terça-feira, 29 de abril de 2014

10 Ótimas razões para o retorno da Série Vaga-lume

Hoje o Listas Literárias falará de uma série que iniciou uma geração ou mais de leitores. Me impressiona durante o contato com leitores, e até mesmo muitos novos autores que afirma ter sido a Série Vaga-Lume a responsável por lhes imbuir o gosto pela leitura. A série de livros responsável por clássicos da literatura juvenil certamente merece um retorno digno às prateleiras e escolas, e por isso o Listas Literárias lança e te convida a participar desta campanha com 10 ótimas razões para o retorno da Série Vaga-Lume:

1 - Estimular o hábito da leitura: É praticamente consenso entre leitores que começaram suas leituras com a série que esta foi de fundamental importância ao lhes estimular o hábito de ler. Com livros interessantes e ao mesmo tempo capazes de abordar temas relevantes, a grande vitória desta série é o justamente abrir as portas da leitura para jovens;

2 - Valorização nacional: Talvez a Série Vaga-Lume tenha sido precursora ao possibilitar a publicação em sua grande maioria de autores nacionais que conseguiram falar com a juventude brasileira com eloquência e propriedade;

3 - Momento propício: A editora Ática responsável pela série perde grande oportunidade de trazer de volta esta amada coleção. O momento é propício e a internet não só nos mostra que há certa saudade da Série Vaga-Lume, bem como de que o jovem brasileiro tem cada vez mais embarcado na leitura;

4 - Novos autores: Assim como a "safra" de novos leitores se expande, o mesmo ocorre com novos autores, muitos com excelente qualidade que certamente além de conseguir conversar com os jovens, poderiam trazer novas aventuras para esta série;

5 - Não só os jovens: Não só os jovens poderiam se beneficiar com o retorno da Série Vaga-lume, visto que a internet está repleta de comentários de leitores que sentem sua saudade, e certamente ficariam muito felizes por seu retorno;































6 - Leitura na escola: Não é novidade a dificuldade que as escolas muitas vezes encontram para trabalhar a leitura no ambiente escolar. Um retorno da série poderia colaborar com isto. Sei que as escolas certamente ainda possuem exemplares da série em suas bibliotecas, porém novas publicações com temas atuais poderiam atrair mais atenção dos estudantes;

7 - Se atualizar: É muito provável que falta de público não seria um problema para o retorno da Coleção Vaga-Lume, por isso outra ótima razão seria a possibilidade de a série mesmo mantendo seu estilo cheio de aventura e mistério abordar novos temas destes tempos modernos que tanto afligem nossa juventude;

8 - Reunir o que há de melhor: Uma das coisas que marcou a série a a reunião de nomes do primeiro calibre da literatura brasileira como Ana Maria Machado, Marcos Rey, entre outros. Certamente um retorno às publicações regulares da série possibilitariam isto novamente;

9 - O que nós gostamos de ler: Um retorno da série significaria a opção e a possibilidade de jovens leitores (mas não só os jovens) ler aquilo que realmente gostam. Quem dos leitores da séria não a escolhia entre as leituras livres na escola?

10 - Os Seus motivos: Mais de (________) pessoas expressaram o desejo do retorno da Série Vaga-Lume contando o motivo por qual também querem o retorno da série Vaga-Lume;


Fonte: Blog Listas Literárias
http://listasliterarias.blogspot.com.br/2014/04/10-otimas-razoes-para-o-retorno-da.html

Médiuns desvendam crimes nos EUA

ESPÍRITOS CONTRA O CRIME



Forças do além, conduzidas por médiuns e parapsicólogos, ajudam a polícia a desvendar crimes nos Estados Unidos. No Brasil cartas psicografadas já são aceitas como prova em tribunais.


Por Sérgio Pereira Couto


A polícia do Texas admite que utiliza a ajuda de médiuns.

Nas investigações mais complicadas, quando mesmo a tecnologia mais avançada se revela insuficiente, os policiais texanos não se constrangem em buscar o socorro sobrenatural. O que levou a essa admissão feita pelas autoridades policiais de um dos Estados mais ricos dos Estados Unidos? Foi o sucesso incomum do seriado Medium (exibido pelo canal por assinatura Sony), um dos maiores fenômenos de audiência da TV americana nos últimos anos.


Canal de Assinatura Sony - Seriado Mediuns

Em apenas duas temporadas, o seriado gerou uma grande quantidade de fãs em quase todos os países onde foi exibido, inclusive no Brasil. A produção é inspirada numa médium de verdade, Allison DuBois, que mantém um site na internet (www.allisondubois.com), no qual conta um pouco de suas experiências reais, a base do seriado. Nelas, enquanto dorme, a jovem tem visões de crimes e assassinatos, reveladas por pessoas mortas que aparecem sentadas em sua cama. Seu marido, Joe, um engenheiro, anota todos os sonhos e analisa-os no dia seguinte. É dele a ideia de enviar as transcrições para o distrito policial da cidade onde vivem, no Texas.

Um dia, a moça recebe a proposta de tornar-se fiscal do distrito, passa a ajudar a desvendar crimes e a colocar infratores atrás das grades. O fato de a médium ser real mexeu com a percepção do público e fez com que a polícia texana reconhecesse que, de fato, recorre à mediunidade na solução dos casos mais difíceis. Sim, os médiuns entram em cena quando a tecnologia não fornece resultados satisfatórios, tanto na TV como na vida real.

O assunto repercutiu tanto que o Discovery Channel lançou, quase simultaneamente ao seriado Médium, a série de documentários Investigadores Psíquicos (Psychic Witness), exibida em seu canal afiliado TLC (The Learning Channel). Nesses documentários, são apresentados 15 "parapsicólogos forenses", utilizados pelas polícias da Califórnia, da Louisiana, de Ohio, da Pensilvânia e do Arizona, entre outros Estados americanos. A maioria desses coadjuvantes sobrenaturais é do sexo feminino, com idade a partir de 50 anos. A própria produção do programa não sabe explicar o motivo dessa maioria feminina. O produtor-executivo David O´Donnel, ouvido por Ciência Criminal, arriscou o palpite de que assim é "pelo fato de as mulheres serem mais sensíveis que os homens".

As médiuns são apresentadas como "o último recurso para famílias desesperadas, uma arma secreta do arsenal investigativo, capaz de causar a queda de alguns dos autores dos crimes mais hediondos". De fato, a maioria dos casos exibidos (dois por episódio) mostra que a paranormal convocada para uma cena de crime chega sem conhecer nenhum detalhe do caso. Como se captasse impressões a que ninguém mais tem acesso, seu trabalho consiste basicamente em captar sensações sobre o que aconteceu nos locais e passar as informações para que detetives tomem as devidas providências administrativas, incluindo a detenção de suspeitos para interrogatório.


 



A doutora Sally Headding é uma das médiuns mais requisitadas do programa Investigadores Psíquicos


Medium Sally Headding do Programa Discovery Channel

A maioria das parapsicólogas apresentadas em Investigadores Psíquicos dedica-se apenas às suas atividades mediúnicas. A grande exceção é a doutora Sally Head-ding, formada em psicologia clínica com Ph.D. pela Universidade de Berkeley, no Estado do Califórnia. Ela participa de estudos clínicos de atividades parapsicológicas em sua universidade e é considerada uma das clarividentes americanas mais respeitadas e menos divulgadas. Por ter nítida essa distinção entre o paranormal e a ciência, ela ajuda a polícia de grande parte dos Estados americanos na solução de casos difíceis.

Abaixo, transcrevemos algumas informações que a psicóloga Sally Headding deu a Ciência Criminal sobre suas experiências psíquicas e seu papel no combate ao crime. Esta é a primeira entrevista dela para uma revista brasileira.


Ciência Criminal - Como foi seu primeiro caso como investigadora psíquica?

Sally Headding - Minha carreira começou em 1974, enquanto assistia a um telejornal tarde da noite juntamente com meu segundo marido. De repente, passei a ter visões terríveis de uma garota morta, como se fosse uma apresentação de slides que continham emoções. Foi como se sentisse tudo que aquela pobre garota sentia. Sabia que ela tinha uma perna artificial, a qual havia sido jogada ao lado de uma ravina próxima a um córrego com uma ponte de madeira. Mal havia acabado de ter essas visões quando o noticiário começou a falar sobre a garota. Fiquei chocada ao verificar que a história batia com as visões que recebera minutos antes. Meus dentes tremiam como se sentisse muito frio. Então contei ao meu marido onde a garota estava e ele insistiu para que eu chamasse a polícia. Senti como se tivesse sido raptada, amarrada, estuprada e estrangulada. Foi como se estivesse num pesadelo, e no entanto estava completamente acordada. Apesar dessas fortes sensações, tive receio de entrar em contato com a polícia, pois achava que seria ridicularizada e não levada a sério. Na época eu ainda não tinha o título de Ph.D. e por isso pedi ao meu marido, que era médico, para fazer o contato em seu nome, achando que, por ser médico e homem, talvez o levassem mais a sério.

Ele ligou para a polícia e passou todos os detalhes das minhas visões. Eu sentia que era capaz de dizer como era o sequestrador, quantos anos tinha e onde havia deixado o corpo. Alguns dias depois a polícia entrou novamente em contato e confirmou tudo o que eu pressentira. Fiquei surpresa ao descobrir, mais tarde, que durante alguns dias fomos considerados suspeitos. Mas deu tudo certo e essa foi a única vez em que tomei a iniciativa de entrar em contato com uma força policial. Desde então comecei a receber ligações de policiais que haviam ouvido falar de mim e queriam ajuda em alguns casos. Eu exigia apenas que meu nome ficasse no anonimato. E assim permaneceu até recentemente, quando apareci no programa do Discovery Channel.


