terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os protestos e as “minorias de vândalos”

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Os protestos que tomaram o Brasil de assalto em junho permanecem um enigma mesmo para os especialistas políticos e sociais mais palpiteiros do país.
É estranho ainda para eles que manifestações populares (que, em sua narrativa padronizada e enlatadamente repetida, são “pacíficas, tomadas por uma minoria de vândalos”) tenham resultados objetivos completamente contrários aos anseios da população.
Para a narrativa dos intelectuais atuais, notar esse “paradoxo” é a maior prova de ter feito a lição de casa, sem entender seus desenlaces.
Os movimentos de massa, ao contrário do que crêem nossos pensadores, não são uma novidade surgida em junho de 2013 no Brasil, copiada da Primavera Árabe (Gênesis 1:1) e do Occupy Wall Street (espécie de Êxodo invertido). Na verdade, são a própria pedra de toque para se definir a era liberal, que teve a Revolução Francesa (1789-1799) como ápice.
Tais movimentos não são espontâneos – são na verdade estudados, calculados, deliberados e aplicados muitas vezes com precisão cirúrgica por seus planejadores. Basta ir às fontes.
Não à toa, o guru dos radicais (a “minoria de vândalos”, mas também os partidos de extrema-esquerda que criam os protestos, mas que misteriosamente são esquecidos por nossos analistas) na América, Saul Alinsky (1909-1972), autor de Rules for Radicals, é objeto de estudo na tese de mestrado de Hillary Clinton no Wellesley College[1], em que seu método de organização é saudado. Outro extremista radical, Barack Obama, era de profissão o famoso “community organizer”, profissão criada ad hoc por Alinsky.
Saul Alinsky foi um gênio da manipulação e da engenharia social, tendo aprendido a como manipular pessoas das sombras com a máfia de Al Capone. O futuro movimento negro, com seus métodos violentos e sua apologia ao terrorismo com os Panteras Negras e Malcolm X, aprenderia bem a lição de Alinsky para gerar revoltas e fazer com que pessoas normalmente pacíficas passassem a pregar um discurso de ódio e a apelar para a ação direta e o confronto entre grupos separados por uma remodelação da teoria de luta de classes.
Táticas que o movimento feminista, o novo movimento negro e o LGBT aprenderam sem conhecer Alinsky – não se trata de direitos de mulheres, negros ou gays, e sim de dividir as pessoas em dois grupos distintos: aqueles que “lutam por direitos” para essas pessoas (com um adendo sempre escondido: “lutam”, mas apenas através destes meios violentos), e aqueles que, não apelando para a pancadaria, por uma dedução simplista, “não lutam”, ou melhor, “se opõem a direitos”.
Pensa-se isso embora não se veja as pessoas que não tiram a roupa e nem façam manifestações visualmente agressivas pelo feminismo e o movimento LGBT, como enfiar objetos religiosos em orifícios da retaguarda do corpo – como foi feito na Jornada Mundial da Juventude, quando da visita do papa -, terem qualquer discurso de ódio ou de “não-direitos” para as pessoas que os tratam como inimigos “obscurantistas” e “opressores”.
Como os radicais pregam, trata-se de mudar não apenas valores da sociedade (como a religião, a língua, a cultura), e sim de alterar padrões de medida – o certo e o errado não são mais averiguados pelo conhecimento da tradição (agredir é errado, a paz deve prevalecer à guerra), e sim por quem “luta” pelo correto, em oposição a quem “não luta”.
Tudo é encarado por uma dicotomia: aqueles que “lutam”, os que se movem (sem nem saber pelo quê – do contrário, alguém teria uma resposta objetiva, descentralizada e sem lideranças de qual o objetivo das manifestações de junho) e aqueles que são inimigos dessas “mudanças”, os imobilistas, os acomodados – e, portanto, por uma nova dedução simplista, os certamente mal-intencionados.
O que se viu nas ruas do Brasil em 2013, a tal “revolta espontânea”, a “gota d’água” que, misteriosamente, não durou um mês antes de todo mundo voltar para a rotina como se não estivessem incomodados mais com nada (muito menos a ponto de ser uma “gota d’água”) não foi um movimento consciente, político, ético e espontâneo. Uma revolta popular. Foi uma manipulação de comportamentos de massa.
As pessoas se comportam de forma distinta quando estão em uma massa do que quando estão sozinhas, dominando apenas um destino (sua história individual, que pode ser vivida apenas por elas mesmas). Basta ir a um jogo de futebol para ver como um ser humano bípede, racional e ordeiro se comporta diante de outro ser humano. É uma maneira muito diferente de quando está sozinho na rua e encontra outro ser humano desconhecido, sozinho, vindo a seu encontro.
É o fenômeno estudado por Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas, por Elias Canetti emMassa e Poder, por Eric Hoffer em Fanatismo e Movimentos de Massa, por Erik von Kuehnelt-Leddihn em The Menace of the Herdor Procrustes at Large, por Ann Coulter em seu seminal Demonic: How the Liberal Mob Is Endangering America. Livros e idéias que não foram citados por nossos especialistas, que tratam os protestos de 2013 com o mesmo nível de consciência de quem estava gritando “Vem pra rua, vem!”, sem nem dar um bom motivo.
Trata-se não de uma idéia política, mas de um meio: a imposição de idéias pela força. Pela força das massas. Pelo comportamento que vê quem está dentro da massa como uma conjunção de amigos (como num torcida de futebol, muito mais unida do que o próprio time em campo), e automaticamente quem está fora como inimigo.
E pela “democracia direta” saudada por intelectuais do jaez de Slavoj Žižek a Vladimir Safatle: pedir por coisas no grito e no número. Não há mais um intermediador entre as vontades enfurecidas de um rebanho ordenado por partidos extremistas que chamam o povo à rua para formar número sem explicar seus reais objetivos (a população desacredita majoritariamente nas propostas de tais partidos, a começar pelo tal “passe livre”, não defendido por quase ninguém durante os protestos), restam apenas as propostas impostas sem discussão por quem consegue dirigir mais as massas. Não surpreende que os campeões nessa engenharia social sejam os esquerdistas.
Todos os movimentos de massa, que definem a política moderna e já foram vigorosamente estudados (mas esquecidos em nossos tempos de trevas intelectuais) foram assim. Da Revolução Francesa e seu terror decapitando traidores (até chegar a seus próprios ideólogos) à Revolução Iraniana, da Revolução Bolchevique às massas marchando pelo nazismo, o resultado nunca foi bom: simplesmente porque as massas não pensam, mas têm um sentimento dominante – o ódio mais primevo.
Não é de se surpreender que os protestos culminem sempre em violência, nem que os interesses dos grupos que os organizaram (e que rapidamente são esquecidos) sejam estranhos à liberdade. O poder absoluto começa pela dominação absoluta do povo – fazendo com que o povo acredite estar fazendo o melhor ao dar o poder de pedir e exigir o que quiser.
Os linchamentos começam assim – mas, muito mais importante, a guilhotina, o apedrejamento, o Gulag e as câmaras de gás começaram do mesmo jeito, mirando nos “inimigos” do povo.




Fonte: Site da Revista Vila Nova
http://revistavilanova.com/os-protestos-e-as-minorias-de-vandalos/

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