domingo, 9 de março de 2014

O dia em que o Brasil disse NÃO à Copa

(Arte ZH)

Pedro Moreira | pedro.moreira@zerohora.com.br

Eram 15h30min quando estourou o corre-corre de funcionários e o sobe e desce de elevadores no prédio da CBF no Rio de Janeiro. Isolado em seu gabinete, Giulite Coutinho recebia pelo rádio a confirmação de que seu maior projeto pessoal no comando da entidade desmoronava em definitivo. O governo militar de João Figueiredo acabara de anunciar que o país não sediaria a Copa do Mundo de 1986 após a desistência da Colômbia.

Era 10 de março de 1983.


- O plano era viável, inclusive pelos aspectos sociais, econômicos e promocionais. Resta a consciência de que cumprimos com o nosso dever. Vamos acatar a decisão do governo - diria aos repórteres, horas depois, um sorumbático Giulite, deixando a sala da entrevistas após dois minutos de fala sem sequer sentar-se.

Imprensada pelo definhamento do modelo nacional-desenvolvimentista, a ditadura do general Figueiredo sentia os efeitos da segunda crise mundial do petróleo. Começava a mergulhar na crise da dívida externa e recém havia assinado um acordo de austeridade com o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevendo corte de gastos e aumento de tributos. Pipocavam mobilizações contra o arrocho de salários, a anistia estava aprovada, a abertura política era discutida, o movimento pelas Diretas estava prestes a eclodir, o Partido dos Trabalhados (PT) criava corpo, Leonel Brizola estava de volta com força: enfim, chegava o ocaso dos militares no poder. E não havia clima para comprar a ideia de sediar o Mundial de 1986.

Na verdade, o núcleo duro do governo nunca chegou a trabalhar com a possibilidade de receber a Copa. Mesmo que Giulite - um "homem da revolução" com bons contatos entre os militares -lutasse muito e clamasse ajuda aos ministros próximos a ele. Mesmo que mais de 100 deputados federais assinassem um abaixo-assinado defendendo a realização do evento, Figueiredo estava irredutível. Para justificar a decisão à população, o general encomendou um estudo ao ministro do Planejamento, Delfim Netto. Entre as conclusões, além da situação econômica, o preço dos ingressos incompatíveis com o poder aquisitivo de classes mais baixas e a preocupação em não comprometer o governo seguinte deixavam claro o que deveria ser feito. Como o presidente não era afeito ao contato com a imprensa, ficou a cargo do porta-voz, o diplomata Carlos Átila, comunicar à nação o ponto final no assunto.

- O levantamento era apenas desencargo de consciência. O Brasil não estava preparado e não tinha condições de fazer, seria só descascar o abacaxi para a Fifa. E o presidente já estava começando a se irritar com o Giulite. Distribuí a nota impressa e fiz comentários com os jornalistas. Mas todo dia tinha um míssil entrando pela janela, esse foi dos menos complicados - relembra Átila, 75 anos, presidente do Tribunal de Contas da União na década de 90 e atualmente consultor em direito administrativo e produtor de cachaça.
Giulite Coutinho lutou para ter a Copa no Brasil
(Antônio Vargas, Banco de Dados)

Havelange quase caiu da cadeira

Mesmo com tudo apontando para a impossibilidade de receber a Copa de 1986, uma pesquisa do Instituto Gallup publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo dias antes revelava 60% dos entrevistados defendendo a luta do país pelo Mundial. As especulações haviam se iniciado cinco meses antes do anúncio lido por Átila, quando o presidente da Colômbia desistiu oficialmente de receber a competição. No comando de um país envolto em uma crise até maior do que a vivida pelo Brasil, Belisário Betancur Cuartas criticou as extravagâncias exigidas pela Fifa, que não teriam sido acordadas quando o país foi definido como sede, em 1974. E tranquilizou seus compatriotas quanto a uma eventual perda de prestígio do país: tudo seria compensado por Gabriel Garcia Márquez, premiado com o Nobel de literatura em 1982. Para Belisário, sediar a competição seria um ?esbanjamento imperdoável?.

Anunciada a decisão colombiana, não tardou até que o presidente da Fifa, o brasileiro João Havelange, estivesse sentado à frente do general Figueiredo em um gabinete de Brasília. 

? Ele disse que a Fifa pensava no Brasil. Aí o presidente disse: dinheiro público para fazer Copa, de jeito nenhum, o orçamento está completamente comprometido. O Havelange quase caiu da cadeira ? relembra Átila.

A postura de Figueiredo tinha um tanto de desespero. Na prática, a caneta que assinava a liberação de verbas no país tinha um novo dono: o FMI. E os militares não iriam bater de frente com aqueles que passaram a ter a chave do cofre.
(Antônio Vargas/Agencia RBS)
(Antônio Vargas/Agencia RBS)
João Havelange presidente da Fifa na época

Figueiredo na maior irritação

Dirigentes, jogadores e técnicos lamentaram a escolha. Ernesto Guedes, então treinador do Inter, disse à Folha de S.Paulo crer que "teríamos lucros, principalmente no que se refere ao intercâmbio de ideias na parte técnico-tática". No mesmo jornal, Sócrates, um dos principais jogadores do país e líder da Democracia Corintiana, lamentava que o Planalto tivesse optado por uma decisão política e econômica em detrimento do aspecto social.