Ciência Criminal -Como a senhora se sentiu ao ser utilizada como recurso policial pela primeira vez?

Sally Headding - O caso da garota morta havia me assustado muito. Minha maior preocupação era que conseguisse ser o mais exata possível. Muitos casos investigados pelas agências policiais necessitam dessa ajuda, são casos que vão de assassinato a tráfico de drogas. Os de maior repercussão recebem muitos telefonemas de pessoas que se apresentam como "sensitivos" mas que, na verdade, dão tiros no escuro. Esta é uma das razões pelas quais não ligo para os policiais em investigações. São eles que devem me contactar, querer trabalhar comigo, ou pelo menos me dar uma chance. Sejamos realistas, não é fácil fazer algo que não é compreendido. Tenho problemas para entender minha própria habilidade psíquica, então por que a lei não deveria ser cética quanto a esse assunto?


Ciência Criminal - Qual foi o caso mais perigoso em que a senhora trabalhou?

Sally Headding - Foi num em que houve uma série de mortes. Era um caso arquivado para o qual fui requisitada por um grupo de detetives de homicídios que trabalhavam nele havia vários anos. Envolvia a morte de jovens que estavam no colegial. Uma delas lembrava muito minha filha, que estava no mesmo nível nos estudos. Por isso, foi muito difícil de lidar. Durante as investigações, as ameaças de morte foram muito comuns, um dos detetives foi baleado ao sair de sua residência. Essas mortes foram o pior que já senti. Já mexi com adoradores do diabo, viciados em heroína, assassinos, homens muito ruins. Os envolvidos nesse caso eram assassinos sem senso de certo ou errado, que matavam pelo prazer, pela emoção e pela sensação de poder que obtinham ao provocar tortura e morte. Eram verdadeiros psicopatas!


Ciência Criminal - A senhora cuida do lado psicológico das vítimas?

Sally Headding - Quando há um crime há sempre mais vítimas do que apenas a pessoa ou pessoas que foram assassinadas ou raptadas. Todos que conheciam e se relacionavam com a vítima de repente tornam-se também vítimas, especialmente os membros da família. Um psíquico é um médium, um clarividente, um intuitivo e um espiritualista. Todas são definições diferentes para a mesma coisa. Cada uma representa a mesma energia e habilidades que estão envolvidas. Por quê? Pelo fato de o intuitivo, como eu mesma defino, trabalhar ao mesmo tempo neste e no "outro lado". Por isso, torna-se minha responsabilidade dar conforto e tudo o mais que puder quando não estiver trabalhando com o "outro lado", como um rabino ou um sacerdote. Falei com pessoas que sobreviveram a esse tipo de tragédia e tentei guiá-las para que pudessem atingir um sentido de paz. Se for capaz de mostrar onde encontrar o corpo de seu parente morto, é uma prova de que há uma vida além da que compreendemos. Tento, assim, guiá-las para fornecer um ponto final e atingir a paz.


Ciência Criminal - A senhora sente algum conflito entre seus lados psíquico e científico?

Sally Headding - A psicologia não é definida como uma ciência definitiva. Começou com a prática da frenologia (análise das características dos indivíduos com base no formato de seu crânio), que se concentrava na influência das batidas na cabeça para diferenciar desvios de personalidade. Por causa disto e das complexidades da personalidade, minha impressão pessoal é que a psicologia e a parapsicologia andam bem juntas, uma complementando a outra. Ser intuitiva é uma ferramenta a mais quando se aconselha alguém. E a compreensão do comportamento humano também é uma ferramenta, quando trabalhamos com várias agências policiais. No fundo, todos estamos atrás das mesmas respostas ao perguntar o que, quem e onde.


Ciência Criminal - Em quantos casos a senhora já trabalhou?

Sally Headding - Já dei consultoria para tantos, nos últimos 30 anos, que perdi a conta. Tive resultados esplêndidos em alguns e nenhuma pista em outros. Tive mesmo um caso em que senti um homem morto quando ele estava, na verdade, em outro local, bêbado. Nenhuma médium está certa o tempo todo! Se eu sei quando estou errada? Dificilmente.


Ciência Criminal - O que a senhora acha dos procedimentos científicos apresentados em seriados forenses de TV e naqueles que mostram o trabalho de psíquicos?

Sally Headding - Vejo pouco TV e quando o faço procuro evitar os programas criminais. Poucos retratam com fidelidade o que há numa cena de crime. Já os programas de psíquicos, como Medium e Ghost Whisperer (também em exibição no canal Sony), me deixam meio brava por serem muito bobos e fora da realidade. Já existem muitos mitos e conceitos errados por aí que retratam os psíquicos, sem que haja mais bobagens vindas de Hollywood. Recebi há pouco tempo uma ligação de um médico do Hospital de Santa Clara, na Califórnia. Ele me disse que se sentia assim com relação ao modo como a ciência era retratada nos seriados. É muito fora da realidade. Acho que o grande problema, ao retratar cenas de crime, é que os autores ignoram que uma grande porcentagem do trabalho é chata, rotineira, cansativa, repetitiva e tediosa. Diferente do glamour da TV.






Bastidores psíquicos

Conheça as médiuns que participam de Investigadores Psíquicos, todas americanas com mais de 55 anos.


Ann Fisher

Possuidora de PES (Percepção Extra-Sensorial) desde pequena, Fisher, natural de Albany (capital do Estado de Nova York), somente tomou maior contato com seu dom ao procurar a orientação de um outro médium, quando já era adulta. Trabalha com as autoridades policiais de sua cidade desde a década de 1970. Já realizou sessões mediúnicas na Inglaterra, no Canadá e na Groenlândia. Participou de uma investigação que envolveu um assassino em série e conseguiu prever onde e quando ele atacaria novamente.


Carol Broman

Uma das médiuns mais famosas de Illinois (no meio-oeste) teve sua primeira experiência psíquica aos três anos de idade, quando afirmou para os pais que logo seriam roubados por um dos sócios da empresa da família. Começou a cooperar com a polícia de seu Estado no início dos anos 70. Solucionou, em conjunto com a médium Dorothy Allison, o caso de um jovem de 16 anos que saiu de casa para ver um emprego em construção e nunca mais voltou. As duas conseguiram identificar o assassino, um sequestrador que havia matado outras vítimas. Atua sozinha e em conjunto, dependendo do caso.


Mary Downey

Downey atua como médium há mais de 50 anos na Pensilvânia (na região nordeste), onde impressiona as pessoas que a consultam com sua capacidade de recontar eventos específicos do passado delas. Várias vezes afirmou em entrevistas que consegue "visitar um dia em 2002 ou em 1802 tão facilmente quanto discar um número de telefone e ouvir a voz do outro lado". Participou de um grupo que examinou a célebre casa que foi cenário da série de filmes Horror em Amityville, na tentativa de esclarecer o assassinato da família DeFeo, que lá morava na primeira metade da década de 1970.


Nancy Orlen Weber

Weber, de Nova Jersey (na Costa Leste), passou sua infância em Nova York. Lá, numa casa no bairro do Brooklyn, começou a receber visitas constantes de um espírito que contava coisas antes que acontecessem. Quando adulta, a médium se formou como enfermeira psiquiátrica e utilizou seus poderes para ajudar seus pacientes. Ela se mudou para sua atual cidade no final da década de 1970 e desde então passou a colaborar com as investigações da polícia local. Solucionou o caso de uma mulher encontrada morta a pancadas, livrando o namorado da vítima das suspeitas e conduzindo a polícia até o verdadeiro culpado, que possuía um álibi, por ela destruído.


Noreen Renier

Renier, nascida na Flórida, região sudeste, era uma consultora de relações públicas. Um dia procurou a meditação como meio de relaxamento de seu estressante trabalho. Descobriu então uma coisa que alterou completamente sua vida: percebeu que podia receber o espírito de um guia. Passou os últimos 25 anos aprimorando suas habilidades parapsicológicas. Ajudou as autoridades locais e federais a resolverem um total de 400 casos, entre pessoas desaparecidas e homicídios. Em 1988, Renier ajudou o Federal Bureau of Investigation (FBI) num caso e, desde então, é consultada regularmente pelo órgão. É uma das médiuns mais famosas do programa do Discovery.


Rosemarie Kerr

"Uma vez, quando era muito pequena, vi o espírito de uma mulher que fora assassinada na casa para onde minha família havia acabado de se mudar." Para Kerr, que atua na Louisiana (região sudeste), este foi o acontecimento que ditou sua vida desde então. Desenvolveu suas habilidades como clarividente e as usa há mais de 20 anos para ajudar as polícias de vários Estados. Em Nova Orleans, ajudou a solucionar um caso em que uma mãe fora morta e os suspeitos (o marido e um amigo) culpavam um ao outro. Numa outra ocasião, resolveu o assassinato de um rapaz de 16 anos cujo corpo fora encontrado dilacerado; seus executores pertenciam a uma gangue.






Visões em um toque

Um ponto de partida divertido para entender como funciona o trabalho de um investigador psíquico é o seriado The Dead Zone (que no Brasil ganhou o título de O Vidente), transmitido pelo canal a cabo AXN e já exibido pelo SBT. A produção da Lyons Gate Television e da CBS Paramount Television, filmada em Vancouver, no Canadá, é baseada no filme Na Hora da Zona Morta, de 1983, dirigido pelo canadense David Cronemberg. Este, por sua vez, fez uma adaptação do romance A Zona Morta, do mestre do suspense Stephen King.

