terça-feira, 30 de setembro de 2014

A verdade sobre Sai Baba: Um "deus" se desmorona

Enquanto alguns artistas, políticos e funcionários de diversos países revelaram e inclusive difundiram abertamente sua "devoção" ao denominado "Sai Baba", centenas de denúncias de ex-fanáticos do líder hindu revelaram alguns aspectos desconhecidos de sua vida que incluem a violação de menores, enriquecimento e o permanente abuso sexual de seus seguidores.

Quem é Sai Baba
Sathyanarayana Raju -seu verdadeiro nome- nasceu em 23 de novembro de 1926. Seu pai foi Pedda Venkama Raju e sua mãe, Easwaramma. Aos quatorze anos -logo de alguns fatos considerados por ele como sobrenaturais- declarou-se como a reencarnação de Sai Baba de Shirdi, o denominado santo de Shirdi da região de Maharashtra, que faleceu em 1918.
Em 1944 realiza a sua primeira viagem como "sábio" à região de Bangalore. Desde este momento começa a vestir a túnica que inicialmente foi cinza claro, depois branco e finalmente cor de açafrão.
Entre 1948 e 1950 construiu o denominado Prasanthi Nilayam ("A Morada da Paz Suprema"), uma espécie de cento de adoração. Entre seus discípulos mais próximos encontra-se o P.V. Narashima Rao e S. B. Chavan até P. N. Bhagwati e T. N. Seshan.
O Fideicomisso Central Sathya Sai Baba administra a Academia de Música de Prasanthi Nilayam, o Fideicomisso Médico administra o hospital de Rs 3 bilhões (U$ 67 milhões), a extensão total da propriedade é de 245 hectares. Sai Baba tem outras residências em Whitefiel, próximo a Bangalores e em Kodaikanal, onde passa os meses de março e junho.
Há 2. 560 Centro denominados "Sai" no estrangeiro. Sai Baba saiu da Índia somente uma vez no ano de 1968 quando viajou a Uganda.
As crenças
Segundo os devotos, a missão de Sai Baba não inclui a criação de uma nova religião, seita ou culto, o qual motivou que pessoas de diferentes religiões se aproximem dele, ainda que ao final deixem sua própria religião.
Segundo diz o principal fim é "estimular e motivar ao indivíduo na busca da auto- realização. As pessoas que têm sua própria fé devem aprofundar-se nela, sem que sejam perturbados".
O caráter universal de sua missão está representando no Sarva Dharma o emblema que simbolicamente engloba a todas as religiões.
Sai Baba tornou-se famoso por suas curas, pela suposta materialização de uma variedade de substâncias que distribui entre seu público (incluindo comidas quentes e líquidos), por sua suposta faculdade de bilocação, teletransporte, levitação e precognição e por seus fenômenos luminosos.
Foi objeto de limitados estudos por parte dos investigadores psíquicos do Ocidente, que não puderam provar a validade de suas proezas paranormais.
Rapidamente, Sathya Sai Baba atraiu seguidores assombrados com seus milagres e cativados por sua personalidade ainda que muitos o criticaram e rejeitaram.
Erlendur Haraldsson, psicólogo da Universidade da Islândia e pesquisador psíquico, começou em 1973 uma pesquisa dos fenômenos paranormais relacionados com Sai Baba que se prolongou durante dez anos. Para isso teve que realizar várias viagens à Índia a fim de entrevistar a Sai Baba, seus seguidores e seus críticos, sendo acompanhado várias vezes por karlis Osis, que então formava parte da American Society for Psychical Research; em uma oportunidade pelo doutor Michael Thalbourne, da Universidade de Washington; e em outra pelo doutor Joot Houtkooper, da Universidade de Amsterdã.
Sai Baba negou-se a se submeter a experiências controladas a fim de verificar suas faculdades psíquicas tornando desta maneira impossível a obtenção de provas irrefutáveis. As pesquisas de Haraldsson estabeleceram que as pregações precognitivas de Sai Baba nem sempre são precisas assim como nem todas suas curas são efetivas.
A Organização
Os detalhes de como funciona a organização de Sai Baba foram revelados por Harii Sampath, ex- membro do Corpo de Inteligência e Segurança do Ashram Prasanthi Nilayam.

Em uma carta o ex-devoto disse que "Quero compartilhar com todos várias observações que pude fazer sobre a operação Sai Baba durante meus anos como membro do corpo de inteligência e segurança do Ashram.
Primeiro quero lhes contar o que sei de fato. Sai Baba é uma tremenda fraude e tem muita gente ajudando-o em diferentes níveis. A maioria da ajuda mais séria e a assistência mais ativa procede de um círculo e não mais que seis ou dez indivíduos, quase todos indianos, que estiveram com Sai Baba por décadas. É precisamente este grupo, o que tem um controle total dos fundos e que responde só e diretamente a Sai Baba".
Mais adiante revela que há um segundo nível de pessoas, provavelmente um número entre doze e vinte, isto inclui a alguns estrangeiros e que respondem algumas vezes diretamente a Baba, mas regularmente têm que ir através do círculo mais próximo. Estes não controlam os fideicomissos, mas têm um acesso limitado a alguns dos fundos segundo lhes permite Sai Baba e seu círculo mais íntimo.
Segundo Harii Sampath algumas das funções do segundo grupo é apoiar a base do primeiro grupo mantendo o mito de Sai Baba "vivo" no estrangeiro, promovendo atividades entre os devotos estrangeiros, organizando sutilmente as doações de grandes quantidades de DINHEIRO e o mais importante de tudo, promovendo o espetáculo dos "milagres", tanto entre os devotos nacionais como entre os estrangeiros.

