sábado, 15 de março de 2014

Sobre Lula ou Sheherazade, internautas ajudam sem saber a espalhar boatos pelas redes sociais

Chamadas de “hoaxes”, mentiras e montagens espalhadas pela web fazem com que pessoas acreditem com fervor em histórias fantasiosas, como o fim do 13º salário ou a criação da Bolsa Prostituição
Dois cartazes de um mesmo evento circulam na internet: o da esquerda é resultado de manipulação
Elder Dias
Deu na internet: o filho adolescente do dono da JBS-Friboi está namorando uma mulher de 30 anos; Lula entrou para o clube dos 200 homens mais ricos do mundo, segundo a “Forbes”; condenada por assassinar os pais, Suzane von Richthofen vai se tornar presidente da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados; o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu a divulgação de um texto de Arnaldo Jabor contra Dilma Rousseff no rádio, e a presidente disse que professor deve trabalhar por amor e não por dinheiro; Joaquim Barbosa pode deixar a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) para ser candidato à Presidência; morando em São Paulo, a jornalista Rachel Shehera­zade é funcionária-fantasma do Tribunal de Justiça da  Paraíba; e a secretária nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário, chorou ao ver um vídeo de um assaltante baleado.

Tudo noticiado. E tudo mentira. A cada dia, esses e outros boatos são reproduzidos aos milhares na internet, pelas redes sociais. E muita gente, apesar de algumas informações beirarem à bizarrice, acabam por passar à frente aquilo que leram apenas superficialmente. A esse tipo de embuste dá-se o nome de “hoaxes” (aliás, “farsa”, ou “embuste” mesmo, em inglês, em tradução literal), pegadinhas com variadas motivações recebidas por e-mail, redes sociais e internet em geral, com conteúdos que vão de apelos dramáticos à difamação de celebridades e políticos.

Não é à toa que, apesar do pequeno número de brasileiros que continua com o hábito de ler jornais (6%, segundo pesquisa recente da Secretaria de Comu­ni­ca­ção Social da Presidência), o im­presso possui uma confiabilidade muito maior (de 53% dos pesquisados) do que publicações na internet (não mais do que 28%). O profissional de tecnologia da informação  Hé­lio Torres viu a web “nas­cer, crescer e, hoje, entrar na a­dolescência”. Acostumado com o mundo virtual, sabe o caminho das pe­dras para separar o joio  do trigo no meio de tanta informação despejada nas redes sociais. “Tenho uma postura de ‘pé atrás’ desde os tempos do mIRC [uma das primeiras plataformas de chat na internet, criado em 1995]. De tanto passar vergonha defendendo coisa falsa, hoje duvido de tudo”, diz.


Mesmo assim, não conseguiu escapar de uma armadilha. Na última semana, em seu perfil no Facebook, ele compartilhou uma página que tratava de uma tal “Marcha da Família com Deus”, com o subtítulo “Todo poder a bancada evangélica” (sic). O evento — uma espécie de reedição, 50 anos depois, da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade —  é de fato real e está programado para ocorrer no dia 22 de março, em São Paulo (além de algumas outras capitais), como diz o panfleto. Só que o banner que Hélio Torres divulgou contém alterações que levam a crer que seja um texto escrito por um evangélico radical: a expressão do subtítulo, assim como outras, — “Pela liberdade de expressão,  a nossa expressão” e “pelo direito de perseguir homossexuais, restabelecer a censura, extinguir religiões afro, eliminar mais impostos das igrejas” — foram aplicadas sobre o escrito original, sobre termos como “Intervenção Militar Constitucional”, “Fora Foro de São Paulo”, “Fora comunismo, marxismo e doutrinas vermelhas” e “Não seremos uma nova Cuba”, entre outras. “Fui reparar depois que haviam ‘pixelado’ [retocado graficamente] o panfleto que divulguei. Morri de raiva e de vergonha quando descobri”, conta Torres.

Na internet, há sites especializados em derrubar mitos e boatos criados na própria rede. Em páginas como Boatos.org ou E-Farsas.com — cujo sugestivo slogan é “descobrindo farsas da web desde 2002” — são desnudadas muitas das histórias fantasiosas, como o fim do 13º salário, a Bolsa Prostituição e a morte de um menino por atender chamada com a bateria do celular carregando.

Se até um profissional da área como Hélio Torres pode cair vez ou outra em uma pegadinha, imagina-se quantas vezes uma pessoa de conhecimento menos focado na área pode assimilar e repassar um conteúdo falso. Por mais que tenham prudência e expertise em checar informações, até jornalistas são vítimas. O experiente Amauri Garcia admite que já caiu em armações na rede. “É algo que acontece a todos. Mas, se eu desconfio da veracidade de algo, checo na net, pesquiso e, caso seja verdadeiro, analiso se vale compartilhar. Se descubro que a informação é falsa, simplesmente ignoro ou então aviso que se trata de uma mentira ou ‘fake’”, diz.