O personagem principal é um professor de uma cidade do interior, Johnny Smith, vítima de um acidente de carro que o deixa em estado de coma por seis anos. Quando recupera a consciência, percebe que ganhou o dom de ter visões do passado e do futuro das pessoas que toca (fenômeno conhecido como psicometria). Os médicos atribuem seu poder ao acidente, pelo qual Smith teve acesso à "zona morta de seu cérebro", uma parte que estava inativa desde um acidente de infância ocorrido durante um jogo de hóquei.

A vida pessoal do personagem mudou desde o acidente. Sua noiva, Sarah, casou-se com o xerife local, Walt, e teve um filho que, na verdade, é de Smith. O casal, com a ajuda do terapeuta de Johnny, Bruce, sugere a utilização desses poderes para ajudar a polícia a resolver crimes. Nas locadoras e lojas de departamentos, já se encontram as duas primeiras temporadas do seriado disponíveis em DVD.





Caso Montague Keen

Embora as atuações mediúnicas na formação dos autos de um processo não sejam de alçada dos Tribunais, já existe catalogado, em cartório, na Inglaterra, o caso do pesquisador Montague Keen (já falecido), cujo teor cita um caso bem extraordinário de um psíquico ajudando, com eficácia, a polícia.

O problema é que esses casos não são amplamente divulgados e talvez até mesmo a Polícia, como Instituição, evite de reconhecer publicamente a ajuda que recebe de paranormais, que podem ser médiuns ou não, face ao preconceito ainda existente nessas situações, e mesmo porque teria que admitir, ainda que parcialmente, sua incapacidade de resolver alguns casos complicados, por seus próprios méritos.

O parapsicólogo Willem Tenhaeff e Gerard Croiset, um dos mais testados agentes psi de todos os tempos, constituem um dos raros e bem sucedidos casos de parceria na investigação qualitativa dos fenômenos paranormais.

Desde 1946, Croiset submeteu-se a numerosos testes com Tenhaeff e outros parapsicólogos de diversos países. Também ajudou a polícia, não só da Holanda, mas de outros países da Europa, assim como dos Estados Unidos, na solução de crimes misteriosos, empregando a sua aptidão psi.

Croiset preferia ser consultado por telefone, porque, segundo ele, este procedimento eliminava influências estranhas e reduzia a confusão ou sobreposição de impressões. E não aceitava pagamento pelos seus serviços, ainda mesmo quando consultado pela Polícia, alegando que utilizava seus poderes em benefício da humanidade. Por isso, disse uma vez :

“Eu tenho um dom de Deus que não compreendo. Eu não posso usá-lo para fazer dinheiro em meu benefício. Se eu o fizer, eu posso perdê-lo.”

Croiset visualizava imagens, colhidas da memória das pessoas que o consultavam. Algumas vezes essas imagens surgiam ante a sua visão em grande velocidade. Por isso, ele não pensava com palavras, mas com imagens. Como já observara H. H. Price, os métodos educacionais modernos desencorajaram o pensamento por imagens, substituindo-o pelo pensamento por palavras.

Croiset descrevia, com assombrosa precisão, os locais onde as pessoas desaparecidas tinham passado e onde naquele momento se encontravam, as roupas que trajavam, onde, em caso de morte, os seus corpos se achavam ou seriam achados. Também com idêntica precisão, localizava animais e objetos perdidos. Em algumas ocasiões, Croiset se equivocava, mas quase sempre isso ocorria nos pequenos detalhes.



POLLACK, Jack Harrison – Croiset the Clairvoyant. Doubleday & Company Inc, Garden City, New York. 1964.

Fonte: Site Jefferson Freetzi
http://jefferson.freetzi.com/Mat-esp-Mediuns-Sony.html

João XXIII, um conservador revolucionário

Como esse papa, inspirado até o fim da sua vida por uma fé hiper tradicional, pôde, aos 77 anos, abrir uma nova era de mudanças decisivas? A alguns dias da sua canonização pelo Papa Francisco (junto com João Paulo II), retorno ao itinerário de um homem apaixonado pela conversão da Igreja.
Fonte: http://bit.ly/1iWjpMr
A reportagem é de Jean Mercier e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 23-04-2014. A tradução é de André Langer.
“Por favor, não chamem mais João XXIII de ‘Papa bom’. Esta expressão de ‘Papa bom’ é usada indevidamente pelos meios de comunicação para colocar João XXIII em contradição com quem o precedeu e o sucedeu: Pio XII e Paulo VI não eram ‘papas maus’”. Há algumas semanas, o cardeal Loris Capovilla, que foi o secretário particular de João XXIII, sobe o tom... De acordo com a mídia, dada a clichês, o bem humorado e sorridente Angelo Roncalli só pode ser um bom entre dois vilões. Ele sucedeu o austero Pio XII, taxado de ultraconservador, e foi seguido por Paulo VI, culpado pelo crime de lesa modernidade com a encíclica Humane Vitae.
O protesto do cardeal assinalava que a memória de João XXIII é um verdadeiro desafio. Não foi por acaso que Francisco escolheu canonizar conjuntamente esse papa etiquetado de progressista e João Paulo II, considerado conservador. Já em 2000, João Paulo II uniu a beatificação de João XXIII com a de Pio IX, para fazer “passar” a elevação aos altares do pontífice reacionário.
Qualificar João XXIII de papa “progressista” é uma exagerada simplificação. Nascido em 1881 numa família pobre da região de Bérgamo, no norte da Itália, Angelo Roncalli é herdeiro de uma visão hiper tradicional da fé que ele conservará até o fim da sua vida. Seu modelo era o Pio X, conhecido por sua virulência antimodernista. Em seu diário particular, Roncalli extravasa sobre os valores do Concílio de Trento, exaltando as mortificações e os sacrifícios. Na véspera da sua morte, ele se oferece a Deus segundo uma concepção expiatória muito comum na época. “O altar quer uma vítima, eis-me pronto!” Nós podemos nos divertir e imaginar sua reação se tivesse tomado conhecimento dos questionamentos da autoridade na Igreja após 1968, ou algumas experiências vanguardistas dos anos 1970 na catequese ou na liturgia...
Conservador, João XXIII foi tudo, menos um verdadeiro revolucionário. Alguns meses após sua eleição, aos 77 anos, esse papa “de transição” surpreende todo o mundo com sua decisão de convocar um concílio ecumênico. Não se tratará, desta vez, de fulminar condenações ou ditar dogmas, mas repensar verdadeiramente a relação da Igreja com o mundo. João XXIII acredita que é hora de virar a página da hostilidade pavloviana do papado em relação à modernidade. O ‘aggiornamento’ que ele deseja é também uma atualização dos programas fundamentais da Igreja, especialmente na liturgia ou na formação do clero, mas sem agitação febril. A ruptura maior, ele a quer em outro lugar: em uma conversão profunda da relação dos católicos com aqueles que durante muito tempo foram considerados “inimigos”. Desde antes do concílio, João XXIII multiplica os contatos com os judeus e os irmãos separados, ortodoxos do Oriente e filhos da Reforma... Trata-se de acabar com o desprezo e a hostilidade que prevaleceram durante muito tempo, como proclamarão a declaração conciliar Nostra Aetate e os diversos textos sobre o ecumenismo.
Angelo Roncalli exigiu dos católicos uma conversão que ele próprio aprendeu em boa escola durante cinco décadas, nas periferias da Igreja. Em vez de uma carreira tranquila de padre, o jovem padre foi orientado para uma carreira diplomática. Seu primeiro posto foi a Bulgária, onde desembarcará com a idade de 44 anos, em 1925, para representar os interesses da Santa Sé. Ali descobrirá a ortodoxia. Dez anos mais tarde, é enviado para Istambul. Durante a guerra, contribui para salvar numerosos refugiados judeus. Nas primeiras horas de 1945, o vemos como núncio em Paris, onde ameniza os desejos do general de Gaulle de depurar radicalmente os bispos muito próximos ao regime de Pétain. Depois ele testemunhará uma atividade incansável na França, no trabalho com as dioceses francesas. Fato inimaginável hoje, é o chefe da República laica, Vincent Auriol, que lhe entrega suas insígnias de cardeal, em janeiro de 1953. Depois, Pio XII o chamará para fazer dele o patriarca de Veneza, uma cidade operária onde se relaciona com a esquerda, suscitando o descontentamento do Papa.
A preocupação de João XXIII de se envolver nas preocupações terrestres se refletirá na mais célebre das suas encíclicas, a Pacem in Terris, dirigida “a todos os homens de boa vontade”, onde exibe sua visão de uma humanidade reconciliada. Acometido por um câncer no estômago, morre no dia 03 de junho de 1963, num clima generalizado de consternação. Cinquenta anos depois, Francisco decidiu canonizá-lo, dispensando um segundo milagre. Um João tão bom só podia ser um santo João.
Veja também:
Fonte: Site IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530653-joao-xxiii-um-conservador-revolucionario