Os círculo mais íntimo e mais próximo a Sai Baba são regularmente membros do fideicomisso centra de Sai Baba e muito raramente mudam. Este fideicomisso também inclui a homens muito eminentes com altos postos, mas estas "figuras públicas" nunca recebam a autoridade para manejar os fundos, mas que estão para ser um enlace efetivo nas antessalas do poder e acrescentar uma aura de respeitabilidade à Organização de Sai.
A recompensa para estes executivos de mais baixo nível por sua "lealdade" é uma entrevista anual com Sai Baba concertada pelos membros do fideicomisso de segundo nível. A maioria destas pessoas não sabem a história de Sai Baba completa, alguns deles até acreditam que Sai Baba é "divino" e poderoso e atuam com crenças mal guiadas. Outros sabem exatamente o que está acontecendo e está somente cumprindo com seu papel para receber "promoções" como fariam em qualquer outro negócio. Estes são os que preparam todas as conferências.
As denúncias
Em um artigo da Revista "India Today", publicado em 4 de dezembro de 2000, um grupo de ex-devotos contam a verdade sobre Sai Baba.
A revista assinala que "para os ex-devotos de Sathaya Sai, é como se em um instante tivessem perdido seu deus para sempre. É uma experiência devastadora que os transporta de uma prometida 'moksha' (libertação) para um inferno particular. Uma desilusão que tem três etapas -rejeição, pesar e indignação".
As principais denúncias deste grupo estão centradas em assinalar que o "deus hindu" não é mais que um abusador sexual de crianças e jovens. Um deles é Jeff Young, um norte americano que até pouco tempo era presidente da Organização Sai na região Sul Central dos Estados Unidos.
Young afirma que seu filho Sam foi sexualmente molestado pelo homem-deus desde 1997 -quando Sam tinha 16 anos- até 1999. Esta mesma denúncia foi publicada pela primeira vez no Daily Telegraph de Londres. Para os Young esta foi uma espantosa experiência, sobretudo porque eles há vinte anos reverenciavam a Baba.
A revista India Today afirma que agora eles "se estremecem ao pensar que se sentiam "abençoados" crendo que o homem-deus estava assistindo o bem-estar espiritual de seu filho e alegam que em todo esse tempo esteve submetendo Sam a um sistemático abuso sexual. Em uma só visita, eles lembram de ter recebido sete entrevistas privadas, enquanto que Sam foi chamado a entrevistas privadas 21 vezes".
Nos últimos meses, uma ladainha de alegações similares as dos Young saiu veio a tona, em sua maior parte inspiradas por um documento chamado "The Findings", escrito pelo ex-devoto inglês, David Bailey, que se converteu em principal expositor e coletor de numerosas denúncias de ex- devotos de Baba.
Um destes denunciantes é Hari Sampat um engenheiro de Chicago que serviu como voluntário de segurança interna no Ashram de Baba de 1992 a 1995 que declara "Ter ouvido destas atividades de pederastia". " As investiguei e encontrei que eram reais. Foi então que me dei conta de que tinha que expor tudo".
Sampat, e outros como ele do Reino Unido, dos Estados Unidos, Europa e Austrália identificaram vítimas de abuso sexual de Baba e animaram a que fizessem seus relatos nos meios de comunicação de diferentes países.
Estas crescentes alegações estão hoje em dia sendo tomadas muito a sério em muitos dos países do ocidente ocasionando uma proliferação de defecções nos grupos de Sai Baba.
Na Grã Bretanha, depois do artigo na Daily Telegraph, o MP de Trabalho, Tony Colman, introduziu o tema o Parlamento. Um ex- ministro chamado Tom Sackville também se referiu ao assunto dizendo que " as autoridades fizeram muito pouco até agora e isso é uma pena". Existe agora um movimento para exortar ao governo britânico a que manifeste avisos às pessoas que queiram visitar o ashram de Baba.
Na Austrália também, The Sunday Age tirou um artigo sobre o abuso sexual de Baba. Em Munique, Alemanha, Jens Sethi, um ex-devoto que alega que ele também foi molestado levantou uma queixa no escritório do Procurador Público.
Na Suécia, o grupo central Sai fechou suas portas, assim como uma escola baseada em programas educativos idealizados por educadores do ashram de Baba em Puttaparthi. Nos Estados Unidos, desiludidos devotos "estão bombardeando" a oficina da Secretaria de Assuntos Exteriores.
A Revista afirma que frente a estas acusações o grupo mais próximo ao redor de Baba ataca os cargos de abuso sexual de duas maneiras. Um, simplesmente denunciando-o como um ataque anti-hindu -especialmente porque a maioria dos que executam os cargos é estrangeira. E dois, pregando que tudo o que Baba faz é um "ensinamento". Mesmo quando estejam fazendo algo que pareça imoral ou mal. Eles alegam que o fazem por um propósito e portanto não pode ser questionado.
Até agora, não há queixas formais que tenham feito na Índia. Quer dizer isto que a maioria dos abusos ocorreram com ocidentais? Jed Geyerhahn, um norte americano que alega ter sido molestado por Baba quando tinha 16 anos, não está de acordo com essa teoria "Acredito que os jovens ocidentais estão denunciando e os indianos não. Os jovens ocidentais não têm tanto que perder".
A maioria destas desiludidos ex-devotos dizem que estão determinados a lutar para que se inicie algum tipo de ação legal e continuar pressionando até que algo aconteça.
Conny Larson, da Suécia, foi devoto de Baba por 21 anos. Suas alegações apareceram pela primeira vez no Daily Telegraph de Londres em 20 de outubro deste ano.
"Baba me chamou para várias entrevistas particulares. Eu não sabia o que acontecia entre mim e ele, mas acreditei quando me disse que era Deus e estava me ajudando com meus problemas".
Mais testemunhos
Jens e Gurprit Sethi da Grã Bretanha escreveu uma carta em que contava toda a história de sua relação com Baba. "estou dando-lhes uma detalhada narrativa de minhas traumáticas experiências com Sathya Sai Baba e espero que isto possa ajudar às pessoas a compreender do que se trata. Todos os detalhes são corretos e podem ser considerados um testemunho. Eu poderia, e assim o faria, testificar o seguinte frente a uma corte aberta" diz Sethi.
"Tenho 35 anos e estive interessado no espiritual desde minha infância. Por muito tempo fui devoto de Jesus e do Padre Pio, então, depois de ler "A Autobiografia de um Yogui" de Yogananda, em inclinei para o caminho do yoga".

Mais adiante relata que em outubro de 1988 se converteu em um fervoroso seguidor de Sathya Sai Baba, e foi a Puttaparthi todos os anos e estava totalmente absorto na áurea de Sai Baba. Eu estava totalmente convencido de que era um AVATAR e me tornei tão devoto que estava pensando e contemplando somente nele todo o tempo" , afirmou.
O ex-devoto aponta que em 1993 começou a suspeitar um pouco devido ao estilo de vida de Sai Baba e as atividades no ashram. "Todos os anos via custosos edifícios novos e senti que estava se desenvolvendo uma crescente comercialização. Em 1996 vi Baba saindo do ashram em um "Jaguar" e outros carros caros como um "Mercedes" e um "BMW" da linha mais cara".
"Espero que este pesadelo acabe logo e espero que pela Graça do Todo poderoso, todos no mundo saibam das falcatruas de Sai Baba, um poderoso demônio que veio disfarçado de um santo ilegítimo, interessado somente em sua auto-glorificação, m]nome e fama. Ele é um mestre da decepção".
A mesma história de decepção viveu o presidente da região central norte de Iowa (Estado Unidos) que renunciou ao cargo em 28 de maio de 2000.
Em sua carta Shirley Pike afirma que " a razão de minha renúncia provavelmente escandalizará e consternará a muitos de vocês. Há algumas semanas recebi um informação de uma companheira devota de muitos anos sobre um correio eletrônico que tinha recebido concernente a atos de pederastia por Sathya Sai Baba. Eu pedi a ela que me enviasse o correio eletrônico e pessoalmente com vários indivíduos que tiveram experiência direta com o comportamento inapropriado de Sai Baba.
Estes indivíduos são respeitáveis, críveis e inteligentes e não têm nenhum empenho em simplesmente queixar-se. Eu saí destas conversas crendo nestes indivíduos e portanto renunciei e é por isso que estou escrevendo esta carta".
Mais adiante afirma que "estou pesarosa porque cheguei a crer que Sai Baba é um charlatão que usou o poder recebido através do amor e a reverência de seus seguidores e as verdades das antigas Doutrinas Védicas e as escrituras para molestar sexualmente a crianças e jovens da idades de oito a trinta anos".
Milagres famosos?
A respeito dos numerosos milagres que adjudicam a Sai Baba o próprio Sampath, ex-membro do Corpo de Inteligência e Segurança, assegurou que são mentiras e o que pretendem é atrair a atenção de mais "fiéis".
Por exemplo, contou o suposto milagre de um resgate em um acidente automobilístico na Alemanha em que se diz que "um casal de anciãos da Alemanha estavam visitando Baba pela primeira vez em Abbotsbury, Madrás, onde Baba estava ficando.
Eles estavam sentados na primeira FILA e quando Sai Baba, depois de passar por onde eles estavam, parou, voltou-se e disse-lhes "Sua filha e seu genro estiveram a ponto de chocar com um caminhão em uma estrada da Alemanha e eu os salvei".
Efetivamente aconteceu o acidente mas a verdade foi outra.
Sampath conta que " a filha e o genro deles tiveram um estreito escape de um choque com um caminhão e tinham ligado ao HOTEL onde hospedava-se o casal de anciãos em Madrás para contá-los. Como o casal já tinha saído do hotel para ir ver a Baba, a mensagem foi passada a um membro do grupo com que tinham vindo, que correu a Abbotsbury para dizer-lhes mas não pôde entrar ao arshram porque todas as filas estavam cheias, por isso passaram o recado a um dos voluntários principais para que chegasse ao casal da Alemanha que estava lá dentro.
Ao ser ouvida a notícia, esta chegou a Sai Baba por meio de um fiel que lhe disse: "Pela graça de Swami, a filha e o genro desse casal de alemães acabam se salvar-se de um acidente automobilístico na Alemanha".
Sai Baba, obviamente, sorriu e disse "Eu sei, eu sei...".
Outro dos supostos milagres que contam é um que circulou em 1996 quando um avião, preparando-se para aterrissar na Venezuela, começou a ter problemas muito sérios. O piloto anunciou que tudo estava perdido. Uma devota de Sai Baba abordo rezou a Sai Baba e viu Sai Baba aparecer no céu!
Levava a palma da mão direita e olhava para cima e realmente parecia que estava segurando o avião até que aterrissou a salvo. A devota de Sai Baba rapidamente tirou sua câmara e tirou uma foto de "Swami nos céu entre as nuvens" (Rs50 em PN por cento). Este incidente foi reportado no jornal "Venezuela Times" como: "Santo hindu aparece no ar para salvar avião".
A realidade -conta um ex-devoto- foi a mulher- que tinha em suas mãos o livro "AVATAR" que tema a foto de Sai Baba - entrou em pânico e retratou o que ela cria que estava vendo pela janela do avião. A situação do avião estava vem e aterrissaram sem problema algum.


