domingo, 16 de março de 2014

Norman Gall: "O Brasil tem de cair na real"

O fundador do Instituto Fernand Braudel diz que o país pode ser arrastado a um atoleiro institucional se não enfrentar seus problemas com firmeza

GUILHERME EVELIN E IVAN MARTINS

ALERTA AMARELO Gall em seu apartamento, em São Paulo. “Não sou pessimista quanto ao Brasil, senão não estaria aqui” (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)
Os amigos descrevem o jornalista e acadêmico Norman Gall como rabugento, mas talvez fosse melhor descrevê-lo como teimoso. Americano naturalizado brasileiro, ele vive no Brasil desde 1977 e ainda não desistiu de mudar o país. Aos 80 anos, fala português “com sotaque do Bronx”. Escreve impecavelmente sobre os problemas que o cercam. Dias atrás, publicou um de seus artigos caudalosos no Braudel Papers, publicação do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, que ele dirige. Para falar sobre o artigo, recebeu ÉPOCA em seu apartamento repleto de livros, fotos e arte popular do Nordeste.
ÉPOCA – No artigo Quem somos? Para onde vamos? Tudo bem?, o senhor diz que o Brasil está caindo num “atoleiro institucional”. O que isso significa?
Norman Gall –
 Os aspectos mais visíveis desse atoleiro são a decadência da infraestrutura, a corrupção endêmica, o parasitismo fiscal, a escalada para a inflação crônica, epidemias de violência, altos custos e rigidez institucional no mercado de trabalho e a produtividade estagnada.
ÉPOCA – Qual a origem desses múltiplos problemas?
Gall – 
A origem é simples: o Brasil não tem poupança para financiar seu próprio futuro. Por isso, investe pouco, e o investimento que se faz é falho. Muitos projetos de infraestrutura não são concluídos e se tornam mais uma forma de consumo. Não é que o consumo seja ruim. O consumo é bom, até certo grau. Mas, quando o consumo derruba a gestão de uma sociedade complexa, ele conduz a um atoleiro institucional.
ÉPOCA – Isso não soa pessimista demais para descrever o Brasil dos últimos anos?
Gall – 
O Brasil conseguiu muito nas últimas décadas. Desde 1985, vive-se a melhor época da história do Brasil. O padrão de vida do povo tem melhorado muito. Uma geração atrás, os jovens não tinham as oportunidades de estudar que têm agora.
ÉPOCA – Por que, então, seu artigo soa tão pessimista?
Gall – 
Não sou pessimista quanto ao Brasil. Senão não estaria aqui hoje. O Brasil tem gente de talento, a gestão de empresas é muito boa. Falta uma cultura que acredite mais na poupança e no investimento do que no consumo. São leis de economia muito simples. Até 1800, não havia crescimento nas economias. Desde então, as economias ocidentais passaram a crescer pouco a pouco, até que isso se consolidou no final do século XIX. Agora, o crescimento econômico é tido como um dos direitos humanos. Mas o crescimento econômico não é herança. Tem de ser conquistado todos os dias e todos os anos. No artigo, cito um relatório do Banco Mundial que diz que o Brasil não é um país nem capitalista nem socialista, mas uma economia de transferências, em que todo mundo quer receber. Isso drena os recursos do país.
ÉPOCA – No artigo, o senhor diz que há uma singularidade no Brasil com as noções de tempo e espaço.
Gall – 
Sim, há tolerância ao fracasso do investimento público e da infraestrutura. Há tolerância ao fracasso do ensino público. Tolerância ao fracasso da Justiça. Neste grande triunfo que foi o julgamento do mensalão, demoraram oito anos para julgar um crime que escandalizou o povo. Estamos elogiando o Supremo, mas em outras Supremas Cortes os ministros não falam por cinco horas. Eles escrevem, soltam para a imprensa e acabou. Aqui se faz teatro, gasta-se muito tempo.
ÉPOCA – O senhor tem falado sobre o Peru. Lá é diferente?
Gall – 
Sim, muito diferente. O Peru passou por traumas que o Brasil não passou: uma insurreição guerrilheira que custou a vida de 30 mil pessoas, hiperinflação nos anos 1990, epidemia de cólera, vários terremotos. Mesmo assim, o Peru tributa menos da metade do que o Brasil tributa, 18% do PIB. O Peru está acima do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, consegue fazer obras públicas, e o povo está progredindo. Eles mantêm as contas fiscais em ordem. Não precisam da gastança que temos aqui para fazer progredir o povo. A América Latina se divide em dois campos. Há países moderados no trato do investimento, equilíbrio fiscal e relações comerciais. Esses países são Chile, Peru, Colômbia e México. Eles vão para a frente. Os outros países, como Argentina e Venezuela, consumidos pelo populismo, não avançam.

