quarta-feira, 21 de maio de 2014

O que é Sociobiologia

Gláucia Oliveira da Silva

        Sociobiologia é o estudo do comportamento social encontrado em várias espécies do mundo animal, incluindo invertebrados - por exemplo, formigas e abelhas - e vertebrados - como certos macacos e os homens. Os sociobiólogos partem do princípio de que o modo de vida gregário é vantajoso para a adaptação dos seres ao meio ambiente. Assim, acreditam que cada indivíduo aja dentro de sua sociedade de forma a aumentar suas próprias chances de sobrevivência e reprodução, bem como a de seus "parentes" próximos.

         Criada pelo biólogo Edward O. Wilson, essa disciplina nasceu nos Estados Unidos, entre o fim da década de 60 e o início dos anos 70. Tendo como inspirador Konrad Lorenz, um cientista famoso, desde a década de 30 por suas pesquisas no campo da etologia - estudo do comportamento animal -, Wilson publicou em 1975 o livro Sociobiologia: a nova síntese, no qual explicitou pela primeira vez os princípios gerais do que acreditava ser a nova ciência. Professor de Harvard, Edward O. Wilson fez adeptos que, ao longo destas décadas, vêm incrementando as idéias iniciais da sociobiologia; entre eles, é importante lembrar Richard D. Alexander, Robert L. Trivers, William D. Hamilton, Wynne-Edwards e Richard Dawkins.

         A sociobiologia surgiu com uma proposta de síntese. Qual seria esta síntese? Precisamente a de unir dois objetos que eram estudados separadamente. A sociologia e a antropologia social tratavam das sociedades humanas, e a biologia, nas suas várias especialidades, estudava os animais irracionais, entre outras questões. Os sociobiólogos começaram a perceber que as sociedades humanas apresentavam muitos aspectos em comum com os agrupamentos estudados pelos zoólogos, como as colméias e os formigueiros. Em resumo, pode-se dizer que a perspectiva básica desta ciência é a de que existam leis comuns orientando o comportamento dos homens e outros animais.

         No Brasil, a ausência de pesquisa nesta área não se deve apenas aos problemas de ordem social ou política com que se defrontam os cientistas brasileiros. Há uma questão de tradição acadêmica que, tanto aqui quanto nos países europeus, mantém afastados os domínios das ciências sociais e biológicas. Nos Estados Unidos existe o intercâmbio entre biólogos, de um lado, e sociólogos e antropólogos, de outro; o que deve ter contribuído para o surgimento e o desenvolvimento da sociobiologia, inicialmente de forma tão localizada na academia norte-americana. O intercâmbio por si só, entretanto, não garante resultados positivos. Tudo vai depender de como os pesquisadores se apropriam do conhecimento produzido nas outras áreas e também do modo como eles adaptam as idéias específicas da sua disciplina aos assuntos estudados tradicionalmente pelos diversos especialistas. No caso dos sociobiólogos, eles tentam compreender os hábitos culturais à luz das leis da genética e da ecologia.

         A sociobiologia não é um corpo teórico uniforme, pois seus participantes divergem algumas vezes na forma de explicar certos comportamentos, como, por exemplo, o homossexualismo e a dominação dos homens sobre as mulheres. Richard Dawkins, eminente sociobiólogo, vai ser uma espécie de advogado do diabo, sempre questionando seus colegas mais experientes. Por isso, ao longo do livro, apresentarei a sua opinião como uma espécie de contraponto àquela da maioria dos sociobiólogos.

         Durante a leitura, talvez você duvide da seriedade da proposta desses cientistas; creia, você não está só. Além de a sociobiologia estar baseada em muitas suposições que não possuem outro suporte senão a convicção pessoal do pesquisador, há também o problema dos raciocínios fáceis e simplificados. Estes, embora muito combatidos e até menosprezados nos meios acadêmicos, exercem um fascínio especial sobre o grande público norte-americano. Tanto é que os sociobiólogos, nos Estados Unidos, são repetidamente convidados a participar de programas de televisão.

         Considero pessoalmente preconceituoso e arriscado tratar a sociobiologia como um delírio, porque, mesmo desprovida de bases consistentes e científicas, ela acaba falando ao coração daqueles que querem reencontrar "sua porção natureza" dentro desta vida urbana e furiosa que grande parte da humanidade acabou adotando. Não que os sociobiólogos sejam necessariamente admiradores da onda ecológica, que em boa hora chega, mas a ênfase na valorização do homem como um ser regido por leis naturais cria condições para que se entenda as duas coisas (sociobiologia e ecologia) como semelhantes. Ao tentarem mostrar como o homem é um ser muito mais próximo dos outros seres vivos do que supõem as ciências, acabam (me desculpe o trocadilho) encontrando eco em meio a este alarme ecológico do qual eu mesma compartilho.

         A sociobiologia tem uma preocupação digna dos maiores elogios, mas faz um caminho desaconselhável a quem quer chegar lá. Contudo, para contestá-la, devemos percorrê-lo e, como os sociobiologistas são espirituosos e até corajosos quando expressam livremente seus preconceitos, você pode confiar que a viagem é agradável.

ALGUNS CONCEITOS DA BIOLOGIA
        Certos conceitos básicos da biologia, freqüentemente utilizados pelos sociobiólogos, estão aqui relacionados. A partir da próxima seção, a presença de um asterisco lembrará a você que, em caso de dúvida, encontrará nesta parte a definição correspondente.

         Os genes são estruturas que se localizam nos núcleos das células, sendo responsáveis por todas as informações biológicas necessárias à constituição de um organismo. A definição do que seja um gene ainda é objeto de discussão entre os biólogos, mas há um certo consenso de que se possa defini-lo como uma unidade responsável pela fabricação de uma proteína específica. Ele é constituído de DNA (ácido desoxirribonucléico), uma substância que tem o poder de autoduplicação. É através da capacidade de síntese protéica que os genes determinam as características de um ser; e, devido à autoduplicação, uma célula transmite às suas células-filhas o mesmo material genético de que dispõe.

         Os genes estão dispostos em cromossomos, isto é, filamentos de DNA que, nos núcleos celulares de muitos organismos, como, por exemplo, o homem, são encontrados aos pares. O conjunto de cromossomos de um ser é chamado genoma; dois cromossomos de um mesmo tipo e, portanto, formando um par, são denominados homólogos. Os genes que se situam no mesmo lugar em cromossomos homólogos, contendo informações para a mesma característica, são denominados alelos. O conjunto de genes que, num indivíduo, rege um caráter, é chamado genótipo; a interação entre a mensagem contida neste genótipo e o meio ambiente é chamada de fenótipo.

         Uma célula pode produzir gametas através do processo de meiose. Os gametas possuem um só representante de cada par de cromossomos homólogos. Esses pares voltarão a ser formados na fecundação quando um gameta se fundir com outro que também não tenha pares de cromossomos e, sim, apenas um representante de cada tipo. Logo, a metade dos genes do novo ser que se forma na fecundação é proveniente da mãe, e a outra metade é herdada do pai. Por este mecanismo um organismo permanece com o mesmo número de cromossomos que cada um dos seus progenitores possui.

         Existe, porém um fenômeno conhecido por mutação, que pode alterar os genes quimicamente e, com isso, acarretar uma mudança na informação de determinada característica. Se o caráter novo, resultante da mutação, vier a aumentar a capacidade de sobrevivência do organismo ou sua capacidade reprodutiva; então, esta nova informação vai se difundir através das gerações. Caso a mutação não seja benéfica e reduza as chances do indivíduo, este gene mutante não tenderá a se espalhar na população.       
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         As idéias do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882)têm grande importância até hoje na biologia. Ele chamou de seleção natural, ou sobrevivência dos mais aptos, ao processo de adaptação dos seres ao meio ambiente. Observou que, em uma população, ou seja, num grupo de indivíduos da mesma espécie e que vivem num certo território, há diferenças genéticas individuais. Conforme o ambiente, certas características são selecionadas e por isso aumentam de freqüência entre eles, uma vez que garantem a seus portadores maior aptidão, isto é, melhores condições de sobrevivência e sucesso reprodutivo.
Uma importante forma de seleção natural é o que Darwin denominou de seleção sexual, através da qual indivíduos possuidores de genes determinantes de traços que os tornam mais atraentes sexualmente deixam maior número de descendentes. Estes traços podem ser, por exemplo, cores mais vivas (no caso de borboletas e aves), cheiro mais ativo (entre percevejos), ou então habilidade de emitir sons peculiares (cigarras, grilos, pássaros).

         As mutações ocorrem ao acaso; isso quer dizer que ao surgir uma nova característica nada indica de antemão se ela é adaptativa ou não ao organismo. É o ambiente onde este novo traço surge que poderá selecioná-lo ou então extingui-lo. Portanto, para o darwinismo, as novas características aparecem aleatoriamente e, com o tempo, os indivíduos que as apresentam são submetidos ao processo de seleção natural empreendido pelo meio ambiente. Essa idéia é bem diferente da que outro naturalista; Jean Baptiste Lamarck (1744-1820), postulava.

         Para Lamarck, o ambiente induziria a mudanças, criando no organismo uma "necessidade" de desenvolver certo traço adaptativo. Há o famoso exemplo do pescoço das girafas, cuja extensão explicava-se pelo uso contínuo de esticá-lo para comer folhas do alto das árvores (lei do uso e desuso). Ainda segundo Lamarck, esse acréscimo de comprimento seria transmitido às gerações seguintes (lei dos caracteres adquiridos). O lamarquismo está muito desacreditado entre os biólogos desde que Darwin criou o conceito de seleção natural. Porém alguns adeptos da sociobiologia aproveitam as leis de Lamarck para defenderem suas idéias, como veremos adiante.

         Quando Lamarck e Darwin construíram suas teorias, os genes eram desconhecidos. Agenética - estudo dos caracteres hereditários e da sua transmissão veio consolidar as formulações darwinistas num corpo teórico conhecido por Teoria Sintética. A ecologia - estudo das relações dos seres vivos entre si e com seu ambiente - já nasceu dentro de uma perspectiva evolucionista nos moldes de Darwin. Os sociobiólogos tomam dela vários conceitos de empréstimo, sobretudo aqueles concernentes aos animais gregários, como, por exemplo, os de colônia e de sociedade.

         Colônias são grupamentos de indivíduos da mesma espécie unidos fisicamente, e com tal grau de interdependência que lhes é impossível viver isolados. Como exemplos, pode-se citar cracas, corais, caravelas etc. As sociedades são grupos de indivíduos isolados fisicamente, com um grau de interdependência bem menor do que aquele existente entre seres coloniais. Vivem em sociedades alguns tipos de insetos (abelhas, formigas, cupins e vespas), mamíferos que andam em bandos, como os elefantes, lobos, macacos, alguns peixes e aves. Os animais sociais mantêm uma comunicação mais intensa entre si do que os não-sociais.

