quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O príncipe que quer ser presidente da Fifa

Quem é Ali bin al-Hussein, o príncipe da Jordânia que vai disputar a eleição contra Joseph Blatter com propostas para acabar com a corrupção no futebol

BRUNO CALIXTO
Ali bin al-Hussein, príncipe da Jordânia e vice-presidente da Fifa, em foto de 2012 (Foto: Tom Shaw / Getty Images)

Ele atende pelo pronome de tratamento Sua Real Alteza, é irmão do atual rei da Jordânia e um dos príncipes do país e, acredita-se, herdeiro direto do profeta Maomé, da 43ª geração desde a morte do fundador do Islã. Mas mesmo com todos esses títulos, o príncipe Ali bin al-Hussein da Jordânia busca mais um, o de presidente. Não de um país – ele não tem a intenção de acabar com a monarquia na Jordânia –, mas de uma das instituições mais poderosas do mundo do esporte, e também uma das mais desacreditadas após escândalos de corrupção: a Fifa.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O príncipe Ali Hussein, atualmente vice-presidente da Fifa e presidente da Federação da Jordânia de Futebol, bagunçou o mundo da política do futebol ao anunciar que pretende disputar as eleições contra o atual presidente, Joseph Sepp Blatter. Blatter disputa a reeleição mesmo após dizer que estava em seu último mandato e de enfrentar uma grande sequência de escândalos e denúncias de corrupção na Fifa. "Eu estou buscando a presidência da Fifa porque acredito que é hora de mudar o foco, que hoje está na controvérsia administrativa, para voltar ao esporte", disse Ali, em nota oficial. ÉPOCA entrou em contato com a assessoria da federação da Jordânia, mas até o momento não conseguiu falar com o príncipe.
Segundo o professor Ellis Cashmore, sociólogo da Aston University, no Reino Unido, e autor do livro Making sense of sports (Entendendo os Esportes, sem tradução no Brasil), esta deverá ser a mais interessante eleição para presidente da Fifa. Joseph Blatter, no poder desde 1998, raramente enfrentou problemas para se eleger e reeleger. Nas duas últimas eleições, em 2007 e 2011, ele sequer teve adversário – foi candidato único. Desta vez, além do príncipe da Jordânia, disputam o cargo os franceses David Ginola e Jérôme Champagne, o italiano Mino Raiola e o holandês Michael van Praag. Para poder concorrer, o candidato precisa do apoio de no mínimo cinco das 209 federações que fazem parte da Fifa. Analistas acreditam que apenas Ali e Van Praag  têm condições de conseguir esse apoio.
 
