quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O custo real do 'trabalho' espiritual

POR CARLOS ORSI
Maria Ouspenskaya tenta livrar Lon Chaney Jr da maldição do lobisomem, em filme de 1941 (Foto: reprodução)

Novembro de 2013 foi um mês agitado na esquina, sempre muito movimentada, onde o crime e superstição se cruzam. Nos Estados Unidos, dois médiuns foram a julgamento por acusação de fraude. Um deles havia prometido “reencarnar” a alma do filho morto de uma de suas vítimas, a um preço de US$ 17 milhões. No outro, a vigarista foi acusada de se apropriar de “dezenas de milhares de dólares” de duas mulheres, sob o pretexto de afastar maus espíritos.
Enquanto esses casos chegavam aos tribunais norte-americanos, aqui no Brasil, uma cartomante e seus associados eram detidos na chamada “Operação Orixás” da polícia civil do Paraná. Segundo o jornal Gazeta do Povo, a vidente em questão pode ter obtido mais de R$ 1 milhão de clientes que a haviam procurado em busca da solução de problemas “espirituais” – o que geralmente significa questões de família (como o envolvimento de um parente com drogas) ou afetivas.
No Brasil, especificamente, os anúncios de feiticeiros especializados em “trazer a pessoa amada de volta” já rivalizam com os de garotas de programa nos classificados de jornais e revistas.
O processo é bem genérico: o provedor do serviço estipula a necessidade de um “trabalho” para resolver o problema do cliente. Que, quase sempre, teria sido causado por um “trabalho” negativo, motivado por inveja. Mas desfazer o sortilégio tem um custo, não só espiritual como também físico, expresso em reais. Muitos reais.
Aqui em Pindorama, os golpistas costumam se apropriar da linguagem típica de crenças enraizadas na cultura popular, como a umbanda ou o espiritismo, mas o molde é universal: em seu livro How to Cheat At Anything (“Como Trapacear em Qualquer Coisa”, na tradução literal) o autor americano Simon Lovell menciona “o mundo lucrativo da remoção de maldições, onde o ‘médium’ pode cobrar até US$ 14 mil para tirar uma praga de uma pessoa”.
Alguém poderia imaginar que golpes assim não duram muito: afinal, quando você promete trazer a pessoa amada de volta, e ela não volta, o cliente certamente percebe que foi enganado. Certo?
Acontece que os bons golpistas profissionais – sejam vendedores de bilhete premiado ou de amor eterno – costumam incluir uma fase de “limpeza” em seus planos. Nesse estágio, tenta-se convencer a vítima de que ela, na verdade, não foi vitimada: se o trabalho parece não ter funcionado, foi porque faltou fé; talvez seja preciso mais dinheiro; talvez o destino tenha outros planos. E, é claro, em certos casos a reconciliação até acontece. Aí, o feiticeiro leva o crédito.
No livro Conned (“Engabelado”), os britânicos James Morton e Hilary Bateson oferecem os seguintes conselhos para quem quiser escapar de estelionatários: “se alguém lhe oferecer algo bom demais para ser verdade, provavelmente é um golpe”; “tenha medo da palavra grátis: quase nunca é”; e “cuidado na hora de entregar dinheiro a estranhos”.  Uma última dica: só o que traz a pessoa amada de volta é amor. Se isso falhar, melhor partir para outra.
Fonte: Site da Revista Galileu
http://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2014/02/o-custo-real-do-trabalho-espiritual.html

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