terça-feira, 13 de maio de 2014

Suicídio: o adeus para (in) transcendência

Albert Camus escreveu que o suicídio era um "problema filosófico verdadeiramente sério". Conheça a visão de pensadores como Emil Cioran, Santo Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau sobre esse tema tão delicado e controverso


Por Josè Fernandes Pires Júnior*


“Por que vivo, quem sou, o que sou, quem me leva? Que serei para morte? Para vida o que sou?[...] Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença.[...] Ó meu pavor de ser, nada há que te vença! a vida como a morte é o mesmo mal!”
Fernando Pessoa, 14/09/1919

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”. É-nos suficiente essa afirmação de Albert Camus para se mensurar quão delicado e complexo é esse problema. A declaração de Camus está registrada num ensaio de 1942, O Mito de Sísifo. Trataremos, aqui, neste trabalho – sem nenhuma pretensão de haurir o tema – sobre a questão da morte voluntária, no dizer do grego antigo. De antemão, faz-se necessário dizer que nosso olhar voltar-se-á, tão somente, à Filosofia; assim, deixaremos à parte o enfoque jurídico, sociológico e antropológico que enseja, também, a questão. Registre-se, logo de pronto, que não se tem por escopo qualquer apologia ao delicado problema, apenas busca-se sua abordagem e a tentativa de iniciar uma possível compreensão. O além disso é fruto da engenhosidade e perspicácia do amigo leitor.

Emil Cioran e o flerte com o suicídio
Emil Cioran
Filósofo romeno formado em universidades alemãs e, a partir do final da década de 1930, radicado na França, emil Cioran (1911- 1995) escreveu, entre outros, os livros História e Utopia, Exercícios de Admiração e Breviário de Decomposição, publicados no brasil pela rocco.
“Por que eu não me mato?” – indagou o filósofo a Emil Cioran
(1911-1995), que apesar disso não se suicidou, mas desejou fazê-lo muitas vezes. Questionamentos como esse são típicos da psicologia suicida. O enfrentamento da morte a pretexto de libertação, mais do que coragem, exige consciência de que tudo está perdido e não há mais saídas a garantir que a vida vale a pena ser vivida. Geralmente, os casos de suicídio são marcados por um traço peculiar: a solidão. Suicidas são, amiúde, solitários e dão adeus ao mundo mergulhados na solidão; se não é assim, vejamos como Cioran visualiza um cenário apropriado para a realização do ato, “quando levantamos em meio à noite buscando desesperadamente por uma derradeira explicação, mas ao constatar a nossa solidão, porque todos dormem, desistimos de nossa intenção, pois ‘como abandonar um mundo onde se pode ainda estar sozinho?”
Nítida é a propensão do filósofo romeno ao adeus provocado. Constate isso em sua obraO Mau Demiurgo, mais precisamente em Encontros com o Suicídio (cap. 26 da obra). Cioran chega a dizer que “faz bem pensar que a gente vai se matar”. Tão é assim que em entrevista a Fritz Raddatz, em 1996, declarou: “na minha juventude eu vivi todo dia com essa ideia do suicídio. Mas tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se eu ainda estou vivo é graças a essa ideia. Eu só pude suportar a vida graças a ela, ela foi meu suporte: ‘És mestre de tua vida, podes matar-te quando quiseres’, e todas as minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa ideia começou a se tornar algo como Deus para um cristão, um apoio; eu tinha um ponto fixo na vida”. Entretanto, Cioran não se suicidou, morreu naturalmente aos 84 anos.
Cioran bem representa a (pós) modernidade marcada pelo nada. O mundo hodierno, estigmatizado pelo consumismo e imediatismo, remete o ser humano a viver uma vida desprovida de qualquer sentido ou a ter uma existência absurda, acometida pela náusea, tal qual a de a Roquentin
personagem de Sartre; ou, ainda, remete-o ao deserto e vazio, peculiaridades deste tempo atual. Entediado com tal cenário e decepcionado com os seus problemas insolúveis, o que lhe vem logo à cabeça, sem dúvida, é aquela ideia à que Emil Cioran se refere e que Nietzsche enaltece: “A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim”.
A coragem ou a covardia de morrer 
Mas o suicídio não é coisa do hoje e nem mesmo, somente, daquela Segunda Geração de poetas românticos da qual Byron era representante maior. Não. O suicídio remonta à Antiguidade. Nesse período, lembremos o nome de Egésia, filósofo representante do Hedonismo de característica cirenáica. Egésia tinha a alcunha de Peisithánatos, isto é, aquele que persuade a morrer. Assim, por ser defensor aberto e incentivador do suicídio, foi proibido pelo rei Ptolomeu de dar aulas, pois sua docência era tão convincente que muitos de seus alunos encararam a morte como poucos encarariam, fitamente, o sol do meio-dia. A posição de Egésia é uma das mais radicais. Assim, no sentido em que cultua o suicídio, morrer é libertar-se; portanto, para ele, “o verdadeiro fim da ação humana não é a satisfação do prazer, mas a exclusão da dor [...], por quantos esforços o homem faça, jamais conseguirá escapar realmente à dor, à má sorte, ao absurdo, à ausência de sentido, à futilidade da felicidade [...]”.
Margeando essa posição, encontramos os epicureus, para quem a vida deve ser tomada sempre pelo prazer; não sendo assim, a melhor saída é a morte, essa que põe um ponto final em todas as questões. Desse modo, “se a vida, ao invés de ser fonte de felicidade e prazer, torna-se dolorosa, mórbida, geradora perene de sofrimentos e aflições, não há mais nada de natural e justo que matar-se, saindo dela por livre decisão”. No entanto, conforme Rossano Pecoraro, “apenas o sábio pode calcular o preciso momento de dar adeus ao mundo e sair deste com honra quando a hora chegar”. Aqui, mais sentido ainda faz a lição que se aprende no Fédon, da qual Montaigne se utiliza nos Ensaios, qual seja, “filosofar é aprender a morrer”.

