee, o país onde ela se encontra o Haiti, e a data do passeio 17 de janeiro de 2010 - 5 dias depois de um terremoto matar 200 mil pessoas e devastar boa parte da pequena nação. No tremor de 7 graus, 250 mil casas foram destruídas, assim como quase todos os prédios do governo e os dois únicos postos de bombeiros do país. Durante semanas, o mundo se entristeceu com a situação precária do Haiti. Mas a notícia realmente triste é que o país não é uma aberração - é apenas o ponto mais baixo de uma região inteira problemática, a América Central. Ocupações externas, golpes de Estado, ditaduras: quase todos os países da região passaram por isso. E o que pouca gente sabe é que todo esse caos pode ter começado com uma inofensiva frutinha...


A primeira vez que os americanos viram uma banana foi em 1876, na Exposição Centenária da Filadélfia. Na ocasião, a fruta não chamou muita atenção - até porque estava exposta ao lado do telefone de Graham Bell. Mas, 15 anos depois, a banana já tinha conquistado o coração dos americanos e era servida em restaurantes de Nova York. Fazia muito sucesso porque era prática: sua casca é uma embalagem natural que dispensa lavagem. Tinha o potencial de virar o Big Mac das frutas. E, de fato, logo virou: na década de 1930, a banana já era a fruta mais barata e consumida nos EUA. Mas como um produto tropical extremamente perecível podia ser abundante nos EUA? Graças a uma das primeiras multinacionais do mundo: a United Fruit Company, que, além de inventar um método de distribuição de frutas em larga escala, contribuiu para bagunçar a América Central.

Damn it! We have bananas
Nascida na véspera do século 20, a UFC controlou a produção, o transporte e o marketing da banana, com eficiência de relógio e agressividade para eliminar qualquer rival. O lugar escolhido para plantar a fruta foi a desabitada América Central, que oferecia o pacote completo: governos frágeis e terrenos tropicais disponíveis para latifúndios. Foi lá que a UFC deitou e rolou nos 35 anos seguintes. Nesse período, os EUA fizeram 28 operações militares na região, inclusive no Haiti. "O maior objetivo dessas incursões foi tornar a América Central segura para as bananas", escreve Dan Koeppel, escritor americano, autor de Banana: The Fate of the Fruit That Changed the World. 

O método que a UFC usava para dominar a região era simples. Com o intuito de modernizar os países, a empresa construía ferrovias e portos, e criava empregos locais. Aí vinha o pulo do gato: muitas vezes os governos não tinham dinheiro para pagar pelas regalias. Em troca, acabavam cedendo imensas extensões de terras férteis para a United Fruit Company plantar bananas, quase livre de impostos. Para que acidentes naturais ou greves não interrompessem o fluxo contínuo de frutas para os EUA, o jeito foi expandir o sistema para vários países ao mesmo tempo. Assim, a UFC exportou o modelo "ferrovias-em-troca-de-terra", inaugurado na Costa Rica, para Panamá, Guatemala, Honduras e Nicarágua. Para os governos, o toma lá dá cá não soava como o fim da soberania, mas como a grande chance de modernização. 

Banana pra dar e vender
O problema só ficou óbvio quando a UFC ficou maior do que os países onde atuava. "Não é bom para um país depender da exportação de um só produto", diz Marcelo Bucheli, professor de história da Universidade de Illinois, EUA. "E os países centro-americanos não só exportavam um ou dois produtos mas também eram controlados por uma ou duas companhias e exportavam para um ou dois países." Em 1930, a UFC era o maior empregador da região. Subornando governos, ditava leis trabalhistas, sonegava impostos e não permitia que pequenos produtores surgissem. Assim, a UFC pariu as "Repúblicas da Banana". 