O presidente da Fifa, Joseph Blatter (esq.) e o vice-presidente, o príncipe da Jordânia Ali bin al-Hussein (dir.), em foto de maio de 2014 (Foto: Mohammad Hannon/AP)
Mesmo sendo vice-presidente, o príncipe Ali ainda é pouco conhecido no mundo da política do futebol. Sua ascensão ao posto de vice-presidente, em 2011, passou quase despercebida. Foi ofuscada por uma manobra do próprio Blatter, que queria tirar do Comitê Executivo da Fifa o sul-coreano Chung Mong-Joon. O milionário sul-coreano, maior acionista de uma das divisões da Hyundai, era um dos principais críticos da administração Blatter, inclusive acusando-o de mau uso dos recursos da federação. Blatter conseguiu tirar Chung do comitê em 2011 e, com essa manobra, a vaga acabou ficando com Ali, que se tornou o mais jovem membro do Comitê Executivo da Fifa.
Durante seu mandato, ele se destacou em duas ocasiões. Primeiro, pelo forte lobby que fez para acabar com a proibição do uso do hijab, o véu islâmico, para jogadoras em partidas oficiais. A Fifa proibiu o véu em 2007, o que acarretou vário cancelamentos de jogos de futebol feminino porque as jogadoras se recusaram a tirar o véu, incluindo uma partida entre Irã e Jordânia. A proibição foi cancelada no começo de 2014, e foi vista como uma vitória na promoção do futebol feminino em países muçulmanos. A segunda ocasião foi seu posicionamento sobre o Relatório Garcia.
Michael Garcia, um advogado americano que atuou no governo George W. Bush, foi apontado em 2012 pela Fifa para investigar as acusações de corrupção e pagamento de propina na escolha das sedes da Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar. Em setembro de 2014, ele entregou um relatório de 300 páginas sobre o caso ao Comitê de Ética. O comitê, no entanto, se recusou a publicar o relatório e, em vez disso, publicou um sumário de 40 páginas que absolvia a Rússia e o Catar e criticava as federações que fizeram acusações. Garcia disse que o sumário foi publicado com "representações errôneas dos fatos" e renunciou. Segundo a BBC, Ali foi o primeiro alto executivo da Fifa a defender abertamente o relatório e exigir a publicação do texto completo. Outros dirigentes se seguiram mas, até o momento, o relatório não foi publicado. 
Cashmore diz acreditar que Ali aproveitará a péssima reputação deixada por Blatter e seus aliados para tentar se mostrar como uma alternativa viável e de ficha limpa. "Príncipe Ali é bem instruído e trabalhou o suficiente na federação para saber como ela funciona. Ele está se posicionando como uma alternativa a um regime considerado como o mais corrupto entre as organizações esportivas, um 'título' que antes pertencia ao COI [o Comitê Olímpico Internacional], mas agora é da Fifa", disse. Ali já está vendendo a imagem "ficha limpa", e prometeu um programa de dez anos para reformar a entidade máxima do futebol. Esse posicionamento é a melhor aposta do príncipe. Sozinho, ele não tem chances de vencer a disputa, mas se conseguir convencer Michel Platini e a Uefa, a confederação de futebol da Europa, de que sua candidatura é séria, pode se tornar um nome forte para a eleição.
Mesmo com as boas intenções, grande parte do mundo do futebol ainda vê o príncipe da Jordânia com desconfiança. O jornalista investigativo escocês Andrew Jennings, autor do livroJogo Sujo - o Mundo Secreto da Fifa, sobre os escândalos de corrupção no futebol, questiona se Ali é realmente um reformista que mereça a confiança. "Nós não sabemos quem ele é, não sabemos quais são suas propostas. Tudo o que sabemos é que ele não é Sepp Blatter. Eu não sei quantos europeus vão apoiá-lo só para mostar o dedo do meio a Blatter", diz. Ele se refere ao fato de que a Uefa não quer apoiar Blatter, mas até agora não encontrou um nome de oposição para apoiar. Para Jennings, a candidatura de Ali tem uma motivação muito mais mundana do que moralizar o mundo do futebol. "Esse homem está prestes a perder seu emprego de vice-presidente na Fifa. O que ele está fazendo é ir atrás de outro emprego."
Conseguir esse emprego não será tarefa fácil. Príncipe Ali tem até quinta-feira (29) para registrar sua candidatura e oficializar o apoio de pelo menos cinco federações de futebol para poder concorrer à eleição. Analistas consultados na imprensa internacional acreditam que ele pode conseguir a nomeação, graças ao apoio de federações do Oriente Médio e, possivelmente, de federações europeias de oposição. Uma vez oficializado, ele terá de disputar uma eleição, em maio, em que os 209 países ou territórios afiliados a Fifa podem votar. E aí, as suas chances são mínimas. Blatter tem o apoio das federações da África, América do Sul, América do Norte e parte da Ásia. O mais provável é que o príncipe perca a disputa. E que Joseph Sepp Blatter mantenha o trono e o reinado do mundo do futebol.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/01/o-principe-que-quer-ser-bpresidente-da-fifab.html