Fonte: Site ACI Digital
http://www.acidigital.com/seitas/saibaba.htm#.VClgmvgrtso.twitter

sábado, 27 de setembro de 2014

Especialistas questionam comportamento de usuários "felizes" no Facebook


Estudos revelam que mais de um terço dos usuários da rede social enfrenta sentimentos negativos


ITAMAR MELO E MARCELO SARKIS

Neste exato momento, um amigo está curtindo férias espetaculares no Caribe, outro vive dias de paixão tórrida com a namorada nova e um terceiro comemora uma promoção no emprego. Os filhos do vizinho só tiram 10 na escola, o colega de trabalho comprou um carrão importado e o cunhado está se esbaldando no restaurante mais badalado da cidade.

Quem depara com esse mundo encantado de felicidade e conquistas chamado Facebook pode ter a sensação de que o português Fernando Pessoa (1888-1935) recém havia conferido as últimas fotos e posts de seus amigos na rede social quando escreveu os versos famosos do Poema em Linha Reta:

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
A verdade é que não falta gente vil, errônea, triste, solitária e estressada, mas se uma hecatombe destruísse o planeta e por alguma razão insondável preservasse deste princípio de milênio apenas as páginas do Facebook, os historiadores do futuro seriam forçados a concluir que desfrutamos de uma era dourada, em que todo mundo era feliz, bonito e muito festeiro. No maior dos SITES DE RELACIONAMENTO, com mais de um bilhão de usuários, as pessoas estão usando a chance de editar suas vidas para oferecer um best of sem fim de si mesmas.

- Quando a pessoa vai para a rede, transforma-se em um personagem, com conotação positiva. O Facebook tem ferramentas que estimulam a revelar o estado atual, então o usuário acaba delirando. Como os amigos só põem coisas bonitas, a pessoa vai botar também, para ser bem avaliada e curtida. Faz parte da natureza humana essa necessidade de reconhecimento, mas cria-se um ambiente que não é real - avalia a especialista em mídias sociais Beth Saad, da Universidade de São Paulo (USP).

O problema é que quem navega por perfis feitos só de alegrias e bons momentos acaba chamuscado. Um estudo de duas universidades alemãs, divulgado em janeiro, revelou que mais de um terço dos usuários do Facebook enfrenta sentimentos negativos, como frustração, depois de visitar os perfis dos amigos. Os pesquisadores concluíram que a exposição a cenas explícitas de sucesso e lazer transformou a inveja em moeda corrente na rede social, conduzindo a um clima de insatisfação com a própria vida.

- O impacto não é porque a vida dos outros é boa, mas porque parece que é só boa. Há a impressão de que os outros têm milhares de amigos e só se divertem. Quem vê isso, pergunta: porque a minha vida não é assim? Começa uma comparação, que faz a pessoa se sentir mal, ter baixa autoestima, questionar a própria vida. O que falta é perceber que não dá para medir a felicidade do outro pelo que está na rede - observa a psicóloga Luciana Ruffo, do núcleo de pesquisa de psicologia em informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O ambiente de felicidade geral da nação empurra muita gente a abraçar o "facembuste" para se sentir normal. Essa é uma explicação para o aparente sucesso do site www.namorofake.com.br, que já virou notícia internacional. No serviço, é possível alugar uma ficante (R$ 10 por três dias), uma ex (R$ 19 por sete dias) ou uma namorada (R$ 39 por sete dias) para chamar de sua no Facebook. Ou melhor, Fakebook, já que as namoradas são só para consumo externo.

O site diz negociar perfis reais de mulheres atraentes que, durante o período previsto em contrato comunicam ao mundo estar em um relacionamento com o cliente - e ainda postam uma quantidade pré-determinada de comentários babosos no perfil dele. Nas últimas semanas, quem acessava o site era informado de que todas as namoradas estavam ocupadas.

Hanna Krasnova, da Universidade Humboldt de Berlim
"Trata-se da espiral da inveja"

Uma entre os autores do estudo alemão que identificou sentimentos de inveja e insatisfação provocados pelo uso do Facebook, a pesquisadora Hanna Krasnova concedeu entrevista por e-mail a Zero Hora. Ela afirma que as comparações por meio de postagens no Facebook podem afetar, de forma negativa, o nível de satisfação pessoal Confira, ao lado, trechos da entrevista:

Zero Hora - Que tipo de coisa mais causa inveja nos perfis de amigos no Facebook?

Hanna Krasnova - No primeiro dos nossos estudos, realizado com mais de 300 pessoas, descobrimos que cerca de um quinto (21,3%) das situações recentes que haviam provocado inveja nos participantes, incluindo situações online ou offline, ocorreram dentro do Facebook. Os participantes relataram invejar principalmente posts de viagens e de lazer de seus amigos, seguidos de informações relacionadas com interação social. De forma geral, os temas que desencadeiam inveja estão em consonância com o tipo de dado mais publicado. Postar fotos de viagem é algo muito popular. Além disso, o Facebook permite observar de perto as relações sociais dos amigos. É fácil, por exemplo, comparar o número de curtidas e de comentários que um post nosso gera com os de outras pessoas, o que pode provocar inveja.

ZH - Essa inveja faz as pessoas mentirem nos perfis sobre o seu próprio nível de felicidade? Esse seria um motivo para a sensação de que todo mundo é feliz e perfeito no Facebook?

Hanna - Uma vez que sentir inveja é desconfortável, o invejoso vai tentar responder a isso. É aí que aprimorar a forma de se apresentar na rede surge como uma importante estratégia para lidar com o problema. Como resultado disso, os usuários podem reagir construindo um perfil mais positivo de si mesmos nos sites de relacionamento, o que, em contrapartida, causa inveja em outras pessoas. Trata-se da chamada espiral da inveja.

ZH - A frustração que as pessoas sentem quando olham o perfil dos amigos no Facebook podem ter consequências sérias em suas vidas?

Hanna - Com base em uma pesquisa em que acompanhamos mais de 200 usuários do Facebook, conseguimos estabelecer uma ligação entre a inveja despertada quando a pessoa está no Facebook e a satisfação geral com sua vida. Na verdade, o uso passivo do Facebook faz crescerem emoções desagradáveis que, por sua vez, afetam de forma negativa o nível de satisfação pessoal.

Flávio Estevam, criador do namorofake.com.br

"Ajuda a impressionar mulheres"

Desde que criou o serviço que aluga namoradas falsas para uso no Facebook, em janeiro, Flávio Estevam não tem sossego. São tantos pedidos de entrevistas, inclusive de grandes veículos estrangeiros, que o empresário de 32 anos precisou contratar uma assessoria de imprensa para organizar a agenda. Morador de Campo Grande (MS), ele conversou com ZH por telefone:

Zero Hora - Como surgiu a ideia de criar o aluguel de namoradas falsas?

Flávio Estevam - Eu estava acompanhando um amigo próximo passar pelo fim de um relacionamento. No Facebook da ex dele, começaram a aparecer muitos comentários e fotos dela se divertindo com outras pessoas. Meu amigo queria fazer o mesmo, para deixá-la com ciúmes. Passou a postar coisas sobre uma namorada inventada, mas como ela não existia, não tinha nada para mostrar. Foi nisso que eu tive a ideia de um serviço que oferecesse um rostinho e um perfil para resolver o problema.

ZH - Qual a motivação de quem aluga uma namorada fake virtual?

Estevam - As razões principais do usuário são se tornar mais popular ou provocar ciúme na ex ou em alguém em quem ele está interessado. O serviço ajuda a ter status de pegador e a impressionar as mulheres.

ZH - A necessidade das pessoas de mostrar no Facebook que são felizes e estão curtindo demais a vida colabora para o interesse?