O Haiti recebeu indiretamente os tentáculos da UFC, por meio de uma de suas afiliadas, a Standard Fruit and Steamship Company, que se instalou por lá. Mas o que realmente atrasou a vida da nação foram as migrações em massa atraídas pela agricultura. O Haiti não oferecia infraestrutura e nem postos de trabalho para a população (aliás, nunca ofereceu) e 300 mil haitianos deixaram o país para trabalhar nas plantações vizinhas. Para piorar, na mesma época, uma intervenção americana ocupava o país e definia como deveria ser governado. Os líderes locais, em vez de elaborar um projeto para desenvolver a nação, lutavam entre si pelo poder - preferiam intervenções externas à possibilidade de ficar longe do governo. 

A coisa desandou de vez quando, ao fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo entrou na Guerra Fria. Em 1954, a CIA e a UFC derrubaram um governo eleito da Guatemala e instauraram uma ditadura. Começaram assim 4 décadas de guerrilhas de esquerda e ditaduras de direita na região, que mataram centenas de milhares de pessoas - 200 mil só de guatemaltecos. No Haiti, a instabilidade chegou ao seu auge: em dois anos, 5 presidentes se revezaram no poder. Para assegurar a influência capitalista na região, os EUA apoiaram o golpe político da família Duvalier (o maléfico Papa Doc e seu filho). Sessenta mil pessoas foram assassinadas durante sua ditadura. O pequeno país caribenho continuou sem perspectivas de governo sério - e assim permaneceu até os dias de hoje.

Mas o que a caótica América Central de hoje tem a ver com a UFC do começo do século? Os presidentes podem não ser mais (todos) ditadores malucos, mas o modelo econômico continua. "Os países centro-americanos enfatizaram a exportação agrícola mesmo depois da democracia. O Estado não criou novas indústrias nem se diversificou", diz Steve Striffler, professor de antropologia da Universidade de Nova Orleans, nos EUA. Claro que há exceções, como a Costa Rica, que, mesmo depois de ocupada pela UFC, hoje tem o IDH mais alto do que o do Brasil. Ainda assim, a América Latina é responsável por 80% da produção mundial de banana. 

O Haiti vive a pior situação do continente. O país continua plantando bananas, mas, apesar de ser um país essencialmente agrário, 50% dos alimentos para a população têm de ser importados. Isso porque o Haiti perde anualmente 36 mil toneladas de solo fértil devido à erosão. "A cada dia, o país acorda com um pedaço a menos", diz Lúcia Skromov, do Comitê pró-Haiti. 96% da vegetação original foi devastada durante os períodos de instabilidade política e exploração da agricultura. E é por isso que o país estava tão fragilizado quando o terremoto sacudiu Porto Príncipe: falta madeira para a construção, a maior parte era feita de barro ou de galhos. Ou seja, além do caos político e econômico, o Haiti caminha lentamente para virar uma espécie de ilha de Páscoa - que, de tão devastada por seus habitantes, acabou matando todos eles de fome. Se isso acontecer, nada mais vai nascer por lá. Nem mesmo as malditas bananas.

Uma história de fracasso 
Entre tantos golpes e revoluções, o Haiti não parou para se desenvolver 

1804
Uma revolta de escravos liberta o Haiti da colonização. Em troca, a França pede uma indenização que consome 80% do orçamento haitiano por quase 100 anos. Ou seja, o país já nasce endividado.

1915
Empresas americanas dominam a América Central para plantar bananas. Os EUA ocupam o Haiti e garantem a hegemonia dos mares para que ninguém domine o canal do Panamá na 1ª Guerra Mundial.

1957
Entre 1956 e 1957, 5 presidentes se revezam no governo do Haiti. O resultado é o golpe de François Duvalier, o Papa Doc, ditador que ficou 14 anos no poder e mandou matar 60 mil inimigos. 

1990
As primeiras eleições democráticas são organizadas. O vencedor é Jean-Bertrand Aristide, que, já em 1991, é deposto por um golpe. Em 1994, EUA e ONU ocupam novamente o Haiti.

2004
O Brasil resolve liderar a missão da ONU no Haiti. Altruísmo? Não exatamente. O governo brasileiro quer provar que está pronto para assumir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. 