Em ZH, a editora de economia, Eunice Jacques, celebrava a opção de Delfim de abrir mão da mania de grandeza que havia levado o país à pindaíba. Empresários e deputados se dividiram entre críticas e elogios. Mas também houve discordâncias na imprensa. Colunistas da revista Placar, os jornalistas Juca Kfouri e Alberto Helena Jr. criticaram a falta de arrojo e a desconsideração da opinião popular.

O setor do empresariado mais descontente foi o da hotelaria. Carlos Átila recorda um momento de tensão entre Figueiredo e Henri Maksoud, dono do hotel Maksoud Plaza, em São Paulo:

- Houve uma altercação. Na semana seguinte ao anúncio, nos hospedamos lá, e o Henri Maksoud foi muito inconveniente, quis insistir que precisava da Copa.

O presidente ficou na maior irritação, disse que não adiantava, chamou o chefe do cerimonial e disse para nunca mais nos hospedarmos lá. Figueiredo só não deu um tapa na cara dele porque se conteve. Ele era muito explosivo.

Secretário-executivo do Ministério da Fazenda à época, o economista Maílson da Nóbrega defende a decisão. Ao mesmo tempo, entende que o presidente Luís Inácio Lula da Silva agiu certo ao arrematar, em 2007, a Copa de 2014.

? Embora organizar a Copa sirva para coordenar alguns investimentos, acelerar outros e aumentar a autoestima do país, em 83 seria um desastre. Seria desprezar a dura realidade econômica e uma demonstração de alheamento à situação pela qual o país passava. Já em 2007, o país estava no auge do prestígio internacional, Lula se consolidava como líder responsável e o país ampliava os programas sociais.

O Brasil era o queridinho dos mercados, exemplo para a América Latina.
(Agencia RBS/Agencia RBS)
João Figueiredo

Derrota que abalou Giulite

Calou fundo a Giulite Coutinho perder a batalha pela Copa. Empresário de sucesso, o presidente da CBF apostou alto na ideia. Além disso, menos de um ano antes o dirigente havia passado por uma das maiores derrotas da Seleção Brasileira, para a Itália, no Mundial de 1982.

Falando por telefone enquanto assistia a um treino do América-RJ no estádio que hoje leva o nome de Giulite, o atual presidente do clube, Léo Almada, 76 anos, lembra que o episódio fez com que o então presidente da CBF começasse a se afastar do esporte:

- Quase como um irmão para mim, ele era um brasileirão, de capacidade empresarial e política muito grande. Construiu a Granja Comary e saiu da CBF deixando dinheiro em caixa. Mas ficou muito abatido e foi se afastando um pouco do esporte. Ele sabia que o Brasil tinha condições de fazer uma Copa melhor.

Além de comandar a CBF de 1980 a 1986, Giulite também foi presidente do clube carioca. Morreu em 2009. 

- O Giulite era uma pessoa muito arbitrária, ligado à revolução e amigo do Delfim. Não era de muitas amizades, muito ensimesmado e convivia com as próprias opiniões. Foi um jato de água fria, ele sonhava muito com isso, foi uma decepção para ele a perda da oportunidade - recorda Reginaldo Mathias, também ex-presidente do América-RJ, que conviveu durante anos com o dirigente da CBF.

Dois meses depois da desistência oficial do Brasil, a Fif a optari a pelo México, palco em 1970, como sede da competição em 1986. Em um intervalo de 16 anos, os mexicanos receberiam dois Mundiais. E Giulite teria de esperar até 2007 para ver o Brasil ganhar o direito de sediar uma Copa.

- Ele está vendo o sonho dele realizado lá de cima - profetiza Léo Almada.
Delfim Netto, ministro do Planejamento

Em 24 anos, muito mudou

Em setembro de 1982, uma súbita elevação do juro nos Estados Unidos havia tornado impagáveis as dívidas dos países latino-americanos. Começava a chamada "crise da dívida", que custou ao Brasil duas décadas de baixo crescimento. Em fevereiro de 1983, três dias depois da terça-feira de Carnaval, o país acordou com a chamada "maxidesvalorização" - o cruzeiro perdeu 30% em relação ao dólar. Pouco depois, assinava um plano de ajuste com regras determinadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A tática era conhecida, na época, como "arrocho" ou "apertar o cinto", e custou ao país uma queda no crescimento daquele ano de quase 3%. Em 2007, quando o Brasil foi confirmado como sede do Mundial, o clima econômico não podia ser mais diferente: o país crescia, recuperava a confiança e começava a agregar contingentes antes excluídos a seu mercado consumidor.

Copa e Olimpíada ajudaram a lustrar a imagem externa, que a perda do ritmo de expansão econômica e os protestos voltaram a deixar mais opaca.
Marta Sfredo, Editoria de Economiamarta.sfredo@zerohora.com.br
Zero Hora



Fonte: Site do Jornal Zero Hora
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/esportes/copa-2014/pagina/nao-a-copa.html

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