quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Suicídio em Durkheim: alguns apontamentos

Por Cristiano Bodart



Durkheim define Suicídio como toda morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo da própria vítima e que ela saiba que produz esse resultado.

"Chaque société est prédisposé à fournir um contingent déterminé de morts volontaires. Cette prédisposition peut donc être l’objet d’une étude spéciale et qui ressortit à la sociologie". 

Para Durkheim o suicídio é um fato social quando trata-se de um conjunto de suicídios em certa sociedade em certo período; quando é total que não é a soma de unidade independentes, mas um fato novo e sui generis. Para ele, as sociedades têm, em cada momento, uma disposição definida para o suicídio.

"A taxa de suicídios constitui, portanto, uma ordem de fatos única e determinada; é o que demonstram, ao mesmo tempo, sua permanência e sua variabilidade. Já que esta permanência seria inexplicável se ela não se devesse a um conjunto de caracteres distintivos, solidários uns com os outros, que, apesar da diversidade das circunstâncias ambientes, se afirmam simultaneamente; e esta variabilidade testemunha a natureza individual e concreta destes mesmos caracteres, uma vez que variam como a própria individualidade social". (Durkheim, 1986, p.14) 

Na obra “O Suicídio, Durkheim buscou identificar as causas sociais de suicídio e os seus
tipos. Sua metodologia consistiu, em parte, em classificar das causas para chegar aos tipos. Para esse sociólogo, conhecida as natureza das das causas, deduzimos à natureza dos efeitos, nos guiando pelas informações existente para não nos perdermos no estudo.

Uma pergunta de Durkheim parece ter sido central em seu estudo: Quais são as situações dos diferentes meios sociais (religião, família, sociedade política, grupos profissionais) em função das quais o suicídio varia?

Durkheim buscou identificar a relação entre suicídio e religião. Buscou identificar a relação entre a taxa de suicídios e as confissões religiosas. Ao comparar alguns países, identificou que nos países católicos a prática do suicídio é menor.

Embora a “natureza dos sistemas religiosos” protestantes e católico proíbem o suicídio, Durkheim encontrou alguns elementos importantes para entender a diferença nas taxas de suicídios. Para ele, no Catolicismo o sistema hierárquico de autoridades é mais rígido, as doutrina é pronta e inquestionável e é marcada por alta interação, onde há muitas crenças e práticas comuns a todos os fieis. Já no protestantismo, existiria pouca hierarquia e uma multiplicidade de seitas, sendo o crente mais autor da sua fé, havendo pouca integração, ou seja, menos crenças e práticas comuns entre os protestantes. Essa menor integração é, para Durkheim, motivado pelo fato do protestantismo admitir o livre exame do livro sagrado em proporção muito maior que o catolicismo e seu tempo.

Para Durkheim a causa do livre exame estaria na necessidade da liberdade face à falência das crenças tradicionais (e não o inverso); perda da eficiência das ideias e sentimentos tradicionais irrefletidos para dirigir a conduta, sem um novo sistema de crença comum.
Segundo o sociólogo, o gosto pela instrução se aspira quando as crenças tradicionais se enfraquecem, expandindo o individualismo. Para ele, o gosto pela instrução era maior entre os protestantes. Nesse contexto de crise nas tradições, a ciência não é o mal, mas é o único remédio. A ciências não teria influência dissolvente, mas seria a única coisa que teríamos para lutar contra a dissolução de que ele resulta. Durkheim defende que silenciar a ciência não vai restaurar a autoridade das tradições desaparecidas.

No caso específico do papel da religião, o homem se mata, segundo Durkheim, porque a sociedade religiosa de que faz parte perdeu a coesão.

Argumenta Durkheim que a religião exerce uma ação profilática sobre o suicídio, isso por possuir uma conjunto de crença e práticas tradicionais e obrigatórias, exercendo a função de integração, criando situações coletivas que integram a comunidade e quanto mais integrada, maior sua virtude de preservação.

Para Durkheim, o protestantismo é superior em suicídios por ser menos integradora. Quanto menos vínculo a outros indivíduos, mais propício ao suicídio estará o indivíduo. Eis ai a dimensão moral do suicídio egoísta destacado por Durkheim.

Durkheim analisa também a relação entre o Judaísmo e o suicídio. Para ele as perseguição contra esse povo foi fonte de fortalecimento da solidariedade, tendo sua identidade fortalecida. O judaísmo estaria marcado por um corpo de práticas que regulamentam minunciosamente os detalhes da existência, deixando pouco espaço para o julgamento individual. A ciência não teria tido, afirma o sociólogo, um impacto contrário a essa religião, isso porque sua tradição estava muito bem consolidada. Desta forma, o Judaísmo seria uma evidência de que a ciência não destrói a tradição. Os judeus tiveram acesso à ciência e sua tradição continua sólida.

Durkheim buscou destacar que o suicídio é uma doença da época. Para ele a anomia seria a causa principal. A anomia seria um estado marcado pela falta de regulamentação, paixões ilimitadas, horizontes infinitos e tormento, cenário potencializador da prática de suicídio.

