sábado, 15 de fevereiro de 2014

E você, já passou em concurso público?


Vamos falar de coisa boa, vamos falar do frenesi que move milhões de vidas em busca de um ideal e apenas um: passar em concurso público.
Começando: eu moro em Brasília, ou seja, a terra dos concursos públicos. Sim, do bando de salafrário que fode a nossa vida o tempo todo, mas vamos nos ater ao tema de hoje.
Todo mundo aqui PRECISA PASSAR. Essa é a impressão que nos transmitem desde pequenos. Minha mãe até deixava um pouco em aberto, ficando com um estereótipo menos brasiliense e mais universal: me queria médico, herói que salva vidas. Agora, para o resto das pessoas, o caminho era um só: passar em concurso.
Menos pra ser professor, o único servidor público indigno do título. Ganha pouco e trabalha muito. Ser professor, não.
Sempre rejeitei fortemente essa ideia. Queria mesmo era ser escritor. Depois do primeiro livro que me levou às lágrimas, só queria conseguir emocionar daquele jeito o máximo de pessoas possíveis também, porque criar beleza é o trabalho mais interessante que se pode ter. Mas esse desejo foi rechaçado fortemente por todos a quem imprudentemente confiei meu sonho.
“Não dá dinheiro, vai morrer de fome e ninguém vai te respeitar.”
“Melhor passar no Senado e ganhar vinte mil por mês, pelo amor de Deus.”
Não acho. Até hoje, continuo pensando do mesmo modo. Ainda assim, passei em concurso. Sou funcionário público há pouco mais de um ano. Nenhum salário astronômico, nada demais. Não fiz questão disso. Mas tem o que todo mundo espera de um concurso: estabilidade, possibilidade de retorno financeiro sem escravidão à empresa, a certeza do dia seguinte, e um salário consideravelmente melhor do que o de quase todo mundo da minha idade. O bastante para eu me manter e investir em literatura. Passei por necessidade. Ficarei enquanto precisar, não mais que isso.
Por ter estudado para concurso, mesmo que por muito pouco tempo, é que entendo o ideal brasiliense. A vida não está fácil para quem depende da iniciativa privada. Os pais querem conforto e segurança para os filhos. Meus pais queriam. Por isso, muito melhor incentivar a passar no MPU do que apoiar qualquer sonho artístico que o filho porventura tenha. Eu entendo.
Também entendo quem tiver como objetivo apenas ter um cargo público bem remunerado. Não é meu caso. Mas acho plenamente válido, se você quer. Algumas carreiras são bem interessantes, principalmente para quem se interessa por Direito. Mais ainda para quem deseja, de algum modo, ajudar a máquina pública a funcionar direito.
Só que aí entra o problema: grande parte não quer ajudar coisa nenhuma. Quer só o salário e a estabilidade mesmo. Ah, sim, tem outra coisa: quer a Terra Prometida, o emprego onde não se faz PORRA NENHUMA e se ganha DINHEIRO PRA CARALHO. O país que se foda. Meu salário entrando todo mês na conta está tudo certo. O estereótipo do funcionário público vagabundo, eis o que desejo para a minha existência.
Isso é tanto problemático quanto paradoxal e anti-ético.
Problemático porque vem gerando uma onda avassaladora de servidores públicos insatisfeitos, desmotivados e depressivos com a própria vida. Passam no concurso que der, pouco importando as atribuições do cargo e foda-se, o salário inicial é cinco mil, então tá tranquilo. Olha, vou te falar: a não ser que você tenha outra atividade em mente – como é o meu caso -, não importa se ganha trinta mil por mês, carimbar papel o dia todo não pode ser agradável. A não ser pra quem curte, mas garanto que não é a regra geral.
Paradoxal porque o ser humano grita a plenos pulmões do quanto é um absurdo o modo como o governo age, não cumprindo suas obrigações e ferrando com todo mundo, mas esse mesmo ser humano não hesita em deixar o processo parado três meses em cima da própria mesa porque tá com preguiça de dar andamento. Acontece o tempo inteiro. E é inacreditável que a pessoa não veja problema NENHUM nisso.
Anti-ético, porque se está literalmente roubando a sociedade, que paga o salário do servidor para ele ficar falando do tempo e adiando suas tarefas, já que não importa, adquiri estabilidade e esse mês-bimestre-trimestre-semestre-ano estou com preguiça. Anti-ético porque o cara do tribunal que faz isso está obstruindo a Justiça, enquanto tem o dever de ser um dos agentes que a tornam rápida e eficaz. Anti-ético porque ele tem um dever legal de, simplesmente, t-r-a-b-a-l-h-a-r.
E não é nada demais mesmo. Ninguém te pede para morrer de trabalhar que nem um filho da puta. Se tiver além do que você aguenta, dá pra negociar e não ser explorado. As leis que regem servidores e empregados públicos os protegem bem. Sim, há cargos específicos nos quais se trabalha muito, mas não tem comparação: se está demais e você reclama, você não é demitido. Na iniciativa privada? “Tem gente querendo seu emprego. Não dá conta, sai fora”. As condições de trabalho são boas, na maior parte dos casos, ainda mais quando se leva em conta a dicotomia público versus privado.
Eis meu grande problema com o ideal brasiliense. Querer um bom emprego, com alta remuneração e estabilidade, tudo bem. Um ambiente tranquilo de trabalho? Ótimo, todo mundo deveria ter, não apenas servidor público. Agora, literalmente querer achar um cargo público para não fazer nada? Isso é inadmissível.
É problemático, paradoxal e anti-ético.
Se todo mundo agisse desse modo no serviço público, nosso país seria um caos maior do que é. Então, pra quem pensa mesmo em tornar-se servidor público, fica a sugestão: escolha bem o cargo, e tenha em mente de que você passa a ser parte do Estado, embora permaneça compondo a população. Isso ajudaria a, quem sabe, destruir o estereótipo de que funcionário público não faz nada.
Além disso, um pouco de idealismo: tente acreditar que seu trabalho pode, de algum modo, colocar a máquina pública para mexer engrenagens enferrujadas. Quem sabe você chega lá e descobre magicamente que isso é verdade? Até carimbar papel passa a ter algum sentido, garanto. Por experiência própria.
***
p.s: Por favor, não acho que a crítica aqui feita se aplique a TODO MUNDO no serviço público. Mas é inegável que tem uma porrada de gente a quem se aplica. Vão pra esses a crítica. Só pra eles.

Fonte: Site Literatortura
http://literatortura.com/2014/02/e-voce-ja-passou-em-concurso-publico/

Nenhum comentário:

Postar um comentário