domingo, 27 de julho de 2014

Todas as contas da classe C

Eles são a primeira geração de suas famílias a dispor de crédito e poder de consumo desde jovens – e agora estão com a corda no pescoço por não saber lidar com essa novidade. O que aprenderam?

GRAZIELE OLIVEIRA

Gilmar de Campos curte funk de ostentação e segue à risca o que ensinam as letras do ritmo. Sua rotina parece ter saído do receituário de MC Guimê, ícone desse estilo musical. No guarda-roupa, abundam os “kits”, expressão que define os itens de grife: cordão de prata, relógios, tênis, calças, óculos, jaquetas, camisas. “Se não for de marca, para mim, não tem valor”, afirma Campos. Nos bailes funk que frequenta, diz já ter gastado R$ 600 sozinho, em uísque e vodca. Morador da Vila Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, Campos tem dois cartões de crédito com dívidas não pagas e está desempregado. Até maio, seu salário mensal como ajudante de manutenção de vias públicas era de R$ 1.300, pouco mais que o preço do par de tênis que ele exibe na foto desta reportagem. Que problemas ele vê em gastar mais do que ganha? Nenhum. “Enquanto der para gastar, continuo gastando. Compro mesmo. Se não estiver vestido assim, não sou ninguém”, diz. O resultado da ostentação, até o momento, é uma dívida de R$ 2 mil nos cartões de crédito, um carro devolvido e uma namorada perdida (leia o quadro abaixo). Comportamentos como esse são mais comuns numa parcela da população brasileira, a mesma que recebeu o discutível rótulo de “nova classe média”.

Gilmar de Campos (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
São famílias da classe C, cuja renda per capita vai de R$ 320 a R$ 1.120. Isso inclui 108 milhões de pessoas, a maior parte da população brasileira. Na última década, elas passaram a ter mais acesso a financiamento e, em 2013, movimentaram 58% do crédito no Brasil. Os gastos crescentes dessas famílias contribuíram com a expansão acelerada da economia até 2010. Desde então, a produção, a geração de empregos e o aumento salarial desaceleraram. Os bancos se tornaram mais restritivos na rolagem de dívidas e na concessão de crédito, por receio da inadimplência. Em maio, o número de inadimplentes cresceu quase 10%, o maior salto desde 2010, segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). A classe C corresponde a cerca da metade dos inadimplentes. Não é uma faixa mais caloteira que a classe alta, mas sofre mais ao se endividar. Eles têm crédito (ao contrário dos mais pobres), mas não dispõem de poupança, patrimônio, contatos nem educação financeira para lidar com momentos ruins (ao contrário dos mais ricos).
Dos endividados, quase metade assume ter entrado no vermelho por causa de produtos novos em seu cardápio de consumo, segundo uma pesquisa da Telecheque, empresa de avaliação de risco de crédito no varejo. Quem prospera um pouco e dispõe de crédito pela primeira vez costuma se endividar em excesso, no mundo todo. Em nações como Estados Unidos, Espanha e França, os cidadãos saídos da pobreza tomaram empréstimos em menor número, de valor mais alto, para comprar imóveis. Aqui, usa-se crédito para o consumo de serviços e bens não duráveis, como refeições na rua, idas a salão de beleza ou roupas caras.
Sofre mais quem se endividou sem ter poupança, nem educação financeira, nem boa qualificação profissional
Por causa do endividamento, a classe C vem sendo dissecada por estudiosos do assunto. A começar pelo uso de um único critério – a renda – para definir a ascensão. Ele não é suficiente para fundamentar mudanças duradouras e abrangentes, nem para afirmar que o Brasil é agora um país de classe média. Um aumento de poder de compra de R$ 100 de uma família em cidade pequena tem chance de ser uma mudança relevante. Numa cidade grande, há mais opções de consumo de bens e serviços, e muitos preços são calibrados para o consumidor rico. O ganho de R$ 100 no poder de compra pode rapidamente virar dívida, por levar à adoção de hábitos mais caros. “Aumento de consumo pode não significar mudança de classe. É preciso incluir componentes sociais, como a escolaridade”, diz o economista José Afonso Mazzon, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). 
A tese da “nova classe média” recebe ataques dos dois lados do espectro político. Pela direita, há críticas aos pés de barro do enriquecimento. Afirmam que a população se beneficiou de condições criadas pelos últimos governos, não de um real aumento em sua capacidade de produzir e empreender. Pela esquerda, afirmam que a vida dos mais pobres avançou apenas no acesso ao consumo. “Melhorou o nível de renda, mas não houve uma alteração de status social, valores e educação”, diz Marcio Pochmann, economista, professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).  
Os críticos se unem em um ponto: a mobilidade social aumentou apenas na base da pirâmide. Surgiram chances de os miseráveis e pobres se tornarem menos miseráveis e menos pobres, de consumir mais. Com o aumento do salário mínimo, dos programas sociais, como o Bolsa Família, e a maior geração de empregos de até dois salários mínimos (foram 22 milhões nos últimos dez anos), muita gente saiu da condição de pobreza, passou a consumir mais e tornou relevante o poder de consumo da base da pirâmide. Contribuiu com o fenômeno também o relativo barateamento de alguns produtos e serviços, como eletrodomésticos ou viagens. Não há, porém, maior mobilidade no meio da pirâmide – os pobres não ganharam poder de poupança e capacidade de planejamento financeiro de longo prazo. Pesam contra eles a baixa escolaridade, a falta de qualificação profissional, a pequena capacidade de poupar, a dependência da economia informal e a incapacidade de pagar por serviços privados de educação e saúde. “Eles podem voltar às condições de classe D, caso o crescimento econômico desacelere e aumente o desemprego”, diz Ricardo Ismael, cientista político da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio.
 