Roquentin

Criado pelo filósofo, escritor e agitador político francês Jean-Paul sartre (1905-1980) para o romance A Náusea (1938), o historiador antoine roquentín é um personagem de perfil existencialista e que tornou-se, digamos, face romanceada da filosofia sartreana.
Com os estoicos, o tema da morte de si receberá um tratamento especial. Era natural que fosse assim, pois a filosofia estoica assume uma postura de total indiferença e resignação a todos os reveses que a vida ofertar. Nesse plano, morrer é, antes de tudo, um ato de conformidade com o logos, em que a morte voluntária deve ser um intento racional e não uma insanidade ou uma fuga gratuita, determinada por um evento trivial imposto pela vida. Daí terem os estóicos criado o termo eulogos exagogé – “saída racional” – para, justamente, deixar claro que a morte de si não é um evento banal, movido por uma emoção qualquer. Assim, conforme a interpretação de Cícero da filosofia estoica, “a ideia de manter-se ou não na vida deve ser escrupulosamente analisada, pois, às vezes, o sábio, mesmo se feliz, deve abandonar a vida, e o néscio, mesmo se infeliz, deverá continuar vivendo”.
Percebe-se que no estoicismo a morte voluntária não é saída, como queriam os epicureus, para os sofrimentos. Ao contrário. O que se postula na doutrina estoica é a resignação e o desprezo de todo tipo de sofrer; entretanto, se o sofrimento ou a dor impedem o homem estoico de viver racionalmente, melhor deixar este mundo. Conforme Rossano Pecoraro, para os estoicos “o suicídio é visto como um ato de razão, cumprido após uma fria avaliação dos prós e dos contras; um gesto lúcido, racional e consciente que permite abandonar uma vida na qual o sofrimento, a desesperança, a indignidade tornaram-se implacáveis tiranos”. Por sua vez, Epicteto, moderadamente, defende uma posição mais branda. Ele, inspirado no exemplo de Sócrates, sustenta que só num caso muito particular a prática de tentar contra a própria vida deve ser levada a cabo, qual seja, em obediência a um sinal divino. Como se vê, o suicídio, ao menos na concepção estoica, de certo modo não é um ato de covardia, como sustentava Aristóteles e Platão.

Na Idade Média, o suicídio é rechaçado, implacavelmente, sem nenhum tipo de incerteza. O suicídio era um pecado imperdoável. Matarse era uma afronta a Deus, que deu o sopro de vida, o animus, à materialidade humana. Daí Santo Tomás de Aquino afirmar que “suicídio é sempre pecado mortal, porque vai contra à caridade e à lei natural”. Dante, por seu turno, condena ao fogo do inferno todos os suicidas. Lá, no segundo giro do sétimo Circulo do Inferno, estão as almas fadadas ao terrível castigo por causa da prática mortal, entre os quais encontra-se Píer della Vigna, homem de confiança do imperador Frederico II que se matou em 1249, após ter sido preso e cego sob a acusação de traição ao império.
Jean Paul

