sexta-feira, 11 de julho de 2014

Instinto assassino: você também tem

Um estudo recente chegou a uma conclusão polêmica: somos (quase) todos assassinos em potencial. Ou você nunca quis matar alguém?

por Texto Heitor Camargo

Você já teve vontade de matar alguém? Imaginou em detalhes como ia fazer isso? Chegou a pesar osprós e contras e, obviamente, percebeu que não fazia sentido (afinal, além de contrariar seus princípios morais, o risco de ser pego e o custo seriam muito grandes)? Bem, se você respondeu sim a essas perguntas, saiba que não está sozinho. Segundo o maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. Sim, você leu bem. A esmagadora maioria dos 5 mil entrevistados (entre os quais 375 assassinos) confessaram esse fato, o que levou o coordenador da pesquisa, David Buss, chefe do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas, a concluir que a capacidade de tirar a vida é uma característica comum a todos os seres humanos, resultado da seleção natural. Além das conversas ao vivo, a equipe ainda fez uma inédita análise de 429729 relatórios do FBI, a polícia federal americana, e transformou os resultados no livro The Murderer Next Door (“O Assassino Mora ao Lado”), que foi lançado este ano nos EUA.
As conclusões são estarrecedoras e surpreendentes. Afinal, ninguém (exceto alguns psicopatas) admite que o homicídio seja uma prática socialmente aceita. Ao contrário, é um crime abominável. Para Buss, porém, a predisposição para cometê-lo “em determinadas circunstâncias” está nos nossos genes. “A capacidade de matar ajudou nossos ancestrais a sobreviver e a se reproduzir melhor. Como seus descendentes, carregamos essas adaptações e motivações que levaram ao sucesso deles”, afirmou o cientista à super. Segundo ele, o assassinato tem sido uma solução eficaz para lidar com diversos problemas na história evolutiva da humanidade. “Quais são essas vantagens? Em primeiro lugar, o indivíduo que mata continua vivo para transmitir seus genes às gerações seguintes. O que é morto, não. Além disso, os descendentes da vítima – se existirem – ficam mais desprotegidos e, se também não morrerem precocemente, saem de um ponto de partida desvantajoso na corrida pela reprodução e sobrevivência.”
Passado e presente
Segundo a tese de Buss, historicamente o assassinato representou uma vantagem evolutiva. A violência ajudou os homens a conquistar status e recursos (comida, terra, ferramentas etc.) fundamentais para atrair e manter parceiras. Ou seja, na maioria dos casos o motivo que levava alguém a matar estava ligado direta ou indiretamente à reprodução. “Homicídios relacionados à reputação têm tudo a ver comquestões genéticas, pois mulheres preferem homens de status”, diz o pesquisador, para quem isso também explicaria por que homens matam muito mais do que mulheres – numa proporção que chega a 9 para 1 em algumas sociedades.
Hoje, muito dessa competição por status se dá no mercado de trabalho, no mundo dos negócios, nos esportes etc. E é óbvio que o assassinato raramente conduz alguém ao topo na civilização moderna, como o próprio Buss reconhece. “Mas a humanidade não evoluiu numa sociedade com código penal. Nossa psicologia foi forjada na fornalha de um ambiente evolutivo no qual a agressão às vezes era muito compensatória.” Ou seja, atualmente algumas pessoas matam “por inércia”, mesmo que isso não tenha mais compensações, inclusive do ponto de vista da seleção natural. O cientista acredita, porém, que “em situações-limite” – circunstâncias análogas às que no passado levaram o homem a se beneficiar da violência –, determinados circuitos cerebrais (os responsáveis pelo tal instinto assassino) podem ser ativados.
