sábado, 22 de fevereiro de 2014

Romance policial agrada milhões de leitores e tem muito da qualidade literária dos grandes escritores

Irapuan Costa Júnior
A literatura de crime e mistério, de uma maneira geral classificada como “romance policial”, embora muitas vezes não seja romance nem envolva personagens da polícia, é injustamente tida, salvo poucas exceções, como uma literatura menor.

Literatura para quem gosta, não literatura universal. De fato, se deixamos de lado Edgar Allan Poe, tido como criador do gênero, e Arthur Conan Doyle, inventor de Sherlock Holmes, os autores de estórias de detetive se situam em patamares inferiores no mundo da escrita. Abaixo de Doyle e Poe, algumas estrelas ainda mantêm um brilho apenas razoável: Agatha Christie, a inglesa que criou o inspetor belga Hercule Poirot e a enxerida velhinha detetive Miss Marple, os americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammett, autores dos detetives amorais Phillipe Marlowe e Sam Spade, respectivamente, o belga Georges Simenon, que escreveu mais de uma centena de aventuras do inspetor francês Jules Maigret, os franceses Gaston Leroux, autor de “O Fantasma da Ópera”, Maurice Leblanc, criador de Arsene Lupin, o ladrão de casaca. Estes, e alguns outros poucos. Mesmo estes são tidos como autores apenas para aficionados.
 
A despeito desse nariz torcido da crítica literária, o gênero se expandiu no mundo todo (principalmente nos EUA), e tem público numeroso e fiel, que garante grandes tiragens dos livros de mistério, crime e detecção, embora as publicações sejam na maioria livros de bolso, baratos, o que lhes vale muitas vezes a alcunha depreciativa de “pulp fiction”. A lista de autores mais novos (ou menos velhos), desse terceiro patamar, é enorme, a maioria em língua inglesa: Edmond McBain, Patricia Highsmith, James Lee Burke, P. D. James (a romancista escreveu um livro interessante para aficionados: “Segredos do Romance Policial — História das Histórias de Detetive, Editora Três Estrelas, com tradução de José Rubens Siqueira), John Dickson Carr, Cornell Woolrich, Ellery Queen, Rex Stout, Ross MacDonald, Patricia Cornwell, Nicholas Blake, Scott Turow, Ruth Rendell, Erle Stanley Gardner, Dennis Lehane, Richard Stark e muitos outros, sem esquecer o brasileiro Rubem Fonseca.
 
Grandes romancistas fizeram incursões no gênero, como Victor Hugo e Dostoiévski, ou Machado de Assis. Até o poeta Olavo Bilac escreveu ao menos um conto de mistério (“O Crime”), e Guimarães Rosa, em seu maduro livro “Tutaméia”, apresenta uma atraente estória de detetive, com o título de “Intruje-se”. Nesse mundo literário um tanto desprezado pela crítica, podem-se, contudo, encontrar coisas admiráveis, e um leitor menos avisado não saberá o que perde, passando de liso por essa estante.
 
Dois exemplos de boa leitura de lazer, com personagens totalmente antagônicos, mas ambos muito interessantes: os livros de Georges Simenon e os de Richard Stark. Georges Simenon (1903-1989), belga, mais conhecido, tem no inspetor parisiense Maigret um detetive sui generis. Avesso à violência, retilíneo seguidor da lei, Maigret é um jogador de xadrez ao inverso. Parte do final da partida (um crime) para seu início (os antecedentes que levarão ao desfecho fatal). Para isso é um arguto psicólogo, que não só tenta entender os personagens envolvidos no mistério como peças desse jogo de xadrez, mas se colocar em seu lugar, deslocar-se como se deslocaram eles. Segue suas trajetórias, marcha com eles nos dias que antecedem o assassinato, conhece suas vidas, seus trabalhos, seus gostos e motivações, suas casas, sua posição no tabuleiro. É um policial que não poucas vezes se simpatiza com um investigado, entende suas limitações e sua condição humana. Seu tabuleiro costuma ser a cidade de Paris, moldura apresentada com a dose de encanto que lhe é própria, e que acrescenta um toque de poesia na narrativa do autor. O início de cada caso é admiravelmente intrigante, o que prende a atenção, fazendo com que se acompanhe o raciocínio de Maigret, se investigue com ele, se desvende com ele os instigantes mas verossímeis mistérios criados por Simenon.
 
Maigret é um moralista, conservador, fiel à sua dedicada Madame Maigret, uma Amélia à francesa. Maigret é sempre resistente às investidas femininas (ao contrário de seu criador, Simenon), mas, como todo bom francês, é muito devotado à boa mesa. Maigret é um detetive que indaga, que dialoga, que observa, mas sobretudo que pensa, e é assim que ele reconstitui o jogo de xadrez jogado, até perceber todos os movimentos dos peões, dos bispos, das torres, da rainha. É quando dá seu xeque-mate invertido, descobrindo o culpado.
 
Quanto a Richard Stark, ele na verdade é o americano Donald Edwin Westlake (1933-2008), que adotou esse e outros pseudônimos, em sua fértil carreira. Seu principal personagem, um fora da lei, é o anti-herói Parker. Parker não é um anti-herói qualquer. É um bandido devotado à eficiência, à perfeição. Tanto que sequer tem passagem pela polícia. Organizador e executor de grandes golpes, cada um deve lhe render sustento para cerca de um ano de inatividade. Tanto pode ser um roubo da bilheteria de um estádio em dia de grande partida, como um assalto à tesouraria de uma grande empresa no dia do pagamento. Pode ser um roubo de banco ou o sequestro de um carro forte. Ele quer apenas dinheiro vivo, que não deixe rastros.
 
Parker planeja cuidadosamente cada golpe, e se inteira pessoalmente de cada detalhe. Saberá, antes da ação, de quanto será o botim, quais os guardas que terá que neutralizar, conhecerá bem a planta do edifício onde terá que penetrar. Armas e veículos serão despersonalizados, e locais de encontro, neutros. Parceiros terão que ser conhecidos e capazes de resistir às tensões do assalto. Escolhidos a dedo para jamais denunciar alguém, se presos. Rotas de fuga, com alternativas, são cuidadosamente escolhidas. Tudo isso Parker verifica pessoalmente, friamente, profissionalmente. Durão, violento, Parker não só planeja, como improvisa rapidamente caso algo saia dos planos, e ele sabe que sempre existirão os imprevistos Nunca perde a cabeça nem a iniciativa da ação. Sabe agir psicologicamente. Não tem escrúpulos nem sabe também o que é complacência. Matar é para ele um ato mesclado à profissão, não desejável, mas indiscutível se necessário. É um anti-herói quase perfeito, mas possível, enfim. Várias aventuras de Parker tornaram-se filmes. E ele foi representado por grandes atores, como Lee Marvin, Jim Brown, Robert Redford, Peter Coyote, Mel Gibson e Robert Duval, uma medida da excelência de suas estórias. 


Fonte: Site Jornal Opção
http://www.jornalopcao.com.br/colunas/contraponto/romance-policial-agrada-milhoes-de-leitores-e-tem-muito-da-qualidade-literaria-dos-grandes-escritores

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