quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Jairo Jorge: "A esquerda tem de unir igualdade e liberdade"

O prefeito petista deixou de lado a ideologia na gestão – e diz que o modelo que levou à tragédia do socialismo não faz mais sentido hoje

JOSÉ FUCS, DE CANOAS, RIO GRANDE DO SUL
PARTICIPAÇÃO O prefeito  de Canoas,  Jairo Jorge. “Nossa proposta não é criar sovietes aqui” (Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)
O gaúcho Jairo Jorge, prefeito de Canoas, cidade de 330 mil habitantes na periferia de Porto Alegre, é um dos administradores mais populares e bem-sucedidos do PT no país. Reeleito com 70% dos votos em 2012, Jorge, aos 51 anos, governa sem se preocupar muito com a ideologia e adota medidas heterodoxas para um petista, como cortar o Imposto sobre Serviços (ISS), para atrair mais empresas. Um dos nomes mais cotados para ser o candidato do PT ao governo do Rio Grande do Sul em 2018, ele foi escolhido, recentemente, como coordenador nacional de prefeitos da campanha da presidente Dilma à reeleição, com Maguito Vilela (PMDB), prefeito de Aparecida de Goiânia, em Goiás.
ÉPOCA – O senhor é considerado um petista pragmático, que não leva muito em conta a ideologia. Isso provoca muitas críticas no partido. O que o senhor pensa disso?
Jairo Jorge –
 No PT, minha concepção política sempre foi de pluralidade. Sempre integrei um campo político que buscou esse arejamento, essa posição mais heterodoxa. Todo gestor, todo político, todo líder que quer transformar, inovar, precisa ter coragem para ousar. Na história política, a esquerda sempre teve essa capacidade de renovação. Temos de manter a inquietude, buscar novas respostas para novos problemas.
ÉPOCA – Em 2013, quando o senhor foi ao Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, foi criticado pela esquerda mais ortodoxa do PT. Como viu esse episódio?
Jorge –
 Respeito as críticas, mas as pessoas que têm capacidade de diálogo não podem se furtar a participar. Nós, de esquerda, temos de dialogar e ouvir ideias diferentes. Isso não significa que mudaremos nossas ideias, mas temos de evoluir. Gandhi dizia que era fiel à verdade tal como ela lhe era apresentada a cada dia e que evoluía de verdade em verdade. É essa capacidade de transformação que precisamos ter. É assim que temos de construir a democracia.
ÉPOCA –Na ocasião, o senhor chamou seus críticos de “velha esquerda” e afirmou que “a esquerda contemporânea tem o desafio de equilibrar liberdade e igualdade”.  O que quis dizer?
Jorge  –
 Há setores do PT que não têm essa visão. Eu os respeito, mas acredito que a esquerda, hoje, tem de procurar conjugar igualdade com liberdade. Tradicionalmente, somos defensores da igualdade e temos de ser, cada vez mais, defensores da liberdade. Temos de repensar o socialismo, discutir como construir o socialismo na sociedade de mercado, num mundo de liberdade. Não podemos pensar que, hoje, as respostas que levaram à tragédia do socialismo real continuam válidas. Uma esquerda libertária, humanista, precisa ser inovadora. Precisa manter suas origens, suas ideias, seus princípios, sua visão de mundo, sua luta contra a injustiça, mas deve ter também um compromisso radical com a democracia.
ÉPOCA – Nos últimos tempos, o PT retomou antigas bandeiras e promoveu uma radicalização do discurso. Vem promovendo o antagonismo de classes e deixando para trás a Carta aos Brasileiros, que pavimentou a primeira eleição de Lula, em 2002. Como o senhor vê isso?
Jorge  – 
Não é uma questão fechada. Setores do partido têm essa opinião, mas a presidenta Dilma já disse de forma clara que temos um compromisso com as instituições, com a governabilidade, com a estabilidade e com políticas de Estado, que devem ter continuidade. Esses compromissos são inalienáveis. Isso se materializou na Carta aos Brasileiros. Agora, há temas que precisam ser enfrentados, e a gente precisa ter maturidade para isso. Um deles é a reforma política. O Brasil precisa de uma reforma política, que deve ser construída de forma democrática com a sociedade, mas é essencial para o fortalecimento das instituições. Hoje, há um grande desencanto com a política.
ÉPOCA – Depois de 12 anos no poder, o PT não sofre “fadiga de material”?
Jorge  –
 O grande desafio desta eleição é o futuro. Construímos uma fase importante ao trazer para o consumo setores que estavam fora dele. Agora, a sociedade exigirá de nós a capacidade de trazer esperança para esse futuro, de trazer novas agendas. Isso passa pelos alicerces que serão erguidos nos próximos quatro anos. O PT tem a capacidade de fazer esse processo de renovação.
ÉPOCA – Não deixa de ser irônico que, depois de 12 anos no poder, a palavra de ordem do PT seja a mudança, a mesma de 2002, quando o partido assumiu o poder. Isso não o incomoda?