Ultimamente, muitos sites têm se especializado em fazer de um fato verdadeiro uma notícia falsa só pela diversão – e para fazer dessa diversão dinheiro, obviamente. É o caso do G17, do portal G1, e do Sensacionalista, que tem como lema o trocadilho “um jornalismo isento de verdade”. Mas fazer piada com a notícia não é o que querem a maioria dos boatos envolvendo políticos que percorrem a rede: geralmente são postadas semiverdades (ou “não verdades”, mesmo) com o intuito de chocar, indignar ou colocar inocentes úteis a serviço de algum grupo. Há muito mais interesses envolvidos do que sonha o incauto internauta.

A batalha entre tucanos e petistas produz notas tão inverossímeis quanto venenosas contra o lado oposto. Os alvos preferenciais são os grandes líderes de ambos os lados, como Lula, Dilma Rous­seff, Aécio Neves e José Serra. “O meio político abusa dessas es­tra­tégias. Mas o religioso-político não fica atrás”, diz o jornalista Amauri Gar­cia. A passagem de Marco Felicia­no (PSC-SP) pela Comissão de Di­reitos Hu­ma­nos e Minorias (CDHM) da Câ­ma­ra dos Depu­ta­dos rendeu bastante: o deputado gay Jean Wyllys (PSOL-RJ) foi alvo de “cristãos” radicais em um vídeo em que estaria defendendo a pedofilia; citado no início deste texto, o cargo dado a Suzane Richthofen também fez parte da saraivada de mentiras que a passagem do pastor ocasionou.

Hélio Torres tem suas próprias posições políticas e religiosas, mas faz questão de ressaltar: “É preciso dar a César o que é de César. Não me canso de chamar a atenção para o que não é verdadeiro o tempo todo, sobretudo para os amigos”, diz. Um pouco de curiosidade e desconfiança é sempre recomendável. “O Google ajuda a identificar a maioria das fraudes. Basta digitar na busca. Muitas vezes, o engano ou é por preguiça de pesquisar ou por falta de tato para duvidar.” De tanto alertar amigos, Torres virou referência: ele revela que vários amigos ligam ou entram em contato de outra forma para saber se certa notícia publicada tem algum fundo de verdade. 
Algumas das mentiras que você provavelmente tem encontrado na internet 
Lendas que você leu (ou viu) nas redes sociais são realmente apenas isso: lendas

-O filho do dono da empresa Friboi não é o garoto da foto que circula pela rede mostrando um adolescente com uma mulher, chamada de “sua personal trainer” e de cerca de 30 anos, e que seria namorada dele.
 

-Nunca houve nada de Arnaldo Jabor contra Dilma Rousseff que tenha tido divulgação por rádio proibida pelo TSE. “Foi um texto espalhado ainda na época da eleição de Dilma, em 2010. Basta digitar qualquer trecho dele no Google para verificar que não tem nada a ver”, diz Hélio Torres.
-A polêmica Rachel Sheherazade nunca foi funcionária-fantasma do Poder Judiciário da Paraíba.
-A revista “France Football” realmente fez críticas sobre a Copa do Mundo no Brasil em matéria no início deste ano, mas é falsa a versão que diz que ela teria associado a música do deputado federal Tiririca à imagem do brasileiro, ou de que teria publicado que Lula escolheu a Arena Corinthians por ser corintiano, ou que prostitutas recebem curso de inglês, ou ainda que o Brasil teve mais mortes no estádio do que em outros países.
-O Senado nunca aprovou uma tal “Bolsa-Prostituição”, muito menos com valor de R$ 2 mil.
-A ativista Sininho, que acabou sendo envolvida no caso da morte do cinegrafista Santiago Andrade durante manifestação no Rio de Janeiro, não é neta do ex-presidente Jânio Quadros.
-Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente, não é dono de fazendas no Pará, nem sócio da JBS-Friboi nem comprou um avião de R$ 100 milhões.
-O senador presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) nunca disse que não precisa do voto dos professores.
-Suzana Alves, a Tiazinha, não virou pastora evangélica.
-É falso um alerta que diz que um menino morreu após atender chamada com o celular carregando.
-Foto que mostra a parte submersa do Pão de Açúcar formando um abismo é montagem.
-Lula não está em nenhuma lista da revista “Forbes” como um dos 200 homens mais ricos do mundo.
-O Congresso Nacional não votará, nos próximos meses (e provavelmente nem nas próximas décadas) o fim do 13º salário.







Fonte: Site do Jornal Opção
http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/sobre-lula-ou-sheherazade-internautas-ajudam-sem-saber-a-espalhar-boatos-pelas-redes-sociais

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