domingo, 2 de fevereiro de 2014

Entenda o poliamor, e as pessoas que se relacionam livremente

Em Porto Alegre, já existem adeptos de grupos de relações livres com mais de mil integrantes


Entenda o poliamor, e as pessoas que se relacionam livremente Adriana Franciosi/Agencia RBS
Cada vez mais pessoas creditam em relações livres e são contra a monogamiaFoto: Adriana Franciosi / Agencia RBS
Eles fazem parte de uma turma que multiplica adeptos. Vociferam que a monogamia fracassou e que o ciúme é controlável até sumir de vez. São catalogados em denominações com princípios próprios: swing, relações livres, relacionamento aberto e poliamor, cada um com estratégias singulares para fugir do convencional.
Em 2012, em Tupã, no interior de São Paulo, foi registrada em cartório a primeira união entre três pessoas, o poliamor. Há também os que fazem do estado civil uma militância: são os errelis, leitura da sigla RLi (Rede de Relações Livres). Fundado em Porto Alegre, em 2006, o grupo se expandiu para São Paulo, acumula mais de mil integrantes na Capital e organiza espaço para debates, além de palestras sobre como ter um relacionamento livre. Para esclarecer as dúvidas dos simpatizantes com a diversidade afetiva citada acima, tem até congresso marcado. São Paulo realizará a 1ª Semana Nacional Não Monogâmica, entre os dias 3 e 9 de novembro.
A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de O Livro do Amor, lembra que, ao nascermos, deparamos com comportamentos estabelecidos como corretos pela sociedade e, na idade adulta, isso gera um sofrimento enorme.
— Muita gente sofre por desejo, culpa e frustração. Está na hora de refletirmos sobre as crenças para nos livrarmos dos preconceitos. Atendo muita gente aqui no meu consultório que ama mais de uma pessoa e se sente cobrada a ter de escolher entre uma delas — disse a especialista.
A psicanalista prevê: nos próximos 10 ou 20 anos abrir o relacionamento será uma tendência. Segundo Regina, as pessoas não buscam o outro porque têm um vazio ou porque o sexo com o parceiro não está legal, mas sim porque variar é bom.
Fantasias que viram realidade
Um homem estaciona o carro em frente à casa de uma mulher com quem vai passar a noite. Minutos depois, aparece a pretendente e uma menina. Ao entrar no carro, ela ouve do acompanhante:
— Quem é aquela ali? — pergunta com a voz trêmula.
— É a minha filha — responde.
— Mas ela te viu saindo comigo? — devolve o homem tomado de pavor.
— Querido, eu te falei que o meu marido sabe, que meus filhos sabem — diz ela.
Este foi um diálogo entre Andrea Pereira, professora de 42 anos, e um homem com quem saiu recentemente. Ela é casada com Sandro, caminhoneiro da mesma idade. Nos últimos cinco anos, os dois decidiram abrir o relacionamento para aventuras. O casamento deles foi há duas décadas, com troca de alianças, véu, grinalda, igreja, fidelidade e três filhos: de 18, 16 e 15 anos.
Desde o início, a dois, fantasiavam outros com eles no quarto e ficaram anos pesquisando sobre o assunto. Preocupada com a reação dos filhos e da família, Andrea adiou ao máximo experimentar a teoria na prática. Mas, quando começaram as trocas de casais, os dois decidiram contar para os filhos. A conversa foi antecipada por um acidente. O casal esqueceu o notebook em cima da cama, aberto na página de relacionamentos deles em um site de swing, que reunia mais de 5 mil inscritos só no Rio Grande do Sul. Quando a mais velha entrou no quarto, topou com fotos deles nus. Uma prima, que estava junto, espalhou a fofoca.
Sandro tinha uma fábrica de móveis na época, e os funcionários descobriram. Depois de uma semana, os dois perceberam o burburinho e reuniram o grupo para explicar. Tudo ficou resolvido. E partiram para a conversa com a primogênita. Perguntaram para a menina como ela se sentia em ter visto e porque não os tinha questionado. Ela respondeu: "Não falei nada porque sabia que, quando vocês achassem que era a hora de a gente saber, falariam".
O casal admite estar exposto a absurdos e confusões: um homem chegou a convidar Andrea para ser amante dele, com apartamento pago e uma mesada de R$ 2 mil.
— Teclo com mulheres que me chamam de sem-vergonha, dizendo que traio a minha mulher. Eu respondo que não, que ela está ali, do meu lado, lendo toda a nossa conversa. Isso choca — admite Sandro.
De Santa Maria, o casal está de mudança para a região metropolitana de Porto Alegre para ficar mais à vontade. Os dois garantem que só fazem isso para apimentar a relação.
Um emaranhado de relações afetivas
Eles não só pregam que ninguém é de ninguém e que são de todo mundo, como também acreditam que é possível amar muitas pessoas ao mesmo tempo e traçar planos com todas elas.
Alguns relacionamentos são mais densos, outros mais superficiais, mas cobranças e chiliques passam longe dos integrantes da Rede de Relações Livres, os "érrelis".
Até completar 20 anos, Marcelo Rodrigues da Silva Soares sonhava em ser príncipe encantado, casar e ter filhos. Tentou pelo menos quatro vezes namorar até que conheceu a publicitária Maria Fernanda Geruntho Salaberry no cursinho em 2010. Ela tem 27 anos, três a mais do que ele, e é uma das fundadoras do movimento Rede de Relações Livres (RLi). Os dois dividem a casa e a responsabilidade de cuidar da filha de nove anos de Maria, fruto de um relacionamento livre anterior.
Nesse meio tempo, a funcionária pública Regina Faria, 44 anos, se mudou de São Paulo para Porto Alegre, há um ano e meio, e engatou um namoro com Marcelo. As duas companheiras são amigas e dividem o jovem com outro rapaz e mais três mulheres, que também as divide com outros e outras. Vivem de repartir. Durante a sessão de fotos para esta reportagem na casa de Maria e Marcelo, no centro da Capital, por exemplo, nos instantes em que Regina havia ficado sozinha com ele, derreteu-se:
— Eu já estava com tanta saudade de você, gatinho.
Disse isto antes de tascar-lhe um beijo apaixonado. Nisso, Maria retorna da cozinha e, nos minutos seguintes, também está frente a frente com o jovem, entre beijos e carícias.
— É claro que eu sinto ciúme de olhar ele com outra pessoa, mas, de tanto exercitar, passa — conta Regina, que hoje aprendeu a vibrar com as investidas amorosas do namorado.
Mas os adeptos passam por enroscos. Regina já voltou de viagem louca de saudade de Marcelo bem no dia do aniversário da Maria, que, claro, teve preferência.
Relacionamento livre, mas não superficial
No dia a dia, os praticantes rebatem discursos moralistas com argumentação teórica sobre a falência da monogamia e a hipocrisia do casamento com o mantra de que marido e mulher foram feitos para gerenciar filho e propriedade e não, afeto.
— Não é porque a relação é livre que ela é superficial. Você tem uma possibilidade de ampliar a sua rede de proteção — diz Regina, que já esteve casada por 15 anos.
A família deles conhece o modo de vida e aceita. A mãe de Maria pensava que tanta fartura era por que ela ainda estava à procura de um só amor.
— Eu brincava com minha mãe: "pelo menos eu sou prática, estou tentando quatro por vez" — diverte-se Maria.
A densidade deste tipo de relação é medida por três itens: planejamento a longo prazo, afetividade profunda e relação sexual.
— Eu e o Marcelo temos tudo isto. Dividimos o aluguel, mas queremos morar separados, porque achamos importante ter o nosso espaço. Quando isso acontecer, ele vai ficar com a minha filha, porque acho que ele contribui mais para a educação dela. Esse é o nosso projeto, né amor? — explica Maria.
Desde 2006, a publicitária ajuda a organizar encontros do RLi em Porto Alegre, com um caráter teórico-prático, onde circulam pessoas dos mais variados tipos de relacionamentos não monogâmicos.
— É um lugar onde consigo conversar sobre ter acabado duas relações e ninguém dizer: "Viu, eu falei que isso não vai dar certo mesmo" — desabafa Maria.
Como movimento social, o RLi põe em pauta a luta pela visibilidade de relacionamentos. Mas ser contra a monogamia não significa sair panfleteando a forma como se vive ou montar piquete em frente à igreja.
— Nossa militância é para que as pessoas saibam que existe alternativa à monogamia em um espaço seguro, confortável, tranquilo, sem hostilidade e pressão moralista — afirma Maria.