         Familiarizados com esses conceitos, podemos agora saber enfim o que pensam os sociobiólogos.

A SOCIOBIOLOGIA: ASPECTOS GERAIS
        Para a sociobiologia dar conta de uma explicação biologizante das sociedades humanas,isto é, para explicar as instituições sociais (casamento, guerra, religião etc.) como se fossem produto de um condicionamento genético ou do processo adaptativo de certa população, ela precisa dos ensinamentos da biologia e da antropologia social. A predileção dos sociobiólogos pela antropologia, dentre todas as ciências sociais, é devido ao fato de ela ter se dedicado ao estudo dos povos tribais que povoam vários continentes como África, América e Austrália.

         Tais povos, entre os quais enquadramos as nações indígenas do Brasil, são ainda considerados "primitivos" até mesmo por pessoas esclarecidas, incluindo certos antropólogos. Mas a grande maioria destes já se convenceu de que avaliar as sociedades conforme seu grau de evolução tecnológica é uma maneira tendenciosa de interpretar os grupos humanos. É, na verdade, mais um julgamento do que uma tentativa de entender as várias formas que os homens inventaram para conviver socialmente.

         Os sociobiólogos acreditam que os povos a que se denominam "primitivos" podem auxiliar muito na compreensão das sociedades que prevaleceram na pré-história. Para eles, é como se as sociedades tribais fossem uma "sobrevivência" inalterada - ou quase dos grupos de caçadores-coletores que existiram nos primórdios da humanidade. Mas a maioria dos antropólogos afirma que qualquer sociedade tribal está tão afastada da Pré-história quanto as sociedades industrializadas e que o fator diferenciador são seus respectivos valores culturais; não o acúmulo de tecnologia em si, já que este constitui um valor cultural específico e não universal ou obrigatório. Portanto, fica claro que, relativamente à comparação entre sociedades tribais e pré-históricas, apenas alguns antropólogos estão de acordo com os sociobiólogos.

         As análises da sociobiologia não dizem respeito somente às sociedades tribais; estendem-se também às sociedades complexas. A extensão é decorrência da visão sociobiológica que considera estas como produtos hipertrofiados daquelas. Assim, as características mais simples da "natureza humana" estariam escondidas sob as complicadas instituições das sociedades industrializadas.

         O conceito de natureza humana é visto com desconfiança pelos cientistas sociais. O que seria natureza humana? Um conjunto de instintos? Algumas tendências psicológicas universais? Hábitos culturais presentes em todas as sociedades? Você, leitor, pode ter a sua opinião e cada cientista também, mas o certo é que atualmente nada além de uma opinião pode ser expressa sobre o assunto. Atribuir ao termo natureza humana um status científico é, portanto, arriscado. E isso é mais uma questão discutível dentro da sociobiologia, que entende haver uma natureza humana visível no comportamento social do homem, sendo que tal natureza o aproxima de outros animais também sociais.

         Exemplificando o raciocínio dos sociobiólogos, pode-se mencionar os fenômenos sociais conhecidos como nacionalismo e racismo. São fatos complexos, trazendo freqüentemente resultados nefastos para o mundo, que a sociobiologia acredita constituírem-se nos descendentes modernos de um tribalismo ancestral. Explicando melhor, haveria uma origem comum aos movimentos de defesa da tribo e seu território e os contemporâneos fenômenos nacionalistas e racistas. Essas manifestações sociais são comparadas àquelas exibidas por grupos de mamíferos que vivem em bando e demarcam seus territórios, agredindo instintivamente os invasores. A "natureza humana", este conceito por demais complexo, porque se ignora como e onde se realiza, acaba sendo uma natureza não-humana, nada específìca aos homens, passível de ser encontrada no comportamento animal gregário, que, para os sociobiólogos, é constituído por quatro componentes básicos: o altruísmo, o egoísmo, a agressão e a conduta sexual.

         Os sociobiólogos, entretanto, não concordam quanto ao peso de cada componente no somatório geral que é o comportamento. Os seres sociais são mais altruístas ou mais egoístas? A sociobiologia se divide para responder à pergunta, porque esta questão depende da definição dada pelo cientista sobre como atua a seleção natural. Há sociobiólogos que consideram a seleção natural como um agente que opera sobre o grupo (espécie, população, parentela): acreditam, portanto, que o altruísmo seja um importante motivador das condutas sociais. Se a seleção natural age no sentido de preservar ou extinguir um grupamento, então os indivíduos, ao auxiliarem-se altruisticamente, aumentam as chances de sobrevivência e crescimento de todo o grupo.

         Os que consideram que a única forma de seleção possível é a individual passam a ver no egoísmo o móvel básico dos comportamentos sociais. Os adeptos da seleção do indivíduo partem do princípio de que a unidade concreta é o organismo individual. Exemplificando, para ocorrer uma diminuição ou aumento da taxa de natalidade de uma população, faz-se necessário que cada animal individualmente se reproduza com menor ou maior velocidade. Por isso, sociobiólogos como Dawkins acham impossível que o meio ambiente direcione pressões seletivas ao grupo, que seria um conjunto virtual de indivíduos reais. Acreditam ainda que os membros de uma sociedade buscam a sua própria sobrevivência, mesmo que para isto prejudiquem seus companheiros de espécie. Em outros termos, pensam que, se a seleção age apenas no sentido de preservar ou eliminar os indivíduos, então, cada um deles estará melhor adaptado à medida que for mais egoísta.

         Finalmente, há os sociobiólogos que concebem a seleção natural como uma força orientada para o indivíduo, mas aceitam variações nesta regra e admitem certas formas de seleção de grupo; embora enfatizem o egoísmo, criam fórmulas que englobam também o altruísmo como motivador do comportamento em sociedade. Pensam que, se a seleção natural age principalmente sobre os indivíduos, estes devem ter uma conduta marcada majoritariamente pelo egoísmo, isto é, pelo autobenefício, mesmo que isso acarrete o prejuízo dos outros companheiros; porém, se a seleção pode atuar também, em casos especiais, sobre grupos, então, os indivíduos devem se comportar em certos momentos de forma altruística, auxiliando outros membros, mesmo que resulte em drástico prejuízo para o autor do feito beneficiador.

         Os sociobiólogos concebem os genes como controladores do comportamento social e, por isso, da organização e do funcionamento das sociedades. É comum considerarem as condutas e os hábitos das sociedades como fenótipos. Mas uma característica genética não é algo imutável. A sociobiologia aceita que o comportamento seja influenciado pelos estágios da vida do indivíduo, pela densidade populacional e pelo meio ambiente. Por exemplo, uma sociedade pode ter o índice de agressividade entre seus membros aumentado em momentos de escassez de alimento, provocada tanto por fatores ambientais quanto pela explosão demográfica; como também um indivíduo é capaz de tornar-se bastante agressivo numa fase especial de sua vida que é a adolescência. Logo, conclui a sociobiologia, a organização social, bem como o comportamento são passíveis de serem tratados como "órgãos" de alto valor adaptativo.

         Admitindo que os genes estão por trás das condutas sociais, a maioria dos sociobiólogos neutraliza a oposição entre inato e adquirido. A idéia, comum entre os geneticistas, de que todo o caráter geneticamente determinado traz na sua expressão uma dimensão do meio ambiente, está na base da definição de fenótipo. A altura de um indivíduo, por exemplo, é o resultado da expressão do seu genótipo, sob a influência de um certo ambiente (que inclui alimentação, exercícios físicos, agentes patogênicos etc.). Os sociobiólogos aproveitam este viés e negam uma dicotomia entre comportamentos inatos e adquiridos, postulando uma interação: toda conduta reflete determinação genética e influência ambiental.

         Os sociobiólogos criticam, então, tanto geneticistas de renome, que negam a ação dos genes sobre os hábitos culturais, quanto certas correntes da psicologia que reduzem o comportamento humano (incluindo aí práticas sociais) a respostas condicionadas ao ambiente e desprezam a bagagem genética. Para a sociobiologia, as semelhanças comportamentais entre o homem e outros mamíferos, especialmente os primatas - a agressividade, o controle das fêmeas pelos machos, os cuidados paternais prolongados, a territorialidade, entre outras -, servem como evidências de que há um componente genético nas condutas sociais das espécies.

         Os sociobiólogos não acreditam que a grande diversidade das formas sociais humanas possa invalidar a sua pressuposição de que os genes estão por trás dos padrões culturais de comportamento. Apenas uma minoria entre eles desconfia da possibilidade de uma sociobiologia aplicada ao homem. Eles explicam que a alta variabilidade dos costumes mostra a função adaptativa da cultura em relação ao meio ambiente. Atribuem a possibilidade da variedade apresentada pelas culturas às condutas individuais. Os genes que promovem tal maleabilidade do comportamento social sofrem os efeitos da seleção natural, atuante sobre o organismo individual, garantindo à espécie humana suficiente potencial de sobrevivência.

         Ilustrando, a sociobiologia acredita que, se o cérebro cresceu sob a pressão da seleção natural, então, opiniões estéticas e morais podem ter sua origem neste mecanismo adaptativo. Em outros termos, partindo-se da hipótese amplamente aceita pelos biólogos segundo a qual o ambiente favoreceu a sobrevivência dos homens primitivos dotados de cérebros mais complexos e, logo, mais hábeis e inventivos, então algumas normas morais e estéticas podem ter sido mantidas por serem úteis à preservação da humanidade como espécie. Contudo, mesmo se a sociobiologia tivesse como provar a existência desse mecanismo, não há evidência nenhuma de que existam idéias ou costumes determinados por genes.

         Os sociobiólogos criticam a prática comum às ciências sociais de criar uma ruptura entre as sociedades humanas e as de outros animais. Tal corte seria nada mais do que um vício antropocêntrico que impediria a assunção da existência de dispositivos naturais determinantes dos mais diversos costumes culturais. Eles lembram que não só os homens, mas também os chimpanzés têm capacidade de simbolização, possuindo estes uma "cultura rudimentar" que inclui o uso de ferramentas e invenção - transmissão - de técnicas. Comparam as sociedades humanas com as das formigas, insistindo que entre estas há presença da linguagem, da ética, do canibalismo, da cosmologia, dos cuidados com a prole, das creches comunais e da utilização de calendários.

