quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O príncipe que quer ser presidente da Fifa

Quem é Ali bin al-Hussein, o príncipe da Jordânia que vai disputar a eleição contra Joseph Blatter com propostas para acabar com a corrupção no futebol

BRUNO CALIXTO
Ali bin al-Hussein, príncipe da Jordânia e vice-presidente da Fifa, em foto de 2012 (Foto: Tom Shaw / Getty Images)

Ele atende pelo pronome de tratamento Sua Real Alteza, é irmão do atual rei da Jordânia e um dos príncipes do país e, acredita-se, herdeiro direto do profeta Maomé, da 43ª geração desde a morte do fundador do Islã. Mas mesmo com todos esses títulos, o príncipe Ali bin al-Hussein da Jordânia busca mais um, o de presidente. Não de um país – ele não tem a intenção de acabar com a monarquia na Jordânia –, mas de uma das instituições mais poderosas do mundo do esporte, e também uma das mais desacreditadas após escândalos de corrupção: a Fifa.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O príncipe Ali Hussein, atualmente vice-presidente da Fifa e presidente da Federação da Jordânia de Futebol, bagunçou o mundo da política do futebol ao anunciar que pretende disputar as eleições contra o atual presidente, Joseph Sepp Blatter. Blatter disputa a reeleição mesmo após dizer que estava em seu último mandato e de enfrentar uma grande sequência de escândalos e denúncias de corrupção na Fifa. "Eu estou buscando a presidência da Fifa porque acredito que é hora de mudar o foco, que hoje está na controvérsia administrativa, para voltar ao esporte", disse Ali, em nota oficial. ÉPOCA entrou em contato com a assessoria da federação da Jordânia, mas até o momento não conseguiu falar com o príncipe.
Segundo o professor Ellis Cashmore, sociólogo da Aston University, no Reino Unido, e autor do livro Making sense of sports (Entendendo os Esportes, sem tradução no Brasil), esta deverá ser a mais interessante eleição para presidente da Fifa. Joseph Blatter, no poder desde 1998, raramente enfrentou problemas para se eleger e reeleger. Nas duas últimas eleições, em 2007 e 2011, ele sequer teve adversário – foi candidato único. Desta vez, além do príncipe da Jordânia, disputam o cargo os franceses David Ginola e Jérôme Champagne, o italiano Mino Raiola e o holandês Michael van Praag. Para poder concorrer, o candidato precisa do apoio de no mínimo cinco das 209 federações que fazem parte da Fifa. Analistas acreditam que apenas Ali e Van Praag  têm condições de conseguir esse apoio.
 
O presidente da Fifa, Joseph Blatter (esq.) e o vice-presidente, o príncipe da Jordânia Ali bin al-Hussein (dir.), em foto de maio de 2014 (Foto: Mohammad Hannon/AP)
Mesmo sendo vice-presidente, o príncipe Ali ainda é pouco conhecido no mundo da política do futebol. Sua ascensão ao posto de vice-presidente, em 2011, passou quase despercebida. Foi ofuscada por uma manobra do próprio Blatter, que queria tirar do Comitê Executivo da Fifa o sul-coreano Chung Mong-Joon. O milionário sul-coreano, maior acionista de uma das divisões da Hyundai, era um dos principais críticos da administração Blatter, inclusive acusando-o de mau uso dos recursos da federação. Blatter conseguiu tirar Chung do comitê em 2011 e, com essa manobra, a vaga acabou ficando com Ali, que se tornou o mais jovem membro do Comitê Executivo da Fifa.
Durante seu mandato, ele se destacou em duas ocasiões. Primeiro, pelo forte lobby que fez para acabar com a proibição do uso do hijab, o véu islâmico, para jogadoras em partidas oficiais. A Fifa proibiu o véu em 2007, o que acarretou vário cancelamentos de jogos de futebol feminino porque as jogadoras se recusaram a tirar o véu, incluindo uma partida entre Irã e Jordânia. A proibição foi cancelada no começo de 2014, e foi vista como uma vitória na promoção do futebol feminino em países muçulmanos. A segunda ocasião foi seu posicionamento sobre o Relatório Garcia.
Michael Garcia, um advogado americano que atuou no governo George W. Bush, foi apontado em 2012 pela Fifa para investigar as acusações de corrupção e pagamento de propina na escolha das sedes da Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar. Em setembro de 2014, ele entregou um relatório de 300 páginas sobre o caso ao Comitê de Ética. O comitê, no entanto, se recusou a publicar o relatório e, em vez disso, publicou um sumário de 40 páginas que absolvia a Rússia e o Catar e criticava as federações que fizeram acusações. Garcia disse que o sumário foi publicado com "representações errôneas dos fatos" e renunciou. Segundo a BBC, Ali foi o primeiro alto executivo da Fifa a defender abertamente o relatório e exigir a publicação do texto completo. Outros dirigentes se seguiram mas, até o momento, o relatório não foi publicado. 
Cashmore diz acreditar que Ali aproveitará a péssima reputação deixada por Blatter e seus aliados para tentar se mostrar como uma alternativa viável e de ficha limpa. "Príncipe Ali é bem instruído e trabalhou o suficiente na federação para saber como ela funciona. Ele está se posicionando como uma alternativa a um regime considerado como o mais corrupto entre as organizações esportivas, um 'título' que antes pertencia ao COI [o Comitê Olímpico Internacional], mas agora é da Fifa", disse. Ali já está vendendo a imagem "ficha limpa", e prometeu um programa de dez anos para reformar a entidade máxima do futebol. Esse posicionamento é a melhor aposta do príncipe. Sozinho, ele não tem chances de vencer a disputa, mas se conseguir convencer Michel Platini e a Uefa, a confederação de futebol da Europa, de que sua candidatura é séria, pode se tornar um nome forte para a eleição.
Mesmo com as boas intenções, grande parte do mundo do futebol ainda vê o príncipe da Jordânia com desconfiança. O jornalista investigativo escocês Andrew Jennings, autor do livroJogo Sujo - o Mundo Secreto da Fifa, sobre os escândalos de corrupção no futebol, questiona se Ali é realmente um reformista que mereça a confiança. "Nós não sabemos quem ele é, não sabemos quais são suas propostas. Tudo o que sabemos é que ele não é Sepp Blatter. Eu não sei quantos europeus vão apoiá-lo só para mostar o dedo do meio a Blatter", diz. Ele se refere ao fato de que a Uefa não quer apoiar Blatter, mas até agora não encontrou um nome de oposição para apoiar. Para Jennings, a candidatura de Ali tem uma motivação muito mais mundana do que moralizar o mundo do futebol. "Esse homem está prestes a perder seu emprego de vice-presidente na Fifa. O que ele está fazendo é ir atrás de outro emprego."
Conseguir esse emprego não será tarefa fácil. Príncipe Ali tem até quinta-feira (29) para registrar sua candidatura e oficializar o apoio de pelo menos cinco federações de futebol para poder concorrer à eleição. Analistas consultados na imprensa internacional acreditam que ele pode conseguir a nomeação, graças ao apoio de federações do Oriente Médio e, possivelmente, de federações europeias de oposição. Uma vez oficializado, ele terá de disputar uma eleição, em maio, em que os 209 países ou territórios afiliados a Fifa podem votar. E aí, as suas chances são mínimas. Blatter tem o apoio das federações da África, América do Sul, América do Norte e parte da Ásia. O mais provável é que o príncipe perca a disputa. E que Joseph Sepp Blatter mantenha o trono e o reinado do mundo do futebol.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/01/o-principe-que-quer-ser-bpresidente-da-fifab.html

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