Isso quer dizer, então, que matar é aceitável ou desculpável, uma vez que é uma ação prevista em nossos genes? Como aceitar que a ciência trate com naturalidade uma atitude que nega o bem mais fundamental da nossa existência, a vida? Críticos da psicologia evolutiva costumam afirmar que ela dá uma importância exagerada à busca dos homens por parceiras para reprodução. E que isso reforça estereótipos sexuais, além de superestimar características inatas. Se você quiser acreditar nessa lógica, argumentam esses estudiosos, quase todos os comportamentos têm a mesma origem: o desejo sexual. Por isso, há quem coloque em dúvida inclusive as bases científicas da teoria levantada por Buss.
“Há muita especulação envolvida quando psicólogos evolutivos formulam hipóteses sobre os supostos anos formativos do cérebro humano”, escreveu recentemente Amanda Schaffer, colunista de ciência darevista online Slate. Também o filósofo da ciência David Buller, da Universidade do Norte de Illinois, questiona a maneira pela qual Buss e seus colegas apresentam a cadeia de transmissão genética de padrões de comportamento – argumentando que nosso cérebro não é uma máquina de repetição de padrões, mas um organismo muito mais flexível e adaptável às condições presentes e às variações do ambiente e da comunidade.
Sobre homens e macacos
Algumas das idéias expostas por David Buss em seu livro não são novas e têm relação com teses bem mais antigas, que tentam achar explicações para a violência no mundo animal. Durante muito tempo acreditou-se que o homem era o único ser vivo capaz de matar deliberadamente um semelhante. O caráter pacífico de nossos parentes mais próximos, como os chimpanzés, era usado como argumento para justificar a tese de que o assassinato era um desvio de comportamento humano. Essa crença, porém, começou a ser questionada no início da década de 1970, quando a equipe da britânica Jane Goodall testemunhou por duas vezes chimpanzés invadindo a área de um grupo vizinho, na Tanzânia, para perseguir e matar com “requintes de crueldade”, como descreveriam os repórteres policiais.
Também nos anos 70, Dian Fossey encontrou um filhote de gorila morto por um adulto macho em Uganda. “O exame do cadáver revelou 10 ferimentos de gravidade variável produzidos por mordidas. Uma delas tinha fraturado o fêmur do bebê e outra tinha perfurado seus intestinos”, contou Fossey no livro que inspirou o filme Nas Montanhas dos Gorilas. Mais tarde, ela descobriu que, ao invés de ser um fato isolado, o infanticídio era regra na espécie. A agressividade entre primatas foi estudada pelo britânico Richard Wrangham, autor de O Macho Demoníaco – As Origens da Agressividade Humana, em que afirma que, do ponto de vista evolutivo, a violência extrema – e em especial o assassinato – foi uma estratégia que favoreceu tanto os chimpanzés quanto os humanos na cadeia evolutiva.
Nos dois casos descritos pela equipe de Goodall, os chimpanzés eliminaram os machos vizinhos, acasalaram com as fêmeas e aumentaram seu território e o acesso a importantes fontes de alimento – mas, ironicamente, acabaram assassinados mais tarde por outros indivíduos ainda mais fortes. No caso dos gorilas, depois do infanticídio as mães de filhotes mortos terminaram unindo-se ao agressor. Wrangham prefere ser mais cauteloso ao traçar paralelos com o comportamento humano. Para ele, nos dias atuais, os assassinatos que podem estar diretamente ligados à nossa herança evolutiva são os cometidos por grupos, como gangues ou exércitos. Nesse ponto, o pesquisador admite que há de fato muitas semelhanças entre homens e chimpanzés. “Tanto uns quanto outros sentem que há uma justificativa para matar membros de comunidades vizinhas ou rivais”, disse por telefone à super, de seu escritório na Universidade Harvard, nos EUA.
Pobreza e desigualdades