Curiosidades norte-coreanas

Um país como a Coreia do Norte é um poço sem fundo de curiosidades para nós, ocidentais brasileiros. Eu já imaginava isso, é óbvio, mas tenho comprovado com frequência bem maior do que esperava, enquanto faço meus estudos turísticos.
sludgegulper (CC BY-SA 2.0) 2
Fiz aqui uma lista do que encontrei até agora. E para organizar um pouco a coisa toda, dividi em capítulos: Curiosidades Históricas, Curiosidades em Geral e Curiosidades Turísticas.
Algumas delas podem ser lendas, mas isso eu digo para você na volta. Por enquanto, relaxe e divirta-se.
Curiosidades Históricas
• Os coreanos do Norte e do Sul são exatamente o mesmo povo, a mesma etnia. A divisão entre eles é apenas política e cultural (mas essa última existe apenas por causa das décadas de separação).
• Os dois países concordam com as suas origens: o primeiro coreano foi o rei Dangun e tudo começou no Monte Paekdu (esse do lago bonitão aqui embaixo), que hoje fica na Coreia do Norte.
Mark Scott Johnson (CC BY 2.0)
• O nome “Coreia” vem de Goryeo, uma dinastia que governou a região por muito tempo e cuja capital ficava em Kaesong, uma cidade que também fica na Coreia do Norte.
• Pyongyang, a capital norte-coreana foi fundada no ano 427, mas foi totalmente destruída em guerras.
• As duas coreias têm relações conturbadas com os japoneses, que já invadiram a península várias vezes e fizeram miséria com os coreanos.
• Norte e sul-coreanos dividiram a mesma história por 5 mil anos, até 1948, quando se separaram.
• A linha que separa os dois países é o paralelo 38.
• A escolha do paralelo 38 como fronteira foi feita por dois jovens militares americanos, em Washington, olhando para um mapa da National Geographic. Era o fim da Segunda Guerra e eles não tinham nem ideia de nada da Península da Coreia. Só sabiam que precisavam correr para estabelecer qual parte seria administrada pelos EUA e qual seria pelos russos – e que Seul precisava ficar sob influência americana.
• A divisão dos dois países era para ser temporária, até rolarem eleições e tal. Mas a Guerra Fria começou e deu no que deu.
• Oficialmente, Coreia do Sul e Coreia do Norte estão em guerra desde 1950 (quando o Norte invadiu o Sul). Até hoje, nenhum acordo de paz foi assinado entre os dois países.
Edward N. Johnson – U.S. Army
• Nos anos 60, a economia da Coreia do Norte era muito mais forte do que a da Coreia do Sul. Muitos coreanos que viviam no Japão migraram para lá por causa disso.
• Kim Il-sung morreu de ataque cardíaco em 1994. Mesmo assim, ainda é considerado o presidente do país. Segundo a Constituição norte-coreana, ele é o “Eterno Presidente”.
yeowatzup (CC BY 2.0)
• A Coreia do Norte é o único país, em toda a história, governado por uma dinastia comunista.
• Coreia do Norte e Coreia do Sul são nomes que não existem oficialmente. Ambas são simplesmente “Coreia”, mas a do norte é a República Popular e Democrática da Coreia, enquanto a do sul é a República da Coreia.
Curiosidades em Geral
• Todos os adultos norte-coreanos usam um pin com o rosto do Grande Líder. Sempre. Todos os dias.
Roamme (CC BY-SA 2.0)
• A semana de trabalho é de 6 dias. Por isso, os domingos costumam ser de piqueniques, cantorias e diversão.
• A população de Pyongyang é de 3 milhões de pessoas (para comparação, Salvador tem pouco menos do que isso).
• O futebol é o esporte mais popular do país.
• Oficialmente, as religiões foram banidas da Coreia do Norte em 1950, mas é possível ver templos budistas e até igrejas (frequentadas pela comunidade diplomática na capital).
• Na falta de cultos vindos de fora do país, uma ideia criada pelo Grande Líder acabou se transformando em uma espécie de religião norte-coreana: a ideologia Juche. Em poucas palavras, o “kimilsunguismo” prega que cada pessoa é responsável pelo seu futuro e sua prosperidade, assim como é responsável pela revolução e pela construção do país.
yeowatzup (CC BY 2.0)
• A ideologia Juche também gerou um calendário, baseado no nascimento do Grande Líder. Assim, 2012 é o ano 101.
• Por não haver religião, os casamentos são celebrados em frente a estátuas do Grande Líder.
• A cada dois anos, a capital do país sedia o Pyongyang International Film Festival. É um dos raros momentos de interação de cultura estrangeira com a cultura local.
• Existem duas espécies de flores que ganharam, por lá, os nomes dos dois falecidos líderes do país: a kimilsungia e a kimjongilia.
Curiosidades Turísticas
