domingo, 6 de julho de 2014

Por que o separatismo permanece vivo no Estado

Reação a um gesto da cantora Shana Müller reabre a discussão sobre os motivos da ambivalência do Rio Grande do Sul em relação ao Brasil

Por que o separatismo permanece vivo no Estado Rafael Ocaña/Zero Hora
Entre duas bandeiras: posições separatistas veem conflito entre identidade brasileira e rio-grandenseFoto: Rafael Ocaña / Zero Hora
Levantar uma bandeira do Brasil em dia de jogo da Seleção é algo tão comum – principalmente em tempos de Copa – que a cantora Shana Müller se confessou surpresa quando uma foto sua fazendo o mesmo gesto publicada nas redes sociais provocou uma onda de críticas e ofensas de alguns mais radicais. Muitos desencavaram até o léxico farroupilha para criticar a “falta de patriotismo” da artista – que deveria, na opinião de alguns desses críticos, sentir-se antes gaúcha e só depois brasileira. A polêmica desencava um debate que volta e meia reaparece no Rio Grande, o ímpeto separatista e os argumentos defendidos por aqueles que acreditam que o Estado estaria melhor sozinho, separado da federação que compõe o Brasil. Para muitos estudiosos do fenômeno, a chave para compreender esse sentimento é vê-lo como um tipo de resposta às mudanças pelas quais o Brasil – e o Estado dentro dele – passaram no último século.
– Esse anseio é calcado na saudade de uma época imaginada. A partir dos anos 1950, houve um êxodo rural muito forte, a pecuária foi entrando em declínio, o tipo sociológico do gaúcho foi desaparecendo. O tipo gaúcho foi incorporado na cidade, estilizado, moderno, quando o tipo real estava desaparecendo. O pessoal se apega a essas fantasias, imaginar uma comunidade que historicamente não houve. O separatismo cobre uma lacuna, um vazio existencial, uma saudade de uma época imaginada do gaúcho – diz o historiador Paulo Fagundes Visentini,professor titular de Relações Internacionais da UFRGS.
As frases dirigidas a Shana fazem eco, em temática e em argumentos, a mais de uma movimentação em favor do separatismo surgida no Estado desde o fim do século passado. Nos anos 1990, ganhou destaque nacional o movimento lançado por Irton Marx, autor do livro Vai Nascer um Novo País: República do Pampa, que defendia a separação. Com as redes sociais, é fácil encontrar várias outras manifestações de inconformidade com o fato de o Rio Grande do Sul fazer parte do Brasil, desde O Rio Grande É o Meu País (frase aliás recorrente dentre as críticas à cantora) até O Sul É o Meu País, movimento que preconiza a cisão dos três Estados do Sul. Muitos ganham adeptos ou simpatia entre pessoas mais jovens, algumas sequer nascidas quando o santa-cruzense Marx lançou seu libelo localista.
– O separatismo é um fenômeno absolutamente atual. Temos movimentos separatistas fortíssimos no mundo todo. Mesmo no Brasil, o Rio Grande não é o único a abrigar esse tipo de manifestação. Uma das explicações, claramente, é a globalização, essa situação em que se exige que tudo seja global, homogêneo, que falemos a mesma língua e se conjugue a mesma identidade cultural. É inevitável que nasça no interior desse processo um contramovimento a essa exigência de homogeneidade, uma tentativa de marcar uma identidade diversa. Algo que se comunica com o jovem, naturalmente inseguro diante das pressões contemporâneas – comenta Caroline Kraus Luvizotto, socióloga, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autora de Cultura Gaúcha e Separatismo no Rio Grande do Sul (Unesp, 2009).
Mestre em comunicação e informação pela UFRGS, Érika Caramello, autora de uma dissertação estudando o debate sobre separatismo em uma comunidade virtual direcionada aos cultores do tradicionalismo, também aponta que essa necessidade de afirmação pela diferença é o motor de manifestações sectárias no território aparentemente sem fronteiras da internet. E ainda identifica o crescimento dos anseios de separação como uma forma de compensar a progressiva queda de importância do Estado nos rumos econômicos e políticos do país.
– Há um sentimento, dentro do Estado, de que o Rio Grande está à margem do centro das decisões, mesmo tendo na presidência uma mulher formada no Estado. Acho muito interessante a forma como a cultura gaúcha é documentada pelo MTG. A gente não vê isso em outras manifestações culturais. Os gaúchos se preocupam demais com a representação de seu passado, e acho que às vezes isso gera uma forçação de barra em querer ser diferente a qualquer custo, quando a própria característica do Brasil como país é sua variedade.
Se algumas vozes clamam por separatismo, não o fazem de dentro das instâncias “oficiais” do gauchismo. Presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho, Manoelito Savaris argumenta que a instituição não apoia nenhum viés separatista – as solenidades oficiais, como cavalgadas e o próprio acampamento farroupilha, sempre contam com o hino e a bandeira do Brasil, sem gritedo.
– O MTG não dá guarida a nenhuma manifestação de separatismo. Não trabalhamos com essa ideia. Nosso pensamento é de integração. Para nós, o Brasil começa pelo Estado – diz Savaris.