         Os sociobiólogos comparam também costumes da Índia pré-colonial e algumas espécies de aves e mamíferos. Observam que a hipergamia, isto é, a prática feminina do casamento com homens das camadas mais ricas da sociedade, bem como a prática do infanticídio feminino nas castas mais altas eram tão comuns na Índia quanto, entre aves e mamíferos, é banal machos grandes e saudáveis acasalarem-se com maior freqüência do que os menores e mais fracos. Consideram duas formas de ascensão social, baseadas na seleção natural, ou seja, vencem e reproduzem-se os mais aptos.

         A sociobiologia tem motivos para acusar os cientistas sociais de antropocentrismo, pois eles realmente não levam em conta que o homem é regido também por leis biológicas. Os sociobiólogos, na ânsia de superação do antropocentrismo, acabam tornando-se descuidados com o uso de conceitos. E não se pode deixar de considerar que entre um organismo biológico e uma sociedade, tal como a humana, existe muita diferença. Ocorre que se atribui o termo canibalismo, tanto ao ato de uma formiga devorar outra quanto ao fato de, em certas sociedades tribais, realizar-se a ingestão ritualizada de seres humanos. Contudo ambos os procedimentos, englobados sob o mesmo título, não possuem as mesmas razões: explicando-se o canibalismo entre formigas, escusa-se entender esta prática entre os homens e vice-versa.

         A seguir, veremos exemplos utilizados pelos sociobiólogos na ilustração de suas convicções acerca dos modos de atuação da seleção natural.

O CASO DO GENE EGOÍSTA
        Como já foi dito, a sociobiologia abriga três correntes de opinião diversas sobre como age a seleção natural. Vários tipos de condutas entre os animais são lembrados pelos adeptos da seleção de grupo para ilustrá-la. Pensam que somente esta forma de seleção poderia ser capaz de explicar o funcionamento de sociedades de insetos como, por exemplo, uma colméia, onde há apenas uma fêmea fértil, denominada rainha, e um altíssimo número de fêmeas estéreis (operárias), que, altruisticamente, dedicam-se de maneira plena aos cuidados com a reprodutora e as larvas em desenvolvimento nas celas. Em termos genéticos e fisiológicos, rainha e operárias têm o mesmo potencial reprodutivo; o que determina a fertilidade é uma superalimentação que só a primeira obtém, graças aos esforços das outras. As operárias, embora estéreis, são fundamentais pelo seu altruísmo à manutenção da colméia como um todo.

         Para os partidários da seleção de grupo, o grau de benefício rendido ao grupo só pode ser explicado por esse tipo de relação altruísta; é o que ocorre, por exemplo, entre aves e mamíferos: um indivíduo, ao perceber a presença de um predador, lança um grito de aviso aos companheiros próximos, arriscando-se a ser presa fácil, já que, com o gesto, chamou a atenção do inimigo sobre si. Argumentam também que a seleção de grupo favorece as populações em que as fêmeas ajustam suas taxas de natalidade de modo que a reserva de alimento não fique ameaçada. Mas essas hipóteses caíram no descrédito à medida que outras explicações foram sendo dadas para os mesmos fenômenos, buscando evidenciar a seleção individual. Os adeptos desta última formularam uma pergunta que atrapalhou seus oponentes: como os genes para altruísmo se espalham numa população se seus portadores são os mais sacrificados?

         O sociobiólogo R. Dawkins considera que os genes alelos são rivais e que competem pela sobrevivência. Ele considera os genes como partículas egoístas porque criam estratégias para aumentar sua proporção no conjunto de genes da população. Os genes são potencialmente imortais, e o indivíduo, sua "máquina de sobrevivência", passa a ser encarado como uma confederação efêmera de genes duradouros. Este indivíduo é o veículo através do qual os genes se propagam. As células e os cromossomos também são seus veículos, mas é o organismo individual que pode ser considerado o mais coerente e importante unidade de seleção. Este cientista pondera que uma população não é uma unidade suficientemente isolada de outras para sofrer uniformemente a seleção natural, e nem é estável o bastante para ser selecionada em detrimento de outra população.

         Todos os fatos explicados pelos defensores da seleção de grupo, segundo Dawkins, também podem ser interpretados à luz da sua teoria do gene egoísta. Por exemplo, as fêmeas que possuem a capacidade de regular suas taxas de natalidade estariam longe de abdicar altruisticamente de ter um maior número de filhotes, para assegurar o bem-estar e a possibilidade de sobrevivência da população num ambiente superpovoado. Estariam antes maximizando o número de filhotes sobreviventes que venham a ter, evitando assim a exploração excessiva de suas possibilidades. Em outros termos, evidencia-se que seria um desperdício chocarem muitos ovos se a possibilidade de sobrevivência, em condições de escassez de alimento, decresce.

         Para Dawkins não existem atos altruístas. O exemplo do indivíduo que se arrisca ao dar o grito de alerta também é questionado por ele, uma vez que vários estudos mostraram que o som emitido tem propriedades acústicas que o tornam altamente perceptível pelos organismos da mesma espécie é muito pouco detectável por seres incapazes de emiti-lo.

         Um dos grandes problemas dos sociobiólogos é explicar como os animais (racionais ou não) desenvolveram uma percepção tão fina e sofisticada das alternativas de maximizar sua sobrevivência e reprodução. Dawkins discute a questão a partir da teoria denominada "Estratégia Evolutiva Estável" (EEE), segundo a qual os animais seriam organismos aptos a fazer avaliações simples de situações de vida, tais como acasalamento e disputa por comida ou território, levando em conta os possíveis benefícios e prejuízos resultantes das condutas adotadas. Dawkins não quer dizer que seja um processo consciente, mas sim geneticamente determinado. Exemplifica ricamente a idéia com tipos de ordens codificadas no genótipo e que poderiam desencadear um comportamento maximizador no animal, sem que isto seja um procedimento consciente. Um deles é o da disputa conhecida por guerra de desgaste, onde os rivais não se agridem, apenas mantêm-se firmes fitando o oponente até que ele desista. Dawkins, em seu livro O gene egoísta, ilustra:

         “Nenhum animal, obviamente, pode-se permitir gastar um tempo infinito ameaçando. Há coisas importantes a fazer em outro lugar. O recurso pelo qual ele está competindo talvez seja valioso. (...) O tempo é a moeda corrente deste leilão de dois licitantes. ‘Obviamente é de importância vital na guerra de desgaste que os indivíduos não dêem indicação de quando desistirão. Qualquer um que revelasse pela mais leve agitação de uma vibrissa que estava começando a pensar em entregar os pontos teria um instante de desvantagem. Se o agitar de uma vibrissa, por exemplo, fosse uma indicação confiável de que a retirada se seguiria dentro de um minuto, haveria uma estratégia de vitória muito simples: se as vibrissas de seu oponente se agitarem, espere mais um minuto, independente de quais sejam seus planos prévios sobre desistência. Se as vibrissas de seu oponente ainda não se agitaram e falta um minuto para o instante no qual você pretende desistir de qualquer forma, desista imediatamente e não perca mais tempo. Nunca agite suas próprias vibrissas'. A seleção natural, assim, rapidamente puniria o agitar de vibrissas e quaisquer indicações análogas de comportamento futuro. A expressão impassível evoluiria”.

         Dawkins construiu um modelo explicativo, com base matemática, para um tipo de comportamento ditado geneticamente. Mas esta explicação parte do princípio de que a lógica da natureza é a mesma do empresário capitalista. Assim, os animais não podem perder tempo, que seria a "moeda corrente" no jogo dos seres vivos. Este esquema só faz sentido se admitirmos que a natureza opera segundo uma lógica parecida com a das sociedades industrializadas. E se os organismos não forem esses maximizadores por excelência, que estão sempre tentando ganhar tempo, procriar e se alimentar em condições ótimas para obter os melhores resultados? Neste caso, o modelo de Dawkins é falho.

ABELHAS OPERÁRIAS:
EXEMPLO DE ALTRUÍSMO?
        Muitos sociobiólogos, mesmo acreditando que o egoísmo seja a base mais importante do comportamento social e considerando a seleção do indivíduo a força motriz da evolução, acabam explicando a conduta dos membros de uma colméia como um caso de altruísmo favorecedor da seleção de grupo. A exceção feita às abelhas está justificada por dois conceitos: o de aptidão inclusiva e o de seleção de parentes; ambos aplicados às sociedades de insetos e, posteriormente, às humanas.

         Para uma definição da aptidão inclusiva, é importante que se tenha em mente que o conceito de aptidão genética, utilizado na biologia, refere-se à chance de um indivíduo ter seus genes representados, em proporção maior, na geração seguinte à sua. É, em outras palavras, a vantagem diferencial de um indivíduo sobre outros, devido às suas características hereditárias. A aptidão inclusiva é a aptidão de um indivíduo juntamente com a influência dessa mesma aptidão sobre seus parentes que não sejam seus descendentes diretos. Segundo este raciocínio, a aptidão inclusiva é a motivação do altruísmo entre parentes. Considere-se que, para o ego, vale a pena ser altruísta com seus parentes porque eles transmitirão cópias de seus genes.

         Os biólogos, apoiando-se em cálculos estatísticos, sabem que um indivíduo compartilha metade de seus genes com sua mãe e outra com seu pai. Para o irmão desse indivíduo podemos raciocinar da mesma forma e concluir que irmãos compartilham em média metade de seus genes. A quantidade de genes compartilhados por dois parentes é denominada coeficiente de parentesco. Entre irmãos e entre pais e filhos, ele é de 1/2. Entre um tio e seu sobrinho, é de 1/4, entre primos de primeiro grau, 1/8, e entre primos de segundo grau, é de 1/16. A seleção de parentes age, segundo os sociobiólogos, aumentando as chances de um indivíduo que é altruísta com seus parentes, já que a transmissão de seu conjunto genético pode ser feita também por eles. Por exemplo, arriscar a própria vida em prol de mais de dois irmãos ou mais de quatro primos de primeiro grau pode ser muito vantajoso do ponto de vista da seleção natural, porque é um meio de preservar a própria herança genética.

         Entre as abelhas, devido à forma de reprodução dos insetos sociais, as fêmeas são muito mais aparentadas com suas irmãs (3/4) do que com sua mãe e virtuais filhas (1/2). Geneticamente é mais vantajoso que as operárias reúnam esforços para auxiliar sua mãe (rainha) a produzir mais irmãs do que apostarem na própria reprodução. Pelo menos é o que afirmam os sociobiólogos que explicam pelo altruísmo o funcionamento da colméia.

         Todos esses cálculos, rigorosamente certos, vistos de uma ótica matemática, são altamente criticáveis quando utilizados para explicar o comportamento humano. A sociobiologia faz grande confusão entre relações biológicas e relações de parentesco. Mas neste ponto a antropologia social pode ajudar a desfazer o mal-entendido.