Estevam - Com certeza. A gente sabe que as pessoas sempre postam coisas que não estão acontecendo. O cara coloca uma foto antiga na balada, no meio de gente bonita, mas é mentira, na verdade ele está em casa na maior deprê. Isso é muito comum. Com nosso serviço, encontramos uma forma de tornar a mentira convincente.

ZH - O serviço tem quantos usuários?

Estevam - Não posso informar isso. Está sempre mudando. Existe uma fila grande de usuários aguardando. Temos também mais de 2 mil candidatas a namorada fake à espera de análise do perfil.

ZH - Quando contrata uma namorada fake, o usuário paga para que ela faça um determinado número de comentários. Como isso funciona?

Estevam - Os comentários são escritos pelo cliente. Ele os envia para a namorada falsa postar.

Fonte: Site do Jornal Zero Hora
http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/bem-estar/noticia/2013/02/especialistas-questionam-comportamento-de-usuarios-felizes-no-facebook-4046943.html

Casais que postam muitas fotos no Facebook são os mais inseguros

Quem usa a rede social para divulgar seus momentos com o amado tem o objetivo de mostrar para os outros que vive um momento feliz

Casais que postam muitas fotos no Facebook são os mais inseguros Nicholas KAMM/afp
Foto: Nicholas KAMM / afp


Aquele casal que posta foto o tempo inteiro no Facebook realmente pode estar apaixonado, mas tem uma grande probabilidade de ser inseguro, aponta uma pesquisa realizada pela Albright College. De acordo com o estudo, quem usa a rede social para divulgar seus momentos com o amado tem o objetivo de mostrar para os outros que vive um momento feliz.

O psicólogo Gwendolyn Seidman pesquisou usuários do Facebook "em relacionamentos sérios" e descobriu que os satisfeitos com seu relacionamento são os mais propensos a utilizar a rede social para postar fotos e alguns detalhes de seu relacionamento, bem como comentários carinhosos na página do seu parceiro.

Segundo o professor, essas pessoas também sentiram a necessidade de se gabar de sua relação e também utilizam o Facebook para monitorar as atividades de seu namorado ou namorada.

— Estes resultados sugerem que os menos confiantes sentem a necessidade de mostrar seus relacionamentos aos outros e dizer que estão tão bem quanto seu relacionamento — disse Seidman.

No estudo, os participantes foram convidados a preencher um questionário sobre os seus comportamentos e hábitos no Facebook. Os pesquisadores também mediram os traços de personalidade — que incluem o quanto uma pessoa se expõe, se é extrovertida e carinhosa, e também aspectos neurológicos. De acordo com os pesquisadores, indivíduos mais neuróticos também são mais propensos a usar a rede social para monitorar seu parceiro e mostrar o seu relacionamento.

— Isso é o que esperávamos, porque os neuróticos são geralmente mais ciumentos em seus relacionamentos amorosos — explicou Seidman.

O cientista sugere que estas pessoas usam o Facebook como uma maneira de diminuir os seus medos de rejeição e ansiedade dentro do relacionamento.

O que os pesquisadores não esperavam é que os extrovertidos — os que têm mais amigos no Facebook e são usuários mais ativos — são menos propensos a monitorar seus parceiros ou fazer posts afetuosos. Os introvertidos são os que mais publicam conteúdo afetivo e espionam os parceiros.


Fonte: Site do Jornal Zero Hora
http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/noticia/2014/08/casais-que-postam-muitas-fotos-no-facebook-sao-os-mais-inseguros-4583844.html

