quarta-feira, 21 de maio de 2014

O senhor das formigas

O entomólogo e sociobiólogo Edward O. Wilson, especializado em evolução e biodiversidade, sabe tudo sobre os insectos mais sociais e complexos.
Aos 82 anos, o biólogo Edward O. Wilson, nascido em Birmingham (Alabama) e autor de obras já clássicas como Sociobiologia – A Nova Síntese (sobre a disciplina que estuda o papel dos genes e do instinto no comportamento animal e humano) e Viagem às Formigas, acaba de fazer a sua estreia como autor de best-sellers, com o romance Anthill. Vencedor de dois prémios Pulitzer, da Medalha da Ciência dos Estados Unidos e do Prémio Carl Sagan para Divulgação, Wilson sente-se encantado com as alcunhas de “Dr. Formiga” ou “o Senhor das Formigas”, pois é o maior especialista mundial nesses extraordinários bichos. “Em criança, os insectos já me fascinavam. Sempre quis ser entomólogo. Coleccionava borboletas e observava as formigas e, quando entrei para a faculdade, decidi dedicar-me à investigação sobre as segundas. Acho que foi uma escolha feliz.”
Por que se sente atraído por essas espécies?
Em primeiro lugar, são os bichos mais abundantes em termos de biomassa. No total dos habitats do planeta, há quase um milhão de espécies de insectos, dos quais 14 mil são formigas, mas o seu peso corresponde a quase um terço da biomassa total. Escavam e remexem o solo em maior proporção do que as minhocas e constituem os principais predadores e necrófagos, pois devoram cadáveres (de outros insectos e até de pequenas aves), mais do que qualquer outro animal. Estou a escrever um livro intitulado Social Conquest, no qual explico o modo como o avançado sistema social que desenvolveram as transformou numa espécie dominante. Na sua sociedade, tal como na das abelhas melíferas e na de algumas térmites, existe divisão de classes, altruísmo (sacrifício do indivíduo pelo bem da comunidade) e comunicação através de uma linguagem química. O seu estudo proporcionou descobertas fundamentais para a biologia.
As formigas estão sempre envolvidas em guerras. Não lhe fazem lembrar os humanos?
É uma boa pergunta. Ainda não se conseguiu explicar por completo por que motivo ambas as espécies são tão agressivas, e deve haver uma relação. Eu acho que tem a ver com a selecção de grupos, isto é, com a evolução através da selecção natural a nível grupal. A selecção em quase todos os organismos é comandada pelo êxito de cada indivíduo em conseguir sobreviver e deixar descendência, mas, no caso das formigas e do homem, não só existe competição individual como, também, a nível colectivo. Creio que o elevado grau de comportamento social que observamos na espécie humana surgiu apenas vinte ou trinta vezes no decurso da evolução: só os grupos mais bem organizados, formados por membros altruístas e dispostos a sacrificar-se e a cooperar, sobrevivem, reproduzem-se e geram outros grupos idênticos. Penso que é essa a causa para a agressividade; têm de estar envolvidos numa guerra constante.
Como funciona a selecção de grupos connosco?
Um dos traços mais poderosos e instintivos das pessoas é o de se sentirem parte de um colectivo. Se não encontrarmos satisfação no grupo a que pertencemos, iremos procurá-la noutro. É importante, para o indivíduo, fazer parte da comunidade, sentir-se orgulhoso por lhe pertencer e contribuir para o seu êxito.
Nos anos 70, explicou o comportamento animal e humano com base no instinto e na genética.
Primeiro, formulei a proposta para os insectos sociais e, depois, incluí os seres humanos, o que provocou uma enorme polémica. Aceitavam a ideia se ela se aplicasse às abelhas, às baleias ou aos elefantes, mas não às pessoas. Pensavam que era racista e perigosa, pois a teo­ria dominante na altura, entre os meios científicos e os sectores políticos de esquerda, defendia que o cérebro, ao nascer, era como uma página em branco que tinha de ser preenchida pelas experiências e pela cultura, para criar uma sociedade perfeita e harmoniosa. A verdade é que nascemos com um instinto social, e a sociobiologia constitui a disciplina científica que estuda as bases biológicas do comportamento social em qualquer organismo.
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O fim da discriminação feminina
Pensa que a mulher continua a ser discriminada na ciência?
Quando eu era estudante, nos anos 40 e 50, a desigualdade era enorme, mas a situação começou a mudar nas décadas de 60 e 70. Hoje, as mulheres estão presentes em todos os campos científicos e são mesmo líderes em biologia molecular, economia, física...
Em que consiste aquilo a que chamou “lei de Wilson sobre a preservação da biodiversidade”?
Bom, não se trata de uma lei científica, é mais uma observação sobre o meio ambiente. Quase toda a gente está de acordo sobre a necessidade de protegê-lo, de travar as alterações climáticas e a poluição e de não esgotar os recursos naturais, mas eu penso sobretudo na biodiversidade: são as plantas, os animais e os micro-organismos que ainda preservam os ecossistemas (lagos, rios, savanas...), que estão a ser destruídos pelos seres humanos a um ritmo acelerado. É aqui que entra em cena a “lei de Wilson”: se salvarmos a biodiversidades, estaremos a salvar o meio físico onde se desenvolve. É a vida que cria a Terra para nós. Não é que seja essa a sua intenção, mas fabrica o ar que respiramos, a água que bebemos e o solo do qual retiramos alimento. É tudo criado pela biosfera. Trata-se de um equilíbrio muito delicado e nós estamos a alterá-lo.
Em 1996, perguntava a si próprio se os seres humanos não passariam de uma anomalia destrutiva para a vida. Como vê a questão agora?
Quase todos os cientistas admitem que o actual ritmo de extinção das espécies, marcado pela actividade humana, as alterações climáticas, a poluição..., é cerca de mil vezes maior do que o que existia antes de a humanidade se dispersar pelo planeta, e poderá multiplicar-se por dez mil daqui a alguns anos. Se isso acontecer, será impossível evitar a destruição. Poderemos perder metade das espécies de flora e fauna até ao final deste século.
É uma mensagem terrível. Continua a ser um optimista, apesar de tudo?
Considero-me um optimista prudente. As pessoas querem salvaguardar a vida e a biodiversidade para o seu próprio bem. Preservar as restantes criaturas que habitam a Terra é algo que afecta o nosso próprio futuro e a nossa qualidade de vida. Quando a maior parte dos cidadãos do mundo compreender isto, assistiremos a uma mudança global de atitude. Outra razão que me faz ter esperança é que, tal como aconteceu outras vezes ao longo da história, quando uma ideia cria raízes nas consciências, propaga-se com rapidez. Espero que a ética da conservação faça parte de todas as culturas. O terceiro motivo para me sentir optimista é que existem estimativas e cálculos a demonstrar que se poderia salvar uma grande parte da biodiversidade com um investimento de cerca de 35 mil milhões de euros, o que equivale à milésima parte do produto interno bruto de todos os países do mundo. Com essa quantia, seria possível salvar a maioria das espécies da extinção. Não se trata de um custo muito elevado. É por estas três razões que sou um optimista, embora haja um longo caminho a percorrer.
 
SUPER 159 - Julho 2011

Fonte: Site Superinteresante
http://www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=677%3Ao-senhor-das-formigas&catid=6%3Aartigos&Itemid=80#.U3zUnNWlUF0.twitter

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