         Os antropólogos sabem que cada sociedade humana possui uma forma de designar e tratar aquelas pessoas que consideram "parentes", isto é, relacionadas através de vínculos específicos. Nem sempre esta forma coincide com os laços biológicos, o que não quer dizer que este sistema de organizar a parentela seja falso. Significa apenas que os critérios considerados para a determinação de quem são parentes variam. Um exemplo clássico é o da diferenciação feita em algumas sociedades tribais entre primos cruzados (ou seja, filhos do irmão da mãe e filhos do irmão do pai) e primos paralelos (filhos do irmão do pai ou da irmã da mãe). O casamento entre primos cruzados é aconselhado; entre primos paralelos é proibido, por ser considerado incestuoso. Do ponto de vista genético, que é a base para a determinação do parentesco na sociedade ocidental, não há sentido em se classificar de incestuosa a ligação de alguém com a filha do irmão de seu pai, ao mesmo tempo em que se aprova o casamento desta mesma pessoa com a filha do irmão de sua mãe. Esta distinção, porém, garante o bom funcionamento de tais sociedades.

         Enquanto os antropólogos admitem que os laços de parentesco são construídos socialmente, podendo ou não haver coincidência com as relações genéticas, os sociobiólogos só levam em consideração os vínculos biológicos, os quais denominam "verdadeiros". Assim, sem discernir o parentesco, como algo socialmente estipulado, das ligações genéticas existentes entre seres humanos, a sociobiologia aplica o raciocínio desenvolvido para explicar as abelhas em uma colméia às sociedades tribais; aqui, a solidariedade entre parentes próximos passa a ser vista como um mecanismo geneticamente determinado visando à sobrevivência frente às pressões seletivas do meio ambiente.

         Dawkins, por exemplo, critica os antropólogos e estudiosos do parentesco em sociedades tribais porque, segundo ele; não se restringem ao parentesco "verdadeiro" (ou seja, biológico) e terminam por levar em consideração as explicações nativas, desenvolvendo proposições "subjetivas" a respeito delas. Critica também aqueles colegas que interpretam o comportamento dos insetos sociais como altruísta. Para ele um ato de altruísmo é sempre fachada para uma perspectiva egoísta inerente aos genes. Uma conduta altruísta em relação a um não-parente pode ser visto ou como produto do reconhecimento de que o indivíduo ajudado possui genes altruístas (o que só pode ser admitido se tal indivíduo tiver sido observado praticando um benefício anteriormente); ou como resultado de uma avaliação baseada na maximização, conforme o que preconiza a EEE. Como para Dawkins a seleção de grupo não existe, considera que a seleção de parentes é a aparência do egoísmo genético. Acha que a reciprocidade entre abelhas e entre quaisquer seres não ocorre em prof da "família", mas visando à manutenção de alguns genes no conjunto genético da espécie.

         Aos sociobiologistas como Dawkins, que não acreditam existir um mecanismo natural altruísta puro, sem que se espere recompensa, fica difícil explicar um comportamento como a adoção, prática difundida entre vários animais. Para isto, ele tem duas explicações possíveis: a primeira seria a de que as mães adotivas estariam se beneficiando ao adquirirem prática na arte de criar prole; a segunda, que parece ser a que mais o satisfaz, é a de que seria a adoção uma falha, mas um erro que ocorre tão raramente que a seleção natural se "preocupou em mudar a regra".

         Apesar de Dawkins divergir muitas vezes de seus colegas, ele parte de premissas bem aceitas entre os sociobiólogos. Para exemplificar, vamos retomar aquela crítica direcionada aos antropólogos que estudam o parentesco. Dawkins reclama que a antropologia leva a sério distinções nativas entre primos cruzados e paralelos que, a seu ver, são subjetivas. O que para ele é subjetivo, para os antropólogos é cultural. É a cultura de cada povo que torna as sociedades diferentes uma das outras e faz do termo humanidade algo tão complexo de ser definido e impossível de ser julgado na sua totalidade sem que se cometam injustiças.

         Considerar verdadeiro o sistema de parentesco baseado nos laços biológicos, englobando outras formas se conceber a parentela como falsas, porque não apóiam nos critérios estabelecidos pela biologia, é a visão típica de quem ainda aceita o conhecimento científico como a única fonte de verdade possível. A antropologia tem aprendido humildemente que outros povos desenvolveram formas de pensar e entender o mundo diversas daquela a que estamos acostumados chamada sociedade ocidental. Essas formas nada têm de científicas, mas são válidas para as populações nas quais são aceitas como verdadeiras; será uma atitude científica menosprezá-las?

O EGOÍSMO ESCLARECIDO
        Em sociobiologia, denomina-se manipulação parental ao conjunto de mecanismos desenvolvidos pelos pais para forçar um filho a ter um comportamento altruísta em relação a seus irmãos. Entre os exemplos, é mencionada a prática do canibalismo, tanto em vertebrados superiores (nos quais os filhos raquíticos são devorados pelos irmãos mais saudáveis ou pela mãe que, amamentando, distribui entre os filhotes a matéria daquele que foi devorado), quanto entre seres humanos, mais exatamente os aborígines australianos que "sacrificam caçulas para alimentar os mais velhos". O filósofo e simpatizante da sociobiologia Michael Ruse faz um interessante comentário sobre esta forma de canibalismo; afirma que há uma contradição em se chamar de altruísta um comportamento obtido sem espontaneidade por parte do sacrificado. Tanto o caso dos filhotes raquíticos que servem de alimento aos saudáveis quanto o costume atribuído aos aborígines não exemplificam situações altruístas.

         Outro exemplo de manipulação parental, que os sociobiólogos usam sem constrangimentos, seria o que afirmam ocorrer em meios rurais de vários países, nos quais a família, para evitar o desmembramento de uma fazenda, insiste com os filhos mais novos para desistirem da sua parte, induzindo-os a não se reproduzir e levando-os a seguir carreiras sacerdotais. Uma outra maneira de evitar a reprodução dos filhos seria a indução (inconsciente) destes pelos pais ao homossexualismo.

         Além dessas formas de altruísmo um tanto forçado, há também na sociobiologia o que se convencionou chamar de altruísmo recíproco, que significa a troca, realizada com um intervalo de tempo determinado entre a primeira ação beneficiadora e a segunda, de atos altruístas entre dois indivíduos. Também denominado egoísmo esclarecido, essas atitudes são encontradas, por exemplo, entre pombos, quando catam parasitas da pele de um companheiro, ou entre pessoas, numa situação de afogamento, quando uma salva outra na expectativa de que, se a situação fosse a inversa, receberia o mesmo tipo de ajuda.

         Na sociobiologia parece haver uma regra que atribui a cada filho altruísta um pai egoísta. Pelo menos é o que sugere o conceito conhecido por investimento parental. Sob este título compreendem-se as condutas que são dirigidas à prole a fim de proporcionar um aumento tal das suas chances de sobrevivência, que compense o fato de o progenitor não estar cuidando de uma outra prole virtualmente seguinte àquela. Geralmente são as fêmeas que investem mais desde a concepção. De acordo com a sociobiologia, o investimento parental pode explicar a grande aversão do homem à esposa adúltera, observada "inclusive entre povos primitivos como os bosquímanos do Kalahari e aborígines australianos", justamente pelo fato de não ser interessante investir numa prole que não carregue seus genes. Por outro lado, há vantagem para o homem que foi o motivo do adultério porque poderá aumentar sua descendência sem investimento.

         Dawkins afirma que a hipótese do investimento parental é consistente com sua proposta de gene egoísta. Nessa ótica, analisa a menopausa como um fenômeno benéfico para a difusão do genótipo de uma fêmea porque, se ela orientasse toda a sua vida para reprodução, o organismo envelhecido começaria a utilizar óvulos desgastados, e conseqüentemente produzir filhotes defeituosos, não valendo a pena tal investimento. Assim, as avós que cuidam de seus netos estão somente praticando uma forma de investir em seus próprios genes muito mais vantajosa do que continuar engravidando.

         O desmame também integra o conjunto de casos das condutas classificadas como investimento parental porque é considerado uma etapa na vida da mãe e do filhote caracterizada pela avaliação de que amamentar não é mais proveitoso, em termos de manutenção de seus próprios genes. O desmame permite à mãe reiniciar novo período reprodutivo e, ao filho, alimentar-se adequadamente às novas condições físicas impostas pelo crescimento de seu organismo.

         A interrupção do aleitamento, mesmo sendo positiva, nesta etapa, para ambas as partes, provoca conflitos porque em geral o filhote não aceita de bom grado o desmame. Dawkins explica que os filhos tendem a ser egoístas, exigindo muitas vezes dos pais mais do que precisam na realidade; lembra que este comportamento é adaptativo; e acrescenta que, se há uma moral humana a ser estabelecida e se ela inclui o altruísmo, deve ser ensinada, já que não se pode esperar comportamentos altruístas determinados geneticamente.

         A natureza, tal como ela é percebida pelos sociobiólogos, não determina apenas os conflitos entre pais e filhos ou entre irmãos que competem pelos cuidados dos pais. Há disputas entre os parceiros sexuais também, embora se revele uma tendência à cooperação, uma vez que tanto o pai como a mãe estão interessados no bem-estar das (diferentes) metades genéticas que compõem cada uma de suas crias. A fêmea investe geralmente mais do que o macho em sua prole; a começar pelo tamanho do gameta, pois os óvulos são bem maiores que os espermatozóides. Aliás, para Dawkins esta é a base do que se convencionou chamar de "dominação masculina sobre as mulheres". As fêmeas de mamíferos, uma vez que investem durante meses pesadamente na prole, preferem continuar a fazê-lo após o nascimento, para ter seu esforço compensado e os benefícios genéticos. O macho, tendo participado apenas com células diminutas, perde muito menos se deixar a prole jogada à própria sorte.

         Toda esta argumentação leva Dawkins a criar dois modelos explicativos, para os conflitos que admite existirem entre parceiros sexuais, que recebem títulos bem descontraídos: o da falsa tímida, protagonizada pelas fêmeas, e o do machão, obviamente desempenhado pelos machos.