Quando o Doutor Jivago virou uma peça importante na Guerra Fria


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O líder soviético Josef Stalin certa vez descreveu os escritores como “os engenheiros da alma humana”.
“A produção das almas é mais importante do que a produção de tanques”, afirmou o ex-ditador soviético. Stalin evidentemente acreditava que a literatura era uma poderosa ferramenta política, e ele estava disposto a executar os escritores cujas obras fossem consideradas contrárias à ideologia presente na União Soviética (basta lembrar a vida do escritor Alexander Soljenítsin).
Os pensamentos de Stalin em relação à literatura podem retratar os delírios enlouquecidos de um ditador. Mas analise tal comentário considerando a época da Guerra Fria enquanto era proferido outro discurso semelhante pelo então chefe da CIA, a agência secreta dos EUA: “Os livros são diferentes de todos os outros meios de propaganda, principalmente porque um único livro pode mudar significativamente a posição do leitor de uma forma sem igual em decorrência de seu grande impacto na opinião pública”. Ele também usou uma metáfora militar, chamando os livros como: “a arma mais importante da propaganda estratégica”.
Apesar dos discursos em comum, a CIA não usou táticas soviéticas para neutralizar escritores que poderiam mostrar algum tipo de ameaça. Contudo, o governo americano (movido pela CIA), mostrou grande interesse em usar a literatura para promover ideologias estadunidenses a fim de prejudicar a imagem dos comunistas.
Provavelmente o melhor exemplo da intervenção da CIA na cultura literária, se deu com o uso da obra Doutor Jivago de Boris Pasternak. Alguns dos documentos da CIA que foram recentemente descartados receberam uma boa dose de atenção da mídia, sendo que o assunto é tratado de forma bastante clara em “The Zhivago Affair: The Kremlin, the CIA, and the Battle Over a Forbidden BOOK”, fascinante novo livro escrito por Peter Finn e Petra Couvée. A obra conta como a história de Doutor Jivago ajudou a perturbar a União Soviética, contendo algumas implicações intrigantes.
Boris Pasternak começou a escrever Doutor Jivago por volta de 1945, em papéis em branco que herdou de um amigo morto, este que era um poeta georgiano que foi torturado e executado pelo regime soviético. A viúva do poeta enviou os papéis para Pasternak, que honrou o desafio literário de seu amigo, escrevendo um romance que ignorou as exigências oficiais para a literatura daquele país, requerimentos estes que visavam glorificar o “homem soviético” e a revolução.
O produto final não era uma celebração do capitalismo ou um “modo de vida ocidental”, mas algumas passagens abertamente duvidavam de que o derramamento de sangue da revolução foi justificado, sendo que vários trechos eram bastante indiferentes à política. Deixar de elogiar o regime era tão perigoso quanto questioná-lo. Os funcionários do Partido Comunista encarregados de supervisionar assuntos culturais, por certo estavam ansiosos para impedir a publicação de Doutor Jivago.
A censura foi feita facilmente na União Soviética, mas Pasternak conseguiu passar uma cópia do manuscrito para um conhecido italiano que poderia publicar o livro. Couvée e Finn recontam em sua obra a jornada que Boris passou até ter o seu livro finalmente publicado. Uma editora italiana obteve os direitos do romance e Pasternak também deu cópias a amigos oriundos da França e Inglaterra. As autoridades soviéticas forjaram a assinatura do escritor e enviaram cartas para o editor italiano exigindo a devolução do manuscrito, mas Pasternak “sussurrou” suas intenções reais para os seus contatos e, deste modo, enviou notas especiais em francês, comunicando para a editora desconsiderar cartas escritas em qualquer outra língua. Ele queria que o livro fosse publicado, independentemente de quais fossem as consequências.
Não muito tempo após a publicação inicial que ocorreu em 1957, a CIA fez a sua intervenção. Quando a agência foi criada em 1947, o Congresso concedeu-lhe o poder de realizar “quaisquer outras funções e deveres relacionados com a inteligência que afetem a segurança nacional”. Este mandato bastante VAGOpermitiu que a agência expandisse a sua atuação.
Couvée e Finn descrevem um retrato intrigante da “cultura literária” da CIA na década de 1950. Através de uma série de organizações de fachada, incluindo a Bedford Publishing Company, em Nova York, a agência comprou, imprimiu, distribuiu e até mesmo encomendou uma série de livros com o objetivo de promover um “entendimento espiritual dos valores ocidentais”. Isto incluiu romances de autores tão diversos como George Orwell, Albert Camus, Vladimir Nabokov e James Joyce. Por meio do contrabando de obras para a União Soviética, livros estes que eram enviados ao país comunista dentro de latas de alimentos e caixas de produtos higiênicos, a Bedford levou aos leitores soviéticos aproximadamente um milhão de livros ao longo de 15 anos. O programa da CIA para a divulgação da literatura do ocidente continuou até a queda da URSS.
Dada a sua cultura literária, alguns funcionários da CIA provavelmente perceberam a ironia e o contraste de uma agência do governo poderosa e bem financiada atuar através de métodos clandestinos para distribuir romances de George Orwell. Portanto o governo dos EUA passou a tentar manipular a cultura da União Soviética, a fim de ajudar os cidadãos soviéticos a reconhecer os perigos de um governo poderoso que é capaz de moldar a cultura de seu povo.
A CIA viu uma “propaganda de grande valor” em Doutor Jivago. Mediante uma PARCERIA com agentes da inteligência holandeses, eles organizaram uma impressão ilegal de uma versão em russo do livro que foi distribuído na Feira do Mundial de Bruxelas em 1958. A CIA também usou sua própria imprensa em Washington para imprimir cópias de pocket books, tendo em vista que a edição de bolso era mais fácil de contrabandear.
A operação teve precisamente o impacto desejado, para melhor e para pior. O preço relatado da edição russa no mercado negro em Moscou estava perto do salário de uma semana. Quando Pasternak ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1958, as autoridades soviéticas violentamente denunciaram-no como um traidor que bajulava os ídolos ocidentais. Escritores de todo o mundo, no entanto, reuniram-se para a sua defesa, e a notoriedade do livro apenas alimentou as vendas.
Os esforços dos EUA em termos de manipulação cultural eram geralmente mais sutis do que os soviéticos. Sendo assim a CIA procurou promover, em vez de impedir a publicação e divulgação de determinados livros. A agência secreta passou a não ameaçar ou coagir autores que eventualmente apoiassem uma ideologia peculiar. Ainda há alguns fatos intrigantes sobre as intervenções culturais das duas superpotências da Guerra Fria.
Couvée e Finn descrevem uma reunião com um burocrata do partido em que Pasternak perdeu a paciência e esbravejou: “Você tem o seu lado humano, eu posso ver, mas por que você sempre desfere estas frases feitas? ‘As pessoas! O povo!’ -Como se fosse algo que você poderia apenas retirar de dentro de seus próprios bolsos das calças”. O escritor estava protestando contra a arrogância do dogma oficial, a crença em algum público infinitamente maleável que pode ser moldada para fins pré-formulados. Todavia, a julgar pela operação da CIA para imprimir e divulgar uma versão de bolso de Doutor Jivago, foi precisamente o que a agência queria: algo que poderia surgir a partir de um bolso da calça para moldar as opiniões das pessoas comuns.
Pasternak não pensou o seu romance como uma arma para uma guerra intelectual. Ele se referiu a ele como “minha felicidade e loucura final”. Dificilmente alguém que profere tal frase, vê um livro como uma “granada cultural”. Ele pensou que o trabalho foi mais um meio para transmitir uma mensagem particular, de modo que o escritor ficou frustrado com a forma como a mídia internacional sempre citava as mesmas passagens para mostrar que ele era crítico do regime. Ele queria que seu livro fosse tratado como um romance e não como um panfleto.
A CIA, por outro lado, ficou encantada com os holofotes da mídia que recaíam sobre as passagens anti-comunistas. Depois de aceitar o Prêmio Nobel, Pasternak, em seguida, voluntariamente recusou-o depois dos dirigentes do partido terem imposto uma pressão insuportável sobre ele e em seus entes queridos. A imagem do escritor nobre, mas perseguido, um crítico corajoso de um regime corrupto, criou um grande tema para jornalistas.
Toda a história, conforme descrito em The Zhivago Affair, sugere uma importante lição sobre o poder das agências de espionagem na guerra cultural. Nenhum dos trabalhos da CIA são amplamente lembrados hoje e escritores soviéticos que celebravam a ideologia oficial de seu país permanecem de igual maneira esquecidos. Doutor Jivago, no entanto, continua a ser um título familiar. A CIA utilizou-se do Doutor Jivago somente depois da obra ter sido finalizada. Caso houvessem encontrado e subornado um autor russo para escrever um livro com temas anti-soviéticos, provavelmente o resultado nunca teria se transformado em uma sensação literária em âmbito internacional. Produções literárias autênticas são muito mais poderosas do que os melhores esforços do governo em interferir na cultura de determinado país.
Portanto, aparentemente detectar e apoiar esses artefatos culturais que promovem os interesses nacionais é uma estratégia bastante eficaz, em tempos que as agências de inteligência parecem focadas com a coleta de dados, aparelhos, vigilância e drones. Distribuir um livro pode parecer uma atitude curiosa para uma agência de espionagem, mas reflete uma estratégia profundamente diferente: opta pelo uso das artes e das idéias, em vez de usar a força. E para que a arte de qualquer tipo faça por merecer a popularização do seu nome, deve ser mais do que um meio a ser desfrutado para fins políticos.
Pasternak melhor retrata a essência do seu livro: “Não é verdade que as pessoas só valorizaram o livro por causa da política. Isso é uma mentira. Eles leram, porque o adoraram”.

Revisado por Carlos Cavalcanti

Fonte: Site Literatortura
http://literatortura.com/2014/09/quando-o-doutor-jivago-virou-uma-peca-importante-na-guerra-fria/

A razão no escritor Dostoiévski: a consolidação do controle ideológico e a crise da razão

Marcelo Vinicius, no Homo Literatus

Uma análise, sem maiores pretensões, das teorias do personagem Raskólnikov do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski. Apesar de tantas interpretações sobre elas, exigem do leitor praticamente tanta garra e tanta erudição quanto demonstra ter o próprio escritor, ou seja, exige um conhecimento amplo da história do pensamento filosófico.

