segunda-feira, 21 de julho de 2014

Região Carbonífera não tem deputado há 50 anos




Rubens Dario Porciúncula, cassado em 1964, foi o último a representar os interesses da Região na Assembleia


Cauê Florisbal

A Região Carbonífera tem diversos projetos que nunca saíram do papel, além de outros que nunca saíram do debate e ficaram apenas no discurso. Ter um representante na Assembleia Legislativa, ou até mesmo na Câmara dos Deputados, em Brasília, poderia ter contribuído para que alguns destes projetos, como a construção da ponte entre São Jerônimo e Triunfo, o asfalto da estrada entre Arroio dos Ratos e São Jerônimo ou até mesmo a implantação de um hospital de grande porte deixassem de ser um sonho e se tornassem realidade há muitos anos.

O último representante eleito
Em 1962, o então prefeito de São Jerônimo, Rubens Dário Porciúncula - o prefeito do centenário, comemorado em 1961 -, se elegeu deputado estadual com 7.716 votos, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Porciúncula assumiu a cadeira, mas um mês após o golpe militar de 1964, em 11 de maio daquele ano, teve o mandato cassado. Desde então, a Região Carbonífera nunca mais conseguiu eleger um deputado estadual ou federal. São 50 anos sem eleger um representante.

No último dia 2 de abril, a Assembleia, em ato simbólico, devolveu o mandato aos 40 deputados cassados pela ditadura no período de 1964 a 1969.

Região tem votos, mas não elege
Atualmente, a Região Carbonífera possui cerca de 105 mil eleitores. Se analisarmos a votação das eleições de 2012, constataremos que a região tem número de eleitores suficiente para eleger dois deputados estaduais, em qualquer coligação proporcional, e um representante na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Para eleger um deputado federal, um candidato precisaria obter aproximadamente 80% dos votos da região, ou cerca de 84 mil sufrágios. Com esta votação, a Região Carbonífera teria eleito um deputado federal pela maioria das coligações proporcionais das eleições de 2010. Porém, os votos são pulverizados entre vários candidatos de diversas regiões, frustrando a possibilidade de colocar um representante nato no parlamento.

A unidade de lideranças da região em torno de um nome é algo utópico, pois os interesses políticos a cada dia tornam cada vez mais difícil a Região Carbonífera eleger um deputado. A proximidade de Porto Alegre facilita para os atuais deputados ganharem espaço político por aqui:

- O grande problema é que somos cidades pequenas e esparsas e estamos muito próximos de Porto Alegre. Assim, sofremos forte influência de todos os tipos: econômica, cultural e, também, política. Logo, as pessoas daqui votam em candidatos viáveis, tanto por interesses partidários quanto classistas - afirma o sociólogo João Adolfo Guerreiro.

Não há quem defenda projetos da Região
Ao ser eleito, um deputado passa a defender os interesses de sua região, que consequentemente se torna o reduto eleitoral do candidato. Este fator faz com que as regiões noroeste, serra gaúcha, vale dos sinos, parte da metropolitana, entre outras, tenham lideranças para defender os seus projetos e buscar recursos para suas cidades:

-A Região Carbonífera perde por não ter um deputado a representando por dois motivos básicos: o primeiro por não ter ninguém a defender nossos interesses e o segundo porque os eleitos vão defender os das regiões deles, ou seja, de outras se não forem daqui - afirma Zilarte Silva, professor do curso de Administração da Ulbra São Jerônimo.

Segundo o advogado pós-graduado em Ciências Políticas, Pedro Luciano Dornelles, existem diversos projetos que poderiam entrar em pauta caso a Região Carbonífera tivesse um representante no cenário político estadual:

- Os nossos políticos levam em consideração as questões pessoais e não da coletividade, que possuem pautas em comum para a região, como a ponte Triunfo- São Jerônimo, manutenção do Polo Naval em Charqueadas, manutenção do Polo Educacional na região, asfalto São Jerônimo -Arroio dos Ratos, política de manutenção da exploração do carvão, e, também, por estarmos muito próximos da Capital, onde vários deputados, estaduais e federais, vinculados aos vereadores e prefeitos, que nos beneficiam com suas emendas, no momento da eleição, vêm buscar o voto. Assim fica difícil da região eleger um representante - explica Dornelles.

Para o empresário Celso Ladislau Kassick, falta mobilização e articulação política:

- Enquanto não apreendermos a nos articularmos e mobilizarmos numerosamente, estaremos mandando dinheiro aos governos estadual e federal e recebendo retornos pífios, ou retorno algum. Os dirigentes da União e do Estado tomam decisões de investimentos com viés muito mais político (articulações) do que técnicos. Este cenário acaba direcionar os investimentos massivamente para regiões de forte representação política. Nossa região faz suas escolhas políticas por gosto ou interesse individual, pulverizando votos em infinitos candidatos, inibindo nossas lideranças de poderem cobrar apoio a nossos projetos. Os votos conseguem ser mais massivos quando candidatos até desconhecidos da região têm forte presença da mídia, fazendo votações fantásticas sem nunca ter vindo à região, sem cabo eleitoral, e sem ter prometido trabalho algum, como, por exemplo, Sérgio Zambiasi e Manoela D avila. Somos ainda extremamente severos em julgar os candidatos da nossa região, enaltecendo seus defeitos e não lhes concedendo a procuração para trabalhar por nós. E o que é pior: gratuitamente fazendo campanha contraria. Quando vencermos este desamor que temos pela nossa região nos encaminharemos para sermos a região rica que todos queremos – avalia Kassick.


Quase eleitos
Nas eleições de 1990, a Região Carbonífera esteve perto de ter um representante na Assembleia Legislativa. Na época, o ex- prefeito de São Jerônimo e Charqueadas, José Manoel Gonzales de Souza (PMDB), obteve 12.494 votos, ficando na terceira suplência. Em 1992, José Manoel abriu mão de assumir o cargo de deputado para concorrer ao cargo de prefeito de Charqueadas e no seu lugar assumiu o deputado Paulo Odone (PMDB). Em 1994, o triunfense Bento Gonçalves dos Santos (PPR, atual PP) concorreu ao cargo de deputado estadual e ficou como terceiro suplente da coligação PPR/PFL, com 19.376 votos.


Fonte: Site do Jornal Portal de Notícias
http://www.portaldenoticias.com.br/noticia.php?id=1000&tipo=E&editoria=5&include=NOTICIAS

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