segunda-feira, 10 de março de 2014

“A imortalidade não existe, Shakespeare será esquecido”

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A frase é de Roberto Bolaño, escritor chileno que, dez anos depois de morto, está cada vez mais vivo no imaginário dos leitores. As letras portuguesas descobriram-no nos últimos anos. O mundo presta-lhe homenagem por estes dias.


Hélder Beja


O editor português de Roberto Bolaño, Francisco José Viegas, introduz o tema: “Depois de ter lido Bolaño a nossa vida muda um pouco. Não se pode esquecer aquilo que ele deixou escrito, e que é uma tempestade, uma torrente, um delírio, como deve ser a literatura”.

Roberto Bolaño nasceu no Chile, em 1953, e haveria de morrer vítima de uma crise hepática, num hospital de Barcelona, a 15 de Julho de 1993, precisamente há dez anos. Para a posteridade deixou essa capacidade vincada por Viegas em declarações à Lusa, a capacidade de tocar o âmago daqueles que se decidem por lê-lo.

Autor prolífico e hoje vastamente traduzido, Bolaño foi um ser errante. Sempre se viu como poeta, mas foi a prosa que começou a escrever já tarde, à laia de conseguir garantir comida na mesa da família, que lhe valeu um lugar no panteão da literatura latino-americana.

Três livros, mais que todos os outros, construíram o mito à volta do autor chileno que passou uma parte da vida no México e outra em Espanha: “Os Detectives Selvagens” (1998), “Chileno Nocturno” (2000) e “2666” (2005), este publicado a título póstumo. Neles, a vida de Bolaño alia-se a uma criatividade perversa, que parece não conhecer limites.

Bolaño cresceu na classe média baixa do Chile, filho de um lutador de boxe e de uma professora. Decidiu começar a escrever aos 16 anos, principalmente por não ter coragem para seguir o outro caminho que lhe parecia elegante – ser assassino. “Assassino ou detective: não há outra escolha para um homem”, disse numa das várias entrevistas que foi concedendo ao longo da vida.

Os livros de Roberto Bolaño estão carregados de crimes, de vítimas e matadores, de histórias macabras, mas também de muito sexo, de literatura e de artistas que questionam a arte e as correntes que a organizam.

Foi no México, para onde se mudou aos 15 anos, que Bolaño começou a desenvolver a sua linha de pensamento trotskista e a envolver-se na política. Em 1974 abraçou aquilo que designou de infrarrealismo, movimento composto poetas mexicanos e chilenos que se prestava a fazer cair as verdades culturais vigentes.



Eremita na Europa



Em 1977 Roberto Bolaño parte para a Europa, viaja e acaba por assentar arraiais em Barcelona. Na capital da Catalunha, Bolaño lava pratos, trabalha na recolha de lixo e faz mais um sem fim de ofícios que lhe permitem sobreviver a custo. A partir de 1981 muda-se para Blanes, também na Catalunha, e é aí que produzirá grande parte da sua obra, escrevendo centenas de poemas e novelas durante essa década, em total anonimato. “Los Perros Románticos” (1993) e “El Último Selvaje” (1995) são os seus melhores livros de poesia, mas é alguns anos depois, com a publicação de “Os Detectives Selvagens”, que o autor ganha reconhecimento.

“Os Detectives Selvagens” é um delírio narrado por 52 personagens e que tem em Arturo Belano (o alter-ego de Bolãno), Ulisses Lima (o alter-ego do seu melhor amigo, Mario Santiago) e no jovem poeta Garcia Madero uma tentativa fio condutor. Sendo um livro cheio de livros dentro, nele acompanhamos, através de passagens por muitos países (México, Espanha, EUA, Libéria), a busca frenética por Cesárea Tinajero, a mentora do movimento literário real visceralismo.

O livro valeu-lhe os prémios Herralde e Rómulo Gallegos. Valeu-lhe, também, que crítica e leitores começassem a olhá-lo como um sucessor de homens como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, pilares maiores da literatura produzida na América Latina.

“Nocturno Chileno” veio confirmar Roberto Bolaño como autor, mas só depois da sua morte haveria de surgir o outro monumento que, apesar das mais de mil páginas, se tornaria num best-seller não só nos países hispânicos mas também nos Estados Unidos. Em “2666”, Ciudad Juaréz é Santa Teresa e há um sem fim de mulheres assassinadas. Depois, há um grupo de académicos fixado num escritor recluso de nome Benno von Archimboldi, a quem decidem tentar encontrar. Como noutros livros de Bolaño, há uma escrita à velocidade do pensamento e uma torrente de referências e jogos de palavras que pedem o melhor de cada leitor.



