sábado, 3 de maio de 2014

O Nietzsche da Romênia: pessimismo como remédio amargo contra utopias

Rodrigo Constantino

Nunca tinha lido nada de Emil Cioran, mas após algumas recomendações feitas por Luiz Felipe Pondé, resolvi encarar o filósofo romeno. Comecei com História e Utopia, um livro forte, de uma visão trágica e extremamente pessimista do ser humano. Não deixa de suscitar reflexões interessantes, mesmo àqueles que discordam de sua premissa.
De tempos em tempos surge um Nietzsche, um Camus, um Dostoievski, um Kafka ou um John Gray para sacudir nossas certezas, nosso otimismo com o progresso, nossas esperanças e crenças no sentido da vida. Vivemos no “absurdo” do mito de Sísifo, somos criaturas condenadas ao nascer, fadadas à eterna busca de fugas para nossas angústias?
Talvez sim. Alguns flertam com esse niilismo e sobrevivem. Saem fortalecidos, sem a necessidade de colocar utopias e seitas para preencher o vazio. Creio que é tarefa para poucos. E gosto da visão aristotélica que recomenda certo equilíbrio, pois se o otimismo cego e ingênuo com o amanhã pode ser fatal, o pessimismo exacerbado paralisa.
Cioran reconhece a necessidade que teve de abraçar verdades absolutas na juventude, sem conceder ao adversário qualquer direito de ter as suas próprias. Renunciar a tal fascínio encontrado apenas no extremismo é morrer um pouco, enfraquecer-se, agir contra a própria natureza, segundo o filósofo. O liberalismo seria esse desafio aos nossos intentos, oposto a nossos imperativos profundos, e por isso seria instável sempre, de êxito “breve e miraculoso”.
A tolerância que faz parte do liberalismo iria contra essa energia vital que costuma seduzir os jovens. “Dê aos jovens a esperança ou a ocasião de um massacre e eles lhe seguirão cegamente”, diz Cioran. Aceitar que o outro deve ser tolerado exige renúncia. “É preciso estar acabado para tornar-se um democrata sincero“, alfineta o autor. Preservar traços de fanatismo, vestígios de juventude, seria um bom sinal de vitalidade, em sua opinião.
As utopias recebem um julgamento bastante ambíguo. “A longo prazo”, diz, “a vida sem utopia se torna irrespirável, para a multidão pelo menos: sob pena de petrificar-se, o mundo necessita de um delírio novo”. A falta de esperança não seria tolerável para a maioria.
Por outro lado, “a utopia é o grotesco cor-de-rosa, a necessidade de associar a felicidade, logo o inverossímil, ao devir, e de levar uma visão otimista, aérea, até o limite em que se una a seu ponto de partida: o cinismo que pretendia combater. Em suma, um conto de fadas monstruoso”.
A democracia e o liberalismo são avessos ao fanatismo, ao dogmatismo, às utopias e, por conta disso, seriam menos vigorosos, até medíocres enquanto construção coletiva. Cioran levanta o seguinte paradoxo trágico da liberdade: “os medíocres, que são os únicos que tornam possível seu exercício, não saberiam garantir sua duração”.
Muitos se revoltam contra tal “mediocridade” democrática e anseiam por um tirano. Para Cioran, “Um mundo sem tiranos seria tão enfadonho quanto um jardim zoológico sem hienas”. Em busca de ação, de potência, de vigor e energia, o homem acabaria demandando uma espécie de tirania. Ele escreve:
Só agimos sob a fascinação do impossível: isto significa que uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e de consagrar-se a ela está ameaçada de esclerose e de ruína. A sensatez, à qual nada fascina, recomenda a felicidade dada, existente; o homem recusa esta felicidade, e essa simples recusa faz dele um animal histórico, isto é, um amante da felicidade imaginada.
O utopista chafurda na miséria humana, e como Cioran, com sua visão trágica e pessimista, enxerga-nos todos como um bando de miseráveis, o mercado de utopias tem seu lugar garantido ao sol. O filósofo romeno não tem muito a oferecer em seu lugar: “O remédio para nossos males é em nós mesmos que devemos buscá-lo, no princípio intemporal de nossa natureza”.
Ou seja, “interiorizar a nostalgia ou a espera, necessariamente frustradas quando se voltam para o exterior, e obrigá-las a descobrir ou a criar em nós a felicidade da qual, respectivamente, sentimos nostalgia ou esperança”. Nada trivial, como fica claro.
Quando leio esses filósofos ou escritores mais soturnos, que possuem uma visão totalmente negativa da “besta humana”, com todos os seus limites impostos pela natureza e capturadas na metáfora do “pecado original”, em nossa “queda”, fico com a nítida impressão de que são pensadores necessários, ainda que felizmente não sejam os únicos ou os predominantes. A vida seria muito triste.
Mas também seria muito triste se eles não existissem para nos alertar sobre nossas utopias, especialmente as coletivas, políticas ou ideológicas. Tais pensadores atuam como um importante remédio amargo que preserva ao menos um de nossos pés no chão, para que não abracemos ideais progressistas ingênuos ou perigosos, a partir da crença na perfectibilidade humana.

Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/cultura/o-nietzsche-da-romenia-pessimismo-como-remedio-amargo-contra-utopias/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+rodrigoconstantinoveja+%28Rodrigo+Constantino+-+VEJA.com%29

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