sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Origens: A Moralidade Humana

Qual é a origem da moralidade humana? Existe alguma razão para sermos seres morais? Sabemos o que é "certo e errado", ou inventamos esses conceitos? O que a moralidade tem a dizer sobre Deus? É estranho quando o relativista moral afirma que "estão errados os que defendem uma moral absoluta" e que "é algo ruim afirmar que existe uma verdade moral definida", uma vez que ele critica o apego à moralidade utilizando-a. O relativismo moral tem se alastrado nas ondas do pós-modernismo, uma reação impulsiva ao mundo de absolutos que culminou nas Grandes Guerras e no comunismo do Século XX - o estranho é que tal reação, necessariamente parte de um pressuposto moral para julgar como vil o século passado que, por sinal, foi o primeiro século no qual o Ocidente realmente viveu desprezando o Deus cristão e a moralidade cristã, postura tal responsável por mais mortes do que os dezenove séculos anteriores somados, tempo no qual viveu-se sob uma orientação mais clara das Escrituras. O ser humano nasce sem uma concepção de moralidade? É tudo aprendido ou inato? Onde pode chegar a humanidade sem um padrão moral definido e externo ao indivíduo? O comunismo do século XX declarou a moralidade sugestionável e se considerou suficiente para determinar aquilo que deveria ser tido como certo e aquilo que deveria ser tomado como errado - mais de 100 milhões de pessoas morreram. Considerando a importância desse assunto, te convido a acompanhar os raciocínios que seguirão - tire as suas próprias conclusões, mas espero que, se entender como errados os posicionamentos de minhas fontes, ao menos reconheça que seu julgamento parte do entendimento moral que habita em sua mente.
Fontes: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 101; Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pg 133.

Índice: 1 - Qual é a fonte da moralidade?; 2 - "Relativismo moral" não existe!; 3 - A moralidade é muito evidente; 4 - Demonstrando a moralidade universal; 5 - Toda a luta contra a moral parte da moralidade; Conclusão.

1 - Qual é a fonte da moralidade?
No livro Em Guarda, Vida Nova, capítulo 6, William Lane Craig, doutor em filosofia e teologia, desfere a seguinte pergunta: "podemos ser bons sem Deus?" Algumas pessoas ficam irritadas com essa pergunta, pois pensam que está sendo dito que "ateus são pessoas ruins", mas não é essa a questão: o que está sendo questionado é se o bem que discernimos no universo existiria se Deus não existisse. Os valores morais são orientações que guiam nossa vida por meras convenções sociais? Seriam apenas gostos pessoais? Ou eles são, de alguma forma, válidos e obrigatórios, independente do que pensamos? A pergunta inicial, sobre a necessidade de Deus para a bondade, quando respondida, solucionará as demais interrogações.

Para iniciar sua argumentação, Craig cita o argumento de William Sorley, professor de filosofia moral na Universidade de Cambridge, que pensava em Deus como a base mais racional para a questão da moralidade: a primeira consideração é a de que existe uma moral objetiva, tão real e independente de nós quanto a ordem natural das coisas. Sorley reconhece a impossibilidade, em certo sentido, de provar que essa ordem moral objetiva exista, mas aponta para a questão de que não podemos nem provar que a ordem natural dos objetos físicos exista - poderia tudo ser uma ilusão, uma interpretação errônea, uma grande manipulação. Aqui é estabelecido que a ordem moral e a ordem natural encontram fundamentos semelhantes - assim como presumimos a realidade dos objetos com base em nossas experiências sensoriais, também devemos presumir a ordem moral com base em nossa experiência moral. Para Sorley, tanto a ordem natural quanto a moral fazem parte de uma mesma realidade, levantando a necessidade de se encontrar uma cosmovisão que possa combinar essas duas ordens de modo coerente - Deus, ao seu ver, é a melhor resposta. "Deve existir uma Mente eterna, infinita, que é o arquiteto da natureza e cujo propósito moral o ser humano e o universo estão gradualmente cumprindo".