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os últimos dias de Getúlio

Filme de João Jardim, que será lançado no Dia do Trabalhador, narra os 19 derradeiros dias de Vargas; a história começa em 5 de agosto de 1954, com o atentado da Rua Tonelero – que feriu Lacerda e matou seu segurança – e termina em 24 de agosto, com o suicídio do então presidente.
A reportagem é de Maria do Rosário Caetano e publicada pelo Brasil de Fato, 25-04-2014. Foto: Divulgação.
Getúlio, o primeiro longa-metragem ficcional do cineasta João Jardim, chega aos cinemas brasileiros no Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. A data foi escolhida a dedo. “Nossa intenção” – conta o cineasta, diretor de documentários importantes como Janela da Alma e Pro Dia Nascer Feliz – é lembrar e homenagear as conquistas do trabalhador brasileiro na era Vargas”.
Gaúcho de São Borja, nascido em 1882, Getúlio deixou “a vida para entrar na História” de forma trágica. Acuado pela UDN, liderada por Carlos Lacerda, que ocupou, junto com a Aeronáutica, a linha de frente das investigações da morte do Major Vaz, o presidente deu um tiro no coração, no dia 24 de agosto de 1954.
O filme de João Jardim não constrói uma biografia do polêmico político gaúcho. Quem quiser conhecer a história completa do presidente morto há 60 anos, deverá buscar as fartas biografias e análises de seu governo impressas em livro. A intenção do cineasta é clara: “Desde o início do projeto, estruturado há cinco anos em sólidas pesquisas, nosso recorte consistia em narrar os 19 derradeiros dias do presidente”.
Getúlio Vargas, que fora revolucionário em 1930 (derrotando a oligarquia café com leite) e tornou-se ditador em 1937, sendo deposto em 1945, voltaria ao poder nas eleições de 1950 (tomou posse em 1951). Não terminou o mandato. Morto, teve enterro que mobilizou multidões e construiu legado que, ainda hoje, se faz presente.
Legado que está na implantação da siderurgia brasileira, nas leis trabalhistas e na criação da Petrobras. Há que se lembrar que a maior parte do exercício do poder de Vargas se deu no Estado Novo (1937-1945), regime ditatorial que reprimiu as liberdades civis, torturou e matou os opositores e censurou a imprensa. No filme, este período é evocado pelo próprio Vargas, que relembra ter rasgado “duas Constituições”.
Carta-Testamento
Getúlio planejou seu suicídio? O filme de João Jardim mostra Alzira Vargas (interpretada pela atriz Drica Moraes), filha predileta do presidente e sua auxiliar direta, preocupada com as reações do pai ao cerco da “República do Galeão” (grupo político-militar que investigou o Atentado da Tonelero, já que nele morrera um quadro da Aeronáutica, o Major Vaz, e ferira Carlos Lacerda).
Ao deparar-se com o rascunho de carta manuscrita pelo próprio pai, e nela encontrar indícios de que ele poderia recorrer ao suicídio, Alzirinha o interpelou. Getúlio (interpretado por Tony Ramos) tranquiliza a filha ao garantir que ali estava apenas o esboço de um discurso.
A carta manuscrita do presidente será reelaborada por Maciel Filho, jornalista, assessor e grande amigo do presidente (“eles gostavam de ler e discutir Schopenhauer”, lembra o ator Tony Ramos). O documento ganharia então o texto final que chegaria à posteridade como a “Carta-Testamento” de Vargas. Aquela que evoca as “aves de rapina” (“Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”) e garante: “Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém”. Pois, “meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate”.
José Soares Maciel Filho, ao reescrever a carta de Vargas, preservando os conceitos nela contidos e dando-lhe estilo mais depurado, não percebeu que ali estavam todos os indícios de que o presidente pensava em recorrer ao suicídio? Por que não tentou demovê-lo, junto aos familiares mais próximos de Getúlio, incluindo a dedicada Alzirinha?
O thriller político, mesclado com drama familiar, de João Jardim e de seu roteirista, George Moura (autor da minissérie Amores Roubados) teria criado licença histórica ao conformar Maciel Filho (interpretado por Fernando Eiras) em papel tão passivo? O diretor João Jardim garante que foi fiel aos documentos pesquisados e que são raras as licenças históricas abraçadas pelo roteiro.
“Não houve” – assegura – “insensibilidade de Maciel Filho para com o gesto extremo de Getúlio”. Gesto que daria trágico desfecho aos 19 dias de tensão vividos no Palácio do Catete. “Fomos fieis aos fatos”, assegura o realizador carioca.
“Todos que cercavam Getúlio pensavam que aquele texto, que ele manuscrevera e ao qual Maciel Filho dera redação final, seria usado em caso de assassinato do presidente. Temia-se que o Catete fosse invadido pelos militares, que conspiravam junto com Lacerda, e que desta invasão resultasse a morte de Vargas. O clima era tão tenso, que este desfecho parecia o mais evidente. A clareza do texto e sua transformação em Carta-Testamento é algo que seu deu a posteriori. Ler a carta, reescrita e datilografada por Maciel Filho, depois que o suicídio de Vargas era fato, traz uma clareza que não era possível naqueles dias de aflição e medo vividos pelo presidente cercado por todos os lados.”
O cineasta recomenda a leitura dos dois textos originais preservados no Museu da República, que ocupa, hoje, o Palácio do Catete. Ou suas reproduções, numerosas na internet e até numa placa, que Leonel Brizola, um dos herdeiros do Trabalhismo varguista, fez imprimir em bronze. “O texto manuscrito de Vargas é muito rancoroso. Nele, o presidente acuado dá enorme ênfase à traição de muitos que estiveram ao lado dele. Já o texto revisto e datilografado por Maciel Filho, e assinado por Getúlio Vargas, é mais elaborado. E perde muito do rancor do esboço original.”
Fontes de celuloide
Para construir Getúlio como narrativa cinematográfica, João Jardim e seu fotógrafo, Walter Carvalho (co-diretor de Janela da Alma), recorreram a muitas matrizes. O cineasta conta que Z, thriller político de Constantin Costra- Gavras, foi uma das matrizes recorrentes. “Buscamos neste filme a tensão e a conspiração, suas marcas principais, além de recorrermos a muitos personagens e às cenas pela metade, já que a história não para, corre rápida por menos de 120 minutos.”
Outra fonte foi o drama Domingo Sangrento, de Paul Greengrass, por “sua pegada documental” e concentração narrativa. Nunca é demais lembrar, diz ele, que “sou um documentarista e a ideia de realizar este filme nasceu quando eu filmava, em várias regiões brasileiras, o documentário Pro Dia Nascer Feliz, sobre os problemas enfrentados por alunos e professores em nossas escolas de primeiro grau”.
João Jardim cita ainda duas fontes inspiradoras. “Vi e revi, muitas vezes, O Profeta, de Jacques Audiard, um filme que se passa numa prisão e prende nossa atenção o tempo todo, pois é muito tenso”. Por fim, cita o longa-metragem que, aparentemente, nada tem a ver com Getúlio: O Sol, do russo Alexander Sokurov. “Tirei deste filme, sobre a solidão do imperador do Japão, o silêncio do protagonista”.
Quem for assistir ao primeiro longa ficcional de João Jardim verá que ele não é retórico. Alzira Vargas olha o pai, em sua agonia, e tenta dizer o que sente com poucas palavras, pequenos e tensos gestos. Dona Darcy Vargas (numa liberdade poética, interpretada pela magérrima Clarice Abujamra) diz uma ou duas palavras. Maciel Filho também se faz presente sem apelar para a loquacidade. Só Carlos Lacerda, que os defensores de Vargas chamavam de “O Corvo”, o incansável tribuno golpista, desfruta, no filme, do dom da palavra escandida em inúmeros programas de rádio e na TV preto-e-branco.
Walter Carvalho colabora com João Jardim na estruturação imagética da narrativa. Os momentos de maior tensão são aqueles que materializam na tela os pesadelos de Vargas. Ele vê militares, em fileiras prussianas, subindo armados os degraus das escadarias do Catete. Acorda suado, atordoado.
“Houve momentos” – conta João Jardim – “em que pensamos em filmar no pampa gaúcho, espaço tão caro ao imaginário de Getúlio, reminiscências de infância daquele homem acuado”. Mas “mudamos de ideia, pois o pampa está muito mudado e, além do mais, poderíamos quebrar o clima tenso que buscávamos”.
Filmar no Palácio do Catete, na mesma cama e com Tony Ramos trajando réplica do pijama usado pelo presidente, quando desfechou o tiro fatal no coração, significou para João Jardim “experiência única”. “Todos nós sabemos que cinema é imagem e música. Para a imagem, as locações são fundamentais. Filmar no cenário real em que tudo se passou foi algo muito significativo para um realizador que, como eu, vem do documentário. Quanto à música, buscamos a colaboração de Federico Jusid, experiente profissional argentino, que atua na Espanha e nos EUA, pois queríamos um registro sinfônico que nos ajudasse a construir um thriller político, mesclado com drama familiar.”
Pegada documental
A narrativa de João Jardim se respaldou em ampla pesquisa histórica, em testemunhos escritos de pessoas que estiveram no palco dos acontecimentos (como Tancredo Neves) e na consulta de dezenas de jornais. Em especial de Última Hora (pró-Vargas) e Tribuna da Imprensa (lacerdista). Mas a guerra travada por estes dois veículos não ganha relevo no filme, já que abriria outra complexa frente narrativa.
“Nossa fonte principal foram os diários que Vargas escreveu, a partir de 1930, quando deixou o Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro, com os revolucionários que puseram termo à República Velha, até 1942. Conversamos também com pessoas como Carlos Heitor Cony e com o filho de José Soares Maciel Filho, que nos ajudou muito. O clima daquele agosto de 1954, nós encontramos nos jornais. Mesmo que algo noticiado por eles fosse desmontado, desmentido, no dia seguinte, ali estava impresso o calor daquele momento.”
Na narrativa fílmica, depois do suicídio de Vargas, João Jardim recorre a imagens reais do velório, seguido por gigantesco cortejo que levou o presidente ao avião que o transportaria do Rio de Janeiro até a sua São Borja natal. As imagens reproduzidas pertencem ao filme Glória e Drama de Um Povo, de Alfredo Palácios, realizado no calor da hora, em 1954.
Quem quiser saber mais sobre a trajetória de Vargas, pode ver, em DVD, dois longas documentais: No Mundo em Que Getúlio Viveu, de Jorge Ilelli (1963), e Getúlio Vargas, de Ana Carolina (1974). Ou ler os dois volumes da recente biografia escrita por Lira Neto, para a Companhia das Letras. Ou, ainda, rever a minissérie Agosto, da Rede Globo, baseada em livro de Rubem Fonseca. Até para comparar, pois nesta série, Gregório Fortunato, o “anjo negro” (interpretado por Tony Tornado) tem papel de relevo. No filme, Gregório (interpretado por Thiago Justino) tem presença mais contida. O thriller mesclado com drama familiar de Jardim centra-se, com ênfase especial, no Getúlio, de Tony Ramos, e em sua filha, Alzirinha (Drica Moraes em grande momento). Além deles, só o Carlos Lacerda, de Alexandre Borges ganha destaque.
Veja também:
Fonte: Site IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530663-os-ultimos-dias-de-getulio