Mas onde se encaixam as questões sociais ligadas a aumento ou redução das taxas de homicídios, como pobreza e desigualdade, à cultura da violência em algumas sociedades, ao fácil acesso a armas de fogo e até à impunidade? É inegável a relação entres esses fatores e o número de assassinatos. Um estudo recente – embora ainda não tenha sido muito detalhado – mostra que em 2004, pela primeira vez em 13 anos, caiu o número de mortes por armas de fogo no Brasil. A queda coincide com a campanha de desarmamento liderada pelo governo federal, que retirou mais de 400 mil armas de circulação.
Basta olhar também para o mapa da violência nas grandes cidades para perceber a concentração de crimes com morte nas áreas de maior desigualdade social. David Buss não nega a ligação entre indicadores sociais ruins e o aumento do número de homicídios, mas garante que ela corrobora sua tese: pobreza e desigualdade aumentariam o número de homens dispostos a atos extremos para conseguir recursos e status – e, assim, atrair mulheres.
Mas, se todos estamos programados para matar, por que só uma ínfima minoria toma a decisão de fazê-lo? Segundo Buss, o assassinato é apenas uma de várias estratégias num cardápio de soluções possíveis para problemas de adaptação. “Felizmente, na maioria das vezes as pessoas usam meios não letais para resolvê-los.” Ele destaca que, antes de tomar qualquer decisão, medimos as conseqüências, avaliamos o custo/benefício e pesamos as alternativas. E, como a seleção natural nos legou (além do instinto assassino) muitas ferramentas boas – altruísmo, amizade, auto-sacrifício, cooperação e tantas outras –, optamos na maioria dos casos por respostas positivas.
Crime e castigo
Além disso, as penas severas impostas pelas sociedades modernas funcionam como uma importante forma de inibir a violência extrema. Há crime, mas também há castigo. Nas entrevistas conduzidas pela equipe de Buss, a justificativa mais freqüente para explicar por que as pessoas pensavam em matar, mas não chegavam às últimas conseqüências, foi justamente o medo de ser pego e de passar o resto da vida trancado numa cadeia. “Sem leis duras e penas de prisão longas, haveria muito mais assassinatos do que há hoje”, diz o pesquisador. Princípios morais e religiosos também foram bastante citados, embora historicamente eles tenham se mostrado pouco eficientes para evitar conflitos regionais e guerras (na verdade, muitas delas nasceram e floresceram justamente com base em ideais defendidos por esta ou aquela religião).
Se você é dos que acreditam que depois de tantos séculos de vida em comunidade, com fantásticos avanços nas áreas da cultura e da civilização, o homem deveria ser capaz de controlar inclusive os traços deturpados de seu comportamento ancestral, há esperança. Até os psicólogos evolutivos admitem que, embora a informação genética esteja lá, muitas das circunstâncias capazes de desencadear o instinto assassino são facilmente controladas socialmente. “Matar não eleva o status de ninguém”, exemplifica Buss. Os bons valores importam, sim. E muito.
87% dos homicídios nos EUA são cometidos por homens. E 75% das vítimas também são homens. Os números são similares na maioria dos países, Brasil inclusive.
Fonte: The Murderer Next Door, de David Buss
17,8 é o número de mortes por assassinato em cada 100 mil americanos entre 20 e 24 anos de idade. Na faixa dos 34 aos 39 anos,o número cai para 12 casos.
Fonte: The Murderer Next Door, de David Buss
106,3 habitantes, em cada 100 mil do bairro de Parelheiros, em São Paulo, foram vítimas de homicídio em 2000. No mesmo ano, a estatística no bairro nobre do Jardim Paulista foi de 3,6 casos em cada 100 mil habitantes.
Fonte: Homicídios no município de São Paulo: Perfil e subsídios para um sistema de vigilância epidemiológica, GAWRYSZEWSKI V.P. (2002).