         Se o mais interessante do ponto de vista genético é reproduzir o máximo possível, os cuidados com a prole serão uma "perda de tempo" para ambos os pais e, como muitas vezes torna-se impossível para a fêmea (sobretudo entre aves) cuidar da prole sozinha, é interessante para ela conseguir a ajuda do macho. A técnica da falsa timidez, caracterizada pela não aceitação imediata do macho, vem justamente para que, através da exigência de um período longo de corte, a fêmea possa avaliar quão "paciente" é o seu parceiro. Quanto mais paciente ele for, mais provável que ele esteja disponível ao auxílio com a prole. Isso requer que o macho tenha ambos os potenciais geneticamente determinados e que, pela seleção natural as unidades genéticas condicionadoras de ambos os comportamentos (disponibilidade para a corte demorada e para o cuidado com a prole) estejam sempre juntas no organismo.

         A técnica do machão está ligada ao conceito de seleção sexual criado por Darwin. Dawkins interpreta essa idéia à luz da teoria do gene egoísta, afirmando que a fêmea escolhe os melhores genes para associá-los aos seus. Portanto, os machos mais viris, que lutam bem com seus rivais, ou os mais exuberantes, que levam vantagem sobre os outros por chamarem a atenção do sexo oposto com detalhes físicos atraentes, deixam maior prole justamente porque são preferidos pelas fêmeas.

COMPORTAMENTO SEXUAL E COMPORTAMENTO AGRESSIVO
        
Segundo a sociobiologia, se vale a pena para os machos serem agressivos com seus rivais e volúveis em relação às fêmeas, tentando assim maximizar sua prole através de várias parceiras, para as fêmeas, a conduta mais vantajosa é a do acanhamento, através da qual tentam discriminar os machos mais volúveis dos mais dispostos à solidariedade. Esse modelo é estendido à espécie humana na qual os sociobiólogos acreditam haver dois tipos de temperamentos associáveis aos dois sexos: as mulheres seriam passivas e menos agressivas do que os homens por uma questão física, o que explicaria a denominada "dominação masculina universal".

         Como já foi comentado, Dawkins prefere compreender esta dominação tão difundida a partir da idéia de investimento parental. Ele afirma que, se a fêmea investe mais, não pode ser muito volúvel. Observa também que não se deve estender mecanicamente características das sociedades naturais às humanas porque há certas inversões entre as duas, pelo menos no que diz respeito aos papéis masculino e feminino. Exemplifica comentando que, na natureza, o macho é mais vaidoso e mais vistoso do que a fêmea, enquanto os homens (em geral) são menos vaidosos que as mulheres; além disso, na natureza, as disputas ocorrem entre machos por uma fêmea, mas, entre os homens ocidentais modernos, estes tornam-se o sexo procurado, ainda que o espirituoso Dawkins declare não saber o motivo disso.

         Outra hipótese amplamente aceita na sociobiologia, mas que os próprios sociobiólogos observam que está alicerçada em bem poucos fatos, é que a "família humana" (presumivelmente, trata-se da família monogâmica) teve sua origem na adaptação a condições ambientais peculiares. Esse pressuposto fundamenta-se no comportamento de alguns primatas (sagüis e gibões) que se organizam em grupos familiares superficialmente parecidos com os da espécie humana. Pares de adultos acasalam-se para toda a vida e cooperam para criar a prole até à maturidade. Os zoólogos acreditam que os ambientes especiais das florestas, nos quais essas espécies habitam, conferem vantagem de sobrevivência aos que partilham de vínculos sexuais duradouros e da estabilidade familiar. A união monogâmica, na sociobiologia, é vista como fruto de um mecanismo de altruísmo recíproco entre os membros de um casal. Parte do princípio de que era vantajoso que cada mulher do bando de caçadores assegurasse a lealdade de um homem que contribuiria com carne e peles, ao mesmo tempo em que compartilharia o trabalho de criação dos filhos. Deve ter sido reciprocamente vantajoso para cada homem obter direitos sexuais exclusivos sobre uma mulher e monopolizar sua produtividade econômica.

         Dawkins admite que possa existir uma base genética para a promiscuidade dos homens e a monogamia das mulheres, já que isto é plenamente previsível do ponto de vista evolutivo, ou seja, é compreensível pelas suas hipóteses do "machão" e da "falsa tímida". Mas afirma que, para essas tendências vigorarem ou não em certa sociedade, detalhes culturais e ecológicos influenciarão decisivamente.

         Também encontra ressonância entre os sociobiólogos a idéia de que o tabu do incesto traz vantagem adaptativa. Acreditam que haja uma exclusão automática dos vínculos sexuais entre indivíduos que previamente compartilhavam de outros tipos de relações em que permaneciam juntos durante muito tempo. Surge, então, o que chamam de sentimento visceral de repulsa ao incesto. A origem deste sentimento estaria nos resultados nefastos (filhos defeituosos) de casamentos incestuosos. Com o tempo, a observação de que o endocruzamento não era proveitoso do ponto de vista da seleção natural, já que originava descendentes pouco aptos, passou para o plano inconsciente, e a repulsa psicológica se transformou na explicação objetiva para o tabu.

         Para Dawkins, devido a maior participação das fêmeas no cuidado com os filhos, deve-se esperar que elas sejam mais rígidas na observação do tabu do que os machos, uma vez que, para elas, seria um prejuízo ainda maior do que para os parceiros investir numa prole defeituosa. Então, raciocina que geralmente sendo o autor da iniciativa o parceiro mais velho, o incesto entre pai e filha deve ser mais comum do que entre mãe e filho.

         O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss estudou a fundo o problema do incesto. Ele discorda totalmente da visão que defende o tabu do incesto como conseqüência da observação de seus resultados prejudiciais, conforme acreditam os sociobiólogos. Entre os australianos, há uma rica coleção de crenças que previam monstruosidades na descendência dos que desrespeitassem o tabu. Porém, eles não classificavam o casamento entre tio-avô e sobrinha-neta como incesto e, portanto, esta união era permitida sem problemas. Tal atitude torna incoerente a pressuposição de que este povo proibia certas ligações sexuais por ter observado na prática seus efeitos negativos. Lévi-Strauss ainda atenta para ó fato de que, seguindo-se os ensinamentos da biologia atual, conclui-se o contrário: o perigo contemporâneo dos casamentos consangüíneos é devido à ausência da prática promíscua na humanidade desde seu surgimento. A promiscuidade exporia logo muitos genes prejudiciais à seleção natural, tornando o casamento sem interdições tão adaptativo quanto o é entre todas as espécies vivas que não desenvolveram o tabu.

         No entender dos sociobiólogos, a agressividade e o sexo são componentes comportamentais que se encontram associados em determinadas situações, como, por exemplo, na seleção sexual. Além disso, a agressão é fundamental para a sobrevivência das espécies sociais porque, através dela, obtêm-se alimentos e conseguem defender seus territórios, os filhotes e a si próprios. Consideram as guerras um hábito cultural que expressa uma técnica de agressão que difere das manifestações individuais e difusas apenas por serem mais organizadas.

        Há sete modalidades de agressão que podem ser estabelecidas:
1. defesa e conquista de território;
2. afirmação da dominância de grupos hierarquizados;
3. agressão sexual;
4. atos de hostilidade, incluindo o desmame;
5. agressão contra presas;
6. contra-ataques;
7. pressão moralista e disciplinadora da sociedade.
        Já foi comentado que os sociobiologistas vêem o racismo e o nacionalismo como hipertrofias da noção de territorialidade, característica marcada pela conduta agressiva. Admitem que o estudo do comportamento territorial humano esteja muito incipiente e afirmam ser bastante saber que os caçadores-coletores são agressivos na defesa de seus territórios, para se concluir que tal conduta não difere fundamentalmente daquelas de outros animais, com claro valor adaptativo.

         Advertem que formas específicas de violência organizada, como torturas, caça a cabeças entre sociedades tribais, duelo entre heróis etc., não são herdadas geneticamente. Mas admitem que a predisposição genética para a aprendizagem da agressão é uma das três peças da engrenagem evolutiva da conduta agressiva. As outras duas são: a necessidade imposta pelo meio ambiente e a história anterior do grupo cultural. Com relação às guerras, observam que podem ser manifestações de um comportamento natural e previsível, posto que decorrem muitas vezes da agressão vinculada à territorialidade.

         É claro que essa idéia de naturalização das guerras provocou uma enxurrada de críticas ao trabalho dos sociobiólogos. Não podia ser diferente. Mal se passaram duas décadas da Segunda Grande Guerra e um grupo de pessoas, em nome da ciência, vinha mostrar que aquilo tudo era muito natural... A sociobiologia recuou dizendo que suas teorias eram válidas só para as guerras tribais e não para as das sociedades industrializadas. Argumento fraco porque, se os sociobiólogos acham que existe um substrato genético ou, pelo menos, uma natureza humana por trás de um acontecimento da magnitude de uma guerra, qual o motivo de a biologia humana variar tanto entre povos tribais e outras sociedades?
SOCIOBIOLOGIA E MORAL
        O fundador da sociobiologia, Edward O. Wilson, nota uma grande diferença entre os papéis existentes nas sociedades de insetos, como operárias e rainhas, e os papéis vividos pelos homens em sociedade; enquanto os insetos apenas cooperam e desempenham uma só função durante suas vidas, os seres humanos tanto cooperam quanto competem e possuem a possibilidade de alcançar níveis sociais mais altos, mudando de papéis. Para Wilson, uma das questões-chave da biologia humana é verificar se há alguma predisposição genética para conquistar certas posições dentro da sociedade ou desempenhar determinados papéis; ele pessoalmente crê que haja uma pequena evidência de solidificação hereditária do status, isto é, concentrações de genes específicos em determinadas classes sociais.

         Wilson então acredita que a função social de cada indivíduo, bem como suas aspirações possam ser explicadas por sua bagagem genética. Os casamentos no interior de uma determinada classe social acabariam por consolidar um certo conjunto de genes que seriam os responsáveis pelas especificidades daquela classe, ou melhor, pelas condutas dos indivíduos que a compõem. Entretanto, há realmente evidências sobre a fixação do status através da hereditariedade como ele afirma? Não, pelo menos até agora não existe trabalho de geneticistas neste caminho. O que Wilson chama de evidência de solidificação hereditária do status é a freqüência com que os filhos continuam o que os pais iniciaram.

         Utilizando uma linguagem nada ortodoxa, podemos admitir que filhos de pais ricos gostem de sua situação financeira e se esforcem para mantê-la; filhos de pais pobres ambiciosos podem vir a realizar o sonho de riqueza dos pais; e filhos de pais pobres não-ambiciosos podem conviver bem com sua condição social sem maiores esforços para modificá-la. Isso pode dar-se tão freqüentemente a ponto de ser algo evidente, mas não é uma evidência de que haja uma configuração genética que levaria os filhos a terem certos comportamentos. Outras explicações possíveis para o mesmo fenômeno podem ser dadas pela psicologia, sociologia e pela antropologia.