domingo, 27 de abril de 2014

Médiuns

Eles falam com espíritos, prevêem o futuro, resolvem mistérios e curam doenças. Ou pelo menos acreditam fazer tudo isso

por Texto Aryane Cararo e Karin Hueck


“Não me conte nada sobre o caso.” Foi assim que Noreen Reiner recebeu o investigador Joe Uribe em sua casa, na Flórida, em 1993. O caso em questão era o assassinato do auditor fiscal Walter Sullivan, 4 anos antes. Noreen, uma médium investigativa, pegou o cinto e o relógio que a vítima usava quando morreu e fechou os olhos. De repente, começou a convulsionar, em uma espécie de transe, e falou: “Estão batendo em mim, estou muito machucado, acho que atiraram na minha nuca.” Quando voltou a si, ela sabia descrever com detalhes o rosto do assassino, o de sua mulher, o local da morte e o esconderijo da arma do crime. “Nunca acreditei nesse tipo de coisa”, diz o investigador Joe Uribe. “Mas resolvi ir atrás. E descobri que ela tinha acertado até o último detalhe, inclusive a cor da casa do assassino.” O culpado, Eugene Moore, confessou o crime e só não acabou atrás das grades porque foi morto enquanto tentava fugir da polícia.
Nem todos os médiuns são como a americana Noreen Reiner. Há os que psicografam mensagens que viriam de espíritos, como o brasileiro Chico Xavier (1910-2002), os que pintam quadros inspirados por uma força que não conhecem e ainda aqueles que acreditam prever o futuro. “Médium”, que em latim significa “aquele que está no meio”, é a palavra usada pelo espiritismo para designar pessoas que seriam um elo entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Mas a figura ultrapassa a fronteira dessa religião.
Acredita-se que os médiuns façam parte da nossa cultura há pelo menos 100 mil anos, quando os homens de Neandertal começaram a enterrar seus mortos e, um pouco depois, quando os Homo sapiens inauguraram a noção de consciência de si mesmo, tornando-se capazes de se colocar um no lugar do outro. “Quando surge a capacidade de imaginação e abstração, começam também a se criar mundos que não existem no plano visível”, diz Silas Guerriero, professor de ciências da religião da PUC de São Paulo. Como o mundo não era fácil para o homem pré-histórico, quem tinha alguma sensibilidade especial acabava virando um líder que ajudava na hora de enfrentar grandes períodos de chuva ou de seca, curar doenças ou arranjar comida. Assim surgiram os xamãs, profissionais dedicados a conversar com o lado de lá para resolver os problemas de cá – por meio de sacrifícios ou orações. “A necromancia, a comunicação com os mortos, é um dos hábitos mais antigos que existem”, afirma Antonio Flávio Pierucci, professor de sociologia da religião da USP.
Entre os gregos, os oráculos faziam previsões sagradas. Os pajés guaranis conversavam com deuses, assim como os feiticeiros do candomblé ou os líderes bíblicos. É o caso de Moisés, que está na raiz do cristianismo, do islamismo e do judaísmo. A Bíblia conta que, ao subir no monte Sinai, Moisés falou diretamente com Deus e recebeu dele os 10 Mandamentos. Para os sociólogos da religião, o fenômeno foi o que chamamos de mediunidade.
Hoje, a vida pode estar um pouco mais fácil, mas os médiuns seguem fascinando e tentando ajudar quem enfrenta problemas sem saída. Estão em séries de TV, novelas e livros – segundo a Federação Espírita Brasileira, 38,6 milhões de livros espíritas foram vendidos nos últimos anos. Quando uma história de mediunidade aparece, vem sempre cercada de enigmas. Eles conseguem mesmo fazer o que dizem? Se conseguem, como explicar essa dádiva? A seguir, veja como a ciência tenta encontrar respostas, começando pelo modo como pessoas comuns se descobrem médiuns.
Cérebros em êxtase
Os cientistas acreditam que o cérebro explica a mediunidade. mas não sabem dizer como.
De repente, coisas estranhas ocorrem. A pessoa vê vultos inexplicáveis, ouve vozes de gente que não aparece ou faz previsões que, de tão acertadas, não parecem ser apenas coincidência. “Na primeira vez que aconteceu, fiquei com tanto medo que passei anos sem contar para ninguém”, diz Claudia Rosa (ao lado), que desde os 12 anos vive experiências de mediunidade. Depois dos momentos de susto, chega a hora de deixar de negar o fenômeno e tentar conviver com ele. Os brasileiros que acreditam ter dons mediúnicos geralmente procuram centros espíritas – há 14 mil deles no país – e acabam conhecendo gente com histórias parecidas. “Lendo livros e participando de treinamentos, o médium consegue desenvolver sua habilidade”, diz Marta Antunes, diretora da Federação Espírita Brasileira. “Mas, quando a mediunidade é exuberante, você não pode evitá-la.” As imagens de espíritos ou a inspiração para escrever uma carta costumam aparecer do nada, como um déjà vu, na hora em que a pessoa menos espera. É como dizia o médium Chico Xavier: “O telefone toca sempre de lá para cá”.
Na tentativa de ligar daqui para lá, muitas reli giões do planeta criam rituais e provocam um momento de êxtase: o transe. Para os médiuns, o transe é o ponto alto de sua habilidade, quando conseguem incorporar um espírito. Para os psiquiatras, é um estado alterado de consciência, assim como a hipnose, que se atinge após um longo processo de concentração. Rituais com danças frenéticas, mantras, estímulos luminosos, jejum prolongado e até plantas alucinógenas fariam o participante sair de si. “O indivíduo entra em um estado de consciência paralelo ao comum e se comporta da maneira adequada àquele contexto”, diz Paulo Dalgalarrondo, professor de psicopatologia na Unicamp. Símbolos e palavras específicas formam um mundo diferente do corriqueiro, que a pessoa passa a entender quando entra em transe. “O ritual pode parecer caótico, mas na verdade tem regras e símbolos próprios”, diz José Francisco Bairrão, filósofo e psicólogo social da Unicamp especializado em estudos afro-brasileiros.
Uma boa forma de desvendar a mediunidade é entender como rituais levam ao transe e como o transe resulta nos relatos de contato com os espíritos. Por isso, os cientistas tentam estudar o que acontece no cérebro durante esse momento único. A busca tem duas frentes. Numa delas há espíritas que tentam explicar e comprovar cientificamente a mediunidade. É o caso do psiquiatra Sérgio Felipe Oliveira, professor de medicina e espiritualidade da USP e membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo. Segundo ele, a glândula pineal é a responsável pela interatividade com o mundo dos espíritos. Do tamanho de uma ervilha, a pineal fica no centro do cérebro e produz a melatonina, hormônio que regula o sono. “É um órgão sensorial capaz de converter ondas eletromagnéticas em estímulos neuroquímicos”, diz. Oliveira acredita que as pessoas que dizem sofrer possessões têm na pineal uma quantidade maior de cristais de apatita, um mineral parecido com o esmalte dentário. Quanto mais cristais, maior seria a sensibilidade espiritual.
Na outra frente, estão neuropsicólogos que usam exames de ressonância magnética e tomografias para tentar entender que mecanismos o cérebro aciona durante os rituais religiosos. O neurocientista Mario Beauregard, da Universidade de Montreal, no Canadá, estudou o cérebro de 15 freiras carmelitas enquanto elas rezavam. Achou uma dezena de pontos ativados, especialmente nas áreas relacionadas à emoção, orientação corporal e consciência de si próprio. Já o radiologista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, mapeou a ativação cerebral de monges budistas. Analisando tomografias dos religiosos durante a meditação, Newberg notou que a área relacionada à orientação corporal é quase toda desativada, o que pode justificar a sensação relatada de desligamento do corpo. Ele também estudou freiras franciscanas durante longas preces. Descobriu que o fluxo sanguíneo do lóbulo parietal esquerdo, parte responsável pela orientação, caía bruscamente. Para Newberg, as irmãs experimentavam a sensação de união com Deus porque o cérebro delas deixava de fazer a separação do próprio corpo com o mundo.
Mas nenhuma das duas frentes de pesquisa tem explicações definitivas para os efeitos do transe. Por isso, as origens fisiológicas da mediunidade seguem sendo um mistério. “A grande pergunta é: há uma base única para todos os transes? O que a neuropsicologia tem indicado é que não”, afirma Paulo Dalgalarrondo.
O dom da cura
É possível curar doenças graves em cirurgias espirituais que duram menos de um minuto?