dostoievsky
Já que em um Portal da internet não permite nos aprofundar muito, então, pretendemos, sem maiores pretensões, analisar brevemente a razão na obra Crime e Castigo, de Dostoiévski, como a consolidação do controle ideológico e a crise da razão. Do que se trata isso? Veremos:
Quem foi o escritor Dostoiévski? Dostoiévski foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos (BAKHTIN, 2008). É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo ou Memórias do Subsolo, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita” (KAUFMANN, 1975, 12).
O filósofo Nietzsche referiu-se à Dostoiévski como o único psicólogo com que tem algo a aprender, ele pertence às inesperadas felicidades da vida de Nietzsche:
De Dostoiévski eu não sabia, até poucas semanas, nem sequer o nome – eu, um homem sem instrução, que não lê nenhum “jornal”! Uma visita casual a uma livraria me colocou diante dos olhos o livro L’esprit souterrain em uma tradução francesa (tão casual quanto me ocorreu aos 21 anos de idade com Schopenhauer e aos 35 com Stendhal!). O instinto de parentesco (ou como poderia eu chamá-lo?) falou de imediato, minha alegria foi extraordinária: eu devo retroceder até meu contato com O vermelho e o negro de Stendhal, para me recordar de semelhante alegria (NIETZSCHE, 1887, p. 27).
O último romance de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, como o melhor romance já escrito (FREUD, 1997).
O filósofo Sartre também, dentre outros, discute questões vivenciadas pelos personagens de Dostoiévski e reconhece a influência desse escritor (NUTO, 2011).
É sabido ainda que a obra de Dostoiévski exerce uma grande influência na literatura moderna, legando a ela um estilo caótico, psicológico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada. Ainda várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas ideias.
Dostoiévski influenciou imensamente vários escritores como: Marcel Proust, Albert Camus, Franz Kafka, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores (SABATO, 1998).
Depois dessa pequena apresentação do já conhecido Dostoiévski, iremos, então, analisar brevemente arazão na obra Crime e Castigo. Logo no primeiro capítulo, o narrador começa por apresentar aquele que será o personagem principal do romance, o Ródion Ramanovich Raskolnikov, e esclarece as condições psicológicas e sociais em que ele se encontra:
Mas fazia algum tempo que vivia num estado irritadiço e tenso, parecido com hipocondria. Andava tão absorto e isolado de todos que temia qualquer tipo de ENCONTRO, não só com a senhoria. Estava esmagado pela pobreza, e até mesmo o aperto em que vivia deixara de oprimi-lo ultimamente. (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 19).
Percebemos ainda uma alusão ao capitalismo e as suas mazelas, segundo Dostoiévski. Por exemplo, o jovem e pobre estudante Raskólnikov vai à residência da senhora Aliena Ivánovna, uma agiota que o explora ao máximo com juros de empréstimos altíssimos que parece ser impagáveis.
Essa senhora é rabugenta, ranzinza, sem espírito altruísta, sem compaixão e resmunga como reclamando de tudo, a todo o momento. Seria essa velha agiota uma representação do capitalismo selvagem nessa obra de Dostoiévski? Parece que sim, pois, ao decorrer da história, o jovem estudante conhece um senhor bêbado numa taberna, o Marmieládov, o qual inicia uma conversa com Raskólnikov e, entre diálogos que os fazem percorrer em assuntos como empréstimo de DINHEIRO, esse senhor disse:
- Isso mesmo, sem qualquer esperança, sabendo de antemão que nada vai conseguir. Você sabe, por exemplo, de antemão e em detalhes que essa pessoa, o mais bem-intencionado e mais útil dos cidadãos, não lhe vai emprestar de jeito nenhum, pois, pergunto eu, por que iria emprestar? Ora, já sabe que eu não vou pagar. Por compaixão? Mas o senhor Liebeziátnikov, em dia com as novas idéias, explicou há pouco que a compaixão em nossa época está proibida até pela ciência e que já é assim que se procede na Inglaterra, onde existe a economia política. Por que, pergunto eu, emprestaria? Pois bem, mesmo sabendo de antemão que não vai emprestar, ainda assim você se põe a cominho… (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 31).
Nessa própria obra de Dostoiévski vemos que com o advento do capitalismo, a compaixão não pode ser mais aceita, é o que percebemos nesse diálogo entre esse senhor e Raskólnikov. Um outro exemplo dado pode ser encontrado ainda nessa conversação, que reforça o que foi dito sobre a compaixão: “a economia política da Inglaterra não aceita a compaixão” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 31). Esse diálogo também parece caracterizar aquela velha agiota, que explora Raskólnikov. Ela, metaforicamente, pode ser a face da injustiça social que assalta a Rússia pré-capitalista na metade do século XIX.
Essa referência à Inglaterra, nessa conversa do personagem Marmieládov com Raskólnikov, é importante, porque, historicamente, a partir de seu nascedouro na Inglaterra, o capitalismo se espalhou pelo mundo eliminando todos os demais modos de produção (DEÁK, 2013).
Mas, apesar de a Rússia estar presente na Europa, a sociedade russa ainda era semi-feudal e o choque do capitalismo ainda estava se tornando atual. As obras de Dostoiévski retratam uma sociedade imponente, que segue as regras do capitalismo que venceu a “mãe Rússia”. A obra Crime e castigo eclode em reação à chegada do capitalismo ao seio de uma sociedade russa à beira da impulsão.
Outra questão que entra em jogo no diálogo do personagem Marmieládov é que, ainda, a compaixão é proibida até pela ciência. Percebemos aí o racionalismo se tornando presente e consequentemente o Iluminismo se apresentando na Rússia. A ideia é que a compaixão se afasta da ciência, onde esta procurava ser neutra e impessoal. A razão (ciência) era, portanto, o único guia da sabedoria capaz de esclarecer qualquer problema, “assim a ciência se destacaria como detentora e promotora da construção dos saberes” (MELLO; DONATO, 2011, p. 263).
Como conseqüência disso, ou seja, da ciência como uma verdade, também possibilitou ao homem a compreensão e o domínio da natureza (BASSANI; VAZ, 2011). Isso é resultado também do antropocentrismo e do individualismo renascentistas, que incentivaram a investigação científica, que levaram à gradativa separação entre o campo da fé (religião) e o da razão (ciência), determinando profundas transformações no modo de pensar, sentir e agir do homem (CENCI; ROESLER; PROSSER, 2013).
Lembramos também que “o Iluminismo encontrou maior força e recepção aos seus princípios na França – palco de problemas econômicos, religiosos, políticos e sociais –, onde influenciaria sobremaneira a Revolução Francesa [...]” (MELLO; DONATO, 2011).
autores
John Locke, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot: livres pensadores iluministas
Portanto, se a inspiração do Iluminismo proveio, em parte, do racionalismo de Descartes, Spinoza e Hobbes, sendo que os verdadeiros inspiradores do movimento foram Newton e Locke (ITUASSU, 2002), e que por sua vez o Iluminismo influenciou a Revolução Francesa (MELLO; DONATO, 2011), tendo como conseqüência uma forma de ciência, que surge como suporte desse processo de racionalização, fornecendo ao pensamento elementos de segurança calcados em valores baseados na abstração, como disseram Mello e Donato (2011), ao se referirem que os paradigmas consolidados em um segundo momento da história, entre os séculos XVII e XVIII, no saber científico, foi consolidada pela Revolução Francesa, demonstrando que o pré-capitalismo determinou a função sobre a ciência (a tentativa de dominar a natureza / a matéria prima / a Revolução Industrial ocorrendo antes e quase que paralelamente a Francesa).
A Revolução Francesa, em síntese, através da Constituição de 1791, estabeleceu na França as linhas gerais para o surgimento de uma sociedade burguesa e capitalista em lugar da anterior, feudal e aristocrática. Apesar disso, este projeto não teve muita sustentação, logo de início.
De qualquer forma, foi no século XIX, quando Dostoiévski vivia e escrevia muito, que o Capitalismo criou força. O capitalismo se tornou dominante no mundo ocidental depois da queda do feudalismo e gradualmente se espalhou pela Europa e, nos séculos XIX e XX, forneceu o principal meio de industrialização na maior parte do mundo.
Devido a burguesia da época e o que viria a ser o liberalismo, de certa forma, se apresentando aos poucos, Dostoiévski, em sua obra Crime e Castigo, ainda na sua primeira parte (a obra é divida em seis partes e um epílogo), no diálogo entre os personagens Marmieládov e Raskólnikov, tenta expor que o Capitalismo, ainda não nomeado assim, é desumano devido a falta de compaixão e a exploração do ser humano pelo ser humano.
raskolnikov
Raskólnikov na cena do filme “Crime e castigo” produzido pela BBC
Esse juízo de fatos históricos, que desenvolvemos aqui, se voltando à obra Crime e Castigo, se faz necessário para poder entendermos essa literatura de Dostoiévski, já que os trabalhos desse escritor, apesar de tantas interpretações, exigem do leitor praticamente tanta garra e tanta erudição quanto demonstra ter o próprio autor, ou seja, exige um conhecimento amplo da história do pensamento filosófico.
