segunda-feira, 10 de março de 2014

As democracias liberais deram errado?

Rodrigo Constantino

Com a crise de 2008 e a pujança chinesa, alguns economistas têm flertado, uma vez mais, com a tese de que o capitalismo de estado é melhor do que as democracias liberais calcadas na economia de mercado. Esse foi o tema de uma matéria especial da “The Economist”, e tem sido crescente a defesa do modelo chinês por aqui. Tarso Genro, por exemplo, é um defensor da ideia.
Naturalmente, trata-se de uma tese furada. A China conseguiu crescer tanto justamente porque reduziu a interferência estatal na economia, que ainda é muito grande, infelizmente. O país mergulhou em sua revolução industrial tardia quando soltou as amarras do mercado e permitiu seu funcionamento mais livre. Os problemas atuais, que são enormes, devem-se justamente ao tanto que o estado preservou sob seu controle, especialmente o sistema bancário.
Por outro lado, é extremamente prematuro condenar as democracias liberais pelas crises americana e europeia. O que vimos nesses casos foi um típico problema de excessos, dos financistas estimulados pelos erros do Fed (banco central) no caso americano, e da social-democracia hipertrofiada que quebrou os governos no caso europeu.
Jogar o bebê fora com o banho seria um grave equívoco. A Grande Sociedade Aberta (Popper) tem justamente a vantagem de se adaptar e absorver esses impactos, reformando-se em contínua evolução. É o que defende o economista Paulo Guedes em sua coluna de hoje no GLOBO. As democracias liberais precisam reparar seus erros, e não dar lugar a uma alternativa muito pior, que seria o capitalismo de estado. Guedes conclui:
Pois bem, o que ocorre na América Latina é um testemunho econômico contra os experimentos de hegemonia de partido único. As democracias no cinturão do Pacífico – Chile, Peru, Colômbia e México – aprofundam reformas de modernização, mergulham suas economias na integração competitiva global e sustentam elevadas taxas de crescimento. Enquanto isso, Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina seguem práticas degenerativas, como o culto à personalidade (símbolo do atraso político), a concentração de poder em partido único, a estatização da economia e o controle da mídia. São sintomas clássicos de um obsoleto e desastroso “nacional-socialismo” bolivariano. A pobreza de Cuba, a violência na Venezuela, o empobrecimento da Argentina indicam que se afastar da democracia em busca do capitalismo de Estado não é o caminho para a prosperidade. Se suprimir a democracia e praticar o capitalismo de Estado fosse solução, o regime militar brasileiro estaria agora celebrando 50 anos.
A China não tem um modelo melhor do que os Estados Unidos ou mesmo a Europa. Apenas está em uma fase bem distinta de seu desenvolvimento, e soube copiar coisas boas desses outros modelos, como a maior liberdade econômica que vem sendo implementada desde Deng Xiaoping. Ainda possui inúmeros problemas e enormes perigos à frente, justamente porque preservou um grande grau de intervenção estatal em setores importantes, como o financeiro.
O Brasil não deve copiar o modelo chinês. Deve, isso sim, inspirar-se no modelo americano anterior, da era mais liberal, responsável pela criação da maior potência econômica do planeta.

Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/as-democracias-liberais-deram-errado/#.Ux3Gr2Gqb_s.twitter

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