segunda-feira, 12 de maio de 2014

O meu anti-suicídio é a literatura


Carla Luisa Kehl

O meu anti-suicídio é a literatura. Eu leio para me salvar. Meu corpo sente uma necessidade extrema de se versificar, de sentir sobre a pele nua e ávida o calor de suas palavras; que outrora deslizam sobre minhas pálpebras e preenchem o vazio de minhas órbitas; que acariciam minha boca entreaberta e sem fôlego aproveitando cada deixa de minha arfante respiração; que escorre sobre meu pescoço pulsante até chegar sobre meu ouvido e ali para imóvel, esperando meu suspiro de prazer ao ouvir o sussurro de suas histórias hediondas. A literatura é sórdida. É profana. Taciturna. Ela se entrega muito fácil. E confia que você vá da conta do trabalho. Que vá retribuir ao alcance. Amante selvagem. À noite. Pela manhã. Ao longo da tarde. De madrugada. De lado. De frente. De costas. Com as pernas balançando do parapeito da janela, a cabeça encosta na grade, os cabelos despenteados, o pijama amassado; ela fez sua vitima. Eu poderia chamá-la de psicopata. Mas o problema é que ela está aqui entre nós, numa deixa ou outro de vírgula: vigiando-me. Testando meus limites. Observando-me com seus olhos efêmeros cheios de promessas. Posso sentir sua cálida respiração em minha nuca. Você não? Não sente o arrepio que percorre suas pernas, a luxuria que emenda do seu peito e lhe agarra o pescoço? Eu sinto. O tempo todo. E não nego. Desejo-a. Arduamente. É um sentimento que me devora o peito. E me entrego sem precedentes. Assim, com a alma nua. O corpo palpitante, a boca desejosa, as pernas tremulas, a respiração entrecorta, a coluna curvada sobre seu pescoço, querendo-a; tocando-a; usando-a. Ás vezes assim antes de me deitar, cansada demais, escassa demais, vazia demais, a deixo de lado. Mas ela ouve. Ela compreende. E me escuta lamentar por horas a fio. E me embala, passa os dedos por entre meus cabelos, e balança a cabeça negativamente quando projeto meu corpo sobre o suicídio iminente. Ela sabe. Dessa minha luta constante. Que eu não sei viver nesse mundo. Que meus pés não sabem caminhar por essas ruas. Dessa recusa que os outros seres humanos têm em me aceitar. Em olhar por entre as minhas fraturas. Eles recuam. Com medo do contagio instantâneo que essa minha essência pode proceder. Eu me encolho. Caminho com os pés juntos, os olhos postos no céu. Entre as estrelas solitárias que me observam. E sinto um tanto de inveja precoce. Dessa indiferença toda. Dessa auto-suficiência. Dessa aparência promiscua inebriante de maturidade que elas remetem. E é ai que ela aparece. Um tanto cabisbaixa. Nem parece aquele vendaval que outrora me vez ficar horas sem ter um pensamento coerente. Ela desliza os dedos sobre minhas bochechas, encosta a cabeça no meu ombro e coloca a mão no peito. Sentindo o peso de minha alma. Com os olhos obscuros ela me olha, eu a olho de volta e sorrio. Aceitação. Entrega. Cumplicidade. Mais do que isso: ternura. Deito-me na cama, passo meus dedos avidamente pela extensão de seu corpo. Orgasmo literário perfeito. Logo adormeço. Com a sensação de que se a literatura fosse uma pessoa, eu não teria medo de envelhecer sobre a poesia de seu corpo.


Fonte: Falência de Dores Tumblr
http://luisakehl.tumblr.com/post/72704492744/o-meu-anti-suicidio-e-a-literatura-eu-leio-para

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