Pseudônimo de Johann Paul Friedrich Richter (1763-1825), escritor alemão vinculado ao romantismo. Um de seus maiores sucessos da época foi a novela Die unsichtbare Loge (1793).
Mesmo o romântico Jean-Jaques Rousseau sentiu o desejo frio de beijar a morte e dar deus ao mundo. Em A Nova Heloisa (Carta XXI), assim escreve ao Milorde Eduardo (seu confidente): “Sim, milorde, é verdade; minha alma está oprimida pelo peso da vida. Desde muito tempo, ela me desgosta, perdi tudo o que podia fazê-la feliz, só me restam aborrecimentos. Mas disseram-me que não me é permitido dispor dela sem a ordem daquele que ma concedeu”. Percebe-se, aqui, aquela constatação que fizemos de início, que os tendentes ao suicídio são, em geral, acometidos pelo desespero e pela angústia – sentimentos aniquiladores da alma humana.
Com efeito, a discussão sobre o suicídio gera o confronto perene entre aqueles que, como os estoicos, o defendem e os que, por outro lado, o condenam e, além disso, o têm como uma ação covarde e um débil fracasso. Entre aqueles que se posicionam contrariamente ao fenômeno mortal está Kierkegaard. Para o dinamarquês, o suicídio é o sinal mais claro de que o indivíduo deixouse vencer pela doença mortal, o Desespero; nesse caso, usando a nomenclatura kierkegaardiana, Desespero-fraqueza – tipo peculiar do indivíduo que não se quer ver a si mesmo e por isso opta pelo trágico fim. Com certo liame à doutrina estoica e epicurista, vejamos o que Raimundo de Farias Brito nos diz: “O homem, portanto, só pode resolver-se ao suicídio quando uma dor o feriu no que há de mais elevado, quando circunstâncias extraordinárias o fizeram convencer-se de que a vida é um mal irremediável. O suicídio é, pois, a mais elevada manifestação do desespero, o mais alto grau de dor”.
Sobre a coragem de morrer, uma nota final merece ser dita aqui: “Quem, entretanto, não quer mais suportar o peso da vida, a joga fora. Quem não pode mais permanecer no salão de carnaval do mundo ou, como diz a Jean Paul, no grande quarto de serviços do mundo, ele se lança da porta ‘sempre aberta’ para a noite silenciosa” – diz Phillip Mainländer. Mais ainda – caso a vida seja uma causa perdida – recomenda: “Partam sem temer desta vida, meus irmãos, caso ela esteja muito pesada para vocês. Vocês não encontrarão no túmulo nem um reino do céu nem um inferno”. Detalhe: Phillip Mainländer, pseudônimo de Phillip Batz (1841-1876), filósofo alemão e também poeta, suicidou-se assim que recebeu a primeira cópia de sua Die Philosophie der Erlösung (A Filosofia da redenção), na noite entre o dia 31 de março e o dia 1° de abril de 1876, em Offenbach.
Conclusão
Enfim, não há uma explicação concreta e exata a respeito da fenomenologia do suicídio. O que se passa na cabeça de um suicida antes de matar-se? Podemos levantar algumas conjecturas e de tais não se pode fazer regra geral para todas as respostas. Conta um amigo meu que, logo após sua vida ter sobrevivido a um terremoto existencial, passou a entender e ser mais tolerante como os suicidas. Como se vê, a morte voluntária é o extremo da solidão, angústia e desespero.
Quando a vida tornar-se insuportável, seja por causa do sofrimento, tédio, dores físicas, o suicídio – para alguns – foi portal de libertação. Ou não! Quem o sabe? A morte é um enigma. Quando alguém decide pôr termo a sua própria vida, as palavras de T. S. Eliot fazem, ainda, mais sentido, pois é isso que pensamos passar na cabeça daquele que decidiu morrer: “Deserto e vazio. Deserto e vazio. E as trevas à beira do abismo”.


REFERÊNCIAS
NIETZSCHE. Além do bem e do mal. Tradução Antonio C. Braga. 2 ed. São Paulo-SP: Editora Escala (Coleção Grandes obras do pensamento universal, 31)
PECORARO, Rossano. Cioran, a filosofia em chamas. Rio Grande Sul: Edipucrs – (Coleção Filosofia, 179)
PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa, obra poética. Rio de Janeiro - RJ: Nova Fronteira, 2007
PUENTE, Fernando Rey (Org.) Os filósofos e o suicídio. Belo Horizonte: UFMG, 2008
REALE, Giovanni. O saber dos antigos – terapia para os tempos atuais. 2. ed. Tradução Silvana Cobucci Leite. São Paulo-SP: Edições Loyola, 2002

* José Fernandes Pires Júnior
 é graduado em filosofia, bacharelando em Direito e professor de Filosofia da rede de ensino público do Distrito Federal. E-mail: josefpjr@bol.com.br


Fonte: Site Revista Filosofia
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/31/artigo228115-1.asp

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