Todo dia, a sede da Federação Espírita de São Paulo (Feesp) recebe cerca de 7 mil pessoas, a maioria em busca de auxílio espiritual para curar uma doen ça. Muitas acabam assistindo a uma palestra sobre a doutrina espírita e tomando um passe, uma espécie de energização oferecida pelos médiuns. Já os casos mais graves são selecionados para um tratamento diferente: a cirurgia espiritual, como a que acontece no Centro Espírita Caminho da Luz nas quintas-feiras à noite. Lá, numa sala escura, 10 médiuns ficam sentados com os olhos fechados e as mãos espalmadas para cima. Deitado numa cama, o paciente é coberto com um lençol até metade do corpo. Dois médiuns permanecem perto dele, percorrendo as mãos pela parte do corpo que será operada, mas nunca tocando no paciente. Segundo a doutrina espírita, essa sessão, que dura menos de um minuto, serve para mandar energias espirituais ao doente. “Um fluido, uma espécie de névoa, sai do nariz, da boca, das mãos dos médiuns, vai enchendo a sala e então é transferido para a pessoa”, explica o engenheiro mecânico Eduardo José Monteiro (na foto ao lado), organizador da ala cirúrgica do centro. São 40 pessoas operadas a cada noite e outras 70 que passam por uma espécie de consultório espiritual – e a maioria costuma sair de lá satisfeita.
Uma pesquisa de 1999, feita por Cleide Canhadas, mestra em ciências de religião, mostrou que 86% das pessoas que procuravam centros espíritas em São Paulo tinham algum problema de saúde. Desses, 42% tinham distúrbios emocionais ou psíquicos, 12% câncer ou aids e 15% problemas ginecológicos, abdominais ou glandulares. “Constatei que essas pessoas foram ao centro não por falta de opções, mas porque estavam insatisfeitas com o tratamento tradicional”, afirma Cleide. De 115 entrevistados que participaram da pesquisa, todos disseram que melhoraram depois da visita ao centro.
Se 100% das pessoas se sentiram melhor depois dos rituais de cura, como a ciência explica esse sucesso?
Na verdade, a ciência mal tenta explicar. Primeiro, porque a cura espírita descrita acima é um fenômeno exclusivamente nacional – o Brasil é o único país do mundo onde o espiritismo virou uma doutrina cristã, com milhões de seguidores. Isso faz com que nenhum grande centro internacional de pesquisa médica se interesse pelo tema. Segundo, porque mesmo por aqui há pouco interesse no assunto. “É difícil conseguir financiamento público para esse tipo de pesquisa”, diz Frederico Camelo Leão, psiquiatra do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos da USP. “Os recursos são limitados e temos de disputar o dinheiro com assuntos mais visados, como o genoma, por exemplo.”
As poucas teses sobre o benefício da cura espiritual apontam numa direção: efeito placebo. Se o tratamento traz benefícios psicológicos para o paciente, acaba tendo efeitos reais no corpo, assim como um remédio de mentira, um placebo. E os benefícios se concentrariam em 3 alterações fisiológicas:
1) Mudanças no sistema nervoso autônomo, responsável por nossos movimentos involuntários, como a respiração e os batimentos cardíacos. Doenças desencadeadas ou agravadas por causas emocionais (como asma, alergia e taquicardia) podem ter grande melhora com o tratamento espiritual, já que estão fortemente ligadas a fatores psicológicos.
2) Se a pessoa se sentir mais protegida, o sistema imunológico, responsável pela defesa do corpo, pode produzir mais linfócitos T, anticorpos essenciais no combate a algumas doenças, como o câncer.
3) A calma que o tratamento espiritual traz pode influenciar o sistema endócrino a produzir mais hormônios que auxiliam o tratamento de males como o estresse e a ansiedade.
Essas mudanças, que têm origem no cérebro e efeito por todo o corpo, acontecem com mais intensidade dependendo dos detalhes do ritual de cura. “Assim como o placebo tem de ser amargo e de um formato especial para fazer efeito, a cura espiritual também depende de um trabalho psicológico bem feito”, afirma Renato Sabbatini, professor de medicina da Unicamp. E também do quanto a pessoa acredita no processo. “O tratamento só funciona quando inserido num contexto cultural. Não faria o menor efeito em um norueguês, por exemplo, mas faz todo sentido para os brasileiros porque faz parte da nossa cultura”, afirma Geraldo Ballone, professor de psiquiatria da PUC Campinas. A maioria das comunidades espíritas não considera a cura espiritual um simples efeito placebo, mas concorda que o tratamento deve servir como um apoio ao doente. “Nos preocupamos para que não haja fanatismo’, afirma Cristiane Lobas, superintendente da entidade Nosso Lar. “Sabemos que a cura espiritual pode acontecer, mas sempre orientamos as pessoas a que procurem ajuda médica. O tratamento que oferecemos é um coadjuvante.”
O mistério da psicografia
Como os médiuns conseguem dar detalhes do morto nas mensagens que psicografam?
Quando todas as tentativas de cura falham e a morte chega, muita gente acaba recorrendo novamente aos médiuns. Desta vez, para se segurar em outro tipo de esperança: a de que o familiar que morreu esteja vivo – e em paz – em outro mundo. É aí que entram aqueles a quem se credita o dom de falar com os mortos por meio de pinturas, ouvindo vozes ou em cartas psicografadas. A psicografia é objeto de discussão há muitas décadas, especialmente após o mineiro Chico Xavier ficar famoso. Durante seus 92 anos de vida, ele escreveu milhares de mensagens, que foram compiladas em mais de 400 livros. As cartas particulares, com nomes, apelidos íntimos e sobrenomes de pessoas mortas, fizeram dele um consolador das tristezas do luto. E despertaram a curiosidade sobre o que estaria por trás daquelas misteriosas linhas.
Perito especializado em análises datiloscópicas e grafotécnicas, Carlos Augusto Perandréa analisou a carta atribuída a Ilda Mascaro Saullo, que morreu de câncer em 1977 na Itália. O bilhete em italiano, língua que o médium desconhecia, foi comparado com um cartão-postal escrito por Ilda. A pesquisa transformou-se no livro A Psicografia à Luz da Grafoscopia, que detalha, por exemplo, que as letras “t” do cartão escrito por Ilda e da carta de Chico Xavier tinham o mesmo tipo de ligação com as demais, a mesma abertura das hastes e a mesma barra de corte da letra. Segundo o perito, a mensagem era um híbrido entre a forma de escrever do médium e da italiana.
O depoimento de parentes que tiveram cartas psicogradas também impressiona. Para a juí za Douglasy Velloso, a despedida do pai chamando-a de Cuca trouxe a certeza de que era ele por trás da carta psicografada pela médium Martha Thomaz. Douglasy visitou o centro espírita Grupo Noel em abril, para ter notícias do pai. “Ele me chamava de Cuca e ninguém ali sabia disso”, diz ela.
Segundo estudo de Paulo Rossi Severino, que analisou 45 cartas psicografadas por Chico Xavier, 35% dos parentes consideraram a assinatura idêntica à do morto e 42% conseguiram enxergar alguma peculiaridade que o médium não teria como conhecer. Esses números podem comprovar duas visões opostas. Primeiro, que uma parte considerável das cartas parece ter origem no contato com uma pessoa morta. Segundo, que a maioria das cartas não contém semelhanças com a letra do falecido nem revelações da família.
Para muitos cientistas, esses números são suficientes para afimar que tudo não passa de acaso. “A tradição científica entende que as informações certas que o médium passou nas cartas foram apenas coincidência”, afirma o psiquiatra Frederico Camelo Leão, da USP. “Quem procura outra explicação deve tentar encontrá-la na religião.”
E a sensação comum entre os médiuns de acreditar que não foram eles que escreveram aquilo que psicografaram? Numa entrevista descrita no livro Por Trás do Véu de Ísis, de Marcel Souto Maior, Chico Xavier faz a pergunta: “Serão real mente dos nomes que as assinam as páginas então produzidas? Eu não poderia responder precisamente, porque a minha consciência como que dorme. De uma coisa, porém, julgo estar certo: não posso considerar minhas essas páginas porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las”. Psicólogos e psiquiatras explicam esse fenômeno a partir da idéia de inconsciente. Como acontece com sonâmbulos ou pessoas em transe, nossa mente pode nos levar a ações que não faríamos em condições normais. “Hoje sabemos que o inconsciente pode levar o homem a fazer coisas extraordinárias, sem que a autoria precise ser atribuída a outros seres”, afirma o psicólogo e filósofo José Francisco Bairrão.
No que psicólogos e médiuns concordam é que a psicografia pode servir de consolo para quem enfrentou a morte de um parente querido. Cartas psicografadas têm em comum mensagens de esperança, amparo à família, amor e perdão. Segundo a pesquisa de Paulo Rossi Severino, o conselho para cultivar pensamentos positivos está em 82% das mensagens. Como a carta em que o filho pede aos pais: “Devo pedir que vocês não escutem, em momento algum, a voz da revolta”. Ou ainda: “Mãezinha e papai, nós continuamos sendo apenas um, pois o nosso amor é imortal, porque trazemos em nossa alma a imortalidade”.
