quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Arquidiocese do Rio de Janeiro abre processo para canonizar santo surfista

O médico e seminarista Guido Schäffer morreu aos 34 anos em 2009 e pode se tornar o primeiro santo carioca

MARINA RIBEIRO

Guido Schäffer, jovem, surfista, médico, seminarista e candidato a santo (Foto: Divulgação)
“Não, você não vai poder doar nada que pertenceu a seu filho.”

Foi assim que, ainda em luto por seu filho, Maria Nazareth França Schäffer foi recebida no seminário São José, no Rio de Janeiro. Ela tinha ido buscar os pertences de seu filho Guido Schäffer, médico e seminarista que morreu em maio de 2009 aos 34 anos.

“Como não? Seria isso que ele gostaria. Quero levar apenas algumas coisas de lembrança para a família e o restante eu deixo como doações para os demais seminaristas, já que muitos deles têm dificuldades financeiras”, tentou argumentar.

“Não, porque está se cogitando abrir um processo de beatificação e você tem que guardar tudo que é dele, já que depois se tornarão relíquias e teremos que montar um memorial com as coisas dele, então, por favor, guarde tudo”, disse o prefeito do seminário.

Mesmo conhecendo e admirando o filho e tendo acompanhado a comoção após sua morte, quando mais de duas mil pessoas participaram da missa de corpo presente, Nazareth não esperava que houvesse um processo de beatificação pela frente. “Quase todo dia havia missa e as pessoas vinham nos abraçar e nos agradecer por tudo que ele tinha feito por elas. Depois de sua partida é que tivemos mais ideia de como ele impactava a vida das pessoas”, disse a mãe contando a ÉPOCA como soube que seu filho era candidato a santo.

Após seis anos de sua morte, a Arquidiocese do Rio de Janeiro abriu oficialmente no sábado (17) o processo de beatificação do “anjo surfista”. Como parte das festividades, nesta terça (20), no feriado de São Sebastião, os restos mortais de Guido serão levados da Tijuca à Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, para que a urna fique disponível à visitação.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Jovem comum?

Guido Vidal França Schäffer era em muitos aspectos um típico jovem carioca da zona sul: saía com os amigos para surfar, gostava de trilhas e subir montanhas, trabalhava e frequentava a faculdade. Mas alguns detalhes o diferiam dos colegas. Sempre antes de surfar convidava os amigos a rezar um terço e agradecia a Deus pelo mar e pelas ondas. Como médico, se dedicava aos que não tinham como pagar tratamento. Era clínico geral na Santa Casa da Misericórdia da capital carioca e voluntário na obra das irmãs da ordem fundada por Madre Teresa de Calcutá. Em suas consultas, era dedicado em ouvir mais do que sintomas, dizia que queria cuidar “não só do corpo, mas da alma”. Guido Schäffer queria ser padre.
O santinho de Guido já pode ser confeccionado após o "Nihil Obstat" (nada consta) do Vaticano (Foto: Divulgação)
A mãe de Guido, Nazareth, afirma que a dedicação à Igreja podia ser percebida desde pequeno. De família católica praticante, não reclamava, como tantas crianças, de participar das missas aos domingos e de orações diárias em casa. “Na adolescência, ele passou a compartilhar isso com os amigos. Eles relatam que, algumas vezes, estavam na praia jogando bola e ele dizia que tinha que parar para ir à missa. Muitos passaram a ir com ele por ver a importância que ele dava”, diz a mãe. 