• Desde 2010, norte-americanos podem, sim, visitar a Coreia do Norte.
• Jornalistas, no entanto, não podem. Salvo exceções pontuais.
• Sul-coreanos só entram em ocasiões especiais ou em áreas especiais perto da fronteira.
• O governo orienta a população a receber bem os estrangeiros. E a população recebe.
Roamme (CC BY-SA 2.0)
• Não é permitido entrar no país com lentes fotográficas com mais de 150 mm (traduzindo: se sua câmera comum tem zoom ótico de mais de 6X, já corre risco de ser retida na entrada e devolvida na saída).
• Não é permitido entrar no país com tripés.
• Não é permitido entrar no país com câmera fotográfica que tenha GPS (o que muitas têm, hoje em dia).
• Não é permitido entrar com livros que falem do país (mas guias de viagem são tolerados), nem com revistas sul-coreanas ou escritas em coreano.
• Nem pense em levar uma bandeira norte-americana ou sul-coreana.
• Rádio? Não entra.
• É melhor não levar camisetas com slogans ou frases. Os policiais podem pedir para os guias traduzirem antes de deixar você passar.
Roamme (CC BY-SA 2.0)
• É permitido (repito: per-mi-ti-do) entrar com notebooks, pendrives, dólar americano, câmera de vídeo amadora, iPod, mp3, comida, bebida alcoolica, Kindle, iPad e gravadores de voz.
• Os passaportes ficam retidos na sua entrada no país e são devolvidos na saída.
• Os passaportes não ganham nenhum carimbo. O visto norte-coreano é anexado em um papel separado e fica com os guias durante o seu período por lá. Não, você não leva nada para casa.
• É facílimo fazer o visto norte-coreano. Muito mais fácil do que fazer o visto norte-americano.Veja esse post e saiba mais.
• Sua bagagem é revistada na entrada e na saída. Se você estiver chegando/saindo de avião, o normal é passar por um raio-x. Mas se for de trem, prepare-se para uma longa espera: a revista é feita manualmente em todos os passageiros, em todos os vagões.
Roamme (CC BY-SA 2.0)
• Seu celular também não entra na Coreia do Norte: todos os aparelhos são confiscados na entrada e entregues para seus donos na saída.
• Como você não vai ter o celular, é recomendado levar um despertador (já percebeu que você não usa mais isso, mas apenas o telefone?).
• É recomendado levar uma lanterna. Os hoteis em Pyongyang raramente sofrem com falta de energia, mas no interior a coisa pode complicar.
• Não existe cartão de crédito na Coreia do Norte, nem travelers cheques, nem ATMs. Você precisa levar dinheiro vivo e não tem como conseguir mais lá dentro. É bom levar o suficiente.
• A chance de você ser assaltado é zero. Segundo a Koryo Tours, em mais de 1000 viagens para lá, nunca aconteceu nada do tipo.
• A moeda local é o won, mas o turista só pode usar euro, dólar ou yuan (da China).
panaxy (CC BY 2.0)
• Dá para conseguir alguns wons como souvenir, mas apenas notas antigas, de antes de 2009, que não valem mais.
• A cerveja custa a partir de 50 centavos de euro por garrafa. Dizem que é boa.
• As refeições são feitas em restaurantes previamente preparados para receber os turistas.
• Vegetarianos conseguem sobreviver numa boa, mas veganos sofrem.
• Tem TV a cabo gringa nos hoteis (BBC World).
Roamme (CC BY-SA 2.0)
• É possível fazer ligações desde lá. Mas isso custa caro: para a Europa, são 6 euros por minuto.
• É possível mandar e-mail também. Mas apenas usando o endereço do hotel e sem resposta.
• Para fotografias, as regras são: sempre pedir permissão para os guias e nunca fotografar instalações militares ou soldados. Mesmo assim, é recomendado levar muitos cartões de memória porque é impossível comprar mais lá e a quantidade de fotos feitas é sempre maior do que a esperada.
• Não se dá gorjeta na Coreia do Norte.
• Você é convidado a depositar flores para o Grande Líder no Grande Monumento Mansudae.
• Desde o início do ano, a estátua do Grande Líder ganhou a companhia da estátua do seu filho, o Querido Líder.
comradeanatolii (CC BY-ND 2.0)
• Não se curvar diante da estátua e do corpo do Grande Líder é considerado uma grande ofensa para os norte-coreanos, tipo uma ofensa religiosa. A Koryo Tours é clara: se você acha que não consegue fazer isso, não vá.
• Menos de 2 mil turistas ocidentais visitam a Coreia do Norte a cada ano.
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Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.
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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte
ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):
DEPOIS DA VIAGEM:

Fonte: Site Gabriel quer viajar
http://gabrielquerviajar.com.br/coreia-do-norte-curiosidades/

Guia paranoico para a vida sem água

Não imaginávamos que esse dia pudesse chegar, mas é inegável que estamos cada vez mais próximos da secura. Confira como se virar melhor em um cenário apocalíptico – e sem água

MARINA RIBEIRO E GIOVANA TARAKDJIAN (ARTE)

Kit Paranoico - materia  (Foto: Giovana tarakdjian)
Lembro de ter aprendido nas aulas de estudos sociais (matéria que antecedia o ensino de história e geografia no ensino fundamental) que nós brasileiros herdamos o costume de tomar banhos diários dos ancestrais indígenas. Os europeus que aqui chegaram, dizia a professora, estranhavam o hábito, que depois de séculos e séculos, acabou sendo disseminado no território brasileiro. A bela (e higiênica) tradição pode estar perto do fim, infelizmente.
Algumas das maiores cidades do país – como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro – estão vendo os reservatórios de água cada vez mais vazios e, com a falta de chuvas, não tarda muito para que fiquemos sem água nenhuma, segundo os cenários mais pessimistas – porém factíveis. E aí?! Foi justamente o que nos perguntamos. E encontramos algumas alternativas para conseguir sobreviver sem água encanada. Confira o que será necessário para aguentar estas adversidades:

Problema 1: Como tomar banhos

A maior questão para muitos é justamente como ficar sem uma bela ducha após um dia quente. As soluções são variadas. A primeira – mais vantajosa, porém cara – é matricular-se em uma academia de ginástica com vestiário agradável e água de poço artesiano, não interessa, portanto, a qual esporte a escola se dedique ensinar. A região Sudeste – principal afetada pela estiagem – pode estar com reservatórios e rios secando, mas ainda tem muita água subterrânea. A ideia é não deixar que seu título de sedentário convicto impeça de aproveitar o melhor que uma academia pode oferecer. 

Se, em nossos piores pesadelos, a água do poço também acabar, ainda há modos de disfarçar a ausência do banho. Para os cabelos: xampu seco. Comprado em farmácias e lojas de cosméticos, os aerossóis prometem tirar a oleosidade do cabelo sem precisar de água.  Para o resto do corpo, é bom apostar em desodorantes com 48 horas (ou o mais) de proteção e perfumes em geral.  Para quando nem isso estiver fazendo efeito, lenços umedecidos estão aí para um bom banho de gato. Tenha também sempre com você álcool em gel. Ele não é tão bom quanto a combinação de água e sabão, mas vai ajudar a matar as bactérias quando lavar a mão for um luxo.

Se você estiver mais endinheirado, é possível tentar importar um kit DryBath, produto criado pelo jovem sul-africano Ludwick Marishane. Ele permite higienizar o corpo sem usar uma única gota de água, como ele explica em sua apresentação no TED.
 
 
 
 
 
 
Problema 2: Como aguentar a sede

Essa parte é realmente mais complicada. Em um verão quente e pouco úmido, como o que temos observado nos últimos meses, a expectativa é que não dê para sobreviver mais do que quatro dias sem água. Por isso, um ponto importante é ter água para beber. Por isso, tenha algumas garrafas (ou galões) em casa, para casos extremos.