“O luto é um processo de reparação e elaboração da perda. As pessoas buscam uma série de formas de lidar com suas dores, e a psicografia, inserida na questão religiosa, é uma delas”, afirma a psicóloga Maria Julia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP. Tem mais. A seguir, você vai ver que a mediunidade não apenas apóia as pessoas que têm de lidar com a morte como também está ajudando policiais brasileiros e americanos a esclarecer assassinatos e encontrar criminosos.
Os médiuns a serviço da justiça
Eles ajudam a polícia a esclarecer crimes – e também podem atrapalhar as investigações.
A gaúcha Iara Marques Barcelos estava presa havia dois anos acusada de ter assassinado o amante, o tabelião Ercy Cardoso. “Ela negava o crime, mas eu não tinha provas de sua inocência”, diz Lucio de Constantino, o advogado de defesa. Foi então que, em 2006, a família de Iara apareceu com uma carta psicografada. A mensagem tinha sido escrita num centro espírita de Porto Alegre e era atribuída ao homem assassinado. “O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes”, dizia a carta. O advogado decidiu juntar o texto às provas do processo. E os jurados acabaram inocentando Iara.
Em 1925, o escritor britânico Arthur Conan Doyle afirmava que no futuro os policiais seriam ou, pelo menos, contratariam médiuns para resolver crimes. A previsão do célebre pai de Sherlock Holmes se mostrou correta. Nos EUA, já existe um grande comércio envolvendo detetives, policiais e médiuns, que costumam cobrar cerca de US$ 1 000 para dar dicas de desaparecimentos e também de crimes sem solução.
Os detetives mediúnicos usam uma técnica chamada pelos espíritas de psicometria: juntam o nome da vítima e a data do crime e, com a ajuda de algum objeto do morto, se colocam na pele da pessoa agredida e dão detalhes sobre local, causa da morte e culpados. Cabe aos policiais verificar as dicas.
“Sei que sou contratada como último recurso, quando a polícia já não sabe mais o que fazer com o caso”, diz Noreen Renier, uma médium investigativa que fez fama resolvendo casos misteriosos. De acordo com sua contabilidade, ela já participou em mais de 600 investigações, a maioria com sucesso. Além do delegado da Flórida, do começo desta reportagem, ela ajudou um agente do FBI a encontrar o lugar exato de um avião desaparecido. Noreen foi a única vidente que deu palestras no FBI sobre suas técnicas.
A relação tão próxima entre criminologia e espiritualidade nos EUA é mais comum do que se imagina. Apesar de quase não existirem estudos sobre o assunto (os investigadores não gostam de admitir que precisam desse recurso tão pouco científico para resolver crimes), uma pesquisa feita em 1993 com delegacias das 50 maiores cidades americanas indicou que 35% delas já tinham se valido de médiuns. Mas é tudo por baixo dos panos. Oficialmente, o governo americano nega. O FBI e o Centro Nacional de Crianças Desaparecidas rejeitam a possibilidade de trabalhar com videntes.
O que os mais céticos dizem é que na maioria dos casos não são os policiais que procuram os médiuns, mas o contrário. “Por lei, a Justiça tem de ouvir todas as pessoas que entram numa delegacia falando que têm informações sobre um crime. Isso atrasa o trabalho, porque toma muito tempo ir atrás das pistas, inclusive daquelas sem fundamento”, afirma o ilusionista americano James Randi, que ofereceu US$ 1 milhão a quem provar que fenômenos sobrenaturais existem. De fato, o caso da menina inglesa Madeleine McCann, que desapareceu em uma praia portuguesa em 2007, recebeu mais de 1 000 palpites de videntes. Alguns foram testados, mas até hoje nenhum acertou o paradeiro da menina.
A maior crítica que se faz a esses profissionais é que eles não colhem informações por meio de um dom sobrenatural, mas por adivinhação. É muito comum médiuns darem dicas vagas, como “o corpo está num lugar deserto” ou “eu vejo água”. A partir de dados que a própria família da vítima passou, o vidente dá informações óbvias e mede a rea ção dos clientes. Assim, a pessoa se ilude e pensa que o médium está dizendo novidades.
No Brasil, a relação entre médiuns e Justiça tem características muito particulares e envolveu até o mais conhecido espírita do país, Chico Xavier. Em 1976, um caso de assassinato em Goiânia seria um bom enredo para filme de ficção. José Divino Nunes, então com 18 anos, foi acusado de matar seu amigo de infância, Maurício Garcez Henrique, com um tiro no peito. O processo contra José Divino corria na Justiça havia dois anos quando os pais da vítima receberam uma carta psicografada por Chico Xavier, de autoria de Maurício. O texto inocentava o amigo e dizia que o morto estava muito incomodado com a acusação contra José. “Fui eu mesmo quem começou a lidar com a arma”, afirma a carta, que dava detalhes da cena do crime. Também mandava lembranças à família por meio de Xavier, que morava em Minas e não conhecia o caso. O que chamou a atenção de todos os jurados foi a assinatura da carta, semelhante à do assassinado. Numa decisão inédita no país , o documento foi incluído no processo e José Divino, inocentado.
A Justiça brasileira permite que os advogados usem cartas psicografadas como provas judiciais, mas elas podem ser facilmente contestadas pelos adversários no processo. “Não é ilegal usar documentos psicografados, mas isso só funciona porque quem os avalia são os jurados, que têm cultura e religião variadas”, afirma Renato Marcão, jurista e promotor público de São Paulo. “Já que não há como checar a fidelidade desse tipo de informação, nada impede que seja retirado do processo.”
Ainda restam perguntas sobre o assunto. Por que o espírito nunca revela o real culpado na carta psicografada? Será que todos os médiuns detetives contam apenas com a sorte para resolver crimes? Por via das dúvidas, é bom não se esquecer do caso da americana Sylvia Browne. Há mais de 40 anos, a vidente ajuda a resolver assassinatos e desaparecimentos – e dá palestras semanalmente em um programa de televisão. Em 1999, a avó de uma menina desaparecida foi pedir conselhos a Sylvia. A resposta que ouviu foi digna dos episódios de CSI: “Ela não está morta. Foi colocada num barco e levada para o Japão, onde virou escrava.” A avó gelou. Alguns meses depois, porém, o molestador de crianças Richard Lee Franks confessou ter matado a menina. Ao contrário de todas as outras vezes em que alardeou seus talentos mediúnicos, Sylvia não se pronunciou sobre esse caso. O corpo estava enterrado não no Japão, mas a menos de 20 quilômetros de casa.
As flores de Claudia Rosa
Claudia Rosa estava lavando louça em casa quando ouviu vozes: “Pega lápis e papel”. Acostumada com sua mediunidade desde os 18 anos, a dona-de-casa resolveu obedecer. Sentou-se à mesa e pintou as formas geométricas que as vozes pediam. Depois as coloriu com giz de cera, mas ainda não estava satisfeita. Foi a uma loja de material de pintura e lá se deixou guiar para comprar telas e tinta acrílica. Claudia Rosa não era artista, mas acabou se especializando em pintar com as mãos. Os temas florais são os favoritos dos espíritos que ela crê receber. Nenhum quadro demora mais de 15 minutos para ficar pronto.
De engenheiro a médium de cura
O engenheiro mecânico Eduardo Monteiro é médium de doação de energia nas cirurgias espirituais. “Enxergo uma bruma, como se o chão fervesse, e transfiro isso para o paciente”, diz Eduardo, de 52 anos, que já fez pintura mediúnica e acredita ter incorporado um espírito. “Sempre me questiono se o que vejo não é ilusão, já que sou um cara cético, da matemática. Mas o plano espiritual dá uma comprovação cada vez que fico muito questionador”, afirma.
As vozes de Nancy
A enfermeira Nancy Cesar foi criada em uma família católica. Na adolescência, as missas dominicais eram obrigatórias – até atrapalhavam quando ela queria sair nos sábados à noite. Nancy só percebeu que talvez estivesse seguindo a religião errada quando, aos 20 anos, começou a apresentar comportamentos estranhos. Às vezes, sem perceber, o tom da sua voz mudava. Dizia coisas desconexas e não se lembrava do que havia dito. Nancy passava mal e se apavorava com a sensação. Hoje, aos 46 anos, depois de ter estudado a doutrina espírita por mais de uma década, ela se considera uma médium. Acredita que seu dom é a polifonia. “Eu nem escuto, mas os espíritos falam pela minha voz.”