Um dos entendimentos sobre Raskólnikov, personagem principal da obra, parece ser a representação do seu dilema social de sua época: da crise e da contradição de seu povo com a chegada do Capitalismo que contraria a visão Socialista Utópica. Dostoiévski freqüentou o círculo Petrachévski, nome de um grupo secreto de socialistas utópicos (DOSTOIÉVSKI, 2001). Outra questão presente é a visão do racionalismo que vai de contra aos princípios do Cristianismo russo etc.
Assim, Raskólnikov representa a gradativa separação entre o campo da fé (religião) e o da razão (ciência), determinando profundas transformações no modo de pensar, sentir e agir do homem. Percebemos melhor esse modo quando Raskólnikov encontra uma moça bêbada, deitada em um banco na rua, e assim, com um espírito altruísta, mesmo sem conhecê-la, resolve socorrê-la e até pedir ajuda a um policial bigodudo que, além de pedir que a levasse para casa dela com segurança, a protegesse também de outro senhor que a seguia para abusá-la, o qual, este, tentava aproveitar da má condição física e psíquica da moça. Este senhor, que tentava abusar a moça, foi até nomeado pejorativamente de almofadinha, por Raskólnikov.
Raskólnikov se preocupou tanto com a tal moça que ofereceu DINHEIRO ao policial para que este pudesse custear o transporte dela com a finalidade de ajudá-la. Mas, contraditoriamente, no decorrer, Raskólnikov mudou de opinião subitamente e assim pediu para que o policial a deixasse em paz, dizendo que ninguém teria nada a ver com isso e que o tal senhor almofadinha poderia sim se divertir com ela; também, depois, sozinho, ele reclamou para si mesmo o dinheiro que ofereceu ao policial, afirmando que se nem tinha condições para se manter como iria ajudar alguém? Segue um dos trechos que permite evidenciar isso no romance:
[...] – Ouça – disse Raskólnikov –, veja (remexeu num bolso e tirou vinte copeques), tome, chame um cocheiro e mande deixa-la no endereço. Só falta a gente descobrir o endereço! [...] Num instante alguma coisa pareceu picar Raskólnikov; num abrir e fechar de olhos ficou meio transtornado. – Ei, esculte! – gritou atrás do bigodudo O outro olhou para trás. – Deixe pra lá! O que o senhor tem com isso? Deixe que ele se divirta (apontou para o almofadinha). O que é que o senhor tem com isso? O policial não entendeu e ficou olhando para Raskólnikov de olhos arregalados. Raskólnikov começou a rir. [...] Levou meus vinte copeques – pronunciou com raiva Raskólnikov, depois de ficar só. – Deixa para lá, vai pegar dinheiro de outro também e ainda deixar a menina, é assim que vai terminar… por que eu me meti a ajudar? Eu mesmo não estou precisando de ajuda? Tenho eu direito de ajudar? Que eles se engulam vivos – o que é que eu tenho com isso? E como me atrevi a dar aqueles vinte copeques? Por acaso eram meus? (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 65).
Claramente percebemos a contradição do comportamento nesse trecho, onde Raskólnikov em um dado momento era solidário e, logo em seguida, se torna imediatamente em um ser individualista e fechado à compaixão.
Lembramos que o individualismo também foi um dos valores renascentistas e refletiu a emergência da burguesia e de novas relações de trabalho, que era a idéia de que cada um é responsável pela condução de sua vida, portanto a possibilidade de fazer opções e de manifestar-se sobre diversos assuntos acentuaram gradualmente o individualismo (FERNANDES, 2013).
E a compaixão, como foi dita anteriormente aqui, não faz mais parte da nova economia capitalista da Inglaterra, que dominava a Europa, e nem da ciência. O problema disso tudo não era só a questão do individualismo e outras características renascentistas, mas em que situação isso poderia chegar, levando ao um extremismo Niilista, por exemplo. Os efeitos desse fenômeno são visualizados por Dostoiévski.
Esclarecendo que a questão aqui, para Dostoiévski, não é ser necessariamente contra a ciência em si, mas sim como ela era conduzida pelo modelo capitalista e como ela era endeusada, sendo uma verdade absoluta.
Podemos também fazer uma relação da obra Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, com a obra Crime e Castigo, pois, segundo Paulo Bezerra, tradutor dos trabalhos de Dostoiévski:
o paradoxalista de Memórias… afirma que os homens de nervos fortes, de ação, isto é, os homens guiados pela razão, os homens da civilização burguesa, param diante do impossível, de um limite, e imediatamente se conformam. Esse limite é um muro de pedras, ‘naturalmente as leis da natureza, as conclusões das ciências naturais, a matemática (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 11).
Essa afirmação, de um personagem paradoxalista em Memórias do Subsolo, é logo evidente também quando continuamos ainda dentro do contexto do trecho da obra Crime e Castigo, em que conta a história da moça bêbada, citada anteriormente aqui, na qual ora Raskólnikov age de forma altruísta, ora ele age de forma egoísta, quase que ao mesmo tempo, com gestos confusos. Para fortalecer esse paradoxo no personagem, que era o retrato social russo da época (de um lado o semi-feudalismo e toda sua cultura cristã russa, e do outro lado o capitalismo), como que numa espécie de vai e vem ou em crise emocional ou em surto de loucura, sempre contraditório e em conflito, Raskólnikov sai de sua visão individualista ou egoísta e entra novamente numa visão mais altruísta e, assim, comenta:
“Pobre menina!… – disse ele, olhando para o canto vazio do banco. – Vai voltar a si, chorar, depois a mãe ficará sabendo de tudo… Primeiro irá espancá-la, depois açoitá-la, para doer e envergonhar, pode ser até que a expulse de casa… Mas se não expulsar, as Dárias Frantsievnas acabarão farejando e a minha menina começará a correr pra lá e pra cá… Depois logo irá bater com os costados num hospital [...] e depois… depois novamente hospital… vinho… botecos… e de novo hospital… dois, três, anos depois estará mutilada, aos dezoito ou dezenove anos de vida apenas… Por acaso não conheço moças assim? E como chegaram aí? Foi assim que chegaram… Arre! Que seja! É assim, dizem, que tem que ser. Essa tal porcentagem, dizem, deve ir todo ano… para algum lugar… para o diabo, deve ser, para revigorar as demais e não lhes atrapalhar. Porcentagem! Excelentes, verdade, essas palavrinhas deles: são tão tranqüilizantes, científicas! Foi dito: porcentagem – logo, não há motivo para inquietação. Mas se empregassem outra palavra, aí… talvez fosse mais inquietante…” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 66).
Nesse momento, percebemos também o discurso de Raskólnikov que diz que o homem se conforma com as misérias, no caso, com as moças mutiladas, só porque cientificamente são explicadas e, assim, aceitas como uma resposta quase que de uma verdade absoluta em sua época. Essa tal porcentagem que o personagem se refere pode ser entendido segundo o:
“[...] raciocínio sobre o permanente ‘percentual’ de vítimas condenadas inevitavelmente pela natureza ao crime e à prostituição apareciam nos jornais e revistas russos entre 1865 e 1866 em face da publicação, em língua russa, do livro O homem e o desenvolvimento das faculdades… do famoso matemático belga, economista e ‘pai da estatística’ Lambert Adolf Quétele. O economista alemão A. Wagner, um dos divulgadores de Quételet, é mencionado por Dostoiévski no romance. Naquele momento, a imprensa russa proclamava Quételet e Wagner os pilares da ‘ciência da estatística ética’”. (N. da E.) (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 66).
Novamente se percebe o ataque ao surgimento do Renascimento, na época, que proporciona o desenvolvimento do racionalismo como a explicação do mundo através de verdades absolutas (se não absolutas, as únicas mais confiáveis) estabelecidas pela razão.
Só que Dostoiévski, através do SEU PERSONAGEM Raskólnikov, pontua mil vezes a não-razão, é a crise da razão, já que, para o autor, a razão é só uma fração do homem, que satisfaz somente a parte racional humana, enquanto o ato de viver em toda a sua expressão vai além do racional. Mesmo que essa expressão resulte, às vezes, em algo bizarro, no entanto, ali será sempre uma vida expressa e não um cálculo matemático. Na matemática, dois mais dois são quatro. No homem, dois mais dois são cinco, seis, sete… (DOSTOIÉVSKI, 2000).
Freud também, posteriormente, fez desmoronar a ideia de um homem determinado pela primazia da razão. Desde os momentos finais do século XIX, o Eu, a sede da consciência, deixou de ser o senhor em sua própria casa.
O que vamos conhecendo nessa obra é que, para Dostoiévski, o homem é um ser complexo e por isso desdenha desse modelo de homem guiado pela razão.
Outro ponto que precisa ser abordado na obra é que o crime de Raskólnikov, em outras passagens do romance, quando ele mata a velha agiota, vai além das aparências de problemas financeiros. É certo que a Rússia que Dostoiévski sentiu e pintou tão espantosamente, é um fantasma gerado pelo homem errante e renegado. Nesse período, final do Século XIX, “a Rússia vivia uma das piores crises econômicas de toda a sua história. O atraso econômico e cultural do país e as péssimas condições de vida dos camponeses e operários [...] eram a marca da época” (SACHS, 2011, p. 14).