2010
No dia 12 de janeiro, um terremoto destrói a capital, Porto Príncipe. A sede do governo, ministérios e 200 mil vidas vão parar debaixo dos escombros. O Haiti terá de se reerguer das ruínas e no meio de uma crise ambiental.

A maldição da banana 
As plantações deixaram um rastro de pobreza nos países que as acolheram. Veja a porcentagem da população abaixo da linha da pobreza na América Central.

NICARÁGUA - 48%

GUATEMALA - 56%

HAITI - 80%

EL SALVADOR - 30,6% 

HONDURAS - 50,7%


Para saber mais
Banana: The Fate of the Fruit That Changed the World
Dan Koeppel, Hudson Street Press, 2007. 

The History of Haiti
Steeve Coupeau, Greenwood, 2007.


Fonte: Site da Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/historia/republicas-banana-543521.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_super

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos: relembre histórias que marcaram gerações

Publicado por Estadão
Nesta quinta-feira, 30, completa-se 145 anos da publicação da primeira história em quadrinhos brasileira. Em 1869, foi publicada As aventuras de Nhô Quim (acima) na revista Vida Fluminense, com desenhos de Angelo Agostini. A data foi instituída como Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos pela Associação de Quadrinistas e Cartunistas do Estado de São Paulo. A seguir, relembre algumas das publicações de mais sucesso no Brasil.
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Foto: Reprodução/Estadão
A revista Tico-Tico, que surgiu em 1905 lançada pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva, foi a primeira a publicar exclusivamente histórias em quadrinhos no Brasil, e revelou artistas como J. Carlos. O protagonista era o personagem Chiquinho, inspirado em Buster Brown, de Richard Felton Outcault.
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Foto: Reprodução/Estadão
A HQ O Lobinho, lançada por Adolfo Aizen, é uma das mais antigas do País, lançada em 1939. Recentemente, o maior colecionador de HQs do Brasil, Antonio José da Silva, teve o seu conjunto com 200 primeiros exemplares de revistas como O Lobinho e O Gibi roubados. O lote teria valor estimado em R$ 300 mil – caso existissem no mercado, o que não é o caso.
Foto: Rafael Arbex/Estadão
Foto: Rafael Arbex/Estadão
Publicada por Ziraldo, a revista Pererê circulou entre 1960 e 1965, pela editora O Cruzeiro.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Os quadrinhos da Turma da Luluzinha começaram a circular nos anos 1970 no País, em versão da americana ‘Little Lulu’.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Os quadrinhos do Asterix, criados na França por Albert Uderzo e René Goscinny, fizeram sucesso em todo o mundo – e não foi diferente no Brasil. A série gerou, além de 34 revistas, adaptações para cinema, jogos e brinquedos.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Os mangás fazem sucesso no País. A técnica de quadrinhos, em estilo japonês, têm estilo diferente das tradicionais ocidentais, e também viraram animes e desenhos, como a famosa série Dragon Ball Z (foto).
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Parte das leituras de infância de muitos brasileiros, o Sítio do Picapau amarelo teve adaptações para quadrinhos a partir dos livros de Monteiro Lobato. A franquia também virou desenho, filme e programa de televisão.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
O Menino Maluquinho, também adaptado em desenhos, filme e jogos, era originalmente uma história em quadrinhos criada por Ziraldo em 1980. Na foto, uma versão especial da HQ com participação de Calvin e Haroldo.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Versão brasileira do Uncle Scrooge, da Disney, o Tio Patinhas é uma invenção do cartunista Carl Banks. Com fama de pão duro e sovina, o personagem chegou às bancas brasileiras na década de 1950.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Os quadrinhos da Marvel (hoje pertencente à Disney) conquistaram muitos jovens com histórias de super-heróis como o Homem-Aranha, X-Men, Capitão América e o Quarteto Fantástico – franquias que são umas das mais bem sucedidas dos quadrinhos.
Foto: Reprodução/Estadão
Foto: Reprodução/Estadão
Concorrente da Marvel, a DC Comics (da Time Warner) também tem o seu elenco de personagens famosos, como Flash, Batman e Superman.
Foto: Reprodução/Estadão
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O Zé Carioca, um dos personagens mais curiosos da Disney, foi criado nos anos 1930 nos Estados Unidos (onde é conhecido como Joe Carioca) como parte de uma iniciativa para aproximar produtos da América Latina. O papagaio reproduzia algumas das principais características tidas como ‘cariocas’: a malandragem e o gosto por samba.
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A Turma da Mônica, talvez o mais conhecido dos quadrinhos brasileiros, é uma série de Maurício de Souza publicada até hoje no País (em versões para adolescentes, como a Turma da Mônica Jovem), e foi traduzida em diversas línguas. O quadrinho, criado em 1959, acompanhou várias gerações e fez parte da alfabetização de muitas crianças (que, muitas vezes, continuaram a acompanhar as aventuras de Cebolinha, Mônica, Cascão e Magali).
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O Chico Bento, também criado por Maurício de Souza, é o líder da Turma do Chico Bento, que retrata a zona rural do País (inspirado em personagens do Vale da Paraíba). Rosinha, Zé Lelé, Anjo Gabriel e Zeca (seu primo da cidade) são alguns dos personagens do quadrinho.
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Fonte: Site Livros só mudam pessoas
http://www.livrosepessoas.com/2014/01/30/dia-nacional-das-historias-em-quadrinhos-relembre-historias-que-marcaram-geracoes/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+livrosepessoas+%28Livros+s%C3%B3+mudam+pessoas+%3A+%29%29