Um esquema argumentativo:
1 - Se Deus não existe, também não existem valores morais objetivos nem deveres.
2 - Valores morais objetivos e obrigações existem.
3 - Logo, Deus existe.

O fato é que as pessoas geralmente acreditam nas duas premissas, mesmo que se digam relativistas morais - mesmo quando se foge do debate sob o pretexto de não tentar impor seus valores a alguém, o indivíduo está fazendo uso de valores como amor, tolerância e atitude de ter uma mente aberta. Ele tem como algo objetivamente errado impor suas ideias ao outro! O seu relativismo sustenta a primeira premissa e a sua preocupação moral acaba validando a segunda. Analisemos as premissas:

A - Se Deus não existe, também não existem valores morais objetivos nem deveres:
Por moralidade objetiva sugere-se algo que independe da opinião das pessoas e por moralidade subjetiva, entendemos aquilo que depende da opinião do indivíduo.

"Valores morais exigem a existência de Deus?"; "se Deus não existir, qual é a base dos valores morais?"; "por que pensamos que os seres humanos possuem valor moral?" O naturalismo, forma mais comum de ateísmo, sustenta que as únicas coisas que existem são aquelas validadas e descritas pelas melhores teorias científicas, porém a própria ciência é neutra, respondendo aos questionamentos anteriores de forma negativa: os valores morais não existem na realidade, sendo apenas ilusões dos seres humanos. Nenhum ateísta, mesmo que queira, tem bons argumentos para sugerir que o ser humano seja moralmente valioso, uma vez que os valores morais não passam de um subproduto da evolução biológica e do condicionamento social. Não há nenhuma sugestão natural para uma moralidade objetiva - se a vida acabasse e recomeçasse novamente, a evolução poderia culminar em seres com preceitos morais muito diferentes de nós.

O próprio Charles Darwin afirmou que uma moralidade embasada na natureza pouca coisa boa nos pode oferecer: se os seres humanos fossem criados sob as mesmas condições que as abelhas, acreditariam ser um dever sagrado matar seus irmãos, e as mães lutariam para matar suas filhas férteis, isso tudo sem ninguém pensar em intervir. Sem a existência de Deus, não há nenhuma razão para pensar que a moralidade humana é melhor e mais verdadeira do que as práticas dos outros animais.

"Deveres morais objetivos exigem a existência de Deus"
Segundo os ateístas, os seres humanos são meros animais e, como animais, não nutrem nenhum dever moral uns para com os outros. Falamos que o leão "mata" a zebra, não que a "assassina", falamos que o tubarão branco "força a cúpula" com a fêmea, não que ele a "estupra" - os atos dos animais não possuem nenhuma dimensão moral. Não há proibições ou obrigações. Da mesma forma, se Deus não existir, o que nos leva a pensar que temos algum dever moral? E, caso tenhamos, de onde ele vem? Mesmo que o ateu tenha justificativas biológicas para que o estupro e o incesto tenham se tornado tabus, ele jamais conseguirá mostrar de que forma esses comportamentos são realmente errados, pois esse tipo de coisa vive acontecendo no mundo animal. "Se não tivermos alguém que faça as leis morais, então não existem deveres morais objetivos que devamos obedecer."

"Acreditar em Deus não é algo necessário para a moralidade objetiva; mas Deus é".

O dilema de Eutífron:
"Há algo bom por que Deus deseja que seja assim? Ou Deus deseja algo por que isso é bom?" Se concordarmos com a primeira questão, o questionador irá concluir que o bem é arbitrário; se concordarmos com a segunda, então fica parecendo que o bem ou o mal são independentes de Deus. O problema do dilema de Eutífron é que ele ignora uma terceira possibilidade: a de que Deus deseja algo porque Deus é bom - a própria natureza de Deus é o padrão do que é bom! A natureza do Criador é o padrão moral que define o bem e o mal.

Platonismo moral ateísta - os valores morais simplesmente existem:
Platão acreditava que o bem existia apenas por si mesmo, como uma ideia auto-existente. Tal posicionamento defende a existência de valores morais objetivos, mas nega que estes tenham seus fundamentos em Deus. A questão é: o que significa dizer que o valor moral da justiça simplesmente existe? "Os valores morais aparecem como propriedades das pessoas, e é difícil entender como a justiça possa existir como uma abstração".

