quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ESPIRITISMO NA FRANÇA: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Com apoio de brasileiros e portugueses, espíritas franceses trabalham pela divulgação da doutrina na terra de Kardec

 A pergunta é comum entre os espíritas: se o espiritismo nasceu em Paris, porque teve crescimento expressivo no Brasil, ao contrário da própria França e países europeus? Para a compreensão dos rumos da doutrina no ocidente, desde sua codificação, não se deve considerar apenas a natureza do povo brasileiro e títulos como Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. A história também esclarece porque os franceses correm para recuperar o tempo perdido, contando com o importante apoio de brasileiros e portugueses.

Nos últimos 1000 anos, a Europa viveu cerca de oito séculos de guerra. Em apenas 200 anos o continente esteve livre de conflitos em algum ponto de seu território. Antes mesmo da codificação, boa parte das tensões no Velho Mundo teve origem em disputas religiosas, como os históricos conflitos entre ingleses protestantes e franceses católicos.

Pouco após a codificação do espiritismo, na segunda metade do século 19, os conflitos continuaram. A guerra franco-prussiana (1870-1871), seguida pelas Primeira (1914 a 1918) e Segunda Guerra Mundiais (1939 a 1945), se destacaram, envolvendo diretamente a França. Na Europa, Apenas durante a Primeira Guerra, 8 milhões de soldados e 6,5 milhões de civis perderam a vida.

O espiritismo, definitivamente, não encontrava terra fértil para sua divulgação nas primeiras décadas da codificação. No Pós-Guerra, período de reconstrução da Europa, as dificuldades persistiam. Somados a isso, os excessos da Santa Inquisição, guerras e mortes “em nome de Deus” provocaram certa repulsa por assuntos religiosos, o que certamente influenciou a preferência dos espíritas europeus em associar o espiritismo à filosofia, quase nunca à religião.

 APES

Longe do turbulento cenário  europeu, o Brasil recebeu o espiritismo de braços abertos. Léon Denis e Bezerra de Menezes promoveram a conexão que daria ao país o maior contingente de espíritas do mundo. Pouco depois, entrou em ação um personagem fundamental para a instalação e popularização definitiva da doutrina em terras brasileiras: Chico Xavier.

Com o auxílio de Chico e de outros grandes médiuns brasileiros, a literatura espírita no Brasil se diversificou. Na Europa, chegou a Portugal. Por conta da barreira da língua, contudo, o mesmo não ocorreu na França e em outros países.

Apesar do difícil acesso de estrangeiros a livros brasileiros, em função do alto custo da tradução e edição de obras com baixa tiragem, o espiritismo recorreu a outros meios para se propagar na Europa. Brasileiros radicados na França e outros países cumpriram papel importante na revitalização da doutrina. Em Paris, o hábito do Evangelho no Lar resultou na criação do Centre d’Études Spirites Alan Kardec (Cesak), coordenado por Claudia Bonmartin. A partir do Cesak, surgiu a Association Parisienne d’Études Spirites (APES), fundada pela baiana Anita Bequerel, em 1995.

CESAK e APES são referência na França e cumprem importante papel na ligação entre o movimento espírita francês e brasileiro. Os dois grupos, por sua vez, foram fundamentais para  a criação de outros centros na periferia da capital francesa, como o de Villeneuve-Le-Roy, tocado por portugueses.

Os amigos lusos, que compõem uma das mais numerosas colônias estrangeiras na França, são fortes aliados na propagação do espiritismo no país de Kardec. Beneficiados pelo idioma, otimizam seus conhecimentos sobre a doutrina com acesso a obras brasileiras e são presença constante nos centros franceses.

No centro de Anita - freqüentado por brasileiros, franceses e portugueses e com sede nova, desde janeiro - são promovidas atividades doutrinárias todas as sextas-feiras, com dezenas de participantes. Os grupos de estudo sistematizado sobre Doutrina Espírita, Mediunidade e Desenvolvimento Mediúnico se reúnem às segundas-feiras. Nas terças, acontecem as reuniões mediúnicas de assistência espiritual.

Este ano, a Apes deu início a um programa mensal de seminários temáticos, como Passes, Doutrina Espírita e Qualidade Mediúnica, para os quais são convidados trabalhadores de outros centros espíritas da região parisiense. Todas as reuniões, naturalmente, acontecem em francês.

Com iniciativas como a de Anita, apoio de portugueses e muito trabalho da União Espírita Francesa e Francofone (USFF), o espiritismo na França e “além-mar” ganhou novo fôlego na década de 90. A partir de então, diversos centros surgiram em diferentes regiões do país e a USFF fortaleceu seus laços com grupos locais e de outros países francofones. Em conferência marcada para este mês (maio), em Paris, a União tem confirmada a presença do Movimento Espírita de Quebec (MSQ), do Canadá. Um aperitivo que servirá de ensaio para a organização do IV Congresso Mundial, previsto para 2004, em Paris.

Na França, os centros ainda são pequenos, sem estacionamentos cheios. Alguns sobrevivem por pouco tempo, outros ainda são vítimas de preconceito. Mas, para um país cujas livrarias ainda separam as poucas obras espíritas disponíveis nas seções de ocultismo, toda e qualquer reação é bem-vinda.

Nelson Souza Aguiar

Na capital francesa, não deixe de visitar a Apes: 22 rue des Laitières, Vincennes (94300).

Apes na Internet: http://www.geocities.com/Athens/Aegean/7476/apes.html

E-mail: abecquerel@compuserve.com

 O movimento espírita francês na Internet:

http://spirite.free.fr/usff.htm



Fonte: Site Centro Espírita Paulo de Tarso
http://www.paulodetarso.org.br/espiritismo-na-franca-em-busca-do-tempo-perdido

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