Glossário
Monogamia
— Prática social regulamentada na qual uma pessoa não pode ter mais de um cônjuge.
Swing
— Casais que praticam a troca sexual com outro casal. É uma relação que prima por manter o casamento, mas que tem abertura exclusivamente sexual. O casal define entre si o que pode ou não ser feito na prática do swing. São experiências pontuais, que não devem se estender para fora daquele espaço. Sair com outros para fins sexuais e não avisar o companheiro é visto como traição.
Relação aberta
— Há algumas aberturas na relação, mas ainda se pretende manter o casal principal como prioridade. Estas aberturas são pontuais e, na maioria das situações, estritamente sexuais. O homem tem o direito de interferir nas demais relações da mulher e vice-versa. Os dois fazem acordos do tipo: "você não pode ficar com amigos meus" ou "você pode fazer determinadas coisas só se me contar tudo".
Poliamor
— Tem como objetivo múltiplas relações afetivas, normalmente com envolvimento profundo e planejamento de longo prazo. Os adeptos não costumam adicionar ao acordo da relação a possibilidade de terem relações informais e fazerem sexo casual. Tendem a morar juntos em trio, quarteto, quinteto, ter filhos e apresentar os dois ou mais companheiros para a família. Os parceiros têm o direito de interferir nas demais relações do outro.
Relações livres
— Os relacionamentos são baseados na autonomia do indivíduo. Por este motivo, os parceiros não têm direito de interferir nas demais relações do outro. Fica a critério da pessoa organizar a sua vida com cada um dos seus parceiros, definir qual o grau de afetividade, amor, sexualidade e planejamento a longo prazo que a relação terá, sem a necessidade de que todas as relações sejam semelhantes.
Compersão
— Não está no dicionário Aurélio, mas é linguajar recorrente entre aqueles que abrem o relacionamento. Significa ficar alegre ao ver o seu companheiro feliz com outra pessoa. Trata-se de ausência ou superação do ciúme entre parceiros.
Ménage à trois
— Não é um tipo de relacionamento, mas sim, prática sexual a três, não necessariamente com vínculo afetivo e pode estar presente em diversos tipos de relacionamentos.
Informações: por meio do site www.relacoeslivres.com.br
Fonte: Site do Jornal ZH
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2014/02/entenda-o-poliamor-e-as-pessoas-que-se-relacionam-livremente-4406970.html

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