Se o estoque de todos os supermercados acabar, não se desespere! Há gente poderosa investindo pesado para acabar com a sede no mundo. Michael Pritchard, por exemplo, criou uma garrafa que filtra água contaminada (mesmo as de enxurrada das grandes capitais) em poucos segundos. É verdade que o preço é bastante salgado: cerca de R$ 465 (ou 119,99 libras).
Podemos apelar para a generosidade de Bill Gates. O bilionário fundador da Microsoft tem investido em uma usina de tratamento que transforma esgoto em água potável e eletricidade. Apesar de a ideia parecer um tanto quanto nojenta, Gates garante que o Omniprocessor funciona. Até tomou um copo com água recém-tirada da máquina para provar seu ponto. Bora começar uma petição online para que Bill Gates traga uma planta de testes para São Paulo?


Problema 3: Como cozinhar?

Enquanto ainda temos luz, vale apostar em produtos congelados e que não exijam lavagem ou preparo, como frutas e legumes. Quando não tiver jeito, usemos a água estocada no item anterior. Outro aspecto que promete economizar o que restou de água é usar louças descartáveis. Uma das vantagens de ficar sem água: ninguém vai ficar cobrando que você lave a louça da pia!

Problema 4: Escovar os dentes

Resolvido o problema da comida e da louça, surge outro ponto: como escovar os dentes. Gastar água mineral com isso parece irresponsável em um cenário apocalíptico, por isso, a sugestão pode ser pouco higiênica: quem sabe substituir a escovação com pasta por uma com enxaguante bucal? O fio dental, ao menos, pode continuar a ser usado sem moderação. Além disso, chicletes podem quebrar o galho hora ou outra não? Se você treme só de pensar nisso, a Colgate tem uma escova descartável que não precisa de água para limpar os dentes. As boas notícias param por aí: o produto ainda não chegou ao Brasil... Quem sabe dê para importar (mas neste caso, talvez valha mais comprar mais água).
Problema 5: Ir ao banheiro

O lado bom de não ter muita água para beber é que suas idas ao banheiro também vão ser mais espaçadas e, consequentemente, você dará menos descarga. Mas, né, não vai dar para evitar para sempre a ida ao trono. Para isso, temos a solução: baldes, muitos baldes. Não, nada de usar os baldes como pinicos (pelo menos por enquanto). Com eles, é possível armazenar água de chuva (aquelas que inundam a cidade, mas não enchem os reservatórios) e utilizar para dar descarga depois. Outro jeito de acumular água é desmontar o sifão da pia e colocar um balde embaixo. Se ainda tiver como lavar mão, a água ensaboada pode ser usada para levar a sujeira do vaso embora. 

Moral da história...
Mais vale continuar economizando e cobrando as autoridades por medidas para que não passemos por isso todos os anos, né não? 
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Kit Paranoico - materia V3 (Foto: Giovana tarakdjian)



Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do-planeta/noticia/2015/01/guia-paranoico-para-bvida-sem-aguab.html


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Seis perguntas para entender a eleição na Grécia

Entenda como o novo momento da Grécia pode afetar a política, a economia e o futuro de toda a Europa