E, como foi dito, nesse contexto histórico, a velha agiota Alena Ivanovna podia entregar-se livremente à exploração de desgraçados como o estudante Raskólnikov. Assim, porque não eliminar a velha agiota, aquele ser parasitário, inútil, e utilizar-se do seu DINHEIRO para sair daquela situação incomoda, salvando também sua mãe e sua irmã, reduzidas à miséria? Seria esse um dos pensamentos do Raskólnikov.
crime e castigo
Ilustração mostrando o crime de Raskólnikov contra a velha agiota Alena Ivanovna
Foi nessas circunstâncias terríveis que o jovem estudante desenvolveu sua doutrina do “direito ao crime”, na qual todo aquele que se sente além das convenções tradicionais acerca do bem e do mal , tem direito a tudo, inclusive o direito de eliminar os que consideram prejudiciais ao seu objetivo (visão do niilismo predominante na época da Rússia de Dostoiévski).
Mas, dessa forma, se engana quem pensa que Raskólnikov cometerá um duplo crime devido somente a sua condição FINANCEIRA modesta. Realmente esse ato do estudante é um ato de revolta, de rebeldia contra o status quo, porém, sua atitude carrega por trás uma questão muito mais complexa e filosófica. Um desses exemplos filosóficos por de trás das ações de Raskólnikov é o crescimento do Iluminismo, resultado do Racionalismo, com o qual percebe-se que nossa sociedade muito se beneficiou com tais iniciativas, no entanto teve como consequência o relativismo moral, o individualismo, o hedonismo e o consumismo.
Lembrando-se que aqui é a história da Rússia e não de toda a Europa. Os russos viveram o atraso, no que tange se tornarem capitalistas em relação a Europa, e tiveram sintomas muito particulares, embora não tão diferentes de outros países europeus.
Assim, continuando com o personagem Raskólnikov e o caso do assassinato da velha agiota, entra em jogo o relativismo moral e a grande discussão Niilista da época (MAYOS, 2013). Nesse momento percebemos que Dostoiévski não ataca só o capitalismo, mas ainda o socialismo. Assim como o homem do Memórias do Subsolo, ataca tudo e todos sem distinções. Como também afirmou Paulo Bezerra, professor, ensaísta e tradutor das obras de Dostoiévski:
Apesar do anticapitalismo arraigado de Crime e Castigo, não vamos promover Dostoiévski à categoria de revolucionário. A própria teoria do crime permitido, desenvolvida por Raskolnikov, é também uma polêmica com as tendências político-ideológicas de cunho revolucionário… (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 21)
Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual revolucionário chamado Círculo Petrashevski. Depois da saída da prisão, o escritor russo teve uma nova concepção de mundo e Crime e Castigo foi escrito cinco anos após Dostoiévski ter voltado do exílio siberiano (1850-1860).
Na Rússia, o niilismo, que inspira também o crime de Raskolnikov, vai para o plano social e político e passa a designar um movimento de rebelião contra a ordem estabelecida, o atraso da sociedade e os seus valores (PECORARO, 2010). Assim, Dostoiévski presenciou movimentos socialistas e anarquistas que promoveram atentados terroristas e assassinatos políticos na Rússia czarista, que foram denominados de Niilistas, e que é bem descritos na obra Os Demônios, de Dostoiévski.
Mas toda a crítica de Crime e Castigo ao racionalismo e suas “vertentes”, como o Iluminismo, o Niilismo, a Revolução Francesa etc., tem como pano de fundo a civilização burguesa oriunda desses movimentos que
“[...] incorporou os piores exemplos de violência da história e na qual o homem ‘talvez chegue ao ponto de encontrar prazer em derramar sangue, ‘os mais refinados sanguinários foram todos cavalheiros civilizados’ e ‘são encontrados com demasiada frequência, são por demais comuns, e já não chamam atenção’ porque seus atos sanguinários já viraram hábito, isto é, passaram a integrar a própria civilização. Essas reflexões estão em profunda sintonia com a análise que Raskólnikov faz da história e com sua teoria do crime permitido.” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 11).
Raskólnikov, então, cria a teoria do homem “ordinário” e “extraordinário”, que tem origem nos grandes criminosos da história. O protótipo do homem extraordinário de Raskólnikov era justamente Napoleão, um conquistador que não hesitava em pisar em quantas cabeças fosse preciso.
“O substrato da reflexão de Raskólnikov é o seguinte: Napoleão derramou rios de sangue para consolidar a civilização burguesa, que tem em sua macroestrutura o sistema bancário como símbolo maior, e a história o absolveu. Então, por que eu, Radion Románovitch Raskólnikov, não posso matar uma mísera velha agiota, que repete na microestrutura da sociedade o que o sistema bancário faz na macroestrutura?” (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 12).
Assim, toda essa ideologia de Raskólnikov antecede mais uma discussão filosófica: os valores humanos do nosso tempo. O personagem, do escritor Dostoiévski, antecipa as discussões como as tratadas pelo filósofo e sociólogo Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, no que tange ao embrutecimento das relações humanas.
Antecipa também as reflexões sobre a sociedade atual do sociólogo Zygmunt Bauman, em suas famosas obras Tempos Líquidos (Editora Zahar) e Amor Liquido (Editora Zahar), que são as fragilidades dos laços humanos, de que forma as relações parecem tornar-se cada vez mais ‘flexíveis’, gerando níveis de insegurança maiores, afetando negativamente não só os laços familiares e amorosos, como também a capacidade de tratar um estranho com humanidade.
Ou seja, terrorismo, desemprego, solidão – fenômenos típicos de uma era na qual, para Bauman, a exclusão e a desintegração da solidariedade expõem o ser humano aos seus temores mais graves, os personagens dostoievskianos já previam.
Essa questão é discutida também em a razão subjetivaformal e instrumental, que se encontra na obraEclipse da Razão, do filósofo Horkheimer.
Além disso, a temática do cristianismo e do amor também se apresenta na obra Crime e Castigo de Dostoiévski, ela é também essencial para compreensão do romance. Ou seja, essa obra não se resume a problemas filosóficos e políticos, mas também religiosos, no termo mais convencional da palavra. O amor é representado pela personagem Sônia, a paixão de Raskólnikov. Temos, de um lado, a ética do amor cristão, o sacrifício total, imediato e incondicional do Eu que é a lei da existência de Sônia; e, de outro, a ética utilitarista racional de Raskólnikov, que justifica o sacrifício dos outros em nome do bem social comum, mas que depois o próprio Raskólnikov será uma espécie de redenção cristã. Evito aqui mais detalhes sobre ele, nessa fase do personagem, pois, uma vez que as histórias estão interligadas, pode gerar spoiler (JOSEPH, 2003).
Mas, não vamos confundir o cristianismo de Dostoiévski com o nosso cristianismo. Ele era um crítico do nosso cristianismo ocidental. Ou seja, como se sabe, há uma grande diferença entre a visão de cristianismo, entre a igreja ocidental (latina) e a oriental, segundo o teólogo russo Evdokimov. Por isso, o cristianismo, que é na verdade a mística ortodoxa, pulsa fortemente na Rússia de Dostoiévski e está presente em sua literatura. Dessa forma, é importante termos uma compreensão da mística ortodoxa para a análise do pensamento religioso de Dostoiévski e dessa influência religiosa em seus escritos (PAULINO, 2012). O que não será possível aqui.
Só assim, entende-se que não daremos conta da obra desse grande escritor russo e, como foi dito anteriormente, por isso, e já que é um Portal da internet, não permite nos aprofundar muito sobre. Contudo, sentimos a complexidade da obra Crime e Castigo, pelo menos.
Percebe-se que passamos, mesmo que superficialmente, por vários temas, ao comentarmos da obra Crime e Castigo de Dostoiévski. Percebendo também a complexidade filosófica que se encontra nela. É sabido que muitos a ver ou como um romance policial ou uma obra de visão filosófica, mas com um tema único. Grande engano, pois em termos de valor esse romance enfatiza vários temas num mesmo enredo (polenfático).
Há diversas ideias complexas, que vão tornando-se mais significativas juntamente com o desenvolvimento do enredo do próprio romance. Não diferente de outras obras de Dostoiévski, Crime e Castigo envolve muitos temas que vão da psicologia, filosofia, política à religião. Suas obras são um manancial de reflexão filosófica atemporal e com Crime e Castigo não é diferente.
Enfim, como disse Paulo Bezerra, Dostoiévski foi um riquíssimo e complexo produto de sua época. Aliás, ele mesmo se autodefine em carta enviada à sua amiga N.D. Fonvízina, escrita em fevereiro de 1854: “Eu sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida; assim tenho sido até hoje e o serei até o fim dos meus dias. Que tormentos terríveis tem me custado essa sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto maiores são os argumentos contrários”.
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Fonte: Site Livros só mudam pessoas
http://www.livrosepessoas.com/2014/09/24/a-razao-no-escritor-dostoievski-a-consolidacao-do-controle-ideologico-e-a-crise-da-razao/