         Wilson acha pouco provável que exista um código genético, moral e ético funcionando para todos os grupos de sexo e de idade, sendo mais plausível a existência de um conjunto de genes que assegurem prescrições éticas e morais adequadas aos papéis e estágios da vida dos indivíduos. Considera que haja vantagem seletiva para uma criança em ser egoísta e autocentrada porque, deste modo, atrai maior atenção dos pais. É igualmente vantajoso que adolescentes sejam carentes de afeto e tenham um comportamento sexual moralmente diferente dos adultos. A necessidade de aprovação, que os torna preocupados em agradar o sexo oposto, e a disposição sexual favorecem as alianças.

         Wilson, portanto, reconhecendo o simplismo de separar as condutas em dois tipos - egoístas e altruístas -, pensa na possibilidade de os seres humanos serem mais ou menos egoístas conforme a época de sua vida. Porém isto não resolve a fragilidade de seu raciocínio. Ele trabalha com noções tipicamente ocidentais e que não são aplicáveis a toda a humanidade. Vamos supor que, como quer Wilson, seja produtivo, para entender o comportamento humano, ressaltar o egoísmo e o altruísmo dentro de todo um conjunto de valores que usualmente é denominado ética ou moral. Serão esses conceitos - de altruísmo e egoísmo - percebidos da mesma maneira em todas as sociedades humanas? Claro que não, dizem os antropólogos.

         Os atos classificados de egoístas numa sociedade de tradição cristã, como a nossa, podem não ser encarados desta mesma maneira em outra. Entre nós, os egoístas são considerados pessoas nefastas, e os sociobiólogos até apresentam uma contribuição importante na "humanização" do egoísmo ao considerarem-no indispensável à sobrevivência. Dito de outra forma, o egoísmo faria parte da "natureza humana". Mas esses pesquisadores esquecem que conceitos como egoísmo e altruísmo não são científicos e sim morais; portanto, cada sociedade vai dar uma conotação específica a esses conceitos; além disso, vai deliberar à sua maneira se o melhor é ser egoísta ou não, no sentido ocidental do termo. Ser altruísta no Brasil é a mesma coisa que ser altruísta no Japão?

         A nossa sociedade tende a considerar altruísta aquela pessoa que se dedica aos outros e que é capaz de dar sua vida por um ideal ou alguém. No Japão, por exemplo, essas atitudes são encaradas de um porito de vista totalmente distinto da dicotomia altruísmo/egoísmo. Um trabalho escrito por Ruth Benedict, antropóloga norte-americana, na década de 40, procura mostrar as grandes diferenças que existem entre a cultura japonesa e a dos Estados Unidos. Neste livro, intitulado O crisântemo e a espada, ela afirma que morrer pelo imperador, pela pátria ou pelo seu nome de família não significa na sociedade japonesa ser altruísta; trata-se de manter a própria honra, idéia básica que norteia o sentido da vida na cultura japonesa. Logo, dar a vida em troca da de outrem entre os japoneses não pode ser explicado pelas premissas da sociobiologia que admitem duas categorias classificatórias para estas condutas.

         Wilson afirma que os comportamentos egoístas e altruístas são formalizados entre os homens em códigos morais e éticos que só podem ser compreendidos se vistos como um produto do processo de adaptação biológica. Para entendermos esta colocação, é necessário que tenhamos em mente que moral e ética, ou seja, os valores de uma sociedade, estão intimamente ligados à biologia humana, segundo a sociobiologia. Acreditam que tais valores precisam de um efeito adaptativo; devem corroborar para a manutenção da população em seu meio ambiente. Segundo essa linha de pensamento, haveria genes determinadores do egoísmo e do altruísmo, sustentáculos da ética humana, e Wilson cria um modelo para a existência dos dois tipos de genes. Ele calcula que os genes para o altruísmo se espalharam na população graças à seleção de grupo, e seus alelos para o egoísmo se fixaram pela seleção individual; as ações antagônicas das duas formas de seleção em dado momento se equilibraram, acarretando uma população na qual há indivíduos egoístas e altruístas.

         O fundador da sociobiologia acreditava inicialmente numa equivalência entre o peso do egoísmo e do altruísmo nas sociedades humanas. Argumentava que os membros individualistas e os egoístas terminam por conseguir ascender socialmente, espalhando seus genes; porém, quando o número de egoístas aumenta demais, a sociedade tende à extinção. Mas, com o tempo, passou a concordar com Dawkins, e concluiu que a solidariedade é a aparência do egoísmo. Assim, Wilson crê que tanto a conduta individual como as ações voltadas para a coletividade, em benefício da tribo ou da nação, visam ao bem-estar individual. Considera o altruísmo humano muito relativo porque, mesmo quando direcionado aos parentes, não chega a ser comparável ao de certos invertebrados que se unem em colônias.

         O egoísmo seria então natural do homem, já que todos os atos altruístas podem ser interpretados como egoístas, em última análise. Eu não quero simplesmente o bem do meu próximo; quero o bem do outro na medida em que o meu próprio bem-estar depende disto. E, diria ainda Wilson, na espécie humana as atitudes egoístas podem ser tomadas por altruístas porque os homens são animais sociais e precisam uns dos outros. Mas esta idéia de que a sociedade é o produto de uma união contra o risco de sucumbir à natureza é tão antigo quanto pouco provável.

         Parece óbvio que as culturas humanas achem-se adaptadas aos ambientes onde se encontram; nisto, a humanidade em nada se distingue dos outros seres vivos. O que vive seja uma árvore, uma ameba ou um chimpanzé, só o faz porque teve a capacidade de se adaptar e sobreviver, individualmente ou em grupo. Mas explicar os hábitos culturais como se eles fossem criados por uma necessidade de sobrevivência é que parece falho, e há uma extensa produção na antropologia para demonstrá-lo.

         Para Wilson e outros sociobiólogos, a sociedade humana é o resultado de uma natureza basicamente egoísta, mas que tem uma aparência altruísta. O problema de explicar a existência da vida social através de uma tendência humana, seja ela egoísta ou não, é que essas tendências nunca são as mesmas, variando conforme a cultura. Medir as expressões dessas tendências através de comportamentos torna a tarefa ainda mais árdua porque as condutas individuais e coletivas, em qualquer sociedade, constituem um somatório de fatores que são sociais, psicológicos e físicos.

         É bem verdade que os sociobiólogos não estão interessados apenas em algo tão fixo e imutável como a natureza dos homens. Eles freqüentemente estão se referindo à evolução da humanidade.

SOCIOBIOLOGIA E EVOLUÇÃO
        A maioria dos sociobiólogos concorda que houve modificações profundas na maneira da humanidade viver e que tornaram possível a existência de formas avançadas de civilização. Acreditam que a seleção sexual foi o motor que dirigiu a evolução humana na sua origem, porque os machos que eram melhores na caça tinham mais chances na competição pelas fêmeas. Uma vez que há uma grande inter-relação entre a destreza para a caça e o sucesso no casamento, a evolução social pôde proceder indefinidamente sem outras ameaças ambientais: os melhores caçadores não tinham problemas para conseguir uma esposa e assim deixavam um bom número de filhos com a mesma habilidade. Para a sociobiologia, isso teria garantido a sobrevivência da espécie nos seus primórdios.

         Os sociobiólogos consideram que existem genes, realmente, que proporcionam as inovações culturais e então admitem que a cada gene que favorece a expansão da capacidade de aprender deve corresponder um grande desenvolvimento da cultura; a tecnologia acaba sendo o parâmetro fundamental para esta evolução. O aumento da capacidade intelectiva, garantido pelos novos genes que surgiam, e a complexificação da capacidade tecnológica - ou cultural propiciaram o incremento da agricultura e o conseqüente adensamento populacional.

         Para a sociobiologia, a guerra tribal deve ter desempenhado um importante papel na evolução na medida em que a dominação das mulheres de outra população ("usurpação genética") foi uma força efetiva na seleção de grupo. Além disso, acreditam que as únicas combinações genéticas capazes de conferir uma aptidão superior numa luta com agressores genocidas são aquelas em que ou se desenvolve a capacidade de evitar o genocídio, ou criam-se técnicas de agressão muito mais poderosas do que as do adversário. A sociobiologia admite a hipótese de as duas alternativas terem interagido ocasionando avanços mentais e culturais. Crêem então que o complexo sistema no qual se transformou a cultura tornou a humanidade de certa forma independente dos constrangimentos ambientais, e a evolução social hoje é seu próprio motor.

         Os sociobiólogos trabalham com termos problemáticos do ponto de vista da antropologia. Evolução cultural e evolução da humanidade são dois deles. Inicialmente, porque a diversidade de hábitos de uma população para outra é tão grande que se falar de história da humanidade, sociedade humana ou evolução da humanidade torna-se algo questionável. Quando discorremos sobre a história da humanidade, necessariamente estamos nos referindo a histórias particulares, de povos específicos habitando certas regiões e que encadeamos numa mesma linha. Porém, ao contarmos esta história, esquecemos os povos de outros lugares e que não se vinculam aos protagonistas eleitos para narrarem a denominada história da humanidade como um todo. Assim também acontece com os termos sociedade humana e evolução.

         Os biólogos aceitam que os seres vivos evoluam e possuem um modelo explicativo para o fenômeno, baseado no legado teórico de Darwin, conhecido por evolucionismo biológico. Os fósseis constituem uma forte evidência de que essa maneira de pensar é correta. Através deles fica bastante óbvio que os seres se modificam ao longo do tempo. Quando as mudanças ocorrem de uma maneira tal que acabam por tornar o ser melhor adaptado ao meio ambiente onde ele se encontra, diz-se que há evolução; quando acontece o inverso, e as modificações são desfavoráveis, a espécie tende a desaparecer.

         O termo evolução na biologia está intimamente ligado a adaptação. É o mecanismo de seleção natural que separa os organismos adaptados dos inaptos. A evolução biológica do homem também é explicada desta maneira. Homens e macacos atuais, vieram todos muito provavelmente de um longínquo, entretanto, único ancestral. Os "pré-homens" tornaram-se homens no decorrer de um processo em que a capacidade de produzir cultura e a estruturação orgânica interagiram precoce e intensamente. Atualmente, os homo sapiens sapiens, a despeito da extrema unidade biológica que os reúne sob uma mesma espécie, exibem uma atordoante multiplicidade de hábitos e convenções culturais.