Jorge  –
 Questões que antes não estavam na ordem do dia hoje estão. O mundo evoluiu, o Brasil também. Há novas demandas. A sociedade não é mais a mesma. Quando o PT diz que precisa mais mudança e mais futuro, temos a humildade de dizer que trabalhamos muito, fizemos muito, mas é preciso fazer mais, avançar mais.
ÉPOCA – Em sua opinião, o que explica a rejeição à presidente Dilma nas pesquisas, de quase 40% do eleitorado?
Jorge  –
 Isso será decidido na eleição. Não tenho bola de cristal para prever. As pesquisas têm apontado que a presidenta lidera a corrida presidencial. Há setores que não concordam com políticas que realizamos. Cabe a nós também nos comunicar e sensibilizar essas pessoas. A campanha eleitoral é o momento de prestar contas, de reconhecer eventuais limites e dificuldades, mas também de mostrar os avanços.
ÉPOCA – Em Canoas, o senhor adotou mecanismos de consulta direta à população. Qual sua opinião sobre o decreto da presidente Dilma, que criou os conselhos populares no governo?
Jorge  –
 O que a presidenta faz no plano federal já existe em várias cidades, com o orçamento participativo. Ela procura construir um novo ordenamento das políticas públicas a partir das experiências dos conselhos municipais e estaduais. Ela diz que a sociedade deve poder trazer sua opinião e ser ouvida. Não podemos ideologizar esse debate. A proposta da presidenta não é para criar sovietes aqui. Temos é de radicalizar cada vez mais a democracia, ouvir cada vez mais o cidadão, das mais variadas formas.
ÉPOCA – Mas a Constituição Federal já atribui ao Congresso Nacional o papel de instância de representação popular...
Jorge  –
 Não sou um crítico do Parlamento. O Parlamento tem seu papel, mas não existe nenhum elemento contraditório entre a democracia representativa e a participativa. No mundo, hoje, há um desejo de participar mais. O que o governo propõe? A criação de um sistema para que a sociedade possa participar e decidir de fato. O PT defende essa visão de radicalizar a democracia. Mais pessoas têm de participar, ajudar a forjar uma democracia plural – não só as vozes que estão no mesmo coro do PT.  Agora, radicalizar a democracia não é virar caos. É organizar as demandas, porque elas sempre existirão.
ÉPOCA – Muita gente não quer participar da discussão de políticas públicas. Prefere delegar o poder a parlamentares e executivos. Quem controla as discussões são os mais mobilizados, em geral de esquerda.  O que o senhor pensa disso?
Jorge  –
 Não concordo. Esses processos são abertos. Quando você os transforma em guetos, eles acabam, porque só têm legitimidade quando a sociedade participa. Depois, precisamos ter várias formas de participação. Se as pessoas não gostam de participar de assembleias, há mecanismos de interação via internet. Em Canoas, oferecemos a possibilidade de o cidadão participar, fazer críticas, sem sair de casa ou do escritório. Não podemos transformar esse sistema de participação, uma escuta da sociedade, em falsa polêmica. Os governantes hoje têm de estar atentos e ter uma escuta. Por que as pessoas vão para as ruas? Porque não se sentem ouvidas.
ÉPOCA – Para ser ouvidas, elas têm de, ao menos, respeitar as leis. O MTST e o MST invadem propriedades privadas e são ouvidos pela presidente Dilma e outras autoridades. Daqui a pouco, a gente terá de ouvir até o PCC... 
Jorge  – 
São coisas diferentes. Não estamos falando de crime.
ÉPOCA – Em São Paulo, o MTST invade um terreno privado atrás do outro. O senhor apoia essa conduta?
Jorge – 
Precisamos ter capacidade de diálogo para construir soluções. Isso não significa que concordaremos com ações que foram feitas. Manifestações violentas, pessoas que quebram patrimônio público privado, isso não é bom para a democracia. Os governos que se fecham são os que levam à radicalização, a convulsões. A capacidade de ouvir não significa anuência, mas não dá para ficar impassível e achar que só a criminalização resolverá o problema.
"Quem ganhar a eleição terá o desafio de pacificar o país, de construir o consenso"
ÉPOCA – Hoje, o Brasil está dividido. Para muitos, o PT promove uma cizânia ao dividir o país em “nós” e “eles”. Quem será nosso Mandela, que governará para todos os brasileiros, ricos e pobres, brancos de olhos azuis e negros de olhos castanhos?
Jorge  –
 Quem ganhar a eleição terá o grande desafio de pacificar o país, governar para todos e construir um consenso para que o Brasil, nos próximos quatro anos, possa seguir seu caminho de crescimento e não entre em convulsão. 


Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/tempo/eleicoes/noticia/2014/08/bjairo-jorgeb-esquerda-tem-de-unir-igualdade-e-liberdade.html

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