Michele Marinho (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
O grande vilão do endividamento dessas famílias não é o consumo, nem o desejo de comprar, nem a abundância de crédito. É a falta de educação financeira. “O consumo nessa classe se deu de modo não planejado, com uma mistura de dinheiro real, o salário, e virtual, como cartões de crédito e empréstimos”, diz Pedro Braggio, educador financeiro. É o caso de Michele Marinho, gerente numa loja de materiais de construção no bairro de Heliópolis, periferia de São Paulo. Ela contava com os limites dos cartões de crédito para cobrir possíveis gastos de emergência com a filha Lívia, de 6 anos. “No início, administrei muito bem, mas foi só eu precisar me afastar do trabalho por um problema de saúde, e meu salário vir menor, que perdi o controle”, diz Michele.
A ignorância financeira não é privilégio da classe C. Mas podem vir desse grupo lições para toda a sociedade
Várias mudanças podem melhorar o quadro. A simples melhora do ensino de matemática e lógica na escola já faria diferença. Luiz Augusto  Ferreira, presidente da Confia Microfinanças e Empreendedorismo, acredita que caberia aos bancos oferecer o crédito com orientação financeira. Trata-se de um serviço que pode acarretar danos ao cliente se for mal usado, como ocorre com medicamentos. “É preciso entrar no mundo dessas pessoas e pensar com a lógica delas”, diz Ferreira. Alguns apostam na educação financeira, com aulas mais específicas, que ensinem crianças e jovens a administrar o dinheiro. “A educação financeira é uma habilidade essencial para viver hoje, como a leitura, a escrita ou a matemática. Deveria ser ensinada desde cedo, no ensino fundamental, ou mesmo antes”, afirma Annamaria Lusardi, professora de economia e contabilidade da Universidade George Washington e diretora acadêmica do Centro de Excelência em Alfabetização Econômica Global. Para Annamaria, mesmo temas complexos, como juros compostos (os juros sobre juros), podem ser simplificados – basta dizer que vale a pena começar a poupar cedo e evitar empréstimos fáceis de tomar, a juros altos. Ela aposta em histórias e vídeos como armas poderosas. “São fáceis de ver e podem simplificar informações. Motivam mais que, digamos, uma palestra”, diz (assista ao vídeo em epoca.com.br).
 
Lívia Bastos (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)
Mesmo sem aulas formais, o aprendizado está em andamento. Depois de receber uma fatura de cartão de crédito com R$ 600 de gastos em roupas, Lívia Bastos procurou orientação. Um educador financeiro, pago por uma parente, a ensinou a negociar dívidas, a planejar gastos e a conter os impulsos de compra. O analfabetismo financeiro não é privilégio da classe C. Mas podem vir desse grupo lições valiosas para toda a sociedade.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/07/todas-bcontas-da-classe-cb.html

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