Além disso, tal visão não fornece nenhuma base para os deveres morais. O simples fato de existirem valores morais resultaria em alguma obrigação moral? Por que alguém deveria sentir-se no dever de ser, por exemplo, caridoso? Alguém poderia impôr tal obrigação? O platonismo moral ateísta, uma vez que sugere a auto-existência dos comportamentos bons, também aponta para a auto-existência dos comportamentos ruins, como a cobiça, o ódio e o egoísmo - também abstrações. O que nos obriga a levar a vida segundo o primeiro padrão abstrato e auto-existente e não em conformidade com o segundo? Não há nenhuma obrigação moral sem a existência de um legislador moral.

Por fim, é altamente improvável que um processo evolutivo cego simplesmente "cuspisse" o tipo de criaturas que correspondessem ao domínio abstrato dos valores morais. Isso faz parecer que o domínio moral preexistente e abstrato soubesse que estávamos por vir. A existência de Deus como explicação para o domínio moral e natural é muito mais sensata.

Humanismo obstinado - o que quer que contribua para o progresso humano é bom:
Muitos ateus sustentam seus valores morais "naquilo que for melhor para o progresso humano". Por qual motivo devemos crer que aquilo que coopera com o progresso humano é mais valioso do que aquilo que coopera com o progresso dos outros animais? Por que pensar que infligir o mal a outro ser humano é errado? Penso, de fato, que seja errado, mas como o ateísmo pode justificar tal consideração? Escolher o progresso humano como moralmente especial é um julgamento arbitrário.

Alguns ateus afirmam que comportamentos bons ou ruins estão necessariamente vinculados a certos estados naturais de coisas - a maldade está necessariamente vinculada ao infanticídio e a bondade está necessariamente vinculada ao ato de amamentar, por exemplo. Para os que isso sugerem, uma vez que as propriedades naturais estão em seus devidos lugares, as propriedades morais encontram sentido. Por qual motivo devemos pensar que as propriedades morais (bondade e maldade), estranhas e não naturais, sequer existam? Por qual motivo devemos pensar que elas se vinculam a vários estados naturais de coisas? Existe alguma razão para que o humanista pense que, estando certo o ateísmo, o ser humano seja moralmente mais importante? Tal posicionamento não se sustenta.

A menos que sejamos niilistas morais, devemos reconhecer algum ponto de parada em nossa jornada moral - e Deus é esse ponto! Deus, por definição, é o maior dos seres concebíveis, e um ser que é o fundamento e a fonte da bondade é maior do que aquele que apenas toma parte nessa bondade.

B - Existem valores e deveres morais objetivos:

Experiência moral:
Os filósofos, quando refletem sobre a moral, não veem mais razões para desconfiar dessa experiência do que veem para desconfiar da experiência dos nossos cinco sentidos. Eu acredito que exista um mundo objetivo ao meu redor, mesmo que não possa confiar plenamente nos meus sentidos. Assim como acredito na experiência sensorial, devo crer na experiência moral, tendo em mente que algumas coisas são objetivamente boas e outras não.

Segundo Craig, 95% das pessoas que se dizem adeptas do relativismo moral, mudam rapidamente de opinião quando confrontadas com questões práticas. Basta perguntá-las sobre a prática hindu de queimar a viúva viva juntamente com o cadáver do marido ou sobre o costume chinês de aleijar suas mulheres pelo resto da vida, atando os seus pés desde crianças para que fiquem parecidos com flores de lótus. Quando você se deparar com alguém que trate desses assuntos com base no relativismo sociocultural, afirmando que tudo não passa de cultura e momento histórico, será o seu dever deixá-lo consciente de que, dessa forma, ele não pode criticar nada - nem você. 