Dom Roberto Lopes, delegado episcopal para a Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio, diz que ele era uma espécie de São Francisco carioca, por seu trabalho com os moradores de rua. “Por vezes, ele chegava sem camisa ou sapatos em casa por entregar seus pertences aos mais necessitados.” Para o bispo, o médico é um grande ícone para a juventude. “Guido era um jovem apaixonado pelo esporte, pela ciência, mas também pela oração.”
Sua vida acabou tragicamente quando estava de folga do seminário para ser padrinho de casamento de um amigo. Ele aproveitou o feriado de 1º de maio para surfar na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando levou um caldo e foi atingido na nuca por sua prancha. Desmaiou e morreu, apesar do socorro. O fim, apesar de precoce, seguiu um desejo de Guido, que já tinha dito a amigos que gostaria de morrer no mar, onde ele “sentia a presença de Deus a lhe falar na natureza”.
Apesar de surpreendente, o fato de Guido ser cotado para ser santo foi um consolo para a família. “Para nós, é uma honra muito grande e também é uma consolação em relação à dor da partida. A gente vê que é um reconhecimento que se fez da pessoa que ele foi e da bondade dele”, afirma a mãe.
Processo de Beatificação e Canonização
Servo de Deus: Após cinco anos da morte do candidato, a primeira etapa é o Vaticano expedir uma autorização com base em dados enviados pela Arquidiocese local atestando não ter nada contra a abertura do processo. Apartir deste momento já é possível fazer santinhos para divulgação da devoção no local.
Venerável: Após uma pesquisa mais detalhada, a igreja local envia para Roma mais documentos que comprovem as virtudes do candidato. Depois de comprovados os atos heroicos, a pessoa recebe o título de venerável.
Beato: Para se tornar beato é preciso que um milagre tenha ocorrido com a intercessão do candidato. Nesta fase, uma junta científica e médica investiga minuciosamente os milagres atribuídos a ele.  Se algum for confirmado, ele é beatificado.
Santo: Para finalmente ser declarado santo, é preciso que outro milagre, ocorrido após a beatificação, seja comprovado. Se isso acontecer, a Congregação para a Causa dos Santos do Vaticano encaminha o processo para o Papa que encerra o processo e canoniza o novo santo.
Dom Roberto afirma que desde de 17 de outubro de 2014, quando recebeu a autorização "Nihil Obstat" (nada consta) do Vaticano, Guido já é considerado Servo de Deus (leia o quadro ao lado), o que permite ser divulgado seu santinho e o culto dentro da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Até se tornar santo, o caminho é longo. Após ser considerado isento pela Igreja, agora pessoas devem investigar toda a vida do candidato e descrever seus “atos heroicos” e enviar para Roma. Caso o Vaticano considere a história como um bom exemplo para que demais fiéis, Guido receberá o título de venerável. Após essa etapa, é necessário que um milagre com sua intercessão seja comprovado para que seja proclamado como beato. Um segundo milagre, datado depois da beatificação, é necessário para que possa ser então canonizado.
Segundo Dom Roberto, responsável no Brasil pelo processo de canonização de Guido, o tempo do processo depende muito do entusiasmo do bispo local. “E Dom Orani Tempesta [bispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro] está muito animado”, afirma. Dá para notar pela quantidade de pessoas empenhadas na próxima fase. Sete pessoas integram a equipe que investigará a vida de Guido (quatro da área da história e três funcionários da arquidiocese) – pelas regras, poderiam ser somente três.
 
O túmulo de Guido Schäffer repleto de placas em agradecimento por graças alcançadas (Foto: Reprodução/Facebook)
Para a igreja do Rio de Janeiro, a maior dificuldade será esperar pela comprovação dos milagres. No túmulo do seminarista, no cemitério São João Batista, pessoas se reúnem mensalmente no dia 22 – dia de seu nascimento – para homenageá-lo e pedir graças. Alvo de peregrinações, o local tem placas de agradecimento. O material será investigado para avaliar se há realmente casos significativos que possam ser considerados milagrosos. “Graça é uma coisa, já milagre é algo extraordinário, que a medicina e a ciência não possam explicar. É a parte mais difícil do processo”, afirma Dom Roberto.

Exemplo contemporâneo

O religioso recorda que foi o papa João Paulo II que despertou a igreja no Brasil a buscar santos locais em uma de suas visitas ao Rio (João Paulo II visitou o Brasil em 1980,1991 e 1997). “Para cada época e cultura temos exemplos de santidade diferentes. Antes ouvíamos falar somente de santo italianos, mas nesta semana (na semana passada) mesmo o Papa Francisco canonizou José Vaz, do Sri Lanka”, diz o bispo.

Para Nazareth, é especialmente importante ter um exemplo de santidade contemporânea. “A gente sempre diz que palavras comovem, mas os exemplos movem. Eu vejo que Guido foi muito tocado por Francisco de Assis, mas a pessoa pode pensar ‘puxa, no tempo de São Francisco era diferente, e hoje, como é que eu posso ser santo?’ Então, Guido pode ser um exemplo mais atual.”

Santo surfista?

Ainda que tenha sido médico, seminarista e líder de diversos grupos de oração, sua história ganhou maior destaque por um passatempo: o surfe. A mãe do candidato à canonização diz que é bom que esse seu lado ganhe destaque. “É importante para que não se imagine que uma pessoa para ser santo tenha de ser fechada, ter cara amarrada, ficar trancada dentro de um quarto e só viver em oração. Ele pode até fazer do esporte a sua oração, como o Guido fazia ao agradecer pelo mar, pelas ondas, pelo céu”, afirma Nazareth. No entanto, gosta de frisar que ele não se santificará por ser um surfista, ele se santificará pelas boas obras que ele fez. Pela paciência, pelo amor, pelas virtudes. “Santo surfista, sim, mas não santo por ser surfista. Isso é apenas um lado da personalidade dele, mas não é o todo dele”, diz.
 
Guido Schäffer pode se tornar o primeiro santo surfista (Foto: Divulgação)

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