Para saber mais

Psicopatologia e Saúde Mental
Paulo Dalgalarrondo, Artmed, 2008.
Por Trás do Véu de Ísis
Marcel Souto Maior, Planeta do Brasil, 2004.
Psychic Criminology
Whitney Hibbard, Raymond Worring e Richard Brennan, Charles Thomas Publisher, EUA, 2002.


Fonte: Site da Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/religiao/mediuns-447506.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_super

Dilemas morais: o que você faria?

Tente responder a 5 famosos dilemas morais e descubra o que suas respostas dizem sobre você

por Texto Fabio Marton


No livro A Escolha de Sofia, de William Styron, que virou filme estrelado por Meryl Streep, uma prisioneira polonesa em Auschwitz recebe um “presente” dos nazistas: ela pode escolher, entre o filho e a filha, qual será executado e qual deverá ser poupado. Escolhe salvar o menino, que é mais forte e tem mais chances na vida, mas nunca mais tem notícias dele. Atormentada com a decisão, Sofia acaba se matando anos depois.
Dilemas morais, como a escolha de Sofia, são situações nas quais nenhuma solução é satisfatória. São encruzilhadas que desafiam todos que tentam criar regras para decidir o que é certo e o que é errado, de juristas a filósofos que estudam a moral.
Cada vez que um filósofo monta um sistema de conduta, procura algo que responda a todas as situações possíveis. O filósofo inglês John Locke (1632-1704), por exemplo, definiu o bem pela não-agressão, aquela idéia de que “minha liberdade começa onde termina a sua”. Já Ros­seau (1712-1778) considerava o certo a vontade geral, a decisão da maioria.
Agora os dilemas morais estão virando objeto de estudo de cientistas. E, para alguns deles, talvez os filósofos tenham trabalhado em vão ao se esforçar tanto para montar teorias morais. É que, segundo novas pesquisas, raramente usamos a razão para decidir se devemos tomar uma atitude ou não. Analisando o cérebro de pessoas enquanto elas pensavam sobre dilemas, os pesquisadores perceberam que muitas vezes decidimos por facilidade, empatia ou mesmo nojo de alguma atitude. Duvida? A seguir, faça o teste com você mesmo, respondendo a 5 dilemas morais clássicos.
O trem descontrolado
Um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevenidas sobre a linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. Você mudaria o trajeto, salvando as 5 e matando 1?
( ) Mudaria
( ) Não mudaria
Esse dilema moral foi apresentado a voluntários pelo filósofo e psicólogo evolutivo Joshua Greene, da Universidade Harvard. “É aceitável mudar o trem e salvar 5 pessoas ao custo de uma? A maioria das pessoas diz que sim”, afirma Greene em um de seus artigos. De fato, numa pesquisa feita pela revista Time, 97% dos leitores salvariam os 5. Fazer isso significa agir conforme o utilitarismo – a doutrina criada pelo filósofo inglês John Stuart Mill, no século 19. Para ele, a moral está na conseqüência: a atitude mais correta é a que resulta na maior felicidade para o máximo de pessoas. Mas há um problema. A ética de escolher o mal menor tem um lado perigoso – basta multiplicá-la por 1 milhão. Você mataria 1 milhão de pessoas para salvar 5 milhões? Uma decisão assim sustentou regimes totalitários do século 20 que desgraçaram, em nome da maioria, uma minoria tão inocente quanto o homem sozinho no trilho. Além disso, o ato de matar 1 para salvar 5 é o oposto do espírito dos direitos humanos, segundo o qual cada vida tem um valor inestimável em si – e não nos cabe usar valores racionais ao lidar com esse tema.
O trem descontrolado (2)
Imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevenidos nos trilhos. Agora, porém, há uma linha só. O trem pode ser parado por algum objeto pesado jogado em sua frente. Um homem com uma mochila muito grande está ao lado da ferrovia. Se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando as 5 pessoas, mas liquidando uma. Você empurraria o homem da mochila para a linha?
( ) Empurraria
( ) Não empurraria
Avaliando pela lógica pura, esse dilema não tem diferença em relação ao anterior. Continua sendo uma questão de trocar 1 indivíduo por 5. Apesar disso, a maioria das pessoas (75% nos estudos de Joshua Greene, 60% no teste da Time) não empurraria o homem. A equipe de Greene descobriu que, enquanto usamos áreas cerebrais relacionadas à “alta cognição”, isto é, ao pensamento profundo, para resolver o dilema anterior, este aqui provoca reações emocionais, mesmo nos que empurrariam o homem para os trilhos. Uma versão mais bizarra desse dilema propõe uma catapulta para jogar o homem pesado nos trilhos – e, surpresa, a maioria das pessoas volta a querer matar 1 para salvar 5. Conclusão: estamos dispostos a matar com máquinas, mas não mataríamos com as mãos.
Para Greene, a diferença nas respostas aos dois dilemas pode ser explicada pela seleção natural. Durante milhares de anos da nossa evolução, os seres humanos que matavam outros friamente atraíam violência para si próprios: eram logo mortos pelo grupo, gerando menos descendentes. Já aqueles que conseguiam se segurar conquistavam amigos e proteção, transmitindo seus genes para o futuro. Assim, ao longo dos milênios, criamos instintos sociais que nos refreiam na hora de matar alguém.
Acontece que, na maior parte do tempo da nossa evolução, vivemos em cavernas e com lanças na mão, e não operando máquinas, botões ou alavancas. Isso faz com que nossos instintos sociais não relacionem o ato de apertar um botão ou puxar uma alavanca com o de jogar alguém para a morte – é por esse motivo que, para Joshua Greene, tanta gente mudaria a alavanca na situação anterior, mas não executaria o homem neste segundo dilema. “Os instintos sociais refletem o ambiente nos quais eles evoluíram, não o ambiente moderno”, afirma o cientista.
Ele dá outro exemplo. Achamos um absurdo não prestar socorro a alguém que sofreu um acidente na estrada, mas nos esquecemos rapidinho que milhares de pessoas morrem de fome na África. Para Greene, o motivo dessa disparidade também está nos instintos. “Nossos ancestrais não evoluíram num ambiente em que poderiam salvar vidas do outro lado do mundo. Da forma como nosso cérebro é construído, pessoas próximas ativam nosso botão emocional, enquanto as distantes desaparecem na mente.”
Para Greene, a diferença de atitudes mostra que os filósofos que lidam com a moral devem levar mais em conta a natureza do homem – não para agirmos conforme a natureza, mas para superá-la. Tendo consciência de que nossos instintos nos tornam capazes de matar friamente por meio de uma alavanca ou de ignorar genocídios distantes, temos mais poder para decidir o que é ou não correto.
Totem e tabu
No seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. Você é tenente do Exército e recebe um prisioneiro recém-capturado que grita: “Alguns de vocês morrerão às 21h35”. Suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. Para saber mais e salvar civis, você o torturaria?
( ) Torturaria
( ) Não torturaria
Recentemente, Israel e os EUA foram duramente criticados pela prática de tortura de terroristas árabes em prisões e pelas tentativas de legalizá-la em forma de “pressão psicológica” ou “pressão física moderada”. Na defesa, os países usaram dilemas como esse. Se você achar que o correto é torturar o prisioneiro, vai legitimar carceragens sangrentas. Por outro lado, caso se recusasse a torturá-lo, poderá deixar inocentes morrer.
Essa situação também se parece com as anteriores – pela razão pura, trata-se de salvar o maior número de vidas. Mas por que, então, é tão difícil tomar a decisão de torturar o homem? Além do instinto básico de não-agressão apontado pelo cientista Joshua Greene, somos movidos por outra emoção primitiva: o nojo. É isso aí, o mesmo nojo que faz você ter uma ânsia de vômito ao olhar um esgoto. “Acreditamos que a aversão moral é nojo mesmo, e não apenas uma metáfora”, diz o psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia. Em uma de suas pesquisas, Haidt mostrou vídeos de neonazistas a seus voluntários, monitorando a atividade cerebral deles. Concluiu que sentiam nojo, e não uma reprovação racional. É por isso que, em casos que provocam asco, como a tortura, costumamos agir conforme o absolutismo moral: as regras não devem ser transgredidas nem para salvar inocentes. Ainda mais se lembrarmos que os países que querem legalizar o método geralmente se valem de dilemas como esse para situações mais leves, em que a tortura não vai resultar em vidas salvas.
Os limites da promessa
Um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém. Você dá sua palavra. Ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. Quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?
( ) Conta à polícia
( ) Não conta à polícia
O antropólogo holandês Fonz Trompenaars realizou pesquisas em diversos países com dilemas como esse. O mais interessante é que as respostas variaram de acordo com o povo. A maioria dos russos acusaria o amigo na lata. Outros mentiriam para protegê-lo, dando dicas ambíguas à polícia, como os americanos. Já os brasileiros inventariam histórias malucas para dizer que a culpa não era do amigo, mas do pedestre, que era um suicida.
Os gregos antigos já tinham consciência de que cada cultura tem noções diferentes sobre o que é certo ou errado: diziam que havia tantas morais quanto povos no mundo. A princípio, saber que a moral muda de acordo com a cultura é importante para não julgarmos costumes de um povo como se fossem os nossos, descobrindo suas razões particulares. Foi o que propôs o antropólogo Franz Boas (1858-1942), considerado o pai do relativismo cultural – a idéia de que nenhuma cultura é melhor que outra. Mas, quando duas culturas diferentes se chocam, surgem dilemas morais ainda mais difíceis – como o da página seguinte.
Choque cultural
Você é um funcionário da Funai, trabalhando na Amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena. Passeando perto de uma clareira, nota que ianomâmis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. Você impediria a morte do bebê?
( ) Impediria
( ) Não impediria
No começo de abril, a Folha de S.Paulo contou a história do índio Mayutá, de 2 anos, que nasceu de uma gravidez de gêmeos. Como os índios camaiurás acreditam que gêmeos trazem maldição, Mayutá deveria ser envenenado.O irmão dele já havia sido assassinado quando o pai interveio. Com ajuda da ong Atini, que tenta acabar com o infanticídio entre os índios brasileiros, o pai retirou a criança da tribo.
A ong foi formada pelos pais adotivos da ianomâmi Hakani, que viveu um caso parecido em 1995. Depois que Hakani nasceu com hipotireoidismo, seus pais receberam do conselho da tribo a ordem de envenená-la. Mas acabaram tomando o veneno eles mesmos. O irmão e o avô foram encarregados de levar a tarefa adiante e não conseguiram – o avô também se suicidou. Hakani, abandonada, desnutrida e quase morta, acabou adotada por um casal de funcionários da Funai. Um antropólogo do ministério público tentou barrar a adoção, dizendo que era uma agressão à cultura ianomâmi. E aí, o que vale mais: a vida humana ou o respeito às tradições de um povo? Se você acha que o certo é deixar a cultura acontecer, é um relativista cultural. Se considera o valor da vida maior que o das culturas, é um absolutista moral, como o papa Bento 16.
Talvez a solução do dilema esteja na hesitação dos pais. Ela mostra que o infanticídio não é um consenso entre os índios. Ou seja, o terror emocional diante de matar o próprio filho existe mesmo em culturas que admitem matar suas crianças. Isso converge com a tese do psicólogo evolutivo Steven Pinker: assim como qualquer língua do mundo diferencia entre verbo e objeto, a moral também tem suas regras universais, que cada cultura trata de forma diferente. Segundo a teoria da “gramática universal”, de Noam Chomski, temos uma capacidade de nascença para falar, e o que prova isso são as semelhanças de sintaxe entre todas as línguas do mundo. Num artigo para o jornal New York Times, Pinker paradiou a tese de Chomski: “Nascemos com uma gramática moral que nos permite analisar as ações humanas mesmo que com pouca consciência disso”. Mas, como mostram os dilemas morais, nem sempre é fácil fazer essa análise.

Para saber mais

Uma Vida Que Vale a Pena
Jonathan Haidt, Editora Campus, 2006.

Fonte: Site da Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/cultura/dilemas-morais-voce-faria-447542.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_super