ÉPOCA – O que garante que esses países não voltarão à situação anterior?
Gall –
 Nada está garantido, mas existem trajetórias. Todos os países populistas têm reeleição para presidente. Esses países que progridem, com exceção da Colômbia, não permitem a reeleição. Isso dá estabilidade. No Peru, os presidentes começam populares, mas terminam com um apoio entre 7% e 20%. Não terminam nas nuvens como Lula nem como está Dilma. Terminam mal, mas mantendo a política econômica. Isso salvou o Peru. Porque não havia reeleição.
ÉPOCA – O senhor diz que o Brasil está em cima do muro, mas o governo Dilma tomou medidas de austeridade...
Gall –
 Isso é para segurar a situação, para ela não cair mais nas pesquisas e ganhar a eleição. Falo de problemas estratégicos que Dilma não enfrenta. Essas medidas de agora são paliativas.
"O problema do Brasil é que
não há liderança política, nem
no governo nem na oposição"
ÉPOCA – O que o Brasil tem de fazer para evitar o desastre?
Gall – 
O Brasil tem de enfrentar seus problemas institucionais: a falência do Judiciário, a falência da infraestrutura, a falência do ensino público. O Brasil precisa investir na capacitação do povo. Não tenho problema com o Bolsa Família, mas uma dependência generalizada é muito séria. Quando há funcionários públicos ganhando aposentadorias de R$ 60 mil por mês e pessoas se aposentando aos 53 anos, o país não se sustenta.
ÉPOCA – No final de seu artigo, o senhor diz que o Brasil precisa de uma nova estratégia.
Gall –
 A nova estratégia para o Brasil envolve poupança, investimento e capacitação do povo pela educação. O Brasil tem 200 milhões de habitantes, uma extensão continental, precisa de gente capacitada para administrar isso tudo. Não se pode depender do socorro de médicos cubanos para cuidar da saúde. É preciso capacitar o povo. Se essa for a única bandeira de um governo, ele consegue.
ÉPOCA – Temos eleições neste ano. O senhor vê algum candidato capaz de fazer essa mudança estratégica?
Gall – 
Ainda não. Um dos problemas do Brasil é que não há oposição política. Os candidatos que querem ocupar o lugar de Dilma, o que dizem?
ÉPOCA – Eles criticam o governo e dizem que dá para melhorar a gestão.
Gall –
 Isso não é oposição política. Oposição tem de propor mudanças, colocar as coisas em outros termos, criar outros referenciais. Os candidatos da oposição estão de conversa mole com o país. A situação é urgente, o Brasil tem muito a perder pelos erros que comete agora.
ÉPOCA – Uma desculpa recorrente para nossos problemas é a necessidade de “governabilidade”...
Gall – 
Com liderança política, não há problema de governabilidade. O problema é que não há liderança política, nem no governo nem na oposição. Eu tinha esperança na Dilma, com fama de “gerentona”. Achava que ela nomearia um ministério de estrelas e faria coisas importantes na saúde e na educação. Mas nomeou gente muito fraca, por causa das composições com os partidos. É um problema de liderança, não de governabilidade.
ÉPOCA – O senhor diz que os gastos públicos têm crescido muito. Haveria outro caminho, dado que boa parte desses gastos tem a ver com os anseios da sociedade?
Gall – 
O Brasil tem de cair na real. Os brasileiros trabalham, não são indolentes, mas é preciso dotar o governo de gente qualificada para administrar os programas de infraestrutura. Os projetos são mal desenhados, não terminam, são superfaturados. Isso tem de parar. É preciso elevar a qualidade da vida pública. Os protestos do ano passado diziam respeito à qualidade da vida pública.
ÉPOCA – O senhor acha que as manifestações de rua podem ser um impulso para essas mudanças?
Gall – 
Os protestos têm o potencial de se transformar em movimento cívico, algo muito importante. Você pode afastar as pessoas violentas e desenvolver com criatividade esse movimento. Há pessoas no Brasil com capacidade e convicções. Mas onde estão as lideranças? Por que não aparecem? O Brasil precisa de novas lideranças, precisa de novas estratégias. 

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/03/bnorman-gallb-o-brasil-tem-de-cair-na-real.html

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