Desconstrucionismo - O culto de Hermes pós-moderno



I.  Introdução


A. O desconstrucionismo é um movimento pós-moderno poderoso, actualmente em voga nas universidades de maior expressão académica e junto da elite intelectual, e a sua influência permeia todas as áreas da nossa cultura. Este movimento deu origem ao tribalismo, ao politicamente correcto, à reconstrução da imagem, ao multiculturalismo e à guerra cultural, e tornou-se num martelo com o qual destruir os valores tradicionais.

B. O Pano de Fundo do Desconstrucionismo. De forma a que se possa entender o contexto do Desconstrucionismo, é importante seguir o desenvolvimento do pensamento intelectual da cultura Ocidental. É importante entender dois termos: o modernismo e o pós-modernismo. Ambos são termos com um entendimento bem amplo.

1. Definição do Modernismo: O Modernismo é outra palavra para o humanismo iluminista. O pensador evangélico Thomas Oden afirma que este período teve início com a queda da Bastilha em 1789 (Revolução Francesa), e terminou com o colapso do comunismo e a queda do muro de Berlim em 1989.

Este foi um período que afirmou a existência e a possibilidade de conhecer a verdade com base apenas na razão humana. E devido a isto, e num acto simbólico, a deusa Razão foi instalada na Catedral de Notre Dame, na França; a Razão tomou o lugar de Deus; o naturalismo substituiu o sobrenatural. O Modernismo afirmou a descoberta científica, a autonomia humana, o progresso linear, a verdade absoluta (ou a possibilidade de a conhecer), o planeamento racional da ordem social (isto é, socialismo). Este movimento começou com grande optimismo. 

2. Definição do Pós-Modernismo: O Pós-modernismo é, de certa forma, uma reacção contra o Modernismo que tem estado em preparação desde o final do século 19.

Dentro do pós-modernismo o intelecto é substituído pela vontade, a razão pelas emoções, e a moralidade pelo relativismo. A realidade nada mais é que uma construção social; a verdade é igual ao poder. A tua identidade vem dum grupo.

O Pós-modernismo caracteriza-se pela fragmentação, indeterminação, e aversão às estruturas de poder universalizantes. É uma visão do mundo que rejeita todas as visões do mundo ("histórias"). De modo resumido, o Pós-modernismo defende que não existe verdades universais válidas para todas as pessoas. Em vez disso, os indivíduos encontram-se presos à perspectiva limitada da sua raça, sexo, ou grupo étnico. Isto é algo proveniente de Nietzsche em toda a sua força.