         Sabemos que a seleção natural atua e atuou sobre a humanidade, como sobre qualquer ser vivo, propiciando a evolução biológica dos seres, mas como explicar a evolução social? Primeiramente, devemos distinguir capacidade de produzir cultura, como uma habilidade abstrata, e a produção de uma cultura em particular. A primeira pode ser entendida através do mecanismo de seleção natural. Entretanto, o mesmo não acontece com a segunda. Para a antropologia, a constituição de uma sociedade ou cultura determinada nada tem a ver com as leis biológicas.

         A biologia está bem alicerçada para discorrer sobre a evolução dos seres vivos, já que ela tem um parâmetro - adaptação ao meio ambiente - para assim qualificar as mudanças que ocorrem nas espécies. Embora seja sabido que toda sociedade se modifique ao longo do tempo, as transformações sociais não ofereceram até então aos estudiosos indícios de que obedeçam a algum critério que justifique entendê-las como uma evolução, uma melhora. Transferir o conceito de adaptação ao meio ambiente das ciências naturais para as sociais não é nada garantido. Primeiro, porque toda população humana que subsistiu da sua origem à atualidade torna-se a prova viva de sua adaptação. Segundo, porque isso desemboca na avaliação do "estágio evolutivo" alcançado por uma cultura, que, por sua vez, redunda na análise do desenvolvimento tecnológico das sociedades.

         As sociedades humanas, na realidade, são bem mais que tecnologia acumulada. Elas constituem um conjunto de regras e crenças, toda uma forma de pensar e lidar com o mundo. No campo da mitologia, da moral, da religião, do parentesco, não dá para dizer o que é mais evoluído. Os sociobiólogos não se prendem a isso, porque julgam que a sua própria sociedade é evoluída, é a mais evoluída. Porém, aqui a palavra evolução não se acha aplicada no sentido darwinista, segundo o qual evoluir é adaptar-se. As sociedades industrializadas são as que mais agridem a camada de ozônio; o que pensar? Estariam elas inaptas para a sobrevivência num planeta que se cobre com um tênue véu gasoso sem o qual a vida é inviável?

         Para acreditar que a identificação de sociedades evoluídas e primitivas auxilia o entendimento do que seja humanidade, é preciso que se aceite o desenvolvimento tecnológico como o padrão por excelência na medida da evolução. Todavia, a maioria dos antropólogos opta por compreender as diversas sociedades tais como elas são. Preferem considerar a humanidade como um conjunto extremamente semelhante do ponto de vista orgânico, mas encantadoramente diverso culturalmente falando. Não existe sociedade humana, e sim sociedades humanas; não existe cultura humana, mas culturas humanas. Não existe evolução social humana; o que há é um grande desenvolvimento tecnológico empreendido por parte desta humanidade e que em nada a torna mais feliz ou adaptada do que a outra.

SOCIOBIOLOGIA E TRANSMISSÃO CULTURAL
        Dawkins afirma que para a compreensão da "evolução humana" deve-se desprezar os genes como a única base determinadora deste processo. Apesar de extrair das sociedades humanas muitos exemplos para suas hipóteses, não endossa formalmente a expectativa de construir uma sociobiologia aplicável aos homens. O mecanismo genético entra em suas formulações como sustentáculo para uma comparação entre a transmissão hereditária e a transmissão cultural. Acha que ambas, apesar de serem conservadoras, ou seja, tenderem a repetir as mensagens - genéticas ou culturais - que deverão ser transmitidas e não inová-las, são passíveis de evolução. A noção de "meme", conceito criado por ele, remete-se a esta semelhança postulada entre os planos genético e cultural. O termo meme faz alusão tanto a gene quanto a imitação.

         Os memes são idéias e ideologias que atuam como replicadores (ou reprodutores) culturais, ao passo que os genes são replicadores biológicos, e, segundo Dawkins, o mecanismo de perpetuação é parecido. Um exemplo de meme seria a idéia de Deus. É um meme extremamente bem-sucedido e se espalhou de um modo tal que se pode concluir que teve boas chances de reprodução, tendo sido inculcado no cérebro das populações humanas com grande aceitação. Memes e genes são replicadores transportados por veículos, que são os organismos individuais. Os memes são incorporados pelos indivíduos e promovem a comunicação entre eles.

         Em termos fisiológicos, afirma Dawkins que o cérebro estoca uma informação com um padrão específico de conexões entre as sinapses, que são as regiões de união entre as células nervosas. Um meme poderia ser, a princípio, visível num microscópio, revelando este certo padrão de estrutura sináptica. O seu efeito fenotípico seria o conjunto de produtos exteriores ao cérebro como uma palavra, uma música, imagens visuais, estilo de roupas, gestos, modo de comer trigo entre macacos japoneses etc. Os memes não são, portanto, característicos apenas dos homens, estando presentes entre quaisquer tipos de organismos que forem dotados da capacidade de transmissão de informações.
        Dawkins é criticado pelos seus colegas por não considerar o sucesso dos memes uma contribuição à capacidade de sobreviver da espécie que os possui. Embora considere os memes dependentes, em última instância, dos genes, não aceita que o critério último para o sucesso da seleção de um meme seja a sobrevivência de um gene. Crê que o relativo sucesso de um meme dependerá do ambiente biológico e cultural; um importante aspecto na seleção de um meme é o conjunto de memes numerosos no conjunto genético de uma certa população. Para exemplificar, Dawkins argumenta que dificilmente uma idéia contrária àquelas aceitas pelo marxismo e pelo nazismo, respectivamente, sobreviverão em sociedades que adotam tais ideologias.

         Ao mesmo tempo em que os sociobiólogos são darwinistas na sua forma de analisar o comportamento social, eles são lamarquistas quando interpretam o fenômeno da transmissão cultural. Lamarck postulou a lei do uso e desuso, segundo a qual um órgão poderia se atrofiar ou se hipertrofiar, conforme a constância de sua utilização, e a lei dos caracteres adquiridos, que admitia ser possível a transmissão para a prole desta atrofia ou hipertrofia, obtida por um progenitor. Dentro do espírito dessas leis, Dawkins afirma que os memes funcionam direcionando o fenótipo e também sofrendo influência do ambiente. Em outros termos, embora os músculos hipertrofiados de um halterofilista não tenham seu grande desenvolvimento incorporado aos genes, como imaginava Lamarck, no plano das ideologias o processo é outro. Novas idéias podem ser perfeitamente absorvidas pela mente de uma pessoa determinando novos comportamentos e assim ser transmitidas a seus filhos. Este exemplo mostra que, para Dawkins, os memes se modificam direcionados por estímulos ambientais, enquanto os genes não se alteram orientados pelo meio ambiente.

         Todos esses malabarismos conceituais de Dawkins têm a importância de chamar a atenção para o aprendizado que, entre os homens, torna-se uma habilidade fundamental para distingui-los de outras espécies. Alguns sociobiólogos começam a valorizar a capacidade de aprender dentro do comportamento humano e desconfiar da idéia de uma pura sobredeterminação genética orientando as condutas humanas. Voltam-se, portanto para o entendimento do processo de aprendizagem e sua função na formação do comportamento.

         A interação entre os genes e o comportamento, para esses sociobiólogos, se daria através de mecanismos em que os primeiros escolhem, entre condutas alternativas, aquela que aumenta sua chance de replicação. Os genes seriam como investidores do mercado de ações que não podem mudar suas instruções iniciais para o organismo que funciona como um corretor intermediário. Uma situação imprevista, na qual os genes corretores não podem escolher diretamente; pode causar prejuízos incalculáveis, ameaçando a sobrevivência do organismo. A solução seria os genes determinarem um conjunto de respostas possíveis, incluindo a possibilidade de o organismo ter de aprender algo não codificado, e deixar o organismo escolher a que melhor garanta sua capacidade de replicação. Com isso o indivíduo passa a ter maior independência do seu genoma para agir, conseguindo um maior grau de emancipação em relação à influência direta da seleção natural, porque assim pode desenvolver condutas não codificadas em seus genes, através da imitação das atitudes de outros seres. Então, o comportamento geneticamente não programado seria, segundo esses sociobiólogos, uma alternativa para a ausência de previsibilidade dos genes.

         Uma característica genética, portanto, se espalharia ria população em caso de ser adaptativa, aumentando as chances de seus portadores sobreviverem e deixarem mais descendentes que os não portadores. Da mesma forma, um hábito cultural se propagaria tanto mais quanto maior fosse a chance de ser ensinado a novos praticantes e também como conseqüência da aptidão que ele conferisse à população que o praticasse. Uma vez que a biologia mostra que os genes são responsáveis pelo desenvolvimento do cérebro, esses sociobiólogos acreditam que os genes constituem um programa de aprendizado que determina quão flexível ou estereotipado será o comportamento do indivíduo.

         Ainda seguindo as pistas desses sociobiólogos, preocupados com o papel da aprendizagem nas condutas humanas, o comportamento estaria baseado em critérios herdados para a distinção de sentimentos originados por estímulos primários, isto é, naturais. Darwin apontou quatro emoções básicas decorrentes desse tipo de estímulo: dor, prazer, raiva e medo. Entretanto, o homem e outros animais, com capacidade de aprendizado e de transmissão de informações, podem também viver qualquer uma das quatro emoções através de estímulos secundários, criados pela cultura. Em resumo, Darwin chamou atenção para as emoções primárias e os sociobiologistas acrescentaram que há emoções secundárias, como, por exemplo, determinado medo; este pode persistir numa população por transmissão cultural, pois, mesmo que infundado, seria reforçado pelas lendas.

         A estrutura social e a cultura consistiriam, para esses sociobiólogos, no resultado de todos os indivíduos participantes tomando decisões individuais a partir das informações já armazenadas pelo organismo, que optaria por uma conduta que fosse consistente com as possibilidades de aumentar o prazer e evitar a dor, a raiva e o medo. Mas deste raciocínio não se segue que a cultura possa ser definida como um conjunto de comportamentos adaptativos, embora assim acredite a maioria dos sociobiólogos. Como os hábitos culturais não mudam com facilidade, muitas vezes podem se tornar mal adaptativos em termos genéticos. Um exemplo disto seria a ênfase social em comportamentos altruístas que questionam a sobrevivência do indivíduo. Assim, conclui-se que, tal como Wilson e o irreverente Dawkins, esses sociobiólogos concordam quanto à evolução cultural possuir suas origens e algumas leis vindas dos genes; sendo que, num momento da história da humanidade, tal evolução adquire leis próprias.

