domingo, 9 de março de 2014

Remo Bellini, um detetive bem brasileiro

Personagem criado pelo requeiro Toni Bellotto, dos Titãs, é uma das boas surpresas do romance policial e faz sucesso crescente

JADE BONEFF
Da Esfera
20/05/2001


Há muito tempo que a literatura brasileira não via um detetive particular tão interessante. Longe do pioneirismo desastrado de Dick Peter (criado por Jerônimo Monteiro nos anos trinta) ou da sátira despretensiosa de Ed Mort (de Luiz Fernando Veríssimo), Remo Bellini, saído da imaginação do roqueiro Tony Bellotto, dos Titãs, é o protagonista de dois livros que deixam o leitor à espera de mais.

Remo Bellini é um cara tão comum que você quase imagina que se encontrou com ele na semana passada. O personagem criado pelo roqueiro Tony Bellotto, dos Titãs, não tem nada de glamour, o que o torna absolutamente verossímil.

O primeiro livro escrito por Bellotto, Bellini e a Esfinge, de 1995, editado pela Companhia das Letras, surpreende a cada página. A história do detetive encarregado de encontrar uma mulher desaparecida, passando pelo inevitável assassinato, não é o clichê que se poderia esperar. Muito bem elaborada, prende a atenção e estimula. Grande parte deste sucesso, no entanto, deve ser creditada à surpreendente habilidade de Bellotto em criar seus personagens.

Remo Bellini é investigador particular, sem uma só gota de Hollywood nas veias. Não é bonito, não é rico, não faz muito sucesso com as mulheres e nem é particularmente inteligente. Em resumo, o cara do apartamento ao lado. Nesta cotidianidade, Bellotto acerta a mão. Seu protagonista é convincente e cinicamente divertido. Sua neurose é original e comovente - Remo tinha um irmão gêmeo, Rômulo, morto logo após o nascimento. Aquela metade faltando em sua vida afeta o detetive de tal maneira que ele se auto-define o "dois-em-um". O desfecho da trama também não é do tipo que já se espera desde o segundo capítulo. E faz o leitor ansiar por mais Bellini.

Foram precisos apenas mais dois anos, e Bellotto presenteou o público com Bellini e o Demônio, também pela Companhia das Letras. Ainda melhor do que o primeiro livro, neste o detetive se divide entre o assassinato de uma colegial e a busca de um manuscrito perdido. Também há uma mudança de cenário - enquanto a primeira história se passava em São Paulo, estendendo-se até Santos, em Bellini e o Demônio a ação se desloca no eixo Rio-São Paulo. Também a neurose do pobre detetive ganha competição à altura: agora Remo está impotente.

A segunda aventura de Bellini mostra um amadurecimento do personagem e seu autor. O ritmo da história é mais constante, e embora se mantenha a fórmula da revelação no final, é possível ao leitor acompanhar o raciocínio do detetive ao longo do livro. Também os momentos de humor estão mais presentes, mas é o humor ácido do submundo paulista, do cinismo meio desesperançado.

Já são dois anos desde o lançamento de Bellini e o Demônio. Assim como aconteceu ao final do primeiro livro, o leitor vai se encontrar fuçando as livrarias à espera de uma terceira aventura do detetive mais gente-como-a-gente dos últimos tempos.










Fonte: Site Diário de Cuiabá

http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=52821

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