II.  Definindo o Desconstrucionismo


(Nota: Os desconstrucionistas resistem a todas as tentativas de definição classificando-as de "tirânicas", mas eles são inconsistentes visto que os seus livros nada mais são que definições extensas dos seus métodos. De facto, pode-se acusar os deconstrucionistas de só definirem as coisas!)

A. O Desconstrucionismo é uma forma de ler um texto, originalmente um método de crítica literária e só aplicada a textos literários. No entanto, hoje os deconstrucionistas dizem que toda a existência é um livro a ser interpretado, quer em forma de poema, história, valores familiares, governos, religião, ciência, escada corporativa ou arquitectura. O ênfase desta foram de leitura nunca é para aprender o significado intencionado pelo autor, mas sim a interpretação subjectiva do leitor.

B.  “Os desconstrucionistas alegam que toda a escrita é reduzível a uma sequência arbitrária de sinais linguísticos ou palavras cujos significados não têm qualquer relação com a intenção do autor ou com o mundo fora do texto.”  NEWSWEEK, 6/22/81

C.  “A abordagem desconstrutiva a um "texto" - que tanto pode ser uma série de televisão ou um sinal rodoviário tão facilmente como pode ser um poema épico - é a de o desmantelar, tomando especial atenção às suas pressuposições elitistas, anti-feministas e pouco chiques. O projecto é informado pela filosofia segundo a qual o mundo se  encontra indefinido até que alguém - temporariamente e só segundo um estilo -  o torna definido ao usar palavras para o descrever. Uma vez que (alegadamente) as palavras estão sempre a alterar de significado, nenhuma interpretação dessas palavras é mais correcta que qualquer outra. A função do criticismo é, portanto, expor a sua contradição inerente na própria ideia do "significado" ou veracidade dum texto.” THE ECONOMIST, 5/18/91, p. 95.


III.  As Origens do Desconstrucionismo - As Suas Raízes Filosóficas


As origens do Desconstrucionismo remontam a alguns intelectuais franceses depois da 2ª Grande Guerra. O mais notável proponente e pai do movimento foi Jacques Deridda. O Desconstrucionismo era originalmente uma forma de crítica literária (como já mencionado previamente) mas rapidamente começou a ter outras aplicações.

Ela emergiu do meio filosófico que incluía, antes de tudo, o existencialismo, (...), o Romantismo, a filosofia de Kant, a psicanálise de Freud, o fascismo (eles gostariam de negar isto), a fenomenologia e o pragmatismo.


IV.  Os Principais Pilares do Desconstrucionismo


A.  A natureza da realidade: A realidade objectiva não pode ser conhecida. O transcendental não existe. O universo é um sistema fechado. A realidade é inteiramente subjectiva. Os grupos e a sua linguagem criam a sua própria realidade até que ela é substituída por um grupo mas poderoso. (Vemos aqui a influência de Kant, isto é, o fenómeno da vida nunca pode ser conhecido tal como ele é, mas é sempre interpretado segundo as categorias inatas do conhecedor.)

B.  A possibilidade de conhecimento: Os desconstrucionistas são cépticos. Todo o conhecimento que temos não é directo mas indirecto. O mundo chega até nós através da linguagem e só através da linguagem, que por sua vez é uma construção social. Uma declaração é verdadeira se ela dá poder a um indivíduo ou a um grupo. Aqui nota-se a influência do pragmatismo.

C.  A natureza do homem: A identidade individual é um mito. O homem só adquire a sua identidade através do seu grupo ou da sua cultura. Quando o indivíduo está descontente, ele tem o direito de criar o seu próprio significado. Neste ponto, os deconstrucionistas diferem dos existencialistas anteriores onde o individual é supremo. Os desconstrucionistas são semelhantes aos fascistas, neste ponto. 