TERESA PEROSA E RODRIGO TURRER

O primeiro-ministro recém-empossado da Grécia, Alexis Tsipras, acena para a imprensa ao chegar a sua residência oficial (Foto: Thanassis Stavrakis/AP)
O novo primeiro ministro da Grécia, Alexis Tsipras, tomou posse nesta segunda, dia 26. Líder do partido de extrema esquerda Syriza, o carismático Tsipras chega ao poder com uma agenda antiausteridade, prometendo renegociar os termos de pagamento dívida grega, fechados pelo governo anterior com a chamada troika – União Europeia, Banco Central Europeu (BCB) e Fundo Monetário Internacional (FMI). Num resultado que superou as previsões de pesquisas e marginalizou os dois principais partidos que governam o país desde a queda dos militares, em 1974, o Syriza conseguiu pouco mais de 35% dos votos, o que lhe conferiu 149 cadeiras no parlamento – duas menos que o necessário para ter maioria absoluta. Durante a manhã, o partido anunciou um acordo avaliado como no mínimo não ortodoxo com a legenda de direita Gregos Independentes, de retórica nacionalista e populista. Os dois grupos concordam com a mudança nas políticas de austeridade. Entenda abaixo o que significa o novo momento da Grécia.
Qual a situação atual da Grécia?
A grande crise financeira internacional atingiu o país europeu em 2009, quando um novo governo assumiu e declarou uma dívida pública de mais de 300 bilhões de euros – 113% do seu PIB e considerada a maior na história moderna. A principal razão atribuída à crise da dívida foi o alto grau de gastos públicos realizados pelo governo grego, em curso inclusive antes da entrada do país no bloco. Discute-se também a potencialização do cenário pelo arranjo do euro, que tenta conciliar sob uma única política monetária países de economias fundamentalmente distintas. Em maio de 2010, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciaram um pacote de socorro de 110 bilhões de euros, condicionado a imposição de cortes nos gastos públicos do país. Em resumo, a Grécia foi socorrida com um financiamento suficiente para manter sua dívida rolando, sem ser perdoada, sob a condição de impor duras medidas de austeridade. Reformas flexibilizaram direitos trabalhistas e tornaram mais fácil a demissão de funcionários. A grande redução nos gastos públicos implicou no cancelamento ou diminuição de programas sociais e no número de servidores públicos. A taxa de desemprego hoje passa dos 25%, sendo particularmente dramática entre jovens – cerca de 50%. Os índices de pobreza aumentaram substancialmente. Protestos contra as medidas eclodiram no país e continuavam frequentes até o ano passado. Foi nesse cenário que o Syriza conseguiu ascender.
Quem forma o Syriza e qual sua orientação ideológica?
Syriza é a sigla em grego para Coalizão da Esquerda Radical. Originalmente, como sugere seu nome, o bloco se formou a partir da junção de partidos gregos de extrema esquerda de diferentes orientações dentro desse espectro político. Em 2012, a coalizão se tornou a principal frente de oposição ao governo de centro-direita da Nova Democracia. Em 2013, o Syriza oficializou-se como partido. Alexis Tsipras, seu jovem e carismático líder, é apontado como uma figura contraditória. Tsipras se valeu do slogan da “esperança”, a semelhança de outros líderes que ascenderam nos últimos anos em situações de crise. O Syriza propõe o fim das políticas de austeridade, colocadas como condição para o financiamento da dívida em 2011, o aumento dos gastos públicos – com saúde e  programas sociais – e a taxação de grandes fortunas. Ele questiona o arranjo político e econômico abraçado pelos partidos de centro-direita e centro-esquerda que cooperaram com a implantação das medidas da troika.
Jovens gregos comemoram a vitória de Alexis Tsipras em Atenas, no domingo, dia 25, e empunham cartazes provocando a Alemanha e a chanceler alemã Angela Merkel, a maior defensora da austeridade fiscal na Europa (Foto: ASSOCIATED PRESSAP)
O que significa a ascensão do Syriza?
Em primeiro plano, expõe  a insatisfação dos gregos com as atuais políticas econômicas alinhadas às diretrizes da União Europeia. Depois de três anos de austeridade imposta pela troika, os gregos esperam reformas econômicas e um alívio nas restrições dos gastos púbicos. Na prática, os gregos deram carta branca para um partido radical mudar de forma radical as políticas de austeridade que vinham sendo postas em prática há pelo menos quatro anos. A ascensão do Syriza significa a chegada ao poder de projetos populistas, pouco ligados ao pragmatismo econômico que marca a centro-esquerda e a social democracia europeias. Entre os projetos do Syriza, estão o fornecimento de energia elétrica gratuita para 300 mil pessoas, ajuda de custo para 300 mil famílias, programa de moradia popular de 30 mil apartamentos, atendimento médico e remédio gratuito para desempregados, além de aumento do salário mínimo de 580 euros para 751 euros.
