quinta-feira, 8 de maio de 2014

A biografia de Carlos Marighella: muito esforço e muitas páginas para um coadjuvante da História

Ricardo Setti

COADJUVANTE VOCACIONAL -- Marighella mostra as pancadas recebidas de policiais em 1964, na redação do Jornal do Brasil (Foto: Ag. JB / Braz)
COADJUVANTE VOCACIONAL -- Na redação do "Jornal do Brasil", no Rio, Marighella mostra as pancadas recebidas de policiais em 1964 (Foto: Agência JB / Braz)
Resenha de Augusto Nunes, publicada em edição impressa de VEJA

MUITA AÇÃO, POUCAS IDEIAS
Marighella é quase irretocável como biografia. Mas nem que fosse perfeito o livro poderia elucidar o porquê de dedicar tanto trabalho, e tantas páginas, a esse personagem
Repórter obstinado, pesquisador competente e escritor talentoso, o jornalista Mário Magalhães dedicou-se nos últimos nove anos ao resgate da história de Carlos Marighella (1911-1969), militante comunista na juventude, deputado constituinte com menos de 40 anos e fundador, já cinquentão, da Ação Libertadora Nacional (ALN), a mais conhecida das siglas que afundaram na opção pela luta armada contra a ditadura militar.
Magalhães desmonta versões fantasiosas, corrige equívocos, resgata documentos dados por perdidos, escava episódios desconhecidos – e reconstitui detalhadamente a trajetória do inspirador de Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras; 732 páginas; 56,50 reais). Ao imprimir ritmo de thriller à narrativa, o autor torna possível completar, sem tantas pausas ofegantes, a extensa travessia do que prefere qualificar de reportagem.
Faltam a devoção a Stalin, o terrorista confesso…
As estantes ganhariam uma biografia exemplar se o biógrafo tivesse tratado Marighella sem tanta brandura. O baiano jovial que fazia versos e gracejava com parceiros de aventuras poderia ter doado alguns dos numerosos parágrafos que ocupa ao devoto de Stalin que celebrava “a beleza que há em matar com naturalidade”.
E a presença do guerrilheiro urbano é tão opressiva que não sobra espaço para a aparição do terrorista confesso. No Minimanual do Guerrilheiro Urbano, publicado em 1969, o biografado reserva um capítulo inteiro ao terrorismo, “uma arma que o revolucionário não pode abandonar”.
Se essa face escura ganhasse a atenção devida, a figura desenhada não pareceria inverossímil.
Ainda assim, seguiria sem resposta a única interrogação de bom tamanho que o autor não conseguiu remover: com tantos protagonistas da história do Brasil à espera de um bom biógrafo, por que consumir tantos anos de investigação e tantas centenas de páginas na exumação de um coadjuvante vocacional?
Coragem de sobra e juízo de menos
O guerrilheiro que incendiou o mundo – um título que nem os admiradores de Che Guevara ousaram reivindicar – só existiu no título do livro. O que emerge da leitura é um homem de ação com coragem de sobra e juízo de menos, e que só desempenhou papel de número 1 na organização clandestina que, de 1967 a 1969, comandou com uma arma na mão e nenhuma ideia sensata na cabeça.
O Marighella militante e depois dirigente do Partido Comunista Brasileiro foi apenas mais um cumpridor das ordens do onipresente Luís Carlos Prestes, convencido de que vale tudo na implantação da ditadura do proletariado. O Marighella deputado constituinte foi o mais aplicado companheiro de bancada de um Jorge Amado já na antessala da consagração como romancista.
Só soube do sequestro do embaixador americano depois
O Marighella surpreendido pelo golpe militar de 31 de março de 1964 só virou notícia por ter enfrentado a socos e pontapés os policiais que o prenderam, dois meses depois do mergulho na clandestinidade, em um cinema do Rio de Janeiro. Como não havia testemunhas da luta corporal, a própria notícia foi às redações dos jornais assim que saiu da cadeia. Provou o que dizia exibindo as marcas da pancadaria.
BATALHAS PERDIDAS -- Ao ser fuzilado numa rua de São Paulo, em 4 de novembro de 1969: só batalhas perdidas
BATALHAS PERDIDAS -- Ao ser fuzilado numa rua de São Paulo, em 4 de novembro de 1969: só batalhas perdidas
Mesmo o comandante supremo da ALN teve seus poderes frequentemente confiscados por subordinados hierárquicos. Mário Magalhães descobriu, por exemplo, que Marighella só soube do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick depois de consumada, em parceria com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a mais espetacular operação promovida por partidários da luta armada.
O número 2 da ALN, Joaquim Câmara Ferreira, endossou e ajudou a executar o plano por estar convencido de que o chefe gostaria da ideia. Errou, revela o livro. Num raro surto de lucidez, Marighella compreendeu que o sequestro de um embaixador dos Estados Unidos provocaria retaliações extraordinariamente superiores, em intensidade e violência, ao poder de fogo da minúscula tropa empenhada na perseguição do paraíso socialista.
Sucumbiu a uma emboscada do delegado Fleury
Capturado em 4 de setembro de 1969, Elbrick foi solto dois dias mais tarde em troca da libertação de quinze presos políticos. Em 4 de novembro, Marighella foi fuzilado numa rua de São Paulo por um grupo de policiais chefiado pelo delegado Sérgio Fleury. Até sucumbir à emboscada, ele passara dois anos sonhando na cidade com a guerrilha rural sempre adiada por um assalto a banco, um atentado a bomba ou a execução de um empresário.
O guerrilheiro urbano que se imaginava incendiando os campos do Brasil jamais entrou em combate contra tropas regulares do Exército. Só enfrentou a polícia política. Como em todas as batalhas anteriores, perdeu.


Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/dica-de-leitura/a-biografia-de-carlos-marighella-muito-esforco-e-muitas-paginas-para-um-coadjuvante-da-historia/#.U2opkBAhwc0.twitter

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