D.  Tomada de Decisões Morais: Os desconstrucionistas ficam profundamente ofendidos com aquilo que eles chamam de "totalização". Com este termo, eles referem-se aos valores universais que são verdadeiros para todas as culturas e para todas as eras. Para os desconstrucionistas, o "verdadeiro" é o que um grupo decide ser a verdade para um dado momento. O verdadeiro emerge do poder adquirido.

Segundo os desconstrucionistas, só os mais fortes sobrevivem. Aqueles que podem lidar com a ausência dum propósito e podem criar a sua própria realidade contra todo o peso de toda a tradição Ocidental, provam o seu direito de existir. As leis e as tradições sociais provam o seu direito de existir. As leis e as convenções sociais nada mais são que máscaras para o poder. Julgamentos de valor [moral] são exercícios de poder. 

E.  A natureza da linguagem: A linguagem é um sistema construído sobre os fundamentos de símbolos arbitrários. Isto é, os textos são uma colecção de palavras e imagens ("significantes") que não têm qualquer significado inerente ou conexão com o mundo objectivo ("significado”). Uma vez que a linguagem é um meio de comunicação, e visto que os construtores da linguagem são instáveis, a interpretação é também incerta. Logo, o ênfase está sempre naquele que recebe a mensagem - isto é, o leitor ou o interpretador. Mais ainda, uma vez que o significado ("significados") deriva do contexto social de cada um, o significado fundamental nasce do contexto social de cada um. A língua só pode transmitir preconceitos culturais.


V.  O Método do Desconstrucionismo


A.  Desconstruir um texto é semelhante a desmantelar uma casa para ver quais foram os erros de construção que foram feitos. Quando um leitor desconstrói um texto, ele está a examiná-lo em busca do preconceito e da parcialidade que o autor pode ter usado com o propósito de controlar os outros. Por exemplo, uma leitura desconstrucionista da Declaração de Independência ressalvaria que a frase "todos os homens foram criados iguais" exclui as mulheres, e ao mesmo tempo que fala de liberdade, o mesmo foi escrito por um homem branco dono de escravos. O sexismo e a escravatura contradizem a retórica da liberdade.

Os desconstrucionistas buscam por decepções ou más intenções que, de modo consciente ou inconsciente (o elemento Freudiano), motivam um autor, artista  ou político particular. Note-se que o que está ausente do texto (sexo ou grupo étnico) pode ser levado em elevado consideração na interpretação desconstrucionista dum texto. Eles chamam a isso "a presença da ausência".

B.  O crítico pós-modernista Thomas Oden ressalva:

O desconstrucionimsmo . . está sempre a fazer as perguntas cépticas em relação ao texto, perguntando que auto-decepções ou más intenções podem de modo inconsciente motivar uma conceptualidade particular. (Thomas Oden.  TWO WORLD: NOTES ON THE DEATH OF MODERNITY IN AMERICA AND  RUSSIA,  p.79.).

C.  O objectivo do Desconstrucionismo, portanto, é o de descobrir as contradições, mostrar as intenções ocultas e os significados suprimidos que pertencem a um texto, quer seja uma obra literária ou uma instituição social. Visto que o significado oficial é determinado por aqueles que estão no "poder", os críticos pós-modernistas "desconstroem" esses significados como forma de descobrirem o que é que está oculto ou o que é que foi suprimido no texto, e, desde logo, desacreditando o establishment que se encontra por trás do texto e obtendo o "direito" de derrubar a sua autoridade.

D.  O propósito final de uma interpretação é construir um significado que justifica a experiência pessoal ou a experiência desse grupo. Por exemplo, um historiador revisionista poderá escrever a história da descoberta do Novo Mundo por parte de Colombo de uma forma que beneficiará aqueles que foram oprimidos pelos Europeus Brancos. Da mesma forma que temos spin doctors na política e nos média, também temos “spin scholarship.”.