Os sinais de morbidades destacadas por Durkheim foram: necessidades ilimitadas; ultrapassagem infinita dos meios que se torna um fim, descontentamento; ligação tênue com a vida; paixão pelo infinito; situação onde nenhuma conquista vale por si mesmo e em vez de placar as necessidades, as estimas.

De acordo com Durkheim os indivíduos que não acumulam experiências reais, torna-se fraco e diante de um problema real não suportará a pressão, podendo cometer suicídio.

Outro elemento potencializador da prática de suicídio são as crises econômicas. Para ele, a crise promove o suicídio por ser crise, ruptura de equilíbrio, seja de prosperidade ou de pobreza. Mas como explicar que a melhoria da vida leve a uma maior desapego por ela? Para o sociólogo, as necessidades humanas não dependem do corpo; os desejos do indivíduo são ilimitados. Uma sede inextinguível é um suplício perpetuamente renovado. As paixões têm que ser limitadas pela força moral da sociedade que regula e modera as necessidades atendendo ao bem comum. Para ele, as paixões devem ser limitadas, se não torna-se um tormento.

Quando a sociedade é perturbada por crises ou mudanças repentinas, a pressão moral perde força, os indivíduos não se ajustam a suas posições, valor das forças sociais permanece indeterminado, sem regulamentação ambições superexcitadas, causando o sofrimento e, consequentemente, crescimento do suicídio. O desenvolvimento da indústria e ampliação indefinida do mercado fortalece o desencadeamento dos desejos e esses da busca desenfreada e, consequentemente, do suicídio.

O restabelecimento da ordem moral não é possível de forma rápida. Atualizar a educação moral não é algo instantâneo. Por isso, Durkheim se preocupará em reformar o ensino francês: laica, pública, gratuita (organizado pelo Estado que representa o geral e não o particular). Sem uma educação homogênea há uma tendência de anomia (se cada família educasse seus filhos, haveria uma desregulamentação moral).

A Causa do suicídio, estaria, grosso modo, na “ausência da sociedade” na vida do indivíduo. O Suicídio egoísta é marcado pelo efeito da sociedade não estar presente na atividade coletiva, desprovendo-o de objetivo e significado. Suicídio anômico é marcado pelo efeito da falta de regulamentação moral que limite as paixões individuais.

Durkheim aborda o papel do casamento sobre as taxas de suicídios. Para ele, o casamento age em sentido contrário para o homem e a mulher. Como pais têm o mesmo objetivo, mas como cônjuges os interesses seriam diferentes e muitas vezes antagônicos. Durkheim identificou, por meio da estatística que só os homens casados contribuem para a maior taxa de suicídio nas sociedades com divórcios frequentes, onde as mulheres matam-se menos.
Como nossa vida dependeria do quanto estamos integrados à sociedade, o divórcio, para o homem teria um impacto muito grande sobre a prática de suicídio, assim como a maior taxa de suicídio estaria entre os homens solteiros.

Para Durkheim, o divórcio determina o suicídio pela ações que exerce no casamento. Para ele, o casamento é uma regulamentação das relações entre os sexos abrangendo instintos físicos e os sentimentos de todo tipo que a civilização enxertou sobre a base dos apetites materiais, regulando toda a vida passional, principalmente o casamento monogâmico. O casamento, ao homem, impõe uma disciplina salutar (mesmo que o costume lhe dê privilégios que permitem atenuar o rigor do regime). O divórcio enfraquece a regulamentação matrimonial, enfraquecendo a imunidade do homem casado e fazendo com que se aproxime da condição dos solteiros. Durkheim teria identificado que nada disso atinge a mulher (lembrando que a mulher não tem acesso a escola). Estando ela mais próxima da natureza, seus desejos naturalmente são mais limitados. Mais instintiva, segue os instintos em paz e com calma. Tradicionalista, regula o comportamento pelos credos estabelecidos, sem grandes necessidades intelectuais. Para o sociólogo os interesses dos sexos são apostos, um precisa de coerção, o outro de liberdade. Para Durkheim, aos contrário, da visão comum, que acredita que o casamento protege a mulher e sacrifica o homem, o casamento dá, para Durkheim, proteção ao homem e exige sacrifício da mulher, por isso a divórcio teria um impacto maior sobre o homem e, consequentemente, podendo levá-lo a praticar o suicídio.

Durkheim deixa uma nota de rodapé indicando a existência do suicídio fatalista, que seria aquele causado pelo excesso de coerção. Embora mencionado, o sociólogo não se debruça sobre tal tipo de suicídio.

Fontes

DURKHEIM, E. Le suicide. Paris: PUF, 1986.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Aula do curso de Sociologia IUniversidade de São Paulo/USP. Mai. 2012. 


Fonte: Blog Café com Sociologia
http://www.cafecomsociologia.com/2013/09/o-suicidio-em-durkheim-alguns.html

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