sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O pobre, esta grife de luxo



Bráulia Ribeiro


A mídia mundial parece falar a mesma linguagem. Páginas da web, canais de notícias, celebridades, igrejas, articulistas sérios, blogueiros -- todos se unem na meritória tarefa de clamar justiça aos pobres. Este discurso dá aos que clamam ares de cavaleiros da justiça, à moda Robin Hood. Cercar-se de pobres na África posando para uma foto no Facebook é tão chique quanto desfilar de vestido Chanel em tapete vermelho. O pobre é título de teses, é inspiração de ideoteologias, é cobertura para esquemas de gerar doações. O serviço ao pobre é usado como panaceia para acalmar culpas sistêmicas, como atração especial em cristianismos esterilizados pelo ceticismo.

O elemento positivo deste modismo pobrista é se falar sobre o assunto. Ao contrário da estudada indiferença de alguns anos atrás, hoje o mundo aparenta ter um coração. O problema é que, como diz Chico Buarque, “tem mais samba a maldade que a ferida”. Apesar de pretendermos gostar dos pobres, gostamos mais ainda da pobreza. Pobres são as pessoas, pobreza é o conceito. Conceitos são mais digestivos. Gostamos de dissecar os males que causam a pobreza, apontar os culpados. Há mais interesse, poesia, ideologia e música na pobreza do que no pobre em si. A pobreza é nobre, mas o pobre em si é chato. O pobre vai nos olhar com cara de fome, vai nos julgar porque compramos um iPhone novo, não tem educação e não usa perfume, mas perfuma tudo com sua miséria impertinente.

Porém, para poder ajudar de verdade, e não apenas nos distrairmos com um sentimento, temos que trabalhar com eles e não para eles. Apesar da importância do trabalho de ajuda extraordinária em momentos de catástrofes -- tufões, terremotos, guerras --, esta ajuda não pode tornar-se permanente, senão causa mais danos que benefícios. A assistência emergencial é o modelo que “trabalha para”. O trabalho que gera resultados de transformação permanente “tem que ser feito com”. Para que a transição entre a dependência e a autonomia seja possível, é preciso trabalhar com o pobre e não mais para ele. Este pobre inconveniente tem que se tornar nosso parceiro, nosso amigo e, mais ainda, nosso líder, se queremos ajudá-lo.

Pobre é gente com humanidade plena. Isto significa ter necessidade de dignidade tanto quanto de alimentação, ter necessidade de trabalho tanto quanto do pão. Significa ter capacidade de melhorar e de se autogerenciar. Significa ser criativo -- a mãe de todas as invenções é a necessidade. Significa ser capaz de ser parceiro de quem quer ajudá-lo e não apenas um recipiente passivo. Relacionamento é fundamental para todos os projetos do reino.

Deus vê o pobre como nós vemos? Deus olha de cima e vê um coitado, um inválido, incapaz de ajudar-se? Deus olha de cima e vê uma vítima? A palavra “ptochos” em grego traduzida no Novo Testamento como “pobre” refere-se àquele que tem seus laços sociais cortados. A Bíblia reconhece que a principal causa da pobreza não são as pessoas, mas a falta delas. Não é o “sistema”, mas a desconexão da pessoa com o sistema. A pobreza isola. A verdadeira ajuda vincula. A natureza do chamado de Deus é sempre relacional. Quando trabalhamos para o pobre só conseguimos aliviar a nós mesmos. Quando trabalhamos com os pobres, quando fazemos amigos entre eles, quando os trazemos para a rede econômica que nutre a sociedade, é que obedecemos ao chamado do Pai.


• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família, e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima? É blogueira do Portal Ultimato.










Fonte: Blog Águas do Trono

http://fagundesedri.blogspot.com.br/2014/01/o-pobre-esta-grife-de-luxo.html

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