VI.  A Influência do Desconstrucionismo

A influência do Desconstrucionismo nos EUA tem sido omnipresente. Ela pode ser encontrada nos filmes, nos vídeos de música rock, nos livros escolares de história, nas campanhas políticas, na teologia e nos assuntos religiosos, nas artes de representação, nos anúncios publicitários, nos estudos étnicos ou estudos sexuais, e especialmente na crítica literária onde ela surgiu. Eis aqui alguns exemplos:

A.  Um desenho animado recente "desconstrói" a história de Pocahontas. O desenho animado artístico exibe ela a apaixonar-se pelo colono John Smith, a quem ela converte para a adoração de Gaia (Terra). Na verdade, ela nunca esteve romanticamente envolvida com John Smith; ela converteu-se ao Cristianismo, casou-se com John Wolfe e viveu o resto dos seus dias na Inglaterra.

B.  Teologia Feminista. É a tentativa de reconstruir a história da salvação tal como revelada no Cristianismo em termos feministas. Outras tentativas de reconstrução são os Muçulmanos Negros com a sua "desconstrução" peculiar do islão.

C. Traduções inclusivas das Escrituras e a rescrição de hinos Cristãos antigos. O texto original é "desconstruído" de modo a que esteja de acordo com as sensibilidades étnicas e sensibilidades de grupo modernas.

D.  Os livros escolares de História das escolas primáriasNum recente livro escolar sobre a história dos EUA George Washington mal recebe algum tipo de menção. Quando o autor foi questionado sobre a sua omissão num também recente programa televisivo, ele respondeu: "Ele era um dono de escravos, aristocrata e branco."

E.  Ciência. A influência do pensamento desconstrucionista junto do establishment científico está a causar um alarme de proporções consideráveis. Os deconstrucionistas alegam que os cientistas mais não são que a elite sacerdotal do establishment que produz melhor tecnologia para a opressão. Para um excelente estudo da influência que o Desconstrucionismo tem na ciência, ver: "HIGHER SUPERSTITION: THE ACADEMIC LEFT AND ITS QUARRELS WITH SCIENCE" (por Paul R. Gross and Norman Levitt).

VII.  Uma Crítica ao Desconstrucionismo


(Nota: O Deconstrucionismo pode parecer fácil de ser refutado para nós Cristãos visto que o mesmo está claramente contra o pensamento lógico. Isto é verdade, mas temos que nos lembrar que para os Desconstrucionistas, a controvérsia é primordialmente emocional. Os Cristãos são o pior pesadelo dos Desconstrucionistas visto que eles [os Cristãos] insistem na existem da Palavra Transcendental e na posição de que a realidade é inteligível.)


Os desconstrucionistas são relativistas mas os relativistas confessos não podem ser relativistas consistentes. Se a verdade não existe, o que é que nos impede de desconstruir o Desconstrucionismo? Se "nada é verdade", como eles defendem, porque é que deveríamos acreditar nessa proposição? Porque é que deveríamos associar alguma tipo de valor aos seus escritos? Por exemplo, os desconstrucionistas frequentemente lançam ofensivas contra o cânone ocidental (os grandes clássicos), mas depois viram o argumento e colocam no seu lugar os seus próprios "clássicos" e os seus "cânones". Uma professora rejeita os escritos de Shakespeare porque ele era "demasiado heterossexual", mas depois ela recomenda aos alunos a sua selecção de livros de estudo!

A moralidade é o calcanhar de Aquiles do Desconstrucionismo e o melhor que eles fariam era permanecer em silêncio; mas eles não permanecem em silêncio. Elas falam de um modo bem vocal sobre a opressão como se isso fosse um mal enorme. Segundo os seus próprios escritos, afirmar que algo está certo para outra pessoa ou para outro grupo seria "logocêntrico".

Os desconstrucionistas têm razão quando afirmam que a interpretação é de certa forma subjectiva e, quando se tenta apurar a mente do autor, limitada. No entanto, embora nós não saibamos de forma exaustiva, nós podemos saber de forma verdadeira. Se assim não fosse, a civilização seria impossível.

