quinta-feira, 20 de março de 2014

O que é doutrinação?

Por André,

Na medida que minha carreira de docente aumenta, a preocupação com a minha "doutrinação às avessas" aumenta de forma diretamente proporcional.

Na mesma medida que quem diz que não há aparelhamento de esquerda nas universidades brasileirassimplesmente não entende o conceito de hegemonia, que é bastante delimitado e específico, muita gente não faz a menor ideia do que é doutrinação.

O que doutrinação NÃO É: doutrinação não é o mero posicionar-se do docente. Surpreende que tão óbvia constatação seja estranha àqueles que repetem mecanicamente que não existe neutralidade do discurso. Todo mundo se posiciona, até quem diz que não se posiciona está se posicionando. Quando tomo partido, tenho o hábito de avisar "olha, neste momento eu estou 'opinando'", "agora é meu posicionamento sobre o tema.". Muito embora isso seja verdade, uma avalanche de professores com os mesmos posicionamentos e disfarçando sua condição de formador de opinião segue sendo no mínimo suspeito.

Mas isso NÃO é doutrinação. Não ainda. Doutrinação é posicionamento único somado a demonização ou alegada inexistência do pensamento diferente. É a consequência da falta de diversidade. Defender diversidade no discurso pra posar de progressista é muito bonito. Ser a favor da livre circulação de ideias é algo mais complexo e que requer um nível de coragem e segurança intelectual que duvido que mais que uns punhados de educadores tenha.

No terreno da discussão política a coisa é ainda mais patente e necessária. Que ideias existem na políticas que sejam absolutamente imunes a críticas? Que não encontrem oposição séria de vida inteligente? A experiência de ter contato com autores de não-esquerda com bons argumentos, raciocínios sólidos e muito estudo pode ser marcante para a vida intelectual de muita gente. Isso deveria ser evidente para qualquer um que alega estudar ciências humanas a sério: em nosso campo de estudo, a segurança de fatos e provas matemáticas praticamente não existe. Tudo é matéria, no mínimo, de discussão.

Daí, quando uma legião de professores, anos a fio, repetem um único discurso, uma única 'cosmovisão' possível, intencionalmente ou não, é impossível não nomear tal fenômeno de doutrinação. Uma metáfora semelhante seria alguém das ciências físicas que se limita a ensinar e repetir a "física" aristotélica. Renegando aos alunos o conhecimento sobre as versões newtonianas e einstenianas da física. Da mesma forma que há (e muita) vida inteligente não-aristotélica, há vida inteligente não-marxista (mais patentemente em economia, mas também em filosofia, sociologia, direito etc), que merece no mínimo ter a existência mencionada.

De acordo com o próprio Olavo de Carvalho, ninguém pode falar a sério sobre o assunto "marxismo" sem, no mínimo, empreender a seguinte trilha (o que nos faz pensar quantos progressistas/marxistas realmente falam com propriedade do tema e não por mera inércia gerada pela doutrinação que negam):

Para um sujeito falar com alguma propriedade sobre o movimento comunista, deve antes ter estudado as seguintes coisas:
(1) Os clássicos do marxismo: Marx, Engels, Lênin, Stálin, Mao Dzedong.

(2)  Os filósofos marxistas mais importantes: Lukács, Korsch, Gramsci, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Lefebvre, Althusser.
(3)  Main Currents of Marxism, de Leszek Kolakowski.
(4)  Alguns bons livros de história e sociologia do movimento revolucionário em geral, como Fire in the Minds of Men, de James H. Billington, The Pursuit of the Millenium, de Norman Cohn, The New Science of Politics, de Eric Voegelin.
(5)  Bons livros sobre a história dos regimes comunistas, escritos desde um ponto de vista não-apologético.
(6)  Livros dos críticos mais célebres do marxismo, como Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, Raymond Aron, Roger Scruton, Nicolai Berdiaev e tantos outros.
(7) Livros sobre estratégia e tática da tomada do poder pelos comunistas, sobre a atividade subterrânea do movimento comunista no Ocidente e principalmente sobre as "medidas ativas" (desinformação, agentes de influência), como os de Anatolyi Golitsyn, Christopher Andrew, John Earl Haynes, Ladislaw Bittman, Diana West.
(8)  Depoimentos, no maior número possível, de ex-agentes ou militantes comunistas que contam a sua experiência a serviço do movimento ou de governos comunistas, como Arthur Koestler, Ian Valtin, Ion Mihai Pacepa, Whittaker Chambers, David Horowitz.
(9)  Depoimentos de alto valor sobre a condição humana nas sociedades socialistas, como os de Guillermo Cabrera Infante, Vladimir Bukovski, Nadiejda Mandelstam, Alexander Soljenítsin, Richard Wurmbrand.
Os pontos 1 e 2 são claros: antes da literatura crítica (ou seja, antes de pedir por "livros que refutem o...") é preciso vasculhar TODA a literatura primária.

E quando alguém simplesmente faz críticas a uma visão de mundo, ou traz autores e assuntos até então nunca abordados e que a contrariam, isso NÃO é doutrinação, nem mesmo às avessas (há um quê de projeção nessa alegação, ou daquela máxima apócrifa de Lenin: "acuse-os do que você é"). Doutrinação no sentido oposto implicaria não criticar o marxismo, pois para tanto é preciso estudá-lo e citá-lo (pontos 1 e 2 citados acima), implicaria repetir ad nauseam e de forma acrítica qualquer outra coisa apenas por ser não-marxista.

Dar um exemplar de A Origem das Espécies para quem a vida inteira só leu e ouviu falar da Bíblia não é doutrinação, é sanidade mental e intelectual (coisa que deveria ser bastante evidente para pessoas que defendem o estado laico justamente para que apenas uma versão da história não seja contada). Se esse ponto estivesse minimamente claro para a professora de uma FATEC do interior de São Paulo denunciada pelo Escola sem Partido, ela não teria passado pelo que passou, há vida inteligente de não-esquerda o suficiente para ganhar uma meia dúzia de títulos na bibliografia de um curso público.

E lanço uma aposta aqui, todos, absolutamente TODOS, que reclamam quando UM autor não-marxista é trazido para o debate, não veem nenhuma "doutrinação" no que vem abaixo:



Ou certamente acha que a aula dessa professora é um primor em termos de democracia, diversidade e dar voz para opiniões contrárias.


Ou a aula desse professor do cursinho Anglo:


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