Nesse momento cabe o seguinte questionamento: "temos alguma razão primordial para não confiar em nossa experiência moral?" Há quem sugira que nossas crenças morais foram incutidas em nós pela evolução e pelo condicionamento social, debilitando nossa experiência moral, porém a verdade de uma crença independe de como alguém veio a sustentá-la. Na melhor das hipóteses, a explicação anterior, sociobiológica, prova que nossa percepção dos valores e deveres morais evoluiu - a descoberta gradativa, e não invenção, dos valores morais não os torna menos objetivos, assim como a percepção gradual e falível do mundo físico não o torna menos real. De qualquer forma, se nossas crenças morais são fruto da evolução, não podemos ter qualquer confiança nelas, assim como não podemos confiar no dizer de um biscoito da sorte ou na leitura de folhas de chá.

Se Deus não existe, nossas crenças morais foram selecionadas pela evolução. Se Deus não existe, então nossas crenças morais são ilusórias. Mas não há nenhuma razão para crer que a explicação sociobiológica seja verdadeira. Agora, se o Criador existe, então é provável que Ele tenha controlado nosso processo evolutivo para produzir as crenças desejáveis ou que, no momento da Criação, já as tenha incutido em nós. De qualquer modo, para o naturalismo não só as nossas crenças, mas todo o nosso conhecimento é fruto da evolução e do condicionamento social - a explicação evolucionária, portanto, nos leva ao ceticismo quanto ao conhecimento em geral. Nesse caso, deveríamos ser céticos quanto ao próprio processo evolucionário! Com base em tudo isso, temos boas justificativas para pensar que os deveres e valores morais realmente existem e que, portanto, Deus também seja real.

Resumo:
- Se Deus não existe, então não existem valores e deveres morais objetivos -> sem Deus, o naturalismo é verdade e a moralidade ilusória -> a natureza de Deus é o Bem e a sua vontade necessariamente expressará sua natureza -> o platonismo moral é ininteligível e não fundamenta o dever -> o humanismo propõe algo arbitrário e implausível.
- Existem valores e deveres morais objetivos -> a experiência moral revela isso -> a explicação sociobiológica não diminui a verdade das crenças morais, ela parte do pressuposto de que o ateísmo é verdadeiro e derruba a si mesma.
- Deus existe.

Conclusão:
As duas premissas trabalhadas apontam para Deus. Conclui-se que nós não podemos ser bons sem que Deus exista.
Fonte: Em Guarda, William Lane Craig, Vida Nova, 2011, pgs 139-161.

2 - "Relativismo moral" não existe!
Quando alguém afirma que "não existem verdade absolutas", basta questionar: "você realmente crê que é verdade que não existem verdades?" Se algo é verdadeiro, então outra coisa é falsa e, portanto, a "verdade que não existem verdades" é inconcebível, pois sugere uma verdade que é incompatível com o oposto defendido. Por esse motivo é que as religiões não podem estar todas certas ao mesmo tempo e que os comportamentos humanos não são todos igualmente aceitáveis. Quando alguém diz que não se pode questionar as crenças religiosas de uma pessoa, está defendendo uma outra crença religiosa: o pluralismo. E tal crença também questiona as demais, já que não aceita as visões de mundo "não pluralistas" - até a ideia de que "você não deve julgar", é um julgamento! Não se pode saber o que está errado, a menos que se saiba o que está certo. Mesmo que alguém afirme que a verdade na moralidade não é importante, basta que você o trate com falta de educação para que ele deixe de acreditar nisso.

É possível que o relativista moral ache que "é bom" não crer numa moralidade objetiva? Será que ele considera "ruim" que alguém nutra um sistema de valores absolutos? E se ele, te julgando, valorizar a ideia de que "não se pode desferir juízos de valor"? Se tais coisas acontecerem, o questionador e acusador estará se contradizendo vergonhosamente.
Fonte: Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, pgs 41-50 e 67.