Na história da filosofia muito provavelmente não há um exemplo mais claro de solipsismo. Se nós formos ler os seus livros de forma séria (será que eles querem que os leiamos?), então a comunicação é impossível. (Solipsismo: “a inabilidade total se obter conhecimento para além da sua própria mente") O leitor passa a ser o artista, e o autor/actor já não tem o direito sobre o significado intencionado do seu trabalho. Toda a criatividade chega-nos através da interpretação dum texto.

Dentro do pensamento modernista, os desconstrucionistas correctamente rejeitam a razão como algo absoluto. No entanto, a razão é parte integrante da IMAGO DEI [Imagem de Deus]. A única forma consistente de dispensar a lei da não-contradição de todo o discurso é abolindo todo o discurso e todas as tentativas de comunicação que os deconstrucionistas não levam a cabo. A realidade dos factos é que eles escrevem dezenas de livros e são faladores incansáveis (circumloquacious). Isto até parece que o discurso (para aqueles que denigrem a linguagem) para os desconstrucionistas é uma forma de auto-afirmação, isto é, "Eu falo (escrevo), logo, eu existo."

Os desconstrucionistas vivem consumidos com uma animosidade dirigida a todos aqueles que são logocêntricos, modernistas e especialmente os Cristãos, e acreditam que estes últimos [os Cristãos] são a causa de todo o preconceito e toda a opressão que existe no mundo.

VIII.  Conclusão

O Cristianismo acredita que o Logos é Transcendente em relação ao mundo, mas não imanente; o Logos não é subordinado, mas igual a Deus; pessoal, e não impessoal, reflectido em toda a criação, especialmente na humanidade. Os Absolutos existem devido à Palavra revelada. (Ver João 1:1-12)


       "O autor tem que morrer para que o leitor possa viver" (citação desconstrucionista com origem desconhecida) 


"...a guerra do descrente contra a Palavra (isto é, a sua guerra contra as Escrituras e contra Cristo) irá leva-lo para a guerra contra a palavra - toda a linguagem humana e todo o significado. Visto que eles rejeitam a Palavra de Deus Transcendental, que é a Verdade de Deus, eles são conduzidos no domínio imanente para rejeitar a ideia da palavra, o significado e também a lógica."  Gregory L. Bahnsen  (1948-1995).


Para estudo adicional:

1. Carson, D.A. and Woodbridge, John D.  GOD AND CULTURE.  Ver Capítulos 1 e 2. 
2. Culler, Jonathan.  ON DECONSTRUCTION. 
3. Ellis, John M.  AGAINST DECONSTRUCTIONISM. 
4. Lehman, David.  SIGNS OF THE TIMES:  DECONSTRUCTION AND THE FALL OF PAUL DE MANN. 
5. D'Souza, Dinesh.  ILLIBERAL EDUCATION:  THE POLITICS OF RACE AND SEX ON CAMPUS.  Ver Chapter 6. 
6. Lundin, Roger.  THE CULTURE OF INTERPRETATION:  CHRISTIAN FAITH IN A POSTMODERN WORLD. 
7. Phillips, Timothy R. and Okholm, Dennis L.  ed.  CHRISTIAN APOLOGETICS IN THE POST MODERN WORLD. 
8. Thiselton, Anthony C.  NEW HORIZONS IN HERMENEUTICS. 
9. Veith, Gene Edward, Jr.  MODERN FASCISM:  LIQUIDATING THE JUDEO- CHRISTIAN WORLDVIEW. Ver pp. 135-144. 
10. Veith, Gene Edward, Jr.  POSTMODERN TIMES: A CHRISTIAN GUIDE TO CONTEMPORARY THOUGHT AND CULTURE. 

11. Walhout, Clarence, and Ryken, Leland.  ed. CONTEMPORARY LITERARY THEORY:  A CHRISTIAN APPRAISAL
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Fonte: Blog Marxismo Cultural
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