Ameaça real

Taxa de homicídiospor armas de fogo (casos por100 mil habitantes)
• Venezuela - 22
• Brasil - 19,5
• Porto Rico - 17,4
• Argentina - 4,3
• EUA - 4
• Uruguai - 3,1
• Reino Unido - 0,07
• Japão - 0,02
• Egito - 0,02

O perigo mora ao lado

A sensação de que se mata muito no Brasil não é uma invenção da imprensa. Mas pesquisas recentes mostram que, proporcionalmente, é baixo o número de assassinatos que ocorrem durante assaltos ou seqüestros. A maior parte desses crimes é cometida por homens jovens contra homens jovens e envolve questões pessoais e algum tipo de defesa da reputação, honra ou status local. Na cidade de São Paulo, em 1995, apenas 6% dos homicídios de autoria conhecida e 21% dos homicídios de autoria desconhecida foram qualificados como latrocínio (roubo seguido de morte), segundo levantamento realizado pelo sociólogo Renato Sérgio de Lima para sua tese de mestrado na USP. “Os chamados conflitos interpessoais, categoria que inclui brigas em casa e nos bares, vingança, discussões privadas e toda sorte de disputas que não tinham nenhum tipo de relação com o crime organizado, responderam por 56% dos casos”, diz Lima. Em outras palavras, mais da metade dos assassinatos envolve pessoas que não só se conhecem como competem de alguma maneira. Segundo o jornalista Bruno Paes Manso, que fez seu mestrado em ciências sociais na USP sobre o perfil dos homicidas paulistanos, “vingança e defesa da honra” são os dois principais motivos de assassinatos por “conflitos interpessoais” na periferia da capital. “Nesse ambiente tenso, vender-se como alguém que não leva desaforo para casa e não admite ser desrespeitado é fundamental. Muitas vezes o homicídio é uma forma de recuperar a honra questionada em público”, avalia Manso, cuja tese foi lançada em livro com o nome de O Homem X.

Por que se mata

Os motivos mais comuns para os assassinatos na Grande São Paulo. Dados de 1998 a 2000 do município de Diadema e das regiões sul e leste da capital.
• Problemas pessoais - 44
• Negócios ilícitos - 24
• Roubos e assaltos - 14
• Questões familiares - 8
• Outros - 10

A arte da guerra

Se a capacidade de assassinar está nos genes do homem e foi uma vantagem evolutiva, é isso que explica os homicídios coletivos, os massacres e as guerras? Segundo alguns psicólogos evolutivos, sim. Os guerreiros teriam tido mais sucesso em transmitir seus genes – e, com eles, a violência – às gerações seguintes. Além de eliminar rivais, os grupos vencedores se apoderaram de recursos dos vencidos.Guerras e invasões, por essa teoria, permitiram aos homens conquistar mais parceiras. A história está cheia de exemplos em que os machos do lado perdedor foram massacrados e as mulheres, poupadas – só para serem estupradas ou incorporadas ao grupo logo a seguir. O exemplo mais emblemático é o do conquistador mongol Gêngis Khan (1162-1227), notório assassino, a quem se atribui a frase “O maior prazer é eliminar o inimigo e deitar nas barrigas brancas de suas mulheres e filhas”. Pesquisa recente conduzida pelo geneticista Chris Tyler-Smith, da Universidade de Oxford, mostrou que, em 16 populações na área do antigo Império Mongol, 8% dos homens – 16 milhões de pessoas – possuem um cromossomo típico da família de Khan. A nefasta história do sexo como espólio de guerra repete-se até hoje, em conflitos como o da Bósnia e de Ruanda. A natureza homicida estaria ligada ao imperialismo de todas as potências – da Roma antiga ao Império Britânico. Tal como um indivíduo, um império (liderado por homens) almeja sempre mais poder. Portanto, estamos condenados a viver sob conflitos? Talvez não. Segundo o antropólogo Richard Wrangham, da Universidade Harvard, há algo essencial para o desenvolvimento da violência coletiva: o desequilíbrio de forças. Bandos de homens só atacam quando têm a percepção – nem sempre verdadeira – de que podem sair ilesos. “Se mantivermos um relativo equilíbrio de poder, podemos esperar paz”, acredita.

 

Para saber mais

The Murderer Next Door – Why the Mind is Designed to Kill
David M. Buss, The Penguin Press, 2005
O Macho Demoníaco – As Origens da Agressividade Humana
Richard Wrangham e Dale Peterson, Objetiva, 1998 (esgotado)
O Homem X – Uma Reportagem sobre a Alma do Assassino em São Paulo
Bruno Paes Manso, Record, 2005
Adapting Minds: Evolutionary Psychology and the Persistent Quest for Human Nature
David Buller, The MIT Press, 2005
Nas Montanhas dos Gorilas, 1998
(lançado em dvd pela Warner Home Video)
www.slate.com/id/2124503
Cave Thinkers - How Evolutionary Psychology Gets Evolution Wrong, Amanda Schaffer, Slate, 2005
desarme.org/publique/media/homicidios_SP.pdf
Conflitos Sociais e Criminalidade Urbana, Renato Sérgio de Lima, 2003


Fonte: Site da Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/ciencia/temos-instinto-assassino-446195.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_super

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