3 - A moralidade é muito evidente:
"Você gostaria que fizessem o mesmo com você?"; "Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro"; "Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal"; "Por que você teve que entrar na frente?"; "Dê-me um pedaço de sua laranja, pois eu lhe dei um pedaço da minha"; "Poxa, você prometeu!". Quem desfere tais comentários não somente está expressando seu desgosto pelo comportamento do próximo, mas sugerindo um padrão ideal de comportamento que ele também deveria conhecer. É improvável que o indivíduo assim confrontado simplesmente mande tal padrão "para o Inferno" - na verdade ele tende a procurar várias desculpas para se justificar. Fica claro que os envolvidos na discussão conhecem uma lei ou regra de conduta leal, de comportamento digno ou moral - se não conhecessem, poderiam até lutar como animais ferozes, mas jamais discutiriam o assunto, pois a discussão parte do pressuposto de que o outro está errado. Não há sentido em tentar mostrar que o outro está errado se ambos não partilham de um consenso sobre o que é certo e o que é errado. Tal lei do certo e do errado é conhecida como "Lei Natural".

Quando os pensadores antigos sugeriram uma "lei natural", eles apontavam para um conjunto de regras que pertencem naturalmente ao ser humano, uma lei própria do homem - os outros seres se sujeitam às leis da física, da química e da biologia, mas somente o homem conhece a lei moral. De todos os conjuntos de leis que estão sobre o ser humano, apenas a lei que lhe é exclusiva, aquela que ele não tem em comum com os outros seres, pode ser desobedecida - a única lei que pode ser burlada pela escolha voluntária é a Lei Natural. O nome "Lei Natural" já indica de onde o conceito foi tirado: todos a conheciam. 

Para C.S. Lewis, as pessoas, de fato, pensam que a ideia de comportamento digno ou decente é óbvia para todos - e isso faz sentido, pois, caso contrário, não poderíamos desferir juízos sobre guerras e demais conflitos. Alguns lutam contra tal princípio afirmando que diversos povos da história nutriram comportamentos morais muito diferentes, mas C. S. Lewis discorda: há, sim, diferenças morais entre os povos, mas a distância entre elas é pequena, nunca chegando a caracterizar algo totalmente diferente. Nunca existiu uma cultura capaz de valorizar o roubo, a traição, o egoísmo, a mentira ou o assassinato - os povos concordam com isso assim como todo mundo (consciente) concorda que dois mais dois é igual a quatro. E mesmo que existam algumas exceções mais gritantes, "um cálculo errado não invalida a tabuada".

"Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que outro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista. (...) No momento em que você diz que um conjunto de ideias morais é superior a outro, está, na verdade, medindo-os ambos segundo um padrão e afirmando que um deles é mais conforme a esse padrão que o outro." Quando você faz isso, compara os dois conjuntos de ideias com uma Moral Verdadeira, com aquilo que podemos chamar de "O Certo". Se as suas ações morais são mais verdadeiras do que as dos nazistas, deve existir algo que seja o objeto a que essa verdade faz referência. Ecoando outra ilustração de Lewis: o motivo de a minha concepção de Nova York ser mais verdadeira ou mais falsa que a sua reside no fato de Nova York é um lugar real, que existe independentemente do que pensemos a seu respeito - se não existisse, não haveria medida de verdade ou de falsidade em nossas concepções. 

Certas pessoas, ainda, sugerem que a Lei Natural nada mais é do que resultado dos nossos instintos bestiais, desenvolvida no passo deles. A questão é que sentir "o desejo intenso de ajudar alguém é bem diferente de sentir a obrigação imperiosa de ajudar, quer queiramos, quer não". Se você ouvir um grito de socorro, provavelmente dois desejos aflorarão: o de prestar socorro e o de fugir do perigo. Mas haverá um terceiro elemento em ação em sua mente, um desejo que mandará você socorrer a pessoa em perigo e suprimir o desejo de fuga - ora, o elemento que pesa os dois desejos iniciais não pode ser nenhum deles! Para C. S. Lewis, "a Lei Moral nos informa a melodia a ser tocada; nossos instintos são mera teclas. (...) A Lei Moral não é um instinto particular ou um conjunto de instintos; é como um maestro que, regendo os instintos, define a melodia que chamamos de bondade ou boa conduta". 

O que, por fim, podemos saber é que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles; que tal lei não pode ser tirada de vista mesmo que se queira; e à qual sabem que devem obedecer. Não podemos dizer se uma linha é torta se não soubermos o que é uma linha reta!
Fonte: Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2014, pgs 5-28, 32, 51.