Quais mudanças podemos esperar a partir de agora?
O maior temor no momento é o calote. O Syriza é contra as medidas de austeridade fiscal negociadas pelo governo grego para receber, após a crise de 2010, 245 bilhões de euros do FMI e do BCE. O partido lançou um programa de governo que inclui, entre outras coisas, uma moratória temporária da dívida pública do país – a ideia seria suspendê-la até a retomada do crescimento. O partido promete ainda uma série de benefícios sociais para a população. O custo do programa, segundo o Syriza, é de 11,3 bilhões de euros – mas seus líderes prometem arrecadar 12 bilhões de euros com ações que estimulem o crescimento da Grécia e o combate à evasão fiscal. Entre as propostas do Syriza, estão o perdão de 50% da dívida pública do país, hoje em 320 bilhões de euros, renegociar o pagamento do restante de maneira “sustentável” e excluir a restrição de investimentos públicos do governo dos compromissos feitos com o Banco Central Europeu (BCE).
O novo premiê grego, Alexis Tsipras, abraça Pablo Iglesias, o jovem líder do partido radical de esquerda da Espanha, Podemos. Temor é que haja um efeito dominó de esquerda na Europa (Foto: Associated Press/AP)
Por que uma mudança no governo grego é importante para União Europeia?
A chegada ao poder do Syriza pode impulsionar movimentos radicais de esquerda que vêm ganhando força em toda a Europa, como o Podemos, da Espanha, um partido que, com menos de dois anos, obteve a quarta maior votação da Espanha em 2014, e ajudou a quebrar a polarização partidária que engessa o país. Para União Europeia e o FMI, um governo do Syriza pode significar um efeito cascata que seria deletério para a economia e a política do bloco. O resultado põe em questão se a Grécia ficará no euro e na União Europeia, e ressalta a rejeição das políticas prescritas principalmente por Berlim nos últimos anos. Com o Syriza no poder, será a primeira vez que um partido explicitamente antiausteridade tomará posse na UE. Para muitos, isso pode empurrar a política europeia para uma era de volatilidade, em que partidos populistas profundamente críticos a Bruxelas e Berlim ganhem força. Pode ser um perigoso precedente para insurgentes antiausteridade no resto da Europa.
Por que eu preciso saber sobre a Grécia?
A Europa e os mercados financeiros olham com atenção o desenrolar de acontecimentos na Grécia. A ascensão do Syriza na Grécia pode desencadear uma nova crise, econômica e institucional, no bloco e em todo o mundo. Primeiro porque, como a Grécia está na Zona do Euro, ela não possui nenhuma ferramenta monetária para poder lidar com a crise. Ela não pode emitir moeda para pagar dívidas. Ela não pode desvalorizar a moeda para poder estimular as importações. E ela não pode mexer na taxa de juros para atrair dinheiro estrangeiro. Essas decisões estão a cargo do Banco Central Europeu, que exerce a sua autoridade pensando na Europa como um todo, não em um país específico. E sem poder mexer em nada disso, resta à Grécia um ajuste fiscal, ou seja, reduzir despesas e aumentar impostos – a famigerada austeridade fiscal. Como o Syriza é contra esse remédio, há risco de moratória. Um calote da Grécia poderia ser o começo de um efeito dominó de quebradeira. As agências de análise de risco vão procurar países em situação semelhante à da Grécia – alguns deles "grandes demais para quebrar", como Portugal, Espanha e até mesmo a Itália. Os investidores fugirão então dos títulos da dívida desses países em busca de refúgios mais seguros, para evitar calotes. Com isso, os países não conseguiriam mais financiar suas dívidas, e se veriam em um beco similar ao grego. Além questão econômica, há um outro fator que torna a ascensão do Syriza um dos momentos mais importantes da Europa nesta década. A austeridade fiscal imposta pela troika à Grécia mostrou ser um remédio amargo e pouco eficaz nos últimos anos. A Grécia não voltou a crescer, sua crise se aprofundou, o desemprego aumentou e as perspectivas são ínfimas para a população. Os efeitos colaterais da austeridade não agradaram os gregos, que colocaram no poder um partido de esquerda que prega o oposto disso. É um importante momento para refletir sobre a eficácia e os limites da austeridade fiscal, que terá efeitos não apenas na Europa, mas em todo o mundo – inclusive no Brasil.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/01/seis-perguntas-para-entender-beleicao-na-greciab.html