         Um importante passo para o refinamento da sociobiologia é recuperar a capacidade de aprendizado, desvinculada da determinação dos genes. Mas a ênfase no papel da imitação dentro do comportamento humano é que torna-se algo discutível. Além disso, a transmissão cultural é um processo que tem uma característica que dificulta a sua comparação com o processo de transmissão genética. A transmissão de qualquer hábito ou idéia, partilhados por uma cultura, acontece através de um complexo mecanismo de socialização. A reprodução social está sujeita a muitas variações que são decorrentes sobretudo da capacidade de os homens atribuírem novos significados a velhos hábitos ou idéias. Se até os genes, que são partículas materiais, podem ser alterados e, desta maneira, transmitir informações diferentes das originais; o que dizer da transferência dos valores culturais através das gerações? Se não fosse assim, haveria sociedades estáticas, imutáveis, e alguma delas já deveria ter sido constatada pelos antropólogos, fato que ainda não ocorreu.
OU ISTO OU AQUILO
        A sociobiologia tem a ambição de explicar o motivo que leva alguns tipos de seres a viverem em sociedade. Acreditam os sociobiólogos que a vida comunitária seja uma resposta adaptativa ao meio ambiente e que, por isso, o comportamento desenvolvido por seres sociais seja regido pelos mesmos princípios. Para mostrar que as sociedades humanas têm profundas semelhanças com as de insetos e primatas, os sociobiólogos tratam as sociedades humanas como se fossem produto de instintos de sobrevivência ou como se os homens não tivessem consciência de seus atos.

         É interessante observar que, paralelamente ao fato de a sociobiologia aceitar que os genes dotam os organismos com a capacidade de cálculos inconscientes, que estipulam quão maximizador pode ser certo comportamento, ela emprega a mesma premissa às sociedades humanas, destituindo-as da condição reflexiva e criativa que lhes é característica. Marshall Sahlins, antropólogo norte-americano e crítico ferrenho de seus compatriotas sociobiólogos, mostra a inconsistência de se humanizar a natureza ao mesmo tempo que se desumaniza a sociedade dos homens.

         Isso está ligado ao uso inadequado de conceitos tais como parentesco, egoísmo ou altruísmo aplicado a animais que não convencionaram um código moral a ser seguido. Uma abelha não pode ser nem altruísta nem egoísta simplesmente porque ela é uma serva de seus instintos. Ela não passa a vida alimentando a abelha rainha por opção nem tampouco convicção de certos valores. Entre os homens há a possibilidade de escolha; é possível ser egoísta ou altruísta porque as sociedades regulamentam o que seja um comportamento anti-social, distinto daquela conduta sociável e esperada. Além disso, os homens agem segundo uma série de fatores: o biológico, o emocional e o social. O egoísmo, o altruísmo, a agressividade ou a conduta sexual não podem ser explicados por apenas um aspecto.

         Para fazer esta correlação tão direta entre homens e outros animais, a sociobiologia aplica conceitos indistintamente. Por exemplo, entre animais irracionais não há parentesco no sentido do que conhecemos. Eles não distinguem parentes afins de consangüíneos, nem desenvolveram as intrincadas fórmulas derivadas da prática do interdito do incesto que as sociedades humanas possuem. Ser parente em qualquer contexto cultural extrapola o âmbito das ligações biológicas entre os indivíduos. Portanto, é graças ao desprezo pelo bom uso dos conceitos e a este mecanismo de deixar de lado a consciência, não só como motor das condutas, mas da própria razão de ser de certa cultura, que os sociobiólogos podem dar o mesmo título a atos com significados completamente distintos. Isso explica como a guerra entre tribos ou um assassinato por vingança são igualmente vistos pelos sociobiólogos como manifestações de um comportamento agressivo, inerente às condutas sociais.

         O objeto principal da sociobiologia é o comportamento; a cultura e os genes são seus componentes, cujos pesos e importância variam de autor para autor. Há os que afirmam que os genes são os únicos responsáveis pelas condutas; há os que subdividem o comportamento em duas modalidades: o diretamente determinado pelos genes e aquele em que estes entram em recesso determinando um espaço para o aprendizado. Wilson curiosamente acredita numa completa determinação dos genes sobre as ações sociais entre os povos tribais; para as sociedades industrializadas, acredita que a lei seja outra. Nestas os homens não estariam mais sob o jugo da seleção natural.

         Parece então que os sociobiólogos recuam um pouco nas suas intenções, pois se, por um lado, têm um projeto de traçar características que unificariam todo o tipo de comportamento social, por outro, não encontram a sonhada unidade dentro da própria espécie humana. Assim, Wilson admite duas explicações distintas para a guerra: na sociedade tribal, ela seria produto da agressividade voltada para a defesa de um território; nas sociedades industrializadas, admite que o fenômeno exige uma explicação mais complexa.

         Marshall Sahlins ainda observa que os sociobiólogos parecem projetar no reino natural o modelo proposto pela sociedade capitalista. Além de a sociobiologia ter afeição por metáforas econômicas, do tipo genes como operadores de mercado financeiro, estabelece que há uma lógica econômica embutida na seleção natural, segundo a qual os organismos viveriam voltados para a maximização das condições de sua existência. Talvez esta interpretação do conceito de seleção natural já esteja facilitada pelo próprio Darwin, autor do termo.

         Atualmente, os filósofos discutem a respeito da cientificidade do conceito de seleção natural, processo determinador da evolução dos seres vivos. A evolução das espécies é bem fácil de ser admitida, mas o modo pelo qual ela acontece é menos simples de ser explicado. Esse problema deverá ser enfrentado pelos sociobiólogos, que pretendem cumprir a difícil tarefa de estabelecer sua disciplina como uma ciência objetiva, de premissas empiricamente testáveis. Richard Dawkins vislumbrou tal dificuldade ao afirmar que a hipótese de seleção de grupo, embora equivocada na sua opinião, nunca poderá ser contrariada pelos fatos e ela pode interpretar muitos fenômenos igualmente interpretados pelos adeptos da seleção individual.

         Finalmente, a sociobiologia defende uma visão carregada de um materialismo darwinista muito simplificador dos fenômenos humanos. Ela quer dizer que a vontade maior dos homens é sobreviver e, cada vez mais, aumentar as chances de sobrevivência, como qualquer outro organismo vivo. Só que as sociedades humanas não testemunham isto. Mostram que, ao contrário, as organizações adotadas pela humanidade estão sempre estruturadas sobre um grande número de convenções e valores caros aos participantes de cada cultura e que constituem a dimensão simbólica das sociedades; é precisamente isto o que torna radicalmente diferente um formigueiro de um monte de gente reunida. Estudos com primatas levam a crer que não só os homens têm a capacidade de simbolizar, mas o fazemos num grau muito complexo. A habilidade para a simbolização é responsável pelas diferenças culturais; se as culturas fossem produtos da adaptação ao ambiente, sociedades ocupando o mesmo território não exibiriam diferenças. Os hábitos e práticas sociais normalmente estão em consonância com a sobrevivência das populações, mas não conseguimos explicar diferenças de costumes pela necessidade de subsistir, porque o meio ambiente apenas influencia sem determinar.

         Portanto, nem dissociar a humanidade da natureza, esquecendo que estamos sujeitos às leis biológicas que organizam a vida animal e, por mais que a tecnologia avance, submetidos aos caprichos naturais, nem concluir que basta negar especificidades humanas, tais como consciência e alto poder de simbolização, para que a ciência consiga reintegrar metodologicamente o homem ao seu planeta. A sociobiologia acaba mantendo um "ou isto ou aquilo" sem conseguir fazer uma síntese porque, ao criticar o antropocentrismo das ciências sociais, nega todo o conhecimento sobre sociedades humanas acumulado com esforço pelos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, historiadores e filósofos. Ela tem a meta salutar de tentar cerzir o que a tradição ocidental rasgou, mas de uma maneira equivocada pois só usa uma metade do pano.

INDICAÇÕES PARA LEITURA
        Há poucos livros em português sobre sociobiologia, mas, ao ler Sociobiologia: senso ou contra-senso, de Michel Ruse, lançado pela ltatiaia/Edusp, tem-se uma visão ampla - e simpática - das idéias defendidas pelos sociobiólogos. Eduard O. Wilson, o papa da sociobiologia, escreveu The sociobiology: the new synthesis, que, mesmo sem ter sido traduzido, é indispensável para quem tenciona ir fundo no entendimento da disciplina. Foi publicado pela primeira vez em 1975 pela Oxford University Press e requer fôlego do leitor, devido ao tamanho. Uma obra mais acessível desse mesmo autor, com tom mais filosófico do que técnico, é Da natureza humana (Edusp), também bastante elucidativa quanto ao que pensam os sociobiólogos. Outro livro fundamental e bem-humorado no estilo é O gene egoísta, de Richard Dawkins, publicado pela Itatiaia/Edusp. Como a visão de Dawkins difere da de Wilson, o leitor ganha a possibilidade de comparar duas perspectivas internas de sociobiologia.

         Para se fazer uma crítica aos sociobiólogos é importante refletir sobre o que Marshall Sahlins escreveu em seu The use and abuse of biology, an anthropological critique of sociobiology, que constitui uma resposta ao The sociobiology..., de Wilson. Em antropologia, há dois livros introdutórios e bem consistentes que abordam temas afins aos da sociobiologia, mas de um ponto de vista contrário: Relativizando, uma introdução à antropologia social, de Roberto Da Matta, Ed. Guanabara, e Cultura: um conceito antropológico, de Roque Laraia, Jorge Zahar Editor. Ambos mostram, com farta e clara argumentação, os motivos que impedem fenômenos culturais de serem explicados por causas biológicas. Você vai aprender coisas muito interessantes.

         Entre os livros desta coleção, O que é etnocentrismo?, de Everardo Rocha, é especialmente útil; durante a leitura, você vai perceber que a compreensão sobre outros povos requer a percepção de sua lógica de vida e não o julgamento de suas práticas e valores sociais a partir dos nossos. Apesar de os sociobiólogos não parecerem se incomodar com o próprio etnocentrismo, foi uma aquisição inestimável para a antropologia admitir que uma postura etnocêntrica inviabiliza qualquer tentativa de entender a humanidade. Não dispense esta leitura!

SOBRE A AUTORA
        Antropóloga, nascida em 27 de julho de 1958, Rio. Fez a graduação em Ciências Biológicas (UFRJ) e, em seguida, cursou o mestrado em Antropologia Social no Museu Nacional, onde redigiu a dissertação intitulada "Tudo que tem na terra tem no mar", sobre como os pescadores classificam os seres vivos e a natureza. Com ela ganhou o Prêmio Sílvio Romero 88, que propiciou sua publicação pela FUNARTE. É professora da UFF e fez o doutoramento pela USP.


Fonte: Site Psiquiatria Geral
http://www.psiquiatriageral.com.br/saudecultura/sociobiologia.htm

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