4 - Demonstrando a moralidade universal:
Os nazistas da Segunda Guerra Mundial só foram julgados por uma corte internacional, pois o mundo inteiro reconheceu que há padrões morais que transcendem nações e culturas e que os nazistas tinham consciência desses padrões. É claro que há casos de criminosos inocentados, mas isso geralmente acontece por motivo de insanidade, sendo exceções que provam a regra. Para mostrar que existe uma moralidade universal, Lewis apresenta códigos legais de mais de 12 povos antigos, desde os gregos e os romanos, passando pelos babilônios e egípcios, até os nórdicos e os índios norte-americanos - fazendo isso, Lewis demonstra que existe uma noção geral em toda a humanidade sobre os princípios morais básicos, nomeados pelos judeus de "Dez Mandamentos". Segue uma pequena parte da lista de códigos comuns apresentada pelo grande apologista inglês:

- "Eu não matei homem nenhum" - Egito antigo, Livro dos Mortos.
- "Não matarás" - Judeu antigo, Êx 20:13.
- "Em Nástrond (Inferno) eu vi (...) assassinos" - Nórdico antigo, Volospá 38, 39.
- "Eu não fui avarento" - Egípcio antigo.
- "Aquele que trama a opressão tem a sua morada arruinada" - Babilônio, Hino a Samas.
- "Aquele que é cruel e calunioso tem a personalidade de um gato" - Hindu, Leis de Manu.
- "Não calunieis" - Babilônio, Hino a Samas.
- "Não darás falso testemunho contra o teu próximo" - Judeu antigo, Êx 20:16.
- "Não profiras uma palavra pela qual alguém possa ser ferido" - Hindu, Janet.
- "Não faças algo aos outros que não gostarias que fizessem contigo" - Chinês antigo, Analectos de Confúcio.
- "Não guardem ódio contra o seu irmão no seu coração" - Judeu antigo, Lv 19:17.
- "A Natureza encoraja os homens a desejar a existência da sociedade humana e a fazer parte dela" - Romano, Cícero, De Officiis.
- "Quando o povo tiver se multiplicado, o que deve ser feito por ele? O Mestre disse: 'Faze-o prosperar.' Jan Ch'iu perguntou: 'E, quando já estiver próspero, o que deve ser feito por ele?' O Mestre disse: 'Instruí-o'" - Chinês antigo, Analectos.
- "O homem é a felicidade do homem" - Nórdico antigo, Hávamál.
- "Aqueles a quem se pedem esmolas devem sempre dá-las" - Hindu, Janet.
- "Acaso ele insultou sua irmã mais velha?" - Babilônio, Lista de Pecados.
- "Você os verá cuidando dos parentes e dos filhos dos seus amigos (...) sem jamais repreendê-los minimamente" - Pele-vermelha, Le Jeune.
- "Ama tua esposa persistentemente. Alegra teu coração por toda a vida." - Egípcio antigo.
- "Para um homem ajuizado, nada pode mudar os deveres de parentesco" - Anglo-saxão, Beowulf.
- "Não devo ser insensível como uma estátua, mas sim honrar tanto minhas relações naturais quanto artificiais, como um adorador, um filho, um irmão, um pai e um cidadão" - Grego.
- "Isto eu te digo em primeiro lugar: sê impecável para com os do teu sangue. Não te vingues nem mesmo daqueles que erram contigo" - Nórdico antigo, Sigdrifumál.
- "Somente os filhos de Atreus amam suas esposas? Pois todo homem bom e ajuizado ama e guarda a sua própria esposa" - Grego, Homero, Ilíada.
- "Acaso ele desprezou Pai e Mãe?" - Babilônio, Lista dos Pecados.
- "Eu fui um cajado ao lado do meu Pai (...) Obedeci inteiramente às suas ordens" - Egito antigo, Confissões da Alma do Justo.
- "Honra teu pai e tua mãe" - Judeu antigo, Êx 20:12.
- "Cuidar dos pais" - Grego, Lista dos Deveres de Epicteto.
- "As crianças, os idosos, os pobres e os doentes devem ser considerados os senhores da atmosfera" - Hindu, Janet.
- "Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos" - Judeu antigo, Lv 19:32.
- "Eu cuidei do idoso, dei-lhe meu cajado" - Egípcio antigo.
- "Você os verá cuidando (...) dos homens idosos" - Pele-vermelha, Le Jeune.
- "Deve-se grande reverência a uma criança" - Romano, Juvenal.
- "Disse o Mestre: 'Respeita os jovens'" - Chinês antigo, Analectos.
- "Acaso ele traçou falsas demarcações de terra?" - Babilônio, Lista dos Pecados.
- "Enganar, roubar, ocasionar roubo" - Babilônio.
- "Não roubai" - Egito antigo, Confissões da Alma do Justo.
- "Não furtarás" - Judeu antigo, Êx 20:15.
- "O prejuízo é preferível ao lucro ilícito" - Grego, Chilon.
- "Se o nativo fizer um 'achado' de qualquer tipo e o marcar, o objeto passará, pelo menos para os homens de sua tribo, a ser indiscutivelmente seu, por mais que ele demore a usá-lo" - Aborígine australiano.