Portugal a descobrir



Os escritos de Roberto Bolaño têm vindo a conquistar leitores portugueses nos últimos anos. Apesar de a editora Gótica ter publicado “Nocturno Chileno” no começo dos anos 2000, e de a Teorema lhe ter dado sequência, com “Os Detectives Selvagens” e “Estrela Distante” (Teorema), foi a partir do momento em que a Quetzal começou a dar à estampa a obra do autor que esta se foi popularizando.

A publicação de “2666” em 2009 e o impacto que teve nos meios literários deu sequência à chegada da bibliografia do autor aos escaparates. Seguiu-se “O Terceiro Reich”, “A Literatura Nazi na América”, “Os Dissabores do Verdadeiro Polícia”, “Amuleto” e “A Pista de Gelo”. Um dos próximos títulos a ser publicado é “Putas Assassinas”.

Sobre “2666”, o livro póstumo de Bolaño, Francisco José Viegas disse ser “um romance grandioso, maior do que o Ulysses [de James Joyce], uma espécie de narrativa de Borges em ponto grande, que junta literatura e violência de uma forma inédita, ininterrupta, ultrapassando o puro fantástico da literatura latino-americana”.

E não foi apenas Portugal a descobrir Bolaño recentemente. Em 2007 os EUA renderam-se à escrita do autor, que recebeu o aplauso da crítica. Agora, os círculos norte-americanos voltam a falar do escritor chileno, com a publicação pela primeira vez em e-book dos seus principais livros e, mais importante, pela edição de “The Unknown University”. A obra é uma colecção de poemas publicados lado a lado em espanhol e inglês, que Bolaño começou a coligir antes de morrer e à qual ainda deu título. “A poesia faz-me corar menos”, disse um dia sobre o ofício de versar.

Nesse campo, a sua grande referência foi sempre Nicanor Parra, o auto-intitulado “anti-poeta” chileno, que Bolaño considerava o maior dos mestres e aquele que todos deviam ler. “Los pasos de Parra” é o poema que Bolaño escreveu dois anos antes de partir, para homenagear aquele a quem queria ver atribuído o Nobel da Literatura. No outro extremo, um dos autores que Bolaño mais atacou foi Octavio Paz, desafiando o cânone literário por si instituído.



“O menos selvagem”



O jornal “La Tercera” pediu a contemporâneos de Bolaño que falassem sobre ele, sobre aquele homem franzino, de óculos redondos e sempre de cigarro na boca. Juan Esteban Harrington, hoje produtor audiovisual a quem tentam atribuir a identidade da personagem Garcia Madero, disse o que muitos já sabiam: “Roberto Bolaño era o menos selvagem de todos”. O alter-ego Arturo Belano é, diz Harrington, aquilo que Bolaño nunca chegou a ser. “No romance inventa uma personagem que ele nunca foi. Nunca foi aventureiro. Roberto era híper inteligente, mas também era desagradável. Bebia zero, não fumava marijuana. Não fazia nada. Observava e escrevia.”

Bruno Montané, outro dos seus amigos, conta que o escritor “aprendia do silêncio das madrugadas”. “A sua droga era estar dias sem dormir, escrever e ler (…). Era genial, lúcido e complexo. Recordo Roberto como um tipo entranhável, com muito humor, carinhoso, mas também podia ser muito depressivo”, acrescenta em declarações ao “La Tercera”.

Agora, dez anos depois do seu desaparecimento, o Chile rende homenagem ao detective da escrita. Numa série de conferências intituladas “Estrela Distante”, 70 estudiosos, editores, tradutores e outros profissionais ligados à obra de Bolaño viajam até àquele país para participarem em 27 mesas que acontecem não só na capital Santiago, mas também em Viña del Mar e Valparaíso. Em Barcelona, no México e em outros lugares aos quais está intimamente ligado, não será esquecido o tributo ao homem que disse que em qualquer época “o brutal é sempre a morte”; e que “nunca há demasiados livros”. “Há livros mau, péssimos, piores, etc, mas nunca demasiados.”




Fonte: Blog Ponto Final

http://pontofinalmacau.wordpress.com/2013/07/15/a-imortalidade-nao-existe-shakespeare-sera-esquecido/

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