Apesar disso, parte das críticas aos laivos separatistas ainda encontrados na sociedade rio-grandense se dirige justamente à noção de Estado à parte muitas vezes incentivada pela entidade, que tem no bairrismo local sua porção folclórica e, talvez, no separatismo seu exacerbamento. Crítico da ideologia do tradicionalismo, o pesquisador Tau Golin, da Universidade Passo Fundo (UPF), também reconhece que o movimento como instituição não insufla o separatismo como política, mas adverte que sua insistência na diferenciação pode ter, sim, esse efeito colateral.
– No episódio da Shana as manifestações não estavam clamando pela valorização do Rio Grande do Sul, mas expressando o desejo de não ser brasileiro, a vontade de ter uma distinção europeia. Não está em jogo se a Shana é menos rio-grandense por ser brasileira, por se colocar dentro de um país. O que está em jogo é o poder sobre o imaginário – comenta Golin.
A Construção do Mito Farroupilha
Com uma ou outra alteração, o hino e a bandeira do Estado hoje ainda são os mesmos da República do Piratini, durante a Revolução Farroupilha – o conflito que, sob o título de “decênio heroico”, foi transformado em uma espécie de mito fundador de uma identidade geral gaúcha. Mas, como sempre quando se fala de História, o discurso construído ao redor de um episódio não necessariamente o resume. O historiador Mario Maestri, por exemplo, é um dos pesquisadores que argumentam que, logo após a rendição de Ponche Verde, a revolução foi durante longo tempo relegada ao  esquecimento, na tentativa de pacificação do território.
Está presente no mito farroupilha também a ideia de um Rio Grande unido contra as forças imperiais, quando boa parte do Estado, na Capital e no litoral, não só não aderiu à revolução como a combateu com ímpeto. Para Maestri, é apenas durante a Revolução Federalista, em 1893, que a Revolução Farroupilha, com seus aspectos republicanos e separatistas, passa a ser apresentada como um ideal comum a unir os gaúchos. O interessante, como lembra o historiador Günter Axt, é que o conflito escolhido pelo tradicionalismo do século 20 como basilar para a tradição gaúcha seja o de 1835, e não o de 1893, mais curto mas, segundo ele, muito mais cruento.
– A Revolução Federalista foi mais curta, mas, sob muitos aspectos, foi mais importante. Foi uma guerra civil brasileira, não uma revolta regional, houve um governo paralelo localizado na cidade de Cerro, em Florianópolis... E nela pereceu, segundo alguns historiadores, 1% da população gaúcha. Talvez não se olhe com tanta atenção para essa guerra em particular porque se tem uma dificuldade muito grande de explicar os níveis de violência que nela se estabeleceram – comenta Axt.
Que país é esse?
> No dia 23 de junho, a cantora Shana Müller publicou, em seu perfil no Facebook, uma foto em que está cantando e segurando uma bandeira do Brasil. “Hoje é dia de torcer pela nossa seleção! Vamos juntos vestir nossas cores e abrir o peito gritando GOL!”, escreveu, em referência ao jogo Camarões x Brasil pela Copa do Mundo. A imagem foi curtida 1.999 vezes, teve 57 compartilhamentos e 88 comentários. Críticos condenaram a escolha do símbolo nacional em lugar do estadual, e defensores repudiaram o teor separatista de algumas manifestações.
Em seu espaço mensal como colunista do Segundo Caderno de Zero Hora, Shana comentou o caso em 28 de junho. Sob o título Eu Sou Brasileira, Sim Senhor!, a autora diz que, de início, foi pega de surpresa pela repercussão. No site do jornal, as matérias relacionadas renderam outras centenas de comentários.
> No mesmo dia, ela voltou a divulgar a foto no Facebook, com um link para o texto de ZH. “Hoje dia de jogo da seleção, escrevo sobre o amor pelo meu país! Com muito  orgulho, levanto a bandeira do meu país, o Brasil, e repudio toda manifestação que nos negue como um estado desta Federação”, escreveu, na ocasião do confronto da Seleção Brasileira com o Chile. O post alcançou 2.696 curtidas e 164 compartilhamentos. Depois de quase 300 comentários, Shana postou: “Gente tão jovem e tão ignorante. Uma pena. Discussão encerrada por aqui. Um abraço a todos.

Fonte: Site do Jornal Zero Hora
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/07/por-que-o-separatismo-permanece-vivo-no-estado-4543932.html

Um comentário:

  1. Que texto idiota e sem sentido!!! O Rio Grande do Sul nunca fara parte do Brasil pq culturalmente nem somos semelhantes aos demais no resto do pais. O Centro do pais é mais importante q qq lugar. O carnaval esta presente como cultura unica em todos os estado do Brasil menos mo RS. O brasil é um pais grande de variedade sim mas uma variedade semelhante todo pais tem como principal característica a malandragem sem cultuar o patriotismo que so é visto na copa. patetico isso!! No RS o patriotismo é diario. o resto do brasil fala mal do RS e nao gosta e diminui o Estado sempre q pode. por isso a ação do separatismo contra a reação do resto do brasil

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