Essa lista representa apenas uma parte daquela disponibilizada por Lewis no livro "A Abolição do Homem". Com base em suas conclusões, o famoso apologista cristão sugere que o papel dos profetas antigos não residia na criação da moralidade, mas no relembrar de seus conceitos, como se os mesmos fossem inatos. E é justamente isso que parece.
Fontes: Apologética Cristã Para o Século XXI, Louis Markos, Ph.D., Central Gospel, 2013, pgs 32-33; A Abolição do Homem, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2005, pgs 79-89.

5 - Toda a luta contra a moral parte da moralidade:
C. S. Lewis, através de uma complexa argumentação, estabelece que a Lei Natural é o único sistema de leis possível, a fonte para todos os juízos de valor - preservado qualquer valor, a Lei Natural será preservada. Nunca houve um juízo de valor radicalmente novo na história humana - tudo aquilo que pretende ser um novo sistema ou ideologia nada mais é do que fragmentos da Lei Natural e, portanto, "a rebeldia das novas ideologias contra o Tao [Lei Natural] é a rebeldia dos galhos contra a árvore." De semelhante modo, o latim não deixou de existir porque novas línguas foram tiradas do nada e o suprimiram: foi ele próprio o gerador das novas línguas e ele, de certa forma, continua presente nos idiomas nele baseados - que cabimento teria se o povo, tentando acabar com o latim, apenas parasse de falar, fazendo um voto de silêncio, e deixasse de escrever?
Fonte: A Abolição do Homem, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2005, pgs 42-44.

Conclusão:
Diante de tudo isso, só podemos concluir que, existindo uma lei moral comum a todos os seres humanos, deve existir um Legislador. A Lei Natural não pode ter vindo da natureza, não é fruto da evolução, não é relativa - ela é absoluta, inerente ao ser humano e um elemento próprio, diferente dos instintos. A Lei Moral existia antes de nós e é externa, a Lei Moral aponta, necessariamente, para a existência de Deus! Mas não qualquer Deus: o gerador da moralidade só pode ter se baseado na sua própria natureza, perfeita, amorosa e relacional. O único Deus descrito como capaz de criar tudo, como sendo o amor em essência e eternamente relacional, residindo na eternidade na pessoa da Trindade, é o Deus que a Bíblia nos apresenta. Tendo criado o homem como um ser semelhante a Ele, incutiu em sua mente e alma uma série de princípios morais que possibilitariam um relacionamento saudável e segundo a natureza divina - tendo o homem liberdade para ir contra a Lei Natural, afastou-se de Deus, mas a Lei Natural não afastou-se do homem, espalhando-se pelo mundo inteiro, por todas as culturas e povos da história.

Natanael Pedro Castoldi


Fonte: Blog Entre o Malho e a Bigorna
http://entreomalhoeabigorna.blogspot.com